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2 DOS REGISTROS PÚBLICOS E DOS NOTÁRIOS

2.3 PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS DO DIREITO NOTARIAL

Os princípios do direito notarial revestem-se de suma importância para a compreensão desta função tão importante para a sociedade. Desse modo, nesta seção serão explanados os princípios mais relevantes para o exercício da função notarial.

2.3.1 Princípio da Segurança Jurídica

O princípio da segurança jurídica é parte permanente das atividades desenvolvidas pelos notários, pois o notário exerce a sua função para garantir tal segurança. Conforme leciona Ferreira e Rodrigues (2020, p. 61):

Trata-se de princípio comum as atividades notarial e registral, constituindo a estrutura de todo o sistema notarial e registral. O notário existe por e para a segurança jurídica, seja pelo ângulo particular e privado das partes, seja para proteção da sociedade. Instrumentos hígidos, regidos por um especialista e com respeito à lei, permitem a executividade dos direitos e impedem litígios judiciais, sempre custosos, desgastantes e demorados. A segurança jurídica é a meta do tabelião na formação do ato, nas técnicas notariais, no atendimento, na relação pessoal com as partes, na redação instrumental, na guarda de documentos e no próprio ato.

Os atos realizados pelo notário devem sempre visar a garantir este princípio. O tabelião deve utilizar-se de meios que assegurem a efetiva segurança jurídica em todos os seus atos praticados, acerca do tema observa Loureiro (2016, p. 138):

De acordo com este princípio, o notário deve garantir a segurança jurídica das transações, notadamente pela definição precisa dos direitos e obrigações de cada uma das partes contratantes. Ele deve velar para o equilíbrio dos acordos contidos nos atos que estabelece, bem como verificar a legalidade dos documentos que legitima, seja para simples autenticação ou reconhecimento de firma, evitando autenticar ou reconhecer a firma de documentos contrários à lei ou que contenham espaços em branco, entrelinhas, falta de data ou qualquer elemento que cause insegurança jurídica ou incerteza no que concerne à manifestação da vontade das partes.

Nas palavras de Ferreira e Rodrigues (2020, p. 61): “o fazer notarial deve, portanto, utilizar técnicas que assegurem certeza sobre os elementos subjetivos e objetivos das partes e do negócio que realizam, lançando-os num fiel resumo documental.”

Há um dever do tabelião em colaborar, trazendo luz à melhor forma de realização dos negócios entre as partes, assessorando e inclusive prestando informação para prevenção de litígios futuros, dentro desse mesmo pensamento, observe o que diz Ferreira e Rodrigues (2020, p. 61):

A qualificação notarial é carregada de subjetividade: a) da relação inter partes; b) da relação de cada parte com o notário; c) da relação das partes com o notário; e d) pelo caráter transformar e criativo da realidade em um documento escrito. Assim, o notário deve agir como conselheiro das partes sobre o negócio que pretendem formalizar, bem como sobre os efeitos consequentes. Não é de costume que o notário lance no ato estes aconselhamentos feitos, limitando-se a objetividade de suas conclusões. Nada impede, porém, e em muitos casos pode ser de extrema importância para aclarar situações futuras, que o ato contenha as dúvidas, as decisões e os aconselhamentos feitos pelo tabelião. A atenção das partes deve ser sempre o foco da atenção do notário, até mesmo após a lavratura. Não é possível conceber um ato que não atenda a vontade das partes. É possível, contudo, que o mesmo após as assinaturas das partes, o notário o encerre com a menção de que o ato não atende o que buscava.

Essa segurança jurídica buscada pelo notário, tem duas vias, pois a segurança que se quer não é apenas para as partes, ou seja, a particular, mas também deve visar a segurança pública num geral, Loureiro (2016, p. 139) diz que:

Da mesma forma, o notário deve contribuir para a segurança da ordem jurídica como um todo, participando da luta contra a lavagem de dinheiro e prestando todas as informações necessárias às autoridades competentes, segundo as leis brasileiras (art.30, III, da Lei 8.935/1994). A título de exemplo cabe lembrar que, nos atos em que oficia, o notário deve enviar, quando for o caso, declaração de operação imobiliária (DOI) à autoridade fiscal e exigir os documentos e certidões previstos em lei para assegurar a validade do ato jurídico e o cumprimento de obrigações fiscais (v.g. Identificação das partes, inclusive CPF ou CNPJ, certidões negativas da receita federal e do INSS, prova da quitação de tributos).

