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Prisma de base retangular e superfícies laterais vazadas

No documento O Púlpito Luso-brasileiro. (páginas 49-57)

Tipo 2c: Cilindro de superfície lateral cega

Tipo 4: Prisma de base retangular e superfícies laterais vazadas

O tipo 4 dos púlpitos lusos e brasileiros se define, portanto como sendo dotado de bacia retangular e guarda-corpo formado por uma varanda vazada.

As soluções plásticas para se obter o vazamento da superfície lateral do guarda-corpo também são variadas, e isso, mais do que a variação do apoio, tem profunda interferência na configuração perceptiva final do púlpito, conduzindo ao estabelecimento de cinco subtipos abaixo listados, e descritos nas paginas seguintes deste texto.

Tipo 4a - guarda-corpo reduzido a peitoril e cunhais;

Tipo 4b - guarda-corpo de balaústres ou pilaretes clássicos;

Tipo 4c - guarda-corpo por balaústres de madeira torneada;

Tipo 4d - guarda-corpo composto de serralharia;

Tipo 4e - guarda-corpo composto por painéis com recortes.

Os elementos de apoio destes púlpitos também apresentam variações, tais como terem a bacia em balanço simplesmente engastada à parede por um de seus lados (a); a bacia sobre cachorros, isto é, sobre barrotes horizontais também engastados à parede adjacente (b); a bacia apoiada por um ou dois modilhões (c); ou a bacia apoiada em mísula piramidal invertida (d).

50 Tipo 4a - guarda-corpo reduzido a peitoril e cunhais.

Este tipo compreende os púlpitos mais singelos, aqueles reduzidos aos elementos essenciais da imagem e do atendimento às funções que demandaram sua construção: um plano elevado e a proteção de um parapeito.

Uma plataforma de tábuas apoiadas sobre um par de cachorros horizontais, um par de cunhais nos cantos externos, um peitoril definido por caibros apoiados ao topo dos cunhais e engastados na parede que sustenta o conjunto: esta é a estrutura básica que está oculta sob o revestimento de talha de todo púlpito que não tem bacia de pedra. Deixá-la aparente pode ser atribuído à pobreza das pequenas capelas dos sertões de Goiás e de Minas Gerais, onde se localizam os exemplares registrados nesta pesquisa. Entretanto não se deve ignorar a sua perfeita coerência formal com a arquitetura dessas igrejas de taipa contida em gaiolas de madeira que, pintadas de cor diferente, desenham o plano das fachadas, ou permanecem visíveis nas sineiras externas, nos alpendres, nas naves sem forro e na estrutura e balaustradas do coro. Excelente exemplo desta harmonia sem artifícios decorativos é o interior e o púlpito da Igreja de Nossa Senhora das Mercês em Pilar de Goiás, em Goiás (Fig.48).

Não se registrou nesta pesquisa, qualquer exemplar do tipo 4a em Portugal.

48 - Igreja de Na. Sa. das Mercês. Pilar de Goiás

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Tipo 4b - com guarda-corpo de balaústres ou pilaretes clássicos.

49- Igreja de São Brás, da Romeira, Santarém.

50 - Capela de Nossa Senhora da Conceição, de Monforte, Portalegre.

51 - Igreja de Marvila, em Santarém.

Desde meados do século XVII, o púlpito de balcão de planta retangular se fixa como forma predominante, mas não exclusiva, em todo território de Portugal e suas colônias. De início, os guarda-corpos são compostos por balaústres de pedra do tipo semelhante aos dos púlpitos circulares que lhe são contemporâneos.

O suporte inferior da bacia desses púlpitos quando instalados como balcão são constituídos por modilhões, isto é, peças em forma de “s” disposto na posição horizontal que apoiava a projeção do beiral dos telhados, na antiguidade greco-romana.

