Inicialmente, o contraditório vem a ser uma garantia constitucional gravada no art. 5º, LV, da CRFB/88, que o agente passivo de uma determinada acusação possui de opor-se àquilo que lhe
é imputado como ato delituoso, porém, tal mecanismo de defesa vai muito mais além que essa mera faculdade de rebater fatos. Ela engloba o direito de participar do desenvolvimento do processo e estar informado de tudo aquilo que foi e há de ser feito em relação à demanda que possa causar-lhe prejuízo legal.
Aury Lopes Júnor aduz que:
O contraditório pode ser inicialmente tratado como um método de confrontação da prova e comprovação da verdade, fundando-se não mais sobre o juízo potestativo, mas sobre o conflito, disciplinado e ritualizado, entre partes contrapostas: a acusação (expressão do interesse punitivo do Estado) e a defesa (expressão do interesse do acusado [e da sociedade] em ficar livre de acusações infundadas e imune a penas arbitrárias e desproporcionais) (LOPES JÚNIOR, 2014, p. 220-221).
Aprofundando no instituto do contraditório, podemos apontar que sem ele não haveria o processo democrático que é conhecido hoje, ou seja, com paridade de armas entre acusação e defesa. Em outras palavras colocam os dois flancos no mesmo patamar e os obriga a produzirem provas para confirmarem aquilo que afirmam, afastando qualquer direcionamento inquisitivo na resolução da lide penal.
Outro efeito que é perceptível está na situação do magistrado ser inserido na discussão como ator do processo no sentido que ele tem o dever de ouvir as partes sem fazer valorações diferentes, ou seja, tendenciosamente, responder as petições e requerimentos das partes além de ser obrigado a fundamentar suas decisões.
Nessa linha de pensamento está Aury Lopes Júnor ao dizer que:
Numa visão moderna, o contraditório engloba o direito das partes de debater frente ao juiz, mas não é suficiente que tenham a faculdade de participação no processo; é necessário que o juiz participe intensamente (não confundir com o juiz-inquisidor ou com a atribuições de poderes instrutórios ao juiz), respondendo adequadamente às petições e requerimento das partes, fundamentando suas decisões (inclusive as interlocutórias), evitando atuações de ofício e as surpresas. Ao sentenciar, é crucial que observe a correlação acusação-defesa-sentença (LOPES JÚNIOR, 2014, p. 222).
Portanto, o princípio do contraditório, resguarda que, todos os atos praticados em um processo deverão ter bilateralidade das partes na manifestação dos fatos alegados, e valer de todos os meios de provas e alegações lícitas, respaldado pelo princípio da igualdade.
Entendido o conceito e a importância do contraditório na esfera penal, faz-se necessário compreender o que vem a ser a ampla defesa, pois parte da doutrina entende que os dois institutos são distintos.
A ampla defesa dá a sensação que o sujeito passivo pode lançar mão de todos os meios de provas para patrocinar sua defesa. Porém, na realidade, esse princípio garante aos cidadãos todos os meios de defesa dentro dos limites legais, garantindo a participação em todos os atos do processo, não podendo haver de qualquer maneira o cerceamento no seu direito de defesa.
Porém, vale ressaltar que a CRFB/88 no art. 5°, LVI, prescreve: “são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos”, vedando o uso de provas conseguidas por meios ilegais, apesar de haverem casos que elas já foram aceitas em juízo. Portanto, em regra, somente as provas produzidas dentro da legalidade serão aproveitadas na defesa.
Cabe destacar que a ampla defesa também é conhecida pela doutrina como direito de defesa e é subdividida em Técnica e Pessoal. A primeira será aquela feita por um advogado ou defensor público e a segunda, pessoal, por meio do próprio acusado. Vale ressaltar que as duas caminham juntas durante toda instrução do processo.
A defesa técnica será realizada por um advogado, figura de grande importância na construção da justiça, não apenas pelo fato de ser um profissional com conhecimentos teóricos acerca de Direito, mas por trazer um equilíbrio entre as partes e o magistrado, pois a acusação estatal é feita por profissionais, Ministério Público, e o particular geralmente não tem o mesmo conhecimento sobre as leis e, ainda, o julgador pode exceder no seu poder de conduzir os trabalhos (JÚNIOR, 2014, p. 224).
Nesse sentido, a CRFB/88 garante, no art. 5º, LXXIV, que o poder público deve fornecer assistência jurídica integral e gratuita àqueles que não possam bancá-la. Contudo, para garantir verdadeiramente uma igualdade no embate entre as partes dentro do processo, Aury Lopes Júnior assevera que:
O Estado deve organizar-se de modo a instituir um sistema de “Serviço Público de Defesa”, tão bem estruturado como o Ministério Público, com a função de promover a defesa de pessoas pobres e sem condições de constituir um defensor. Assim como o Estado organiza um serviço de acusação, tem esse dever de criar um serviço público de defesa (LOPES JÚNIOR, 2014, p. 225).
Já a segunda forma de defesa, a pessoal, é feita pelo próprio sujeito passivo e ela pode ser de maneira positiva ou negativa. Na primeira hipótese, o acusado ou interrogado vai falar tudo aquilo que for conveniente em sua defesa, contrapondo-se ao que foi apresentado pela acusação.
Por outro lado, na negativa, ele simplesmente vai se valer das garantias constitucionais de ficar em silêncio e de não produzir provas contra si mesmo, como por exemplo não fornecer material genético para exames laboratoriais. A opção de não responder aquilo que foi perguntado jamais pode ser levada em consideração para prejudicar a defesa como imaginam os leigos ou como os meios de comunicação dão a entender.
O parágrafo único do art.186 do CPP vem reforçando essa garantia de forma bem clara, sem deixar dúvidas no leitor: “O silêncio, que não importará em confissão, não poderá ser interpretado em prejuízo da defesa” (BRASIL, 1941).
Concluímos que o princípio do contraditório e da ampla defesa tem o condão de trazer uma equidade entre os envolvidos em um processo, deixando-o democrático. Com isso, ele freia a máquina punitiva do Estado obrigando-o a seguir caminhos bem definidos para buscar uma verdade processual.