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PRINCÍPIOS PROCESSUAIS DO TRABALHO

No documento A oralidade no processo do trabalho (páginas 47-52)

5.1 Princípios da oralidade, imediação e consectuários

Poder-se-ia ter incluído este princípio no capítulo anterior, destinado aos princípios de processo em geral, mas, em virtude do analisado nesse trabalho, inclui-lo-emos dentro dos princípios processuais do trabalho, esfera em que a oralidade se manifesta de maneira, pelo menos, mais proeminente.142

Na antiguidade, em especial no direito romano (ver-se-á com maior profundida o tema do ponto de vista histórico em capitulo específico, vide cap. 11) , sem dúvida tratava- se da prova de maior importante, muito em virtude da inexistência de outro tipo de fonte prova que não fosse a pessoa por meio de sua fala.143

A oralidade instituída na CLT em 1943 é mero reflexo da concepção inicial de processo oral pelo CPC/39, influenciado em grande parte pelas ideias e obra de CHIOVENDA.144 Todavia, a sedimentação da legislação laboral no brasil elevou à oralidade a patamares superiores aos instaurados pelo CPC/39. Na prática, as diferenças são contrastantes até os dias de hoje, especialmente em razão dos costumes tipicamente de

142 Contrariamente ao reconhecimento de independência de princípios processuais laborais: RAMALHO,

Mária do Rosário Palma. Op. cit.. in RAMALHO, Mária do Rosário Palma; e MOREIRA, Teresa Coelho (coord.). O novo Código de Processo Civil e o Processo do Trabalho – Estudos APODIT 2, p. 22.

143 “Los hechos se ‘conocían’ pues em essas primeras épocas por los relatos o narraciones más o menos fieles

que se transmitían oralmente de persona em persona, cuya existencia así em um certo momento se confundia casi com la propia narración: el hecho existía por la narracióon que de éste hacían otros individuos, y em tanto ella se verificara. La experiencia judicial no podía quedar al margen de este singular fenómeno, por lo que las declaraciones de terceiros terminaron por ser admitidas para la ‘reconstrucción’ de aquellos hechos llamados a constituirse em objeto de la prueba em los procesos judiciales, debido ello fundamentalmente a la común credibilidade em la palavra del hombre y al desconocimiento de la escritura que, para esse entonces, era patrimonio, em todo caso, de unos pocos. [...] No debe perderse de vista, además, que los conflictos intersubjetivos se daban usualmente dentro de grupos o comunidades de reducidas proporciones, inspiradas em pocas y sencillas costumbres, impregnadas, a su vez, de uma fuerta coloración mística, que apuntabalan ciertamente la confiabilidade em la palavra del hombre, y em éste, el temor a Dios o a uma divindade omnipresente.” in KIELMANOVICH, Jorge L.. Op. cit., p. 192.

144 SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. O princípio da oralidade no processo do trabalho. Diário das Leis Trabalhistas,

um processo oral mantidos pela Justiça do Trabalho brasileira.145

A grande influência criada por CHIOVENDA é visível no procedimento processual laboral até os dias de hoje: busca-se celeridade, simplicidade, economia, pragmaticidade da justiça e maior encontro da verdade real com a que estabelecem os autos.

O processo do trabalho brasileiro, moldado aos princípios de CHIOVENDA, tem por bases principiológicas: (1) prevalência da palavra como meio de expressão; (2) imediação da relação entre o juiz as pessoas cujas declarações deva apreciar; (3) identidade das pessoas físicas que constituem o juiz imbuído do litígio; (4) concentração do conhecimento da causa num único debate a desenvolver-se em uma audiência ou em poucas audiências contíguas; e, finalmente, (5) irrecorribilidade das decisões interlocutórias.146

Tais características peculiares a um processo genuinamente oral não eliminam a escrita dos autos da demanda, tampouco é esta a proposição – não significa que a escrita, particularmente os atos postulatórios das partes, ou as provas documentais, sejam absolutamente desimportantes (ou inexistentes). Em princípio, ao modelo previsto pelo jurista italiano, o objetivo era atingir maior rapidez na prestação jurisdicional, e, por isto, admitiram-se algumas concessões com possíveis inseguranças do ponto de vista jurídico.147

Parte expressiva da base ideológica para formação de um processo predominantemente oral foi atendida pelas legislações brasileira e portuguesa.