Em Santarém, uma série de púlpitos tem balaústres em forma de colunas ou pilares jônicos e coríntios em tamanho reduzido. O púlpito da Igreja de Marvila, nessa mesma cidade (Fig.51), além disso, tem por suporte uma coluna jônica da qual só é visível o terço superior, sendo os dois terços inferiores do apoio, um toro circular com decoração vegetal em baixo relevo e, abaixo deste, um soco de secção quadrada. Todo ele constitui, pois, um exemplo de concepção formal inusitada a esperar um estudo específico que indique as razões de tal originalidade.

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52 - Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. 53 - Detalhe do cunhal.

Sabará, Minas Gerais.

A presente pesquisa registrou poucos exemplares deste tipo, em terras brasileiras. O mais belo deles pode ser visto na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Sabará, Minas Gerais (Fig.52 e 53). Os balaústres fusiformes, simétricos também em relação a um eixo horizontal à maneira dos empregados no renascimento italiano ao tempo de Rafael Sanzio, o recorte de volutas vegetais que lhe servem de apoio como mãos-francesas, bem como toda a leveza do conjunto a aparentar mesmo alguma fragilidade estrutural, revelam a erudição de seu autor e um gosto já arcaico quando foi construído, atestado pelas sensuais sereias a ornamentarem seus cunhais em desrespeito explícito às normas tridentinas que baniam do interior das igrejas os temas mitológicos. O da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Brotas em Salvador, Bahia (Fig.54), tem uma composição mais severa cujo volume prismático é realçado pelo fundo plano de sua bacia, pelos cunhais de secção retangular e parapeito de molduras horizontais enquadrando robustos balaústres simétricos apenas segundo o eixo vertical.

Por último, o púlpito da Capela de São João Batista do Arraial do Ferreiro, em Goiás (Fig.55), também tem balaústres desenhados à moda clássica porém sem a erudição

53 demonstrada pelos dois exemplos anteriores aqui citados.

54 - Igreja de Nossa Senhora das Brotas. 55 - Igreja de São João Batista.

Salvador, Bahia. Arraial do Ferreiro, Goiás.

Tipo 4c - com guarda-corpo de balaústres de madeira torneada.

Nos púlpitos do Tipo 4c, o balaústre de aparência italianizada do Tipo 4b cede lugar ao uso de peças de madeira torneada aparentando pilhas verticais de discos lenticulares de diâmetros variados (denominados “bolachas”) ou esculpida como um feixe de cordões torcidos em torno do eixo vertical. Isso portanto define o tipo 4c : bacia de pedra retangular e grade de madeira torneada em bolachas ou esculpida em torcidos.

O mesmo tipo de guarda-corpo também foi registrado em três exemplares cujas plantas adotam excepcionalmente a forma circular ou hexagonal (1) Optou-se por classificá-los nesta categoria (4c) em razão do efeito perceptivo de seus balaústres predominar sobre o do traçado da planta.

Em ambos os lados do Atlântico, utilizava-se a madeira escura do Brasil para a confecção dessas grades de bolachas, que contrastavam com o branco de cal das paredes ou com brilho dos azulejos azuis e brancos. Nos púlpitos mais requintados, os pilares de canto (cunhais) e o peitoril horizontal, de secção retangular, recebiam nas faces planas

54 incrustações de materiais nobres como madrepérola e metais dourados realçados contra o fundo quase negro do jacarandá, castanho avermelhado do mogno, etc.

Poucos desses púlpitos Tipo 4c são púlpitos de pé. Predominam os púlpitos de balcão com variadas formas de apoio e de tratamento dos volumes abaixo da plataforma útil do púlpito; as quais, fazendo-se a abstração dos ornamentos e desenho particular de cada peça, podem ser resumidas em três opções mecânicas e formais comuns a determinados grupos, quais sejam:

Variante 1- bacia simplesmente engastada à parede;

Variante 2 - bacia sobre mísula piramidal invertida;

Variante 3 - consolo sobre um ou dois modilhões.

4c - Variante de apoio 1.

56 - Igreja de Nossa Senhora da Conceição. 57 - Igreja dos Santos Cosme e Damião.

