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4.3 Avaliação de Empoderamento

4.3.1 Princípios da Avaliação de Empoderamento

A avaliação de empoderamento é orientada por 10 princípios, os quais devem nortear a prática do processo avaliativo. Estes princípios são considerados como lentes para focar em uma avaliação.

A configuração dos princípios contribui para a qualidade da avaliação. Entretanto, nem todos os princípios estarão presentes com a mesma relevância, pois são condicionados ao contexto local e ao propósito da avaliação. Assim, não são princípios absolutos, nem há uma ordem exata entre eles. O sequenciamento busca retratar a interdependência de um princípio com o outro (FETTERMAN, 2015). São eles:

1. Aprimoramento (Improvement)

Refere-se à utilização de ferramentas e métodos específicos para auxiliar as pessoas, programas e organizações a alcançar resultados desejados. A avaliação deve ser projetada para ajudar as pessoas a aprimorar o objeto avaliado.

Parte do pressuposto que os programas desejam alcançar resultados positivos na vida das pessoas afetadas por ele. Nesse sentido, valoriza o aprimoramento de pessoas, programas, organizações e comunidades, buscando aperfeiçoar o desempenho de determinado objeto avaliado, reavaliar áreas que merecem atenção e alcançar os objetivos.

2. Apropriação por parte da comunidade (Community ownership)

Envolve a apropriação por parte dos stakeholders na tomada de decisão. Entende-se que os stakeholders tem o direito de tomar decisões sobre as questões que os afetam.

Os avaliadores têm influência no processo, podendo direcionar, fornecer informações e colocar suas opiniões, mas a tomada de decisão é propriedade dos stakeholders. Nesse sentido, o objetivo é promover a autodeterminação e responsabilidade, ao invés de dependência. Também se considera importante o fato de que, a pessoas são mais propensas a utilizar os

resultados quando elas exercem sua autonomia para tomar as decisões, e quando se sentem responsáveis pela condução do processo.

3. Inclusão (Inclusion)

Se refere a participação dos diferentes grupos de interesse com a tomada de decisão, entre eles, os gestores, financiadores, profissionais e comunidade. O compromisso com a stakeholders na tomada de decisão deve ser inclusivo.

A avaliação se beneficia ao ter os diferentes grupos de interesse envolvidos no planejamento e na tomada de decisão. Se a avaliação não for inclusiva, pode não ser produtiva, levar a uma má comunicação, e dificuldades no alcance dos objetivos.

A inclusão é pensada para ser uma forma importante de facilitar o uso do processo e dos resultados da avaliação pelo stakeholders para orientar a prática e aperfeiçoamento do programa.

4. Participação democrática (Democratic participation)

A participação democrática busca garantir o direito a fala e a opinião de todos os participantes. Enquanto a inclusão está relacionada a participação dos diferentes grupos de interesse, a participação democrática se refere a como os participantes devem interagir e tomar as decisões.

Baseia-se na ideia de que as informações e condições possibilitadas pelo processo avaliativo interferem nos julgamentos e ações dos stakeholders. A participação democrática é articulada a transparência, clareza e confiança, considerados importantes para que os stakeholders tomem as decisões, partilhem os resultados e desenvolvam as mudanças que forem necessárias. Os ajustes no desenvolvimento da avaliação devem estar de acordo com as necessidades e os valores dos participantes.

5. Justiça social (Social justice)

Envolve o reconhecimento das desigualdades sociais e a necessidade de melhorar essas condições. É um princípio que deve orientar os participantes a atentar para as questões de justiça social e equidade, ao invés de qualquer outro tipo de interesse.

A ideia de justiça social também se refere ao compromisso com a seleção e uso adequado de ferramentas e métodos que tragam contribuições sociais, e além disso, considerem as contribuições sociais do determinado objeto avaliado.

A correlação com a justiça social também se desenvolve na medida em que a avaliação possibilita aos participantes o uso de ferramentas, e métodos, visando pelo uso de avaliação, a possibilidade de melhorar a prática e o objeto avaliado.

6. Conhecimento da comunidade (Community Knowledge)

Reconhece e valoriza o conhecimento dos stakeholders como útil e válido. Não só reconhece, como também estimula o uso do conhecimento e dos saberes e viabiliza o compartilhamento para novas sínteses do conhecimento.

A experiência da comunidade é vista como um recurso essencial para contextualizar a ciência e "melhores práticas". A ciência e o conhecimento da comunidade são complementares no processo avaliativo.

7. Estratégias baseadas em evidências (Evidence-based strategies)

Refere-se à valorização de estratégias baseadas em evidências científicas. O conhecimento científico e o conhecimento da comunidade devem ser valorizados como fundamentais para compor o processo avaliativo.

Uma revisão de "melhores práticas" baseadas em evidências deve nortear todo o processo avaliativo, desde sua concepção, nas discussões promovidas nos fóruns e na análise dos dados, sempre levando em consideração as especificidades do contexto local, de modo que, o conhecimento disponível a partir da literatura e da prática, possibilite novas construções.

8. Desenvolvimento de capacidades (Capacity building)

Designada para apoiar dos stakeholders a melhorar o planejamento e execução do objeto avaliado.

Baseia-se na ideia de que, quando os stakeholders aprendem com o processo avaliativo, são capazes de aprimorar o programa e conduzir suas próprias avaliações. Os stakeholders devem ser impulsionados na construção de capacidade de avaliação no sentido de fazer julgamentos, interpretações, e utilização de dados para sustentar a tomada de decisão. Por

conseguinte, a avaliação deve incorporar ferramentas e conceitos de fácil utilização, para que os envolvidos possam utilizá-los.