Em processo laboral brasileiro, há a concentração de atos em um único momento (ao menos a princípio), a audiência de instrução e julgamento148, as decisões interlocutórias são irrecorríveis de plano e autonomamente149, há imediatidade no contato do juiz com partes e testemunhas e, sem dúvida, como ver-se-á adiante neste

145 RUSSOMANO, Mozart Víctor. Direito Processual do Trabalho, p. 122.

146 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil – volume III, p. 68.

147 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Elementos do direito processual do trabalho: com as modificações

decorrentes da aplicação subsidiária do novo código de processo civil, p.98.

148 Art. 843 - Na audiência de julgamento deverão estar presentes o reclamante e o reclamado,

independentemente do comparecimento de seus representantes salvo, nos casos de Reclamatórias Plúrimas ou Ações de Cumprimento, quando os empregados poderão fazer-se representar pelo Sindicato de sua categoria.

149 Art. 893 - Das decisões são admissíveis os seguintes recursos:

§ 1º - Os incidentes do processo são resolvidos pelo próprio juízo ou Tribunal, admitindo-se a apreciação do merecimento das decisões interlocutórias somente em recursos da decisão definitiva.

estudo, prevalência da palavra ao escrito.150

No processo do trabalho português, há a concentração dos atos em poucas audiências próximas (art. 53 do CPT), a imediação do juiz com as partes e as testemunhas (artigos 53, nº. 3, 68 e 70 do CPT), bem como a identidade física do juiz que procede a coleta da prova com aquele que decide a respeito da matéria de fato (art. 73 do CPT). 151

O princípio da oralidade, contudo, igualmente deve ser analisado sob um perfil valorativo, posto que assume “o modo de imediação na recepção da prova” (como visto por CAPPELETTI152). Ou seja, o princípio da imediação, consecutário da oralidade, possui relevância para a avaliação posterior do produto dos meios de prova utilizados no litígio. A presença do julgador diante das partes e das testemunhas, na coleta da prova oral, terá inegável influência em seu íntimo.153 É um relevante consectário da imediação.

5.2 Princípio da celeridade e simplicidade

A concretização de direitos sociais de maneira eficaz torna, muito provavelmente, a celeridade como principal característica (ou, pelo menos, a meta ideal) dos sistemas processuais laborais. Justifica-se, também, maior vigor no andamento do processo do trabalho pela própria necessidade de paz social decorrente da solução destas espécies de litígios.154

O processo declarativo laboral português, bem como acontece no Brasil, preza pela marcha processual mais acelerada, o que se denota dos prazos menores dos que os previstos para o processo civil (por sinal, o CPC/15 dilatou consideravelmente os prazos das partes, tomando como regra o interstício de quinze dias), indicação das provas com os articulados, possibilidade de realização das alegações de fato e de direito na audiência preliminar e a possibilidade de proferimento de sentença imediatamente após a

150 SCHIAVI, Mauro. Manual de direito processual do trabalho, p. 137.

151 ALEXANDRE, Isabel. Princípios gerais do processo do trabalho. in MARTINEZ, Pedro Romano (coord.).

Estudos do Instituto de Direito do Trabalho – Vol. III, p. 414.

152 CARDOSO, Luciane. Prova testemunhal, p. 51. 153 Ibidem, p. 52.

154 ALEXANDRE, Isabel. Op. cit.. in MARTINEZ, Pedro Romano (coord.). Estudos do Instituto de Direito do

realização da instrução.155

5.3 Princípio da conciliação

O processo do trabalho, sob um prisma de justiça pacificadora como exposto por RAÚL VENTURA, tem como princípio fundamental à busca ao ato conciliatório entre as partes, antagonizando um sistema mais adversarial tipicamente processual civil. Inquestionavelmente procura-se com maior intensidade a conciliação em âmbito laboral, impulsionada pela presença física das partes em audiência e da imediação do juiz incumbido do litígio.156 A própria história da Justiça do Trabalho no Brasil teve início em órgão não jurisdicional que buscava a resolução de conflitos por meio da conciliação.157

As marcas deste princípio estão visivelmente presentes no processo do trabalho brasileiro (notadamente no art. 764 da CLT)158 e português.