Lembrando que o dever de cooperar com o Estado não deve de forma alguma interferir no dever de sigilo que o notário tem para com as partes, nesse mesmo entendimento corrobora Loureiro (2016, p, 139):

O dever de colaborar com o Estado, que lhe confere a delegação, não significa, contudo, que o notário pode violar o dever de sigilo. Muito pelo contrário, o dever de sigilo, expressamente previsto na Lei 8.935/1994 (art. 30, VI), que é um dos corolários da fé pública – no seu aspecto de confiança que a comunidade deposita na atividade notarial/estatal – e da segurança jurídica (estabilidade, paz social).

Conclui-se que este princípio é de extrema importância para a estrutura de todo o sistema notarial, pois o notário exerce a sua função visando a garantir a segurança jurídica, de ambos os lados, seja sendo com respeito ao particular na tratativa dos seus atos e negócios, seja para proteção da sociedade.

2.3.2 Princípio da Rogação

Este princípio trata da demanda, ou seja, o notário não pode atuar de ofício, sendo assim, a intenção de fazer será das partes, quando houver um pedido da parte interessada. Loureiro (2016, p. 133) explica:

O princípio da rogação ou demanda é aquele segundo o qual o notário não pode atuar de ofício, ele deve ser procurado ou demandado pela parte para que possa praticar uma das atribuições que a lei lhe confere. Em outros termos, a rogação é o ato jurídico

pelo qual uma ou mais pessoas requerem ao notário o exercício de sua função com o fim de instrumentar uma declaração ou acordo de vontades, ou fixar fatos, acontecimentos e situações jurídicas.

Cabe frisar que esse exercício é condicionado a certos requisitos, pois o notário deve atuar nos parâmetros estabelecidos por lei, sendo assim, é preciso reconhecer e atestar a capacidade das partes. Loureiro (2016, p. 133) esclarece:

Ela se limita aos fatos, atos e negócios jurídicos lícitos, abarcando tanto as escrituras públicas quanto os atos notariais. Face a rogação o notário tem o dever de prestar assistência, salvos motivos válidos que impeçam a sua atuação, tais como a existência de impedimentos legais, físicos ou éticos, dúvidas acerca da capacidade ou identidade da parte, falta de previsão para pagamento de emolumentos e tributos decorrentes do negócio desejado, entre outros motivos. Entretanto, não pode o notário negar o exercício de sua função, sem motivação legítima, uma vez que presta um serviço público indispensável por delegação do Estado. Se assim o fizer, a parte deve representá-lo perante o juiz corregedor, a quem cabe a fiscalização do serviço notarial. Assim, sem rogação ou pedido da parte, não pode o notário atuar. Uma vez feito o requerimento, o notário somente pode negar a prestação de serviço por algum motivo previsto em lei. Aceita a rogação nasce para os usuários o direito de exigir o dever da função notarial. O requerimento ou a demanda da lavratura de escritura pública ou para a prática de qualquer ato notarial pode ser verbal ou por escrito.

Nos casos da ata notarial, também seria apropriado a parte manifestar a sua vontade pela feitura do ato, por escrito e assinado, Rodrigues e Ferreira (2020, p. 66) abordam o tema:

É conveniente a apresentação de pedido, assinado por uma das partes, em caos de atas notariais. Ocorre que a ata, uma vez solicitada e feita, prevalece, permanece válida, mesmo que o solicitante se recuse a assiná-la. Nesse caso o tabelião deve completá-la com a declaração de recusa e motivo, se for indicado pela parte, e assiná-la.

Mas, na prática, o que acontece é apenas o pedido verbal das partes interessadas, pois não é necessariamente obrigatória essa formalização por escrito, explica Loureiro (2016, p. 133):

Hoje em dia, predomina o simples pedido verbal, não havendo obrigatoriedade ou necessidade de demanda escrita. Contudo, nem sempre foi assim, na Idade Média a demanda era feita por escrito: a publice rogatus e petitus. Interessante notar que, ainda hoje, nosso Código Civil prevê essa forma especial de demanda quando trata de testamento cerrado. [...] Em suma, de acordo com o princípio da demanda, a atividade notarial se inicia com a recepção da vontade das partes, ocasião na qual deve prestar consultoria e aconselhamento jurídico sem qualquer cobrança de emolumentos. Ao tomar conhecimento da vontade expressa pelas partes, o notário procede à atividade de qualificação: qualifica o ato, ato ou negócio jurídico para dar à vontade manifestada uma forma legal e autorizar ou redigir o instrumento adequado.

