7. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
7.1 Prática como componente curricular
7.1.4 Problemas e/ou dificuldades
No relato dos professores, notou-se uma tendência em justificar que há problemas e/ou dificuldades em entender e realizar o que é proposto como prática como componente curricular no projeto pedagógico, no processo de reestruturação curricular do curso.
Os problemas geralmente relativos à estrutura dos currículos dos cursos de licenciatura, passam a ser citados dentro da perspectiva de que deverão ser superados para adaptar o currículo às Diretrizes Curriculares Nacionais de formação de professores. Entre esses problemas temos a característica de toda uma estrutura hermética de currículo, em que os conhecimentos são tratados em blocos fechados, teóricos e práticos, em disciplinas que, por sua vez, deverão ser trabalhadas em um curso que promove a distinção entre teoria e prática. Distinção reforçada na composição do corpo docente que, por sua vez, também é contratado mediante as seguintes competências: teórica (pesquisadores) e práticas (professores). Tais docentes, em contrapartida, são formados em cursos de bacharelado no qual a competência teórica alcançada é demonstrada pelo exercício da pesquisa e de licenciatura no qual a ênfase é dada na competência pedagógica e prática. Nessa estrutura, predominam as disciplinas de cunho teórico, reservando à prática um espaço limitado, muitas vezes associado apenas ao estágio.
Então, no caso específico do curso de..., nós temos enfrentado uma série de dificuldades, no relacionamento com a prática, né?, na concepção dentro do, do projeto, porque as experiências anteriores, da qual nós partimos, são de relegar essa experiência para um segundo plano. De fato, a revisão do lugar da disciplina Prática de Ensino dentro do curso, veio como conseqüência muito mais de uma demanda dos alunos do que de uma demanda externa, por causa da da existência de uma informação diante das diretrizes. Talvez vale a pena fazer um pequeno esclarecimento, porque nós éramos uma licenciatura que não formava professores, porque não havia mercado de trabalho na docência em ..., só a partir da constituição desse mercado de trabalho que isso passa a se tornar um
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tema central dentro do curso, né? Então a nossa experiência é bastante nova em colocar no centro do curso a formação de docentes. Bom nesse sentido, é necessário que se coloque um comentário sobre a prática de ensino, ela tem se dado de maneira insuficiente, porque o grande pressuposto seria um contato mais estreito com o espaço de atuação nessa formação. (P 7 )
Construía-se um curso, no qual predominavam os conhecimentos específicos em detrimento dos conhecimentos de cunho pedagógico de formação de professores e, principalmente, do conhecimento da prática, em se tratando de uma licenciatura. Conseqüentemente, até no quadro de docentes nota-se um privilégio de bacharéis em relação aos licenciados. Fato que hoje, com a valorização da prática no curso de formação de professores, suscita o problema da falta de competência pedagógica e prática dos professores considerados especialistas.
Relatos como os abaixo transcritos denunciam essa estrutura de curso que se espera superar:
...então, às vezes o problema está um pouco nessa, onde o corpo docente está menos ligado a esta questão da prática de ensino, por tradição ou por competência mesmo, aí o discurso é meio difícil. (P 6)
Porque se a gente fizer um levantamento a gente vai ver que a maioria dos professores, são professores que vieram do bacharelado, ou são professores que trabalham no mercado de trabalho, então não tem um contato direto com a parte da licenciatura, exceto os professores da área da educação. (P 3)
Esse problema estrutural de currículo do curso de licenciatura, que ainda parece não ter sido superado, se transforma em dificuldades quando se quer promover a compreensão e a realização de uma prática como componente curricular, diferente do caráter restritivo dado até então a essa prática, considerada como prática de ensino, que ocorre preferencialmente como forma de estágio no curso.
Outro problema explicitado, diz respeito à própria indicação da Resolução CNE/CP 2/2002, qual seja, a determinação de quatrocentas horas de prática como componente curricular, as quais devem ser realizadas e comprovadas diante de mecanismos específicos, o que pode até esvaziar-lhes o sentido esperado. Uma vez que essa indicação sugere muito mais uma preocupação de preencher a carga horária ou seja, a exigência de comprová-las, em fase de avaliação e recredenciamento de curso do que o empenho de atribuir um sentido a essa prática no curso de formação profissional.
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Tanto a resolução CNE/CP 1 como a 2/2002, surgem de projetos e pareceres que caracterizam o que vem a ser prática como componente curricular, no entanto, a sua leitura não é muitas vezes feita pelos que elaboram projetos pedagógicos, o que é grave, muito menos por aqueles que são convidados a realizá-los, sem ao menos ter participado de sua elaboração.
Nota-se que a verdadeira discussão da concepção de prática, indicando uma unidade entre teoria e prática, fundamentada na práxis da reflexão e da ação oportunas, que deve ocorrer já na formação inicial, é, muitas vezes, banalizada por uma simples interpretação, ou preocupação de atender o que sugere a Resolução, no que concerne à organização e distribuição das quatrocentas horas. Isso parece esvaziar o sentido dessa prática no interior dos cursos, na medida em que começa a se estabelecer um arranjo que prima por atender a lei, por realizar as horas em disciplinas específicas, nas quais se possa comprovar a carga horária especificada, abandonando-se o verdadeiro objetivo da prática como um todo. Podemos encontrar, na manifestação de um dos professores entrevistados, que o projeto original de lei distorce a concepção de prática, levando-a à perda de seu sentido:
Tem toda uma fundamentação legal para isso, desde a LDB e tudo mais, agora eu vejo ali, primeiro parto do princípio que a prática é um elemento fundamental, o projeto original da LDB, projeto 1.258c é... ele tinha essa dimensão de integração teoria e prática com uma versão um pouco diferente do que foi aprovado e é o que se está realizando. Essa aprovação final é o que se está realizando. Ah..., ele está assim, primeiro que há uma carga de certa maneira excessiva de prática, ah... não excessiva porque seria demais, mas porque a gente percebe que as pessoas criam mecanismos para cumprir essa prática sem cumprir ela efetivamente, né? E isso eu imagino que pode gerar, ah... num certo sentido uma, o que eu vou chamar de uma certa contaminação, que acho que não é o melhor termo, mas da parte que é de fato programada, né? O que a gente percebe em boa parte dos alunos, é uma correria pelo estágio, pela prática sem aproveitar de fato o que isso tem, né? Então aí eu atribuo, de certa maneira, a várias coisas, talvez a principal delas seja... esse elemento foi mantido na legislação atual e outros componentes dessa legislação que estava no projeto original acabaram sendo desfalcados, caíram na tramitação. (P 10)
Denomina-se assim, o que em outro discurso encontramos como uma forma burocrática de tratamento da prática:
...então a gente procura trabalhar nossos alunos para que ele tenha uma participação efetiva nas nossas aulas, talvez, e a gente inclui de uma forma, até burocrática, mas a gente explicita isso para demonstrar que o que está sendo solicitado como prática está sendo atendido... (P1).
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Considerando desse modo, um processo no qual cumprir horas e efetivá-las parece ser mais importante que dar oportunidade para aquilo que é essencial vir à tona (a compreensão de conteúdos em sua dimensão mais ampla, a articulação da teoria e da prática, o desenvolvimento das habilidades que envolvem a relação do educador e seus alunos no processo de troca de conhecimentos, etc.) torna-se um mecanismo burocrático, em torno da carga do que está estabelecido pela Resolução CNE/CP 2/2002.