Em ambos, incumbe ao juiz a obrigação legal de resolver a demanda através de composição entre as partes (curiosamente, em momentos processuais semelhantes): na audiência inicial entre as partes e na audiência final. No caso português, após o recebimento da petição inicial na primeira audiência (art. 55º, nº. 2, do CPT) e ao início da audiência final (art. 70, nº. 1, do CPT)159; no caso brasileiro, antes do recebimento da contestação (ou seja, também após a petição inicial e em primeira audiência, conforme art. 846 da CLT160) e após o término da instrução probatória na audiência de prosseguimento (art. 850161), embora, por costume, tente-se a conciliação ao início desta última audiência.162

155 VASCONCELOS, Joana. Direito processual do trabalho, p. 15. 156 VASCONCELOS, Joana. Direito processual do trabalho, p. 17. 157 SCHIAVI, Mauro. Manual de direito processual do trabalho, p. 132.

158 Art. 764 - Os dissídios individuais ou coletivos submetidos à apreciação da Justiça do Trabalho serão

sempre sujeitos à conciliação.

§ 1º - Para os efeitos deste artigo, os juízes e Tribunais do Trabalho empregarão sempre os seus bons ofícios e persuasão no sentido de uma solução conciliatória dos conflitos.

159 VASCONCELOS, Joana. Op. cit., p. 18.

160 Art. 846 - Aberta a audiência, o juiz ou presidente proporá a conciliação.

161 Art. 850 - Terminada a instrução, poderão as partes aduzir razões finais, em prazo não excedente de 10

(dez) minutos para cada uma. Em seguida, o juiz ou presidente renovará a proposta de conciliação, e não se realizando esta, será proferida a decisão.

5.4 Princípio da igualdade real das partes (ou princípio protetivo)

Diz-se que, diferentemente do processo civil, o processo do trabalho contém natural disparidade dentre as partes que comporão a demanda: o empregado e o empregador. No processo civil, ao invés, essa disparidade mostra-se apenas eventual. Mas, no litígio entre consumidor e fornecedor, posto que civil, o primeiro será considerado hipossuficiente.

Em relação a esse ponto, autorizam-se alguns aspectos que diferenciam o processo laboral em Portugal: o patrocínio do trabalhador pelo Ministério Público; modificação da competência internacional; regulamentação especial de desistências e transações; autorização do julgamento ultra petita quando necessário, etc.163 Procura-se, portanto, contrabalancear a natural desigualdade das partes da relação laboral com normas específicas que garantam ao trabalhador o acesso à justiça necessário. Opera-se o tratamento desigual para os desiguais.164

5.5 Princípio inquisitório

Abordou-se com maior profundidade a contraposição do princípio dispositivo ao princípio inquisitório no processo laboral no ponto 3.2 do presente estudo, ao qual remete-se.

Impõe-se esclarecer, é claro, que não há sistema processual puramente inquisitório ou à disposição das partes. Alguns aspectos destacadamente inquisitórios têm maior predominância no processo do trabalho, justamente em tentativa de contrabalancear a natureza desigual da relação laboral. Assim, enquanto no processo civil, com maior paridade de armas, as partes tendem a assumir protagonismo em virtude da disposição dos institutos e movimentação do processo em seu favor, o processo do trabalho traz características mais inquisitórias, incumbindo ao juiz maior protagonismo na relação

163 ALEXANDRE, Isabel. Op. cit.. in MARTINEZ, Pedro Romano (coord.). Estudos do Instituto de Direito do

Trabalho – Vol. III, p. 397.

processual formada. Verdade que, no processo civil, o juiz também exerce a direção formal e material do processo e, no âmbito do processo brasileiro, cabe-lhe inclusive dilatar prazos peremptórios. Mas, ainda assim, o processo trabalhista o princípio é mais agudo e, principalmente, mais empregado.

Tanto no Brasil como em Portugal, em síntese, o processo do trabalho agasalha vasta gama de poderes ao juiz (v.b. artigos 27, 49, nº. 3, 54, nº. 1, 72, nº. 1, e 74 do CPT, bem como art. 765 da CLT).165

No documento A oralidade no processo do trabalho (páginas 47-52)