Portanto, o princípio da rogação torna claro que o notário não pode agir de ofício, mas deve ser provocado pelas partes.

2.3.3 Princípio da Fé Pública

A fé pública é um princípio que é atribuída por lei aos notários, e é um dos princípios que comanda o exercício da atividade desenvolvida pelo notário.

O artigo 3º da Lei n. 8.935/94 diz que: “notário, ou tabelião, e oficial de registro, ou registrador, são profissionais do direito, dotados de fé pública, a quem é delegado o exercício da atividade notarial e de registro.” (BRASIL, 1994)

Os notários são profissionais do direito dotados de fé pública. A fé pública nas palavras de Loureiro (2016, p. 134):

A fé pública pode ser definida como a autoridade legítima atribuída aos notários – e a outros agentes públicos como o juiz, o registrador e os cônsules, entre outros – para que os documentos que autorizam em devida forma sejam considerados como autênticos e verdadeiros, até prova em contrário. Em outras palavras, a fé pública é verdade, confiança ou autoridade que a lei atribui aos notários (e outros agentes públicos) no que concerne à verificação ou atestação de fatos, atos e contratos ocorridos ou produzidos em sua presença ou com sua participação.

A fé pública é de suma importância, pois confere validade e segurança jurídica ao negócio jurídico. As contestações contra os instrumentos públicos só podem ser realizadas pela via judicial. Nenhum instrumento público pode ser considerado nulo ou inválido sem que passe pelo processo judicial que comprove isso.

No entendimento de Loureiro (2016, p. 134):

Por força desse princípio, os instrumentos públicos notariais somente podem ser tachados de nulos ou falsos após um procedimento judicial que assim o declare. A nosso ver, em tais demandas o notário que autenticou o fato ou outorgou o documento deve ocupar o polo passivo a ação, já que tem interesse em defender a legalidade de seu ato e evitar responsabilização por perdas e danos.

Portanto, conclui-se que a fé pública conferida ao Notário pelo Estado tem como principal finalidade trazer autenticidade e certeza jurídica ao ato ou negócio realizado entre as partes, afastando assim qualquer insegurança jurídica que futuramente possa criar litígios e conflitos entre os mesmos.

2.3.4 Princípio da Legalidade ou do controle da legalidade

No que toca ao princípio da legalidade, significa dizer que o Tabelião deve em todos os seus atos agir conforme a lei determina, zelando e cumprindo-a rigorosamente no exercício da sua atividade.

Loureiro (2016, p. 134) afirma: “o princípio da legalidade é uma das bases da função notarial e sua interação com a vida econômica e social da comunidade em que se insere

o notário. Aos notários, como agentes estatais responsáveis pela segurança, validade e eficácia dos negócios jurídicos, incumbe a observância das leis.”

O tabelião deve cumprir o que a lei Notarial e as demais leis esparsas estabelecem, mas cabe ressaltar aqui que o tabelião tem o papel de atuar como um intérprete dessas leis, auxiliando as partes a alcançar o fim desejado, e instrumentalizando o ato desejado. Ferreira e Rodrigues (2020, p. 34 e 35) explicam:

A forma dos atos é de responsabilidade do tabelião, profissional do direito com competência e autonomia (art. 3º) para escolher o instrumento adequado dentre aqueles previstos no art. 7º da Lei nº 8.935/1994. Mesmo vinculado ao princípio da legalidade, o tabelião tem ampla discricionariedade para a escolha da forma mais adequada (art. 6º, II) de instrumentalizar.

Nessa toada, conclui-se que este princípio tem grande aplicação na atividade notarial e registral, nas palavras de Loureiro (2020, p. 137):

Em suma a legalidade não é apenas o controle formal dos atos e negócios jurídicos, mas também o cumprimento das funções que o notário executa em nome do Estado e por delegação de sua autoridade, cada vez mais numerosa com o progresso e complexidade das relações sociais. Nesse sentido, a visão mais atual do princípio da legalidade se identifica com a ação dos agentes estatais não apenas com o cumprimento da norma como limite, senão com o desenvolvimento de atividades de qualificação e interpretação normativa, e que se verificam pelas múltiplas ações que têm como finalidade a efetiva realização da lei.

