2.2. Condicionais do PE nos corpora CRPC e CETEMPúblico
2.2.1. Condicionais com valor factual
2.2.1.1. Presente do Indicativo
Nos dados recolhidos, o Presente do Indicativo veicula um valor aspetual genérico.
(122) Se em ciência dois mais dois são quatro, então quatro é divisível por dois. (CRPC)
A situação descrita no antecedente de (122) é real em todos os intervalos de tempo: dois mais dois são sempre quatro.
Dado que a forma verbal usada nesta frase possui um valor aspetual genérico, atemporal (ou seja, é um presente genérico, na tradição gramatical; cf. Cunha & Cintra 1984), não pode ser modificada por advérbios de referência temporal futura (123) nem o seu conteúdo pode ter uma interpretação não factual (124). Esta condicional é, portanto, factual do tipo genérico universal (Justino 2011).
(123) *Se em ciência dois mais dois são quatro amanhã, quatro é divisível por dois. (124) ?Caso em ciência dois mais dois sejam quatro, quatro é divisível por dois. (*Ou se,
por a caso, em ciência dois mais dois são quatro, quatro é divisível por dois.)
O Presente do Indicativo é também usado em frases condicionais que exprimem eventos regulares ou repetidos, designadamente em factuais correlativas de eventos (i.e. as designadas por Justino 2011 como genéricas habituais):
ii. No final de 1997 era chique organizar uma festa perto de San José e depois enfiar os convidados numa carrinha e levá-los a passear no Mae. Quando/ Sempre que se pusesse isso no convite, as pessoas que compareciam à festa duplicavam.
O Pretérito Imperfeito do Conjuntivo em frases como estas é atestado nos dados de corpora, como se verifica nos seguintes exemplos:
i. Leva imenso tempo a tratar de tudo e só tirava a carta quando fizesse os vinte e um. (CRPC)
ii. Sempre que Carmem Abreu decidia denunciar o seu marido por este espancá-la quando estivesse embriagado, André Abre ameaçava-a de separação definitiva. (CRPC).
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(125) a. Todo o jogo é feito de contrastes: se uma cena é brilhante, a seguinte é péssima. par=ext999020-clt-soc-95a-2
b. Nos Estados Unidos é assim: se um canal consegue uma história exclusiva, os seus concorrentes directos apressam-se a acusá-lo de a ter comprado ou fabricado.par=ext794237-clt-97b-4
Estas frases são equivalentes a temporais introduzidas por quando ou sempre que (126), e o Presente do Indicativo é usado com o valor aspetual de habitualidade.
(126) a. Todo o jogo é feito de contrastes: quando uma cena é brilhante, a seguinte é péssima.
b.Nos Estados Unidos é assim: quando um canal consegue uma história exclusiva, os seus concorrentes directos apressam-se a acusá-lo de a ter comprado ou fabricado.
Como observado, entre outros, por Oliveira (2013) e também nas secções anteriores deste capítulo (em 2.1.2 e 2.1.3), enquanto condicionais com interpretação factual comutáveis por quando ou sempre que é obrigatória a ocorrência do Presente do Indicativo também no consequente.
(127) a. Todo o jogo é feito de contrastes: se uma cena é brilhante, a seguinte é péssima.
b. Nos Estados Unidos é assim: se um canal consegue uma história exclusiva, os seus concorrentes directos apressam-se a acusá-lo de a ter comprado ou
fabricado.
Sintaticamente, este consecutio temporum afigura-se relevante para a fixação do valor factual do tipo genérico. Pelo contrário, não se obteria essa interpretação se, por exemplo, se optasse explicitamente por uma discordância temporal, conforme ilustrado em (128).
(128) a. Todo o jogo é feito de contrastes: se uma cena éPresente brilhante, a seguinte seráFuturo péssima.
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b. Nos Estados Unidos é assim: se um canal conseguePresente uma história exclusiva, os seus concorrentes directos apressar-se-ãoFuturo a acusá-lo de a ter comprado ou fabricado.
As frases de (128) passam a admitir também a leitura hipotética/episódica: Todo o jogo é feito de contrastes: caso uma cena seja brilhante, a seguinte será péssima. / Nos Estados Unidos é assim: se um canal consegue (= conseguir) uma história exclusiva, os seus concorrentes diretos apressar-se-ão a acusá-lo de a ter comprado ou fabricado. O Futuro do Indicativo, que ocorre no consequente, faz com que o Presente do antecedente, já com valor temporal e não aspetual, sofra a mudança de tempo, isto é, a mudança díctica, passando a ter uma referência temporal futura.
Nas condicionais não genéricas (ou seja, com leitura particular/episódica), a leitura factual com Presente do Indicativo é legitimada contextualmente. Nos exemplos abaixo, há formas linguísticas que apontam para que o conteúdo do antecedente seja tomado como um facto certo. Na frase (129a), é a expressão conforme cremos; na frase (129b), a frase e a maioria não está a participar e na frase (129c), a expressão (ser) já um facto.
(129) a. Se o homem é, conforme cremos, um ser de liberdade, nada é irreversível, nem sequer o tempo e a morte. par=ext769830-nd-92a-1:R.
b. Se a maioria não participa – e a maioria não está a participar – acabamos por ter um sistema que não representa a América.par=ext7636-pol-96a-1
c. Se, nos Estados Unidos, a liberalização do espaço aéreo é já um facto, na Europa, o próximo ano conhecerá idêntico fenómeno. par=ext331436-eco-92b-1
O exemplo (129a) tem uma interpretação factual – o homem é um ser de liberdade – assim como (129b) – a maioria não participa – e (129c) – nos Estados Unidos, a liberalização do espaço aéreo é já um facto. Assim, é possível demonstrar o conteúdo factual destas frases através das frases de (130), com operadores factivos:
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(130) a. Dado que/ Visto que o homem é, conforme cremos, um ser de liberdade, nada é irreversível, nem sequer o tempo e a morte.
b. Já que/ Visto que a maioria não participa – e a maioria não está a participar – acabamos por ter um sistema que não representa a América.
