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Quarta aula: Experimentações cênicas a partir de jogos teatrais

2 A ESCOLA FRENTE AO JOVEM NATIVO DIGITAL

4.1 TEATRO & TECNOLOGIAS: PRÁTICA PEDAGÓGICA 1

4.1.1 Planejamento específico para a prática 1

4.1.1.4 Quarta aula: Experimentações cênicas a partir de jogos teatrais

Para a aula 4, realizada em 4 de maio, planejei uma atividade que apresentei aos alunos como “jogo da dublagem”. Esse exercício é eficiente para criar sincronia entre a atuação dos participantes, requerendo muita concentração para que seja realizado. Foi incluído no planejamento justamente porque poderia promover o engajamento do grupo, pois não é uma atividade que se pode realizar de forma “descontraída”.

No jogo original, que tem como referência Spolin (1963), sugere-se que o grupo de alunos seja dividido em dois subgrupos e escolham juntos as circunstâncias da cena (Onde, Quem, O Quê). O subgrupo A vai para o palco onde encenará os diálogos propostos pelo subgrupo B. Ao apresentar o exercício, Spolin (1963, p. 205) sugere que “um microfone ligado acrescenta muito ao impacto do exercício, mas não é imprescindível para o seu sucesso”. Como na data dessa aula eu não dispunha do número de microfones necessários, optei por fazer sem eles.

O ponto de concentração desse exercício está em manter o diálogo e a ação, exigindo que os participantes procurem sincronizar ações e falas. Nessa tarde, eu contava com seis dos nove alunos; portanto, organizei a dinâmica de modo que houvesse quatro pessoas em cena e os demais na plateia, fazendo um rodízio nas funções, de modo que todos experimentassem a posição de criar e observar.

Para a execução da tarefa, eu propunha que a narração trouxesse uma perda, uma despedida ou um sonho, retomando, propositalmente, a forma de solicitar o mote

para a improvisação. Solicitei que, como na aula anterior, tivessem a preocupação em mostrar claramente o “onde” da cena, porém, numa modalidade de jogo na qual o palco e os atores deveriam estar desprovidos de quaisquer tipos de dispositivos.

Nessa aula, eu os recebi com o palco vazio. Eu tinha por intenção verificar se solicitariam ou não os dispositivos tecnológicos já instalados na sala ou aqueles que foram transportados para lá. Solicitaram luz geral branca e, como acessórios, bancos e cadeiras para fazer um desenho cenográfico minimalista.

Foi interessante perceber a mobilidade do signo teatral expressa nos múltiplos usos que fizeram desses objetos. Bancos transformados em raquetes de frescobol, cadeiras atuando como carrinhos de supermercado... A partir das narrações/dublagens, os alunos construíram cenas que se passavam em espaços como praia, supermercado, ônibus, delegacia de polícia, bar.

Ao longo da realização das atividades, orientei que lembrassem de se movimentarem nos níveis alto, médio e baixo e de ocuparem as diferentes regiões do palco. Minha intenção era retomar a ideia de construção de espaço cênico com um “acirramento” da noção de presença “viva”, tendo no corpo do ator o dispositivo primeiro para a elaboração de signos teatrais.

Figura 14 – Aula 4 - Improvisação “cena de bar” Fotografado pela autora

Fonte: Arquivo pessoal da autora (2016).

Foi interessante observar que, nas cenas do bar e do ônibus, os alunos JV, LC,

ED e GA trouxeram os mesmos personagens da improvisação realizada em 27 de

acontecimentos apresentados anteriormente. Realizaram assim, uma sugestão que foi mencionada por eles na roda de conversa que constituiu a etapa de avaliação do trabalho, ocorrida na aula anterior (a aula 3).

Suas atuações foram entremeadas por falas que faziam alusão às situações já vivenciadas na cena desenvolvida naquela aula, apresentando o que se costuma chamar de “piada interna”, a fim de provocar o riso entre os componentes do grupo. Assim, ressurgiram o “cobrador” e o “motorista”, dessa vez embriagados em todas as cenas, e os “amigos” que só falavam em comer, beber e “azarar” umas gurias. LC atuava como o personagem do cobrador, batizado então como o “Luquinhas da Tinga”, e buscava protagonizar todas as cenas, voluntariando-se para iniciar as improvisações.

Nessa aula, não foi possível realizar a costumeira roda de conversas, pois os estudantes se engajaram nas propostas e não queriam terminar a etapa das improvisações.

Por conta da retomada dos acontecimentos da primeira cena do ônibus e da retomada dos personagens que foram criados na ocasião, durante as apresentações lembrei-me de um documentário do cineasta brasileiro Eduardo Coutinho (1933 – 2014) que eu havia assistido recentemente, Jogo de cena (2007). Pareceu-me oportuno preparar para alguma das aulas seguintes a apreciação de trechos do filme a título de referência artística para posteriores experimentações. Nesse filme, Coutinho trabalhou com depoimentos nos quais diversas mulheres apresentavam alguma narrativa sobre sua vida pessoal. O documentário se propõe a instigar o espectador a respeito de um momento histórico no qual há uma generalização do espetáculo que emerge de situações cotidianas.