Observa-se, portanto, que o princípio da legalidade não só disciplina legalmente os atos que os tabeliães e os oficiais de registro fazem, como também mostram as orientações legais quanto à prática da atividade.

2.3.5 Princípio da Unicidade do Ato

Este princípio notarial trata da instrumentalidade do ato, visto que o documento notarial deve ser elaborado, sem interrupção. No que diz respeito à elaboração do documento, sua leitura, assinaturas e encerramento. Na prática, há grande divergência quanto a este princípio, nas palavras de Ferreira e Rodrigues:

O mais controvertido dos princípios notariais é o da unicidade formal do ato. De acordo com ele, o ato notarial deve ter uma unidade de contexto, de tempo e de lugar. O atendimento do tabelião se inicia com a audiência notarial e prossegue com um encadeamento de procedimentos, visando o fim jurídico proposto. A realidade cotidiana da atividade notarial demonstra justamente o oposto da unidade do ato, ao menos quanto ao tempo. A audiência é um primeiro contato, de aconselhamento, de esclarecimento de dúvidas e de conhecimento da lei e dos efeitos que decorrerão do ato ou negócio jurídico. A ela segue um ritual de confirmação que, para muitos, pode prolongar-se por dias, ou até mesmo meses. (2020, p. 67)

Em síntese, este princípio deve ser compreendido de forma que o ato é unitário, pois aquilo que o tabelião irá informar deve acontecer em apenas um instrumento.

2.3.6 Princípio da Indivisibilidade da Função Notarial

Este princípio traz a ideia de alguns juristas, que mostra que o notário exerce uma função que é composta por atividades de direito privado e de direito público, como nos explica Loureiro (2016, p. 134):

O notário exerce uma função composta por elementos típicos de direito privado e de direito público, de tal forma justapostos e conexos que não é possível cindi-los ou separá-los. E é justamente essa justaposição de elementos que demonstra que o notário não é simplesmente um profissional do direito ou agente público, mas uma mescla dessas duas atividades: ele exerce uma função eclética ou mista.

A jurisprudência trouxe uma ampliação com relação ao conceito da natureza da função notarial, conferindo-lhe uma natureza hibrida. Loureiro explica acerca do núcleo da função notarial, constituído pela escritura pública o que mostra mescla das funções:

O núcleo da função notarial, constituído pela escritura pública, tem natureza complexa, uma vez que é formado por uma série de elementos públicos – como a fé pública e o controle de legalidade – e privados, como o conselho e adequação, com a evidente preeminência dos primeiros. Esses elementos não se encontram justapostos e sim se entrecruzam continuamente. A fé pública, com efeito, deve se adequar à natureza das realidades às quais é aplicada. Se as declarações de vontade fossem tratadas na escritura como uma realidade física, estar-se-ia cometendo uma inexatidão, porque a vontade que os outorgantes declaram ao notário se apresenta, muitas vezes, como uma vontade deformada, errônea, incompleta ou mesmo ilegal. [...] Ademais, como resulta patente do que foi exposto, o notário não só redige a escritura pública, como, para tanto, exerce a qualificação em todas as fases necessárias para formalização jurídica da vontade dos particulares. E, ao autorizar a escritura, com a aposição do seu sinal público, o notário também lhe confere autenticidade e veracidade. Vale dizer, além da atuação de um jurista privado, verifica-se a atuação de um agente público, de uma autoridade a quem o Estado delega fé pública mediante a qual aquilo que por ele é afirmado no documento deve ser crido e observado pela comunidade e pelos órgãos públicos. (2016, p. 140) Resta claro que tanto a lei, assim como a jurisprudência e inclusive a doutrina, apontam o tabelião como um profissional do direito e um agente público, e os elementos que integram essa função se cruzam sendo impossível analisá-los de forma separada, tornando clara a indivisibilidade dessa função.

Postas as bases dos Registros Públicos e dos Notários, no próximo capítulo, tratar-se-á acerca da teoria geral da prova no processo, para, à frente, promover o estudo relativo à ata notarial como meio de prova no processo civil brasileiro.

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