III b - Púlpito de balcão sobre consolo
Tipo 1: Prisma de base poligonal não retangular
1a - sobre mísula de superfície côncava.
25 - Igreja de Nossa Senhora de Dornes, em Ferreira do Zézere, Santarém.
26 - Igreja de São João Batista, em Tomar, Santarém.
27- Púlpito atualmente no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto.
Este tipo se caracteriza pelo tambor em forma de prisma cuja base é um polígono de mais de quatro lados, quase sempre um octógono, quando apoiados sobre coluna, e de meio octógono, quando engastados às paredes ou pilares da igreja. Apenas dois dos exemplares listados têm planta hexagonal.
O guarda-corpo pode ter faces cegas, lisas ou com simples relevos geométricos; ou serem ornamentadas ora por folhas de cardo estilizadas como no púlpito da Igreja de São João Batista em Tomar (Fig.26); ora por símbolos nacionais como o escudo da monarquia portuguesa e a Cruz da Ordem de Cristo conforme se vê na Igreja Paroquial de Nossa Senhora de Dornes em Ferreira do Zézere, Santarém (Fig.25); ora ainda por decoração superficial no estilo plateresco como no púlpito hoje depositado no Museu Nacional Soares dos Reis, na cidade do Porto (Fig.27).
Quer sejam púlpitos de pé ou de balcão, um leque de superfícies côncavas, semelhantes ao arranque de abóbadas ogivais, complementa a bacia do piso fazendo a
38 concordância entre as faces do guarda-corpo e o suporte da bacia.
O uso deste tipo predominou na primeira metade do século XVI. Dois exemplares do século XVII, um de 1656 na Igreja de São Mamede em Évora e outro na Capela de São Mamede em Anadia, Aveiro, constituem exceções construídas quando já prevalecia outro gosto e outras concepções formais.
1b - sobre apoio de formas clássicas e superfícies laterais cegas.
28 - Mosteiro de São Marcos, em Coimbra.
29 - Igreja da Santa Cruz, em Santarém.
A variedade 1b do púlpito em forma de prisma de base poligonal, não retangular, difere da variedade 1a por não apresentar as superfícies côncavas que no primeiro caso faziam a concordância entre as faces do tambor e o seu apoio inferior.
A volumetria geral ainda é a de um prisma de base octogonal, ou de meio-octógono, característico do púlpito gótico, porém o pé dos púlpitos de cálice toma a forma de colunas clássicas, ou de balaústres, e entre este e o fundo da bacia se dispõem volumes que
39 gradativamente fazem a transição entre o diâmetro da coluna e o diâmetro do tambor. No tratamento das superfícies, o rendilhado do cardo florido, os motivos náuticos, animais e brasões do Tipo 1a, cedem lugar à representação de fitas, vasos de flores, cartelas, medalhões e arabescos realizados em delicados baixo-relevos de características renascentistas trazidas por mestres franceses e espanhóis que no início do século XVI trabalhavam em Portugal.
Grande parte dos púlpitos desta categoria poderia, pois, ser entendidos como exemplos de transição estilística entre o período gótico, do qual mantêm em parte a volumetria, e o renascentista, do qual já utilizam o vocabulário decorativo.
Entre os púlpitos o Tipo 1b, destaca-se o púlpito da Igreja do Mosteiro da Santa Cruz em Coimbra (Fig.30), de cerca de 1522. Tem guarda-corpo prismático sobre uma bacia circular arrematada inferiormente por um volume piramidal que repete o número de faces do parapeito e termina na representação de um fantástico dragão ou hidra de cinco cabeças. A sua alta qualidade escultórica levou o Professor Reynaldo dos Santos a atribuí-lo ao Nicolau de Chanterene, autor comprovado de diversas outras esculturas nesta mesma igreja. Mas a
40 fantasia exuberante e a intrincada acumulação de referências às sibilas da antiguidade clássica, aos profetas e reis do antigo testamento presentes no púlpito da Santa Cruz não se repetem nos demais púlpitos desta categoria que são de fato mais simples em sua configuração e nos quais é mais evidente a estrutura geométrica de sua forma, mesmo quando dotados de relevos figurativos.