A metodologia de trabalho utilizada pelo cineasta encontra-se descrita na Enciclopédia Itaú Cultural da seguinte forma:

83 mulheres narram em estúdio os momentos mais significativos de suas trajetórias, em geral marcados por separações, interrupções e abandonos. [...] atrizes são convidadas por Coutinho a interpretar, sem imitar, julgar ou criticar, as histórias narradas pelas personagens escolhidas (JOGO..., 2018,

online).

Quando meus alunos criaram personagens que participavam de seu cotidiano, mas que também povoavam seu imaginário, assim como pode ocorrer com o espectador no filme, eu considerei a possibilidade de propor um experimento cênico

no qual o espaço geográfico e social dos alunos se fundisse com o dos personagens da improvisação do ônibus. Sobre o documentário, encontrei ainda as seguintes afirmativas que julguei interessantes como aspectos para reflexão junto com os estudantes e, portanto, inseri o filme no planejamento das aulas:

Jogo de Cena não se reduz a uma busca pela definição do verdadeiro e do falso, já que, como é evidenciado, uma pessoa pode se apropriar da história do outra e, ao mesmo tempo, no ato de narrar, ser tão ou mais verdadeira. Não é por outro motivo e, como acredita Coutinho, o documentário tem como tema a impossibilidade de se chegar ao real. Jogo de Cena faz dessa "impossibilidade", aliada a uma interrogação sobre a natureza ética e estética da imagem, sua matéria criativa e reflexiva (JOGO..., 2018, online).

4.1.1.5 Quinta aula: O experimento do comentário

Para a aula 5, realizada no dia 11 de maio, eu havia trazido duas propostas: a apreciação de trechos do documentário “Jogo de cena” e uma atividade que denominei como “Experimento do comentário”. Assistir ao vídeo tinha como objetivo oportunizar aos estudantes o reconhecimento de uma produção artística que se utiliza de narrativas que podem ser apropriadas por outros narradores/atores e ressignificadas. Já o “Experimento do comentário” entraria na aula com o objetivo de reapresentar a cena inicial do ônibus, utilizando o vídeo como forma de criação.

Por problemas técnicos, a apreciação do filme não pode ser realizada durante a aula e a sequência das atividades foi invertida, iniciando-se a aula pelo conjunto de procedimentos que compunham o experimento do comentário. Esse experimento iniciava-se com a oferta de recursos como canetas, papeis de tamanhos e cores variadas, lâminas de retroprojetores, canetas específicas para retroprojetores, lanternas, além de todo o equipamento que vinha sendo usado nas aulas.

A orientação que os alunos receberam era a de preparar subsídios visuais, sonoros, textuais e\ou cinestésicos para apresentarem um comentário a respeito da improvisação criada na aula 3 (viagem de ônibus). Esse comentário seria uma narrativa a respeito dos acontecimentos cênicos daquela viagem.

Figura 15 – Aula 5 – Preparação de material para uso no “experimento do comentário” Fonte: Arquivo pessoal da autora (2016).

O objetivo era apresentar a viagem de ônibus sob perspectivas distintas daquelas que foram apresentadas na improvisação “Cena de uma viagem de ônibus urbano ocorrida no início de uma noite de sexta-feira”. Eu pretendia que, no comentário sobre a cena, pudessem surgir motivações dos personagens, ações internas, percepções do seu universo, revelados a partir de uma narrativa que, deslocada do exercício da “cena completa”, funcionasse como um dispositivo de ampliação daquelas presenças cênicas. Nessa atividade, cada estudante poderia, além de estabelecer uma narrativa ficcional a partir dos fatos ocorridos na cena do ônibus desenvolvida na terceira aula (ocorrida em 27 de abril), agregar os fatos espontaneamente retomados ou criados na aula de quatro de maio.

A orientação foi de que esse comentário deveria ser gravado com o

smartphone, utilizando enquadramento de livre escolha pelos estudantes. Durante a

elaboração dos vídeos, houve momentos nos quais a turma esteve reunida, assistindo à elaboração dos vídeos dos colegas, como se pode ver na Figura 16.

Figura 16 – Aula 5 – preparação das versões dos personagens a respeito da viagem de ônibus Fotografado pela autora

Fonte: Arquivo pessoal da autora (2016).

Realizado esse primeiro exercício, a aula 5 termina.

Como dito, devido a problemas de acesso à internet, através da rede UFRGS, que impediram o acesso à plataforma digital Youtube, na qual o documentário estava disponível na ocasião, optei por inserir os trechos do vídeo que deveriam ser assistidos posteriormente, fora do horário da aula, em um tópico da plataforma Moodle

Colaboração, como uma atividade a distância. Essa atividade contou presença e

avaliação em um semestre no qual estávamos com um calendário escolar bem enxuto, mas, ainda assim, apenas um dos alunos realizou a tarefa. Ao final do relato de todas as aulas presenciais, apresento as atividades que foram ofertadas e realizadas por EAD.

A realização e a conclusão do experimento do comentário foram adiadas para a sexta aula.