Vila Velha de Itamaracá. Pernambuco. Igaraçú, Pernambuco.

A primeira variante é modelo mais comumente encontrado por toda parte. Serve-lhe de exemplo o par de púlpitos da Igreja do Convento de Santa Teresa, atual Museu de Arte Sacra da Bahia, e o da Ermida de Nossa Senhora do Monte Serrat (Fig.19), todos em Salvador, Bahia. Cada qual deles tem a bacia apoiada por um único consolo horizontal em forma de modilhão. Em Igaraçú, Pernambuco, a Igreja dos Santos Cosme e Damião ostenta um par de púlpitos do mesmo tipo, porém com bacia de pedra

55 arrematada por pendente de secção quadrada, semelhante a um coruchéu invertido (Fig.57). Perto dali, em Vila Velha de Itamaracá, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição restam a bacia e o consolo de um púlpito, assemelhados aos dos exemplares baianos, ao qual, porém falta o guarda-corpo, o que impede classificá-lo com segurança.

(Fig.56).

4c - Variante de apoio 2.

58 59 60 8 - Igreja de São Miguel Arcanjo, em Vagos, Aveiro.

59 - Igreja de Santa Eulália, em Aguada de Cima. Águeda, Aveiro.

60 - Detalhe da mísula alongada do mesmo púlpito.

A segunda variante tem bacia sobre mísula alongada composta de três corpos e é característica da região e cidade de Aveiro. Ao que parece não se registra sua ocorrência em outras regiões portuguesas. Surpreendentemente há, no atual estado brasileiro de Sergipe, outro conjunto de púlpitos entre os quais cabe citar o da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Comandaroba (Fig.24), e o da Igreja Matriz de Santo Amaro das Brotas (Fig.23), que apresentam também essa solução do apoio em mísula de três peças superpostas, inexistente em outras partes do Brasil. Atualmente esses púlpitos sergipanos apresentam guarda-corpo fechado por painéis de tábuas planas

56 aparentemente de confecção recente. Uma investigação mais profunda do que foi possível no prazo dado ao presente estudo poderá vir a esclarecer se esses púlpitos, como os de Aveiro, tiveram guarda corpo de madeira torneada. Entretanto no estágio atual dos estudos sobre os púlpitos luso-brasileiros nada autoriza a ver aqui mais do que uma coincidência a exigir uma posterior investigação que negue ou confirme uma relação de parentesco, ou transmissão de influência entre Aveiro e Sergipe por via de religiosos ou artesões.

4c - Variante de apoio 3.

Na terceira variante, os púlpitos se apóiam em consolo sobre dois modilhões e demonstram, pela concepção geral e tratamento ornamental, o conhecimento erudito da arquitetura antiga, talvez por isto mesmo estejam tão bem representados no que resta dos púlpitos da Igreja do Colégio de S. Bento e do Colégio de São Pedro dos Religiosos Terceiros, ambos em Coimbra. A época e o local destes púlpitos, bem como a semelhança do tratamento plástico das suas peças remanescentes com outros exemplares que restaram intactos, levam a supor que seus guarda-corpos desaparecidos teriam sido de balaústres torneados como os do Tipo 4c. Trata-se, porém apenas de uma hipótese de difícil confirmação. Na Igreja paroquial de Arazede em Montemor-o-Velho, Coimbra;

o consolo de modilhões e a bacia retangular protegida por um guarda-corpo de bolachas estão intactos (Fig.61). O púlpito da Igreja da Misericórdia de João Pessoa, Paraíba, construída na primeira metade do século XVII, tem o mesmo tipo de apoio por modilhões clássicos; talvez tenha tido um guarda-corpo de bolachas ou tremidos, mas o que hoje lá está tem faces planas fechadas e é do século XIX (Fig.62).

61 - Igreja de Nossa Senhora do Pranto, 62 - Igreja da Misericórdia.

em Arazede. Montemor-o-Velho, Coimbra João Pessoa, Paraíba.

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