2 A ESCOLA FRENTE AO JOVEM NATIVO DIGITAL
4.2 TEATRO & TECNOLOGIAS: PRÁTICA PEDAGÓGICA 2
4.2.1 Planejamento específico para a prática pedagógica 2
4.2.1.1 Primeira aula: O WhatsApp como meio para a contracenação
As aulas iniciaram-se em 23 de agosto e, como primeira atividade, apresentei a pesquisa que seria desenvolvida dentro das aulas de teatro que ocupavam a grade curricular obrigatória, mas que seriam em formato de oficina. Expliquei que as aulas ocorreriam como os estágios curriculares da graduação que eles já conheciam, nos quais um professor de fora da turma vem ao Colégio para desenvolver uma proposta pedagógica relacionada com as atividades esperadas para aquela etapa da seriação.
O conteúdo programático seria mantido, sem prejuízo para a continuidade dos estudos; porém, as aulas estariam circunscritas a uma temática específica.
Considerando que os estudantes deveriam autorizar o uso de suas produções para a divulgação na Tese, fez-se necessário que houvesse uma concordância geral do grupo quanto ao acolhimento da proposta de participação na prática pedagógica “Teatro & Tecnologias”; houve somente um voto de discordância. A estudante que se posicionou de forma contrária não quis manifestar sua posição, mas verbalizou que participaria da aula, só não queria que sua imagem fosse visualizada.
A seguir, procedemos com a escolha de um espaço virtual para armazenamento dos trabalhos desenvolvidos em aula. O grupo não quis utilizar nenhuma das plataformas digitais sugeridas por mim, tais como, a Pbwiki ou o Moodle
colaboração, optando por um grupo fechado no Facebook. Após muita argumentação,
consegui que concordassem em ter um segundo repositório por meio de um grupo no
Gmail, para usarmos o Google Drive. Minha insistência devia-se ao fato de que eu
não sabia na ocasião que o Facebook poderia funcionar como um grupo fechado. Eu temia que os trabalhos dos estudantes ficassem mais vulneráveis a uma exposição na rede social.
Realizamos, então, o registro de endereços de e-mail para formalização do espaço virtual a ser utilizado e passamos para o primeiro conjunto de atividades práticas, que visavam atender ao objetivo de conhecer o perfil da turma nas aulas de teatro. Solicitei que os alunos formassem duplas e propus o “Exercício do espelho”, atividade integrante dos jogos teatrais de Viola Spolin (1963, p. 55). Nessa atividade, um dos jogadores representa um espelho e o outro, a imagem espelhada:
O jogador B olha para o jogador A. A é o espelho, e B inicia todos os movimentos. O jogador A reflete todas as atividades e expressões faciais de B. Olhando para o espelho, B realiza uma atividade simples como lavar-se, vestir-se etc. Depois de um certo tempo, troque os papéis, sendo que B é o espelho e A, o iniciador dos movimentos.
Meu objetivo era reconhecer de que forma os estudantes conseguiam se manter focados no desafio proposto, buscando conservar o corpo em estado de alerta e com precisão de observação de movimentos, no caso do “aluno-espelho”, ou como propunham ações inventivas e variadas quanto ao desenho dos movimentos e tempo de realização, no caso do “espelhado”.
A seguir, eu trouxe como proposta um outro jogo teatral, também de Spolin (1963, p. 205), denominado “dublagem”, envolvendo quatro jogadores. Esse jogo também foi trabalhado com a turma da prática que ocorreu no primeiro semestre. A autora o indica da seguinte maneira:
O exercício de DUBLAGEM é eficiente para criar relacionamento íntimo entre os colegas atores. Um microfone ligado acrescenta muito ao impacto do exercício, mas não é imprescindível para o seu sucesso. [...] Subdivida o grupo em dois subgrupos. Os subgrupos escolhem juntos Onde, Quem, O Quê. [...] O subgrupo A vai para o palco. O subgrupo B fica em uma posição de onde possa ver o palco e ser visto pelo subgrupo A. Se possível, o subgrupo B deve ter o microfone [...] O subgrupo B deve atuar como se estivesse fazendo a sonorização em português de um filme estrangeiro – como se eles estivessem dublando o diálogo em português. Os elementos do subgrupo A devem atuar como se eles fossem os atores do filme estrangeiro fornecendo toda a ação visual. Usam apenas ação e não devem falar em momento algum, mas podem soletrar silenciosamente o diálogo.