9. Aprendizagem organizacional (Orgaizational learning)

A aprendizagem organizacional se refere ao aprendizado possibilitado pela utilização de ferramentas e métodos no processo avaliativo. Envolve a experiência de participação no processo, com base nos erros, sucessos, e correções no meio do caminho.

10. Responsabilização (Accontability)

Envolve a prestação de contas à sociedade e aos stakeholderes. A geração de dados do processo e a orientação para a utilização dos resultados pode ser uma via inovadora para a prestação de contas ao público.

Também se baseia na ideia de que a utilização dos resultados é possível quando os stakeholders participam e se responsabilizam no processo. Portanto, a responsabilidade também está relacionada a utilização dos princípios, e envolvimento com as etapas.

Os resultados devem ser avaliados criticamente, e são mais significativos quando os interessados compreendem como e o porquê dos determinados resultados. Se os resultados foram positivos, os stakeholders podem identificar alguns dos aspectos que os favoreceram. Por outro lado, se os resultados não forem o esperado, podem identificar os fatores que interferiram.

No que se refere ao processo metodológico, a avaliação de empoderamento, pode ser desenvolvida em três etapas: missão (mission); conhecimento da situação atual (taking stock) e planejamento para o futuro (planning for the future) (FETTERMAN, 2015).

1º etapa- Missão

Os participantes serão convidados a discutir as seguintes questões: O que você entende por Rede de Atenção Psicossocial? Em relação ao cuidado ao usuário de drogas no município de São Lourenço do Sul/RS, como você avalia essa rede? Qual é a missão da Rede de Atenção Psicossocial no cuidado ao usuário de drogas? A partir dessa discussão, os participantes serão convidados a formalizar a missão da RAPS no município de São Lourenço do Sul. A missão deve retratar as metas e propósitos claros a serem fortalecidos no cuidado em rede na atenção

psicossocial. Serão considerados os valores, as percepções, opiniões de cada participante com relação ao que consideram importante para o propósito da missão (FETTERMAN, 2015).

A missão de uma rede, no caso deste estudo, retrata o propósito que se pretende alcançar com o trabalho dos diferentes profissionais, coordenadores, e gestores inseridos na RAPS. Pensar a missão de uma rede é buscar compreender a sua razão de ser, de existir, visando unificar esforços para alcançar os propósitos do trabalho. Além disso, entende-se que a missão de uma rede retrata a forma como a RAPS busca ser reconhecida por seus trabalhadores, usuários e comunidade. Portanto, trata-se de uma proposta complexa, que exigiu de mim, pesquisadora, aproximação com o contexto pesquisado para identificar os serviços, setores e atores que faziam parte dessa Rede, bem como, compreender a organização do trabalho em rede no município e as diferentes percepções sobre o propósito da RAPS.

2º etapa: Conhecimento da situação atual

Essa etapa é dividida em duas partes:

Parte 1- Listagem e priorização: os participantes serão convidados a listar as atividades consideradas mais significativas para o alcance da missão construída na etapa anterior. Essa etapa envolve tanto as atividades que já são realizadas como aquelas que os participantes acham necessário desenvolver (FETTERMAN, 2015).

Parte 2- Pontuação (juízo de valor): os participantes emitiram juízos de valor sobre cada atividade elencada na etapa anterior. Para essa atividade, utilizou-se estratégias de composição de um Fórum Aberto, sendo solicitados para se manifestarem quanto às motivações e discussão de consensos e dissensos (FETTERMAN, 2015).

A partir desse panorama, os participantes serão estimulados a selecionar as atividades prioritárias. São prioritárias aquelas atividades que os participantes considerem mais necessárias e, sobretudo, que estejam dispostos a investir nelas, ou seja, desenvolver ações para melhorá-las (FETTERMAN, 2015).

3º etapa: Planejamento para o futuro

Essa etapa envolve a elaboração de objetivos, estratégias de ação e evidências para cada atividade elencada como prioridade para alcançar a missão (FETTERMAN, 2015).

Os objetivos retrataram o que se pretende alcançar a partir do patamar que se encontra determinada atividade e, deste modo, aprimorar tanto o que já se faz quanto o que necessita melhorar. Na definição dos objetivos são consideradas as distintas perspectivas colocadas em discussão, sem deixar de ter o caráter realista, considerando sempre as condições iniciais, os recursos, o tempo, a motivação, os talentos e a dinâmica do próprio programa. A ideia é que todos se sintam responsáveis, e por isso, o alcance dos objetivos deve ser conectado ao que as pessoas fazem na sua rotina diária. Busca-se evitar o estabelecimento de objetivos impossíveis de alcançar e/ou grandiosos demais (FETTERMAN, 2015).

As estratégias de ação devem buscar alcançar os objetivos. Já as evidências determinam se as estratégias implementadas estão sendo efetivas. Os participantes são convidados a discutir que tipo de evidência é necessário para monitorar o progresso em relação aos objetivos. No final, deve ser feito uma revisão crítica e acordo consensual (FETTERMAN, 2015).

Modificações podem ser feitas durante o processo, de acordo com as necessidades do campo. Estimula-se um processo cíclico de reflexão e autoavaliação, a fim de que os participantes avaliem continuamente o seu avanço em direção as metas e reformulem o que for necessário (FETTERMAN, 2015).

A seguir será apresentada a forma como a avaliação de empoderamento foi desenvolvida na presente pesquisa.