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Tal como o ser humano, um edifício não deverá “nascer” com patologias “curáveis” ou “crónicas”; porém, a tendência é de as ir adquirindo ao longo do processo de envelhecimento. Mas quando já as tem de raiz, conclui-se que é o resultado de um projecto e/ou construção mais descuidada; quando as vai adquirindo, observa-se o corolário do natural desgaste ou do mau uso. Em todo o caso, a sua verificação resulta numa efectiva diminuição da qualidade do desempenho para que um edifício foi

projectado e do respectivo tempo de vida útil expectável. O principal sintoma, ainda que muitas vezes se revele de forma reflexa, é o desconforto na vivência do espaço.

Cada patologia tem origens e causas.

As origens têm um carácter mais genérico/primário e têm a ver com:

- Planeamento e promoção da obra; - Projecto;

- A qualidade de construção; - Qualidade dos materiais; - Utilização.

Dão sustentação a estas origens, principalmente as que se prendem com o processo de construção, os seguintes aspectos:

“ - A complexidade crescente das construções; - As novas preocupações arquitectónicas; - A falta de sistematização do conhecimento; - A ausência de informação técnica;

- A inexistência de um sistema efectivo de responsabilidades, garantias e seguros; - A não qualificação profissional dos intervenientes no processo construtivo; - A inexistência de especialistas em física das construções na equipa de projecto; - A aplicação de novos materiais;

- A velocidade exigida ao processo de construção e os erros de execução inerentes.” [SOUSA, 2005]

As causas são aquelas que são induzidas ao longo da vida do edifício e que podem ou não potenciar e/ou consubstanciar a manifestação das origens das patologias; ou seja, podem ou não produzir efeitos conjuntos. São elas:

- Utilização contínua do edifício; - Acções acidentais;

2. O ESTADO DO CONHECIMENTO

Quadro 2 – Agentes naturais que afectam a vida de um edifício em serviço [ISO 15686-1, 1998]

NATUREZA CLASSE EXEMPLOS

Gravitação Sobrecarga de neve ou chuva Forças ou deformações impostas

ou restringidas

Formação, expansão e contracção de gelo, deslizamento e deslocamento de terras Energia cinética Impactos, tempestades de areia, acções

contínuas das águas Agentes

Mecânicos

Vibrações e ruídos Abertura de túneis, vibrações do tráfico e domésticas

Radiação Raios solares/UV, radiação radioactiva Electricidade Reacções electrolíticas, iluminação Agentes

Electromagnéticos

Magnetismo Campos magnéticos

Agentes Térmicos Níveis extremos ou rápidas

alterações de temperatura Calor, frio, choque térmico e fogo Águas e solventes Humidade do ar, água do terreno, álcool Agentes oxidantes Oxigénio, desinfectante, descolorantes Agentes redutores Sulfitos, amónia, agentes de combustão

Ácidos Ácidos carbónicos, excrementos de animais, outros ácidos

Bases Cal, hidróxidos, cimento

Sais Nitratos, fosfatos, cloretos, argamassa Agentes Químicos

Químicos neutros Calcário, gordura, óleo, tinta Vegetação, micro organismos Bactéria, bolor, fungo, raiz Agentes

Biológicos Seres vivos Roedores, térmitas, larvas, pássaros

Há ainda os denominados fenómenos de repatologia, que advêm de intervenções correctivas impensadas; como o próprio nome indica, estas são aquelas que surgem novamente, após uma intervenção.

Por este motivo, torna-se importante clarificar que, perante a necessidade de intervenção, em reacção a uma patologia – entendida como “ (…) uma resposta disfuncional a determinadas funções exigenciais (…)” [CALEJO RODRIGUES, 2001] –, é essencial que haja uma inspecção e um diagnóstico, tornando qualquer atitude consciente e consequente. Para tal, há que entender o funcionamento do sistema

Para que haja uma noção do tipo de patologias e repatologias que se verificam, apresenta-se na figura seguinte um gráfico que resultou de um estudo que se prolongou por vinte anos e que incidiu sobre 600 amostras.

38% 15% 12% 5% 17% 8% 5% M anifestações de humidade M anifestações com origem estrutural Desgaste e envelhecimento Outros Repatologias - M anifestações de humidade Repatologias - Desgaste e envelhecimento Repatologias - Outros

Figura 4 – Tipos de patologias mais frequentes [CALEJO RODRIGUES, 2001]

Numa perspectiva pessoal, acrescenta-se o entendimento de que nestes está muitas vezes implícita uma ausência de estratégia que tenha como mote a pergunta “para que serve este edifício e que expectativas materializa?”; Ou seja: as escolhas que a um projecto estão subjacentes não são devidamente ponderadas e consideradas para aquela situação, cuja justificação e flexibilidade de escolha deveriam residir na hierarquia resultante da definição dessa estratégia.

Esta não é, todavia, uma responsabilidade imputável, em exclusivo, à equipa de projectistas; o cliente deverá estar também ciente das implicações da sua vontade e decidir de acordo com esse conhecimento. Para tal, e mesmo aceitando o mais que provável surgimento de obstáculos, caberá a todas as partes interessadas “dissecar” as motivações em questão para, por um lado, evitar qualquer desapontamento e consecutivo uso “forçado” ou desajuste funcional que, por sua vez, contribuirá para o acentuar das manifestações patológicas (por motivos de rentabilização económica ou desconhecimento da forma correcta de o fazer); por outro, para promover uma sensibilização para o “porquê das coisas”.

2. O ESTADO DO CONHECIMENTO

As opções projectuais deverão, assim, considerar todos os factores relacionados com a necessidade de manutenção do suporte; estas deverão ser facilitadas, nomeadamente, com a garantia de segurança nos procedimentos previstos.

Outra realidade impossível de descurar é a que resulta da componente burocrática do processo de construção: a variedade, dispersão e fina teia de legislação aplicável dificultam a coordenação e compatibilização das várias especialidades intervenientes (decorrentes da referida crescente complexidade da construção), não facilitando a ponderação de outras soluções possíveis, quiçá mais adequadas.

Nos condomínios esta componente jurídica pouco objectiva tem tendência a dificultar o seu funcionamento, logo, qualquer intervenção necessária, por se tratar de património de “todos e de ninguém”, é, geralmente, inviável num espaço de tempo tido por razoável. Pela falta de responsabilização clara da postura de cada um, aquele que podia ser um processo simples deixa de o ser, permitindo o agravamento de qualquer fenómeno anormal à boa construção e relegando para segundo plano a qualidade do património.

Mas, para além destes factores de degradação que se podem considerar como induzidos, há os agentes naturais, da envolvente atmosférica, cujo controlo não é incumbido a nenhuma figura em concreto mas que pode ser da responsabilidade cívica e social de todos. Eles estão referidos no anexo D (que aqui se reproduz) da norma ISO 15686 -1 (por sua vez retirado da norma ISO 6241 – 1984).5

As escolhas projectuais deverão depender directamente da localização e respectiva exposição do edifício a estes factores tendencialmente mais agressivos.

A degradação pode ainda dar-se por acções acidentais, mas, devido à impossibilidade de previsão das mesmas (à excepção das já consideradas no cálculo estrutural), são apenas mencionadas.

Para prever e evitar a evolução de patologias diagnosticadas e, consequentemente, corrigi-las, os manuais de manutenção e de utilização são tidos como documentos cruciais para o bom desempenho do edifício. Refere-se ainda que, segundo o

Regulamento Geral das Edificações previsto, o manual de manutenção será até obrigatório.