Assim como no espelho, a busca pela sincronização das ações, de imagem ou de fala, tornava o jogo da dublagem desafiador para os participantes e conseguia manter a atenção da plateia. Ambos os jogos eram conhecidos dos alunos, e eu encontrava nessas atividades semelhanças com a experimentação que eu viria a propor a seguir: o “Jogo dos Avatares”.
Aprendi o jogo dos avatares com o professor Kent Sjöström (Lund University, Suécia)64. Nesse jogo, utilizam-se smartphones conectados pelo aplicativo WhatsApp; pode ser realizado por, no mínimo, quatro participantes, cada um portando um desses equipamentos. Os participantes formam duas duplas, cada dupla se organiza como avatar e mestre. O avatar apenas escuta as instruções passadas pelo mestre e as executa. Essa escuta se dá a partir de fones de ouvidos para que os observadores, a plateia, tenham acesso somente às ações e às falas executadas pelos avatares. Os outros dois jogadores, os mestres, comunicam-se a partir dos seus smartphones por mensagem de texto ou via chamada de voz.
O jogo inicia-se com os avatares recebendo instruções sobre como proceder no espaço teatral. Essas instruções abrangem desde gestual, falas e deslocamentos até o estabelecimento de contato com os demais colegas, participantes ou não daquela rodada do jogo.
64 Participei da oficina A lacuna criativa, realizada em novembro de 2015, promovida pelo PPGAC, na qual pude realizar essa experimentação. Está descrita no capítulo 3 desta Tese.
Os estudantes receberam de forma acolhedora essas três atividades e, voluntariamente, prontificaram-se a assumir as diferentes funções. Os desafios desse exercício do avatar dizem respeito ao fato de o jogador ser manipulado pelo colega por meio de um dispositivo intermedial. Nos exercícios do espelho ou da dublagem, também havia esse acordo de que um conduziria a performance enquanto outro deveria permitir essa condução, mas as funcionalidades que a conexão com o
WhatsApp ofereciam poderiam propor uma expansão para a área de jogo, permitindo
que os que jogavam na posição de mestres perdessem o avatar de vista.
Realizadas as devidas explicações, as duplas iniciaram seus trabalhos. Durante o jogo dos avatares, surgiram temáticas relacionadas à sexualidade e à manipulação de órgãos sexuais. Um dos estudantes que iniciou com essa temática mostrou-se constrangido quando, na sua vez de trabalhar como o avatar, também foi convocado pelo seu colega a tratar de tal tema. Visivelmente zangado, abandonou a sala batendo a porta, mas retornou mais tarde, permanecendo à margem do grupo, em silêncio. O incidente serviu para que se abordassem, verbalmente, questões relacionadas à ética para o trabalho em grupo e para a recepção teatral. Perguntei ao aluno que havia saído da sala se gostaria de comentar sobre o assunto. Ele sacudiu a cabeça sinalizando que não, enquanto o colega que tinha sido seu parceiro de jogo disse que ele “tinha ficado brabo porque falou ‘bagacerice’ e depois não quis ouvir de volta”.
Assim como nas demais aulas, as atividades se encerravam com uma roda de conversa. E, nesse momento, questionei também de que forma eles vivenciaram o conjunto das atividades e se encontraram semelhanças entre elas.
O estudante AY manifestou que “no jogo do avatar, a gente podia fazer dublagens a uma distância maior, até pra fora do prédio, se não perder a conexão” (informação verbal)65. Ao que CC comentou: “quem trabalha como mestre tem que fazer para o avatar algo que não vai prejudicar o colega. Tem que ficar imaginando como ele vai resolver a movimentação” (informação verbal)66.
Interpretei na fala de AY uma disposição para realizar o experimento “quebrando” a convenção de que teatro seria o que estaria circunscrito ao palco. Já na fala de CC, estaria uma preocupação sobre o incidente que fez dois colegas se desentenderem durante a realização do jogo do avatar. Ao que, no final, me questiono
65 Depoimento do aluno AY em aula do dia 23 de agosto de 2016. 66 Depoimento da aluna CC em aula do dia 23 de agosto de 2016.
se o menino que falou “bagacerices” para o colega executar quando era um avatar o faria se estivesse dentro do espaço da sala de aula, na minha presença e na do seu professor, além de toda a turma. Será que a comunicação pelo ciberespaço o encorajou a colocar o colega numa situação de constrangimento?