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Pressupostos minimalistas: bare phrase structure, fases e adjunção

______________________________________________________________________________ 2.0 Introdução

Neste capítulo, destaco os pressupostos da versão minimalista (Chomsky (2000, 2001)) da Teoria de Princípios e Parâmetros (Chomsky (1981, 1986), Chomsky & Lasnik (1995)) que vão nortear a análise para os fatos abordados no capítulo anterior. Mais especificamente, emprego a noção de fase e suas conseqüências, seguindo a elaboração proposta em Chomsky (2000). No que tange à noção de adjunção em particular, apresento a proposta de Hornstein, Nunes & Pietroski (2006), numa visão dentro de bare phrase structure que difere, em muitos pontos, da forma como as configurações de adjunção foram largamente tratadas na Teoria X-barra. Esse conjunto de pressupostos será, nos capítulos 3 e 4, a base teórica da qual vou partir para tentar estabelecer um quadro formal que capture as propriedades relevantes dos sintagmas-de/em/com/para. O presente capítulo vem dividido da seguinte forma: na seção 2.1, apresento de forma sucinta os pontos gerais que sustentam a versão minimalista da Teoria de Princípios e Parâmetros, com destaque para a noção de fase e algumas de suas implicações; na seção 2.2, abordo os pressupostos do modelo de bare phrase structure, que norteia a estruturação sentencial no Programa Minimalista, trazendo a discussão de Hornstein (2005) sobre as conseqüências desse modelo; na seção 2.3, finalmente, trago a reflexão de Hornstein, Nunes & Pietroski (2006) a respeito das configurações de adjunção.

2.1 Desdobramentos minimalistas da Teoria de Princípios e Parâmetros 2.1.1 Sobre o design da linguagem

Uma das questões diretivas dentro da agenda do Programa Minimalista diz respeito a quão

ótimo (ou quão perfeito) é o design da linguagem. Possíveis respostas a esta pergunta

devem ser elaboradas à luz da visão que o Programa assume em torno da natureza da faculdade humana da linguagem, tomada essencialmente como um aparato mental inato comum a todos os indivíduos da espécie. Em linhas gerais, a faculdade da linguagem pode

ser tratada como um órgão mental, da mesma forma que o sistema visual ou o sistema imunológico são tratados como órgãos do corpo (Chomsky 2000:90). Esse órgão da linguagem deve permitir que uma criança, em condições normais, adquira a gramática particular de uma língua L, num processo em que entram em jogo, dentre outros fatores, os chamados parâmetros ou princípios abertos da Gramática Universal, a serem especificados pela exposição da criança a dados lingüísticos primários.

Uma língua L deve, nesse sentido, ser tomada como uma possibilidade da Gramática Universal, consistindo num sistema cognitivo com informações sobre sons/sinais, significados e organização estrutural. Tais informações precisam ser acessadas pelos sistemas de perfomance, que deverão ser pelo menos dois: o sistema sensório-motor, responsável pela produção de sons/sinais da linguagem humana, e o sistema intencional- conceptual, responsável, dentre outros aspectos, pelos efeitos de sentido gerado por/atribuído a um objeto lingüístico. Qualquer tentativa formal de caracterizar a faculdade da linguagem deve então capturar a sua capacidade de produzir expressões legíveis em ambos os sistemas. Toda expressão lingüística gerada por L será um par Exp = <Fon, Sem>, equação que traduz a idéia de que qualquer expressão abarca instruções de natureza fonológica e semântica, requeridas respectivamente para fins de ordem sensório-motora e conceptual-intencional.

Indagar acerca de quão ótimo é o design da linguagem pode corresponder, nesse sentido, a indagar quão boa é a solução da faculdade da linguagem para determinar as

condições de legibilidade de um objeto lingüístico nos sistemas de performance. A tese

minimalista, em sua versão “mais forte”, é exatamente a de que a linguagem consiste

numa solução ótima para as condições de legibilidade.1 A essa questão se atrela uma outra, que pode ser formulada no seguinte caminho: sendo uma solução ótima para as

condições de legibilidade, como o design da linguagem se apresenta? Ou, de outra forma, que propriedades da faculdade da linguagem determinam o seu funcionamento como uma solução ótima? Respostas a tais perguntas estão longe de satisfatórias, mas as

explorações feitas até aqui têm lançado luzes não só sobre questões de base estritamente empírica, mas também de natureza mais conceptual, envolvendo desde a caracterização da

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linguagem como um sistema cognitivo inatamente radicado na espécie humana à emergência da linguagem como uma vantagem evolutiva do Homo sapiens moderno frente a outros hominídeos (ver, por exemplo, a discussão desenvolvida em Hauser, Chomsky & Fitch 2002). Na próxima seção, apresento, em linhas gerais, alguns dispositivos de análise que vêm sendo explorados no interior da agenda minimalista, alguns dos quais serão de interesse imediato para a abordagem que irei propor em torno dos PPs adnominais no português brasileiro.

2.1.2 Concordância, valoração e fase

Nesta seção, abordo de forma breve alguns pontos propostos em Chomsky (2000, 2001) na tentativa de lidar com questões como as que foram sintetizadas na seção anterior. Não vou me preocupar aqui em apresentar as evidências fornecidas pelo autor para a construção do quadro formal. O objetivo é somente dispor, de forma sintética, o aparato teórico a que vou recorrer.

Como já mencionado, uma língua L deve ser capaz de gerar expressões com informações de natureza fonológica e semântica, que funcionam como instruções para os chamados sistemas de performance – o sistema sensório-motor e o sistema conceptual- intencional. A faculdade da linguagem dispõe de dois componentes (o componente fonológico e o componente semântico), que são o elo entre os procedimentos computacionais efetivados para gerar um objeto lingüístico (o componente sintático propriamente dito) e os sistemas de performance. Ao atingir a Forma Fonética (ao término do componente fonológico), um objeto lingüístico deve portar apenas informações que possam atuar como instruções para o sistema sensório-motor. Nestes termos, dizemos que um objeto lingüístico deve, na Forma Fonética (doravante, FF), apresentar exclusivamente informações interpretáveis para este sistema; se informações que não são de natureza fonética atingirem FF, um objeto lingüístico não será legível naquele ponto. Da mesma forma, ao atingir a Forma Lógica (ao término do componente semântico; doravante, FL), um objeto deve trazer apenas informações de natureza semântica; de outra forma, impede- se que as condições de legibilidade na interface semântica sejam satisfeitas. Uma derivação

será convergente, nesse sentido, se for integralmente legível nos dois sistemas, obedecendo às condições apresentadas.

Informações de natureza fonológica, semântica e estritamente

sintáticas/computacionais entram na derivação codificadas na forma de traços. Um objeto lingüístico corresponderá então a uma combinação de (i) traços semânticos, que codificam as instruções legíveis para o sistema conceptual-intencional, (ii) traços fonológicos, que codificam as instruções legíveis no sistema sensório-motor, e (iii) os chamados traços

formais, que exercem um papel relevante na composição e/ou formação estrutural de um

objeto (e que podem ou não ser interpretáveis em FL, mas nunca em FF). A computação que gera um objeto lingüístico deverá então ser capaz de efetivar, pelo menos, dois procedimentos: (a) uma operação capaz de apartar os traços fonologicamente interpretáveis dos semanticamente interpretáveis, de modo que somente traços legíveis atinjam a interface relevante e (b) uma operação capaz de apagar os traços formais não-interpretáveis em qualquer dos níveis de interface. Para estabelecer como esse e outros procedimentos são implementados, consideremos a arquitetura em (1) a seguir.