1c - sobre apoio de formas clássicas e superfícies laterais vazadas.
A ocorrência de púlpitos do tipo 1c foi registrada exclusivamente no distrito de Portalegre, em Portugal. Na cidade de Elvas, que detém a maioria dos exemplares identificados, destaca-se o da Igreja do Convento das Dominicanas de Elvas, Portalegre, a atestar, pelo seu guarda-corpo realizado em ferro forjado, o alto nível técnico e artístico alcançado pelos serralheiros da região no final do século XVII e início do seguinte (Fig.31 e 32).
Púlpitos do Tipo1 no Brasil.
Os púlpitos de Tipo 1a inexistem no Brasil e os do Tipo1b são na maioria, recentes.
Quando se inicia a efetiva ocupação da colônia, os padrões góticos e renascentistas, aos quais estes tipos estavam associados em Portugal, já começavam a serem suplantados pelos modelos proto-barrocos ou maneiristas. Assim, ou por não terem sido construídos, ou por não se haverem conservado, poucos são os exemplares encontrados em terras brasileiras, como aquele do refeitório do convento de Santa Teresa, atual Museu de Arte Sacra em Salvador (Fig.33), com torçais gravados nas faces do guarda-corpo, que poderão ser vinculados aos modelos medievais ou renascentistas portugueses.
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33 – Refeitório do Convento de Santa Teresa. 34 – Igreja Basílica de Nossa Senhora da Salvador, Bahia. Conceição de Praia. Salvador, Bahia.
Os demais púlpitos brasileiros de Tipo 1b são encontrados em igrejas construídas após a segunda metade do século XVIII, quando a exuberância da talha barroca cede lugar a simplificação prenunciadora do neoclássico, como se vê na Igreja Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia em Salvador, Bahia (34), e na Igreja da Madre de Deus em Vigia, Pará, sendo este último possivelmente muito posterior à época de construção da igreja. A maioria deles localiza-se porém em igrejas construídas por volta do final do século XIX e início do seguinte, filiadas à corrente historicista que vigorou na arquitetura religiosa de toda Europa desta época. Os púlpitos então se adequaram às referências aos estilos românico, bizantino, lombardo, etc., dos edifícios. Se do ponto de vista da forma os púlpitos
portugueses e brasileiros dessa categoria podem ser classificados juntos, não pertecem porém ao mesmo contexto cultural. Esta diferença se faz sentir pela simplicidade dos mais antigos, dos séculos XV e XVI, em contradição com a imponência dos mais recentes tais como o par de púlpitos do Mosteiro de São Bento em São Paulo, São Paulo, e os da Matriz de Santa Efigênia, os da matriz de Santa Cecília e outros na mesma cidade de São Paulo, todos de madeira envernizada em tons escuros.
Entre os púlpitos de tipo 1b no Brasil, merece menção a solução inusitada do curioso púlpito octogonal móvel, de pés compostos por barras de ferro em forma de S, localizado na
42 Igreja de Nossa Senhora do Desterro em São Luís, Maranhão (Fig.35). É um exemplar
desvinculado de qualquer tendência estilística identificável, presumivelmente uma invenção original, ainda que tosca, de algum habilidoso artífice local.
35 - Igreja de Nossa Senhora do Desterro. 36 - Igreja Matriz de Furquim.
São Luís, Maranhão. Mariana, Minas Gerais.
As fontes consultadas não indicaram púlpitos do período eclético em Portugal. Custa crer que não existam, principalmente porque o ecletismo historicista difundiu-se por toda parte na passagem do século XIX para o XX. Só a realização de estudos posteriores permitira uma afirmação segura.
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