Dado o caráter relevante do contexto que legitima a factualidade, as frases não são compatíveis com paráfrases que indiquem que o conteúdo pode ser incerto (hipotético):
(131) a. ?Caso o homem seja, conforme cremos, um ser de liberdade, nada é irreversível, nem sequer o tempo e a morte.
b. ?Caso a maioria não participe –e a maioria não está a participar – acabamos por ter um sistema que não representa a América.
Porém, sem o contexto, é possível não só uma interpretação hipotética (132), que não ocorre em (131), mas também factual (133):
(132) a. Caso o homem seja um ser de liberdade, nada é irreversível nem sequer o tempo e a morte.
b. Caso a maioria não participe, acabamos por ter um sistema que não representa a América.
(133) a. Já que o homem é um ser de liberdade, nada é irreversível, nem sequer o tempo e a morte.
b. Já que a maioria não participa, acabamos por ter um sistema que não representa a América.
O fenómeno de ambiguidade ilustrado pelas frases de (132) e (133) evidencia que o Presente do Indicativo, nas condicionais em apreço, tem um valor semântico de Presente, localizando temporalmente as situações descritas como sendo coincidentes com o tempo da enunciação (cf. o homem é, conforme cremos, um ser de liberdade (129a); a maioria não
participa, e a maioria não está a participar (129b) ou nos Estados Unidos, a liberalização do
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Na verdade, os dados de corpora corroboram a hipótese de que o Presente do Indicativo, nas condicionais não necessariamente genéricas, bem como nas condicionais fora de contexto, é ambíguo sobretudo entre um valor factual e um valor hipotético. Observemos as frases que se seguem:
(134) a. Se os encontro, tenho o programa resolvido. par=ext529542-clt-91b-1
b. Se não há qualquer objecção à aprovação do orçamento, assim se fará. (CRPC) c. Se se confirma esta tendência, vencemos as eleições. par=ext407798-pol-96a-1
Em (134a), a leitura factual obtém-se se considerarmos que a frase total exprime eventos regulares, sendo, por isso, equivalente a uma temporal de quando, caso em que o Presente do Indicativo é interpretado com valor aspetual de habitualidade (135a). Nas frases (134b,c), a factualidade obtém-se considerando que o que é descrito é dado como um facto que se verifica em t0 (oPresente do Indicativo é usado com valor temporal) e, por isso, essas condicionais admitem paráfrases com já que ou como (135b,c).
(135) a. Sempre que/ quando os encontro, tenho o problema resolvido.
b. Já que não há qualquer objecção à aprovação do orçamento, assim se fará. c. Como se confirma esta tendência, vencemos as eleições.
Já a interpretação hipotética obtém-se se as frases tiverem sido asseridas num contexto em que o que é descrito pode vir a verificar-se num momento posterior a t0, possibilidade que decorre do uso do Presente com valor temporal.
(136) a. Caso os encontre amanhã, tenho o problema resolvido.
b. Caso não haja qualquer objecção à aprovação do orçamento, assim se fará. c. Caso se confirme esta tendência, vencemos as eleições.
Para finalizar a descrição das condicionais factuais de Presente do Indicativo, observemos as frases de (137), que ocorrem descontextualizadas nos dados obtidos pela pesquisa em corpora:
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(137) a. Se o senhor é soviético, como é que pode avaliar europeus? (CRPC)
b. Se nem o Estado cumpre a lei, como se pode exigir o seu cumprimento aos cidadãos e às empresas?par=ext644709-opi-96a-2
c. Se não têm medo, não percebo a vossa postura! (CRPC)
O antecedente destas condicionais é factual. As frases são asseridas num contexto em que o falante sabe que o interlocutor é soviético, que o Estado não cumpre a lei e que eles não têm medo porque lhe disseram que não tinham medo. O que leva a que o antecedente seja interpretado como factual é o consequente, que ocorre sob a forma de uma interrogativa retórica ou de uma asserção exclamativa, enfatizando que, na perspetiva do enunciador, o consequente é contraditório com a expectativa criada pelo facto expresso pelo antecedente. Isto é: não se espera de um soviético que avalie os europeus, não se espera de um Estado que não cumpre a lei que exija o seu cumprimento aos seus cidadãos e empresas, não se espera de quem não tem medo (ou diz não ter medo) que tenha uma certa postura. As implicações envolvidas são, portanto: … não deveria avaliar europeus, … não deveria exigir…, não deveria ter essa postura.
Em síntese, os dados dos corpora pesquisados mostram que à interpretação factual está associado o Presente do Indicativo, que veicula um valor aspetual genérico ou habitual. Nos contextos em que o Presente é usado com valor estritamente temporal (indicando sobreposição ou posterioridade a t0), a factualidade é legitimada contextualmente.
Além disso, o Presente do Indicativo é usado em condicionais que interpretamos como factuais pelo facto de o consequente ocorrer sob a forma de uma interrogativa retórica ou de uma asserção exclamativa, enfatizando que o que é nele descrito é contraditório com o facto expresso no antecedente (que é dado/sabido como um facto) (cf. Se o senhor
é soviético, como é que pode avaliar europeus?).