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Problemas e riscos das transfusões de sangue

O comércio de sangue é um dos grandes problemas das transfusões, mas é pouco discutido pelo grande público. O médico francês Philippe Meyer, por exemplo, constata existir um grande comércio do líquido vermelho. Na França, a doação de sangue é gratuita, mas o sangue e seus derivados são vendidos a um preço fixado pelo Estado; os centros de fracionamento vendem também seus produtos a hospitais e estabelecimentos de tratamento. De uma maneira geral, as capacidades industriais são excessivas em relação à oferta de sangue e à demanda, e o equilíbrio orçamentário universalmente ameaçado. Sendo os gestores e os médicos as mesmas pessoas, o dinheiro, ainda segundo ele, manda inevitavelmente na medicina.96

Ele ainda aponta dois grandes exemplos do enfraquecimento da responsabilidade médica, ou da irresponsabilidade médica (como prefere chamar), no século XX. O maior deles, evidentemente, foi o fato de médicos, em nome do ideal nazista, imporem a esterilização, a eutanásia e o assassinato pelo gás e a eliminação dos inválidos, dos doentes e dos velhos a fim de “purificar a raça” (colocamos as aspas). Entretanto, a segunda maior aberração do século XX na medicina é o que ele chamou de “outro exemplo trágico”, que foi “a transfusão de um sangue contaminado pelo vírus da Aids a hemofílicos e a pacientes com

96 A irresponsabilidade médica, p. 40.

risco de anemia”. E ele opina que a ocorrência de duas crises agudas de irresponsabilidade médica, em tão curto interregno, é preocupante.97

Embora a existência do interesse econômico piore as coisas, os riscos e os problemas das transfusões de sangue não deixariam de existir se o dinheiro não interferisse.

A medicina não é uma ciência exata. Levar em conta a incerteza da sua prática ajudará a colocar a questão ética envolvendo as Testemunhas de Jeová num contexto adequado. Metade do que é ensinado durante a graduação médica e na residência universitária deixa de ser verdade em oito anos. A opinião de um médico a respeito do que ele entende como necessário ou indispensável pode ser contrariada por um outro colega, pois isso depende também de sua própria idade, do seu estado atual de saúde, dos seus antecedentes culturais e do tempo que ele conhece o paciente. Alguns profissionais da medicina transmitem inadvertidamente os seus próprios valores aos seus pacientes e seus parentes desinformados. Com efeito, o público não especializado (inclusive os juízes e tribunais) desconhece geralmente a realidade da incerteza médica devido à relutância dos profissionais em admiti-la com franqueza.98

A prática transfusional também é incerta. Por exemplo, transfundir só para normalizar a taxa de hemoglobina antes do paciente ser anestesiado para uma intervenção cirúrgica é um mito sem eficácia comprovada. Mas essa incerteza não se limita aos glóbulos

97 Ibid, p. 27, 28.

vermelhos. Transfusões duvidosas de plaquetas e de plasma fresco congelado também ocorrem. 99

Tem-se, também, constatado que médicos mais velhos, por falta de conhecimento atualizado, costumam utilizar transfusões em maior quantidade do que os seus colegas mais jovens. Assim, essa ocorrência é, também, um problema de educação médica.100

Um sério exemplo de risco é a chamada “janela imunológica”, que é o período em que um germe não se manifesta no sangue, e aí o teste não detecta a doença, levando o paciente a receber sangue supostamente bom, mas que na realidade está contaminado. A juíza de direito Christine Santini Muriel comenta que o sangue a ser transfundido raramente será 100% seguro porque os testes disponíveis em nível não só nacional, mas mundial, não podem levar à segurança absoluta da ausência de risco para o paciente. Sempre há a possibilidade de existência da chamada janela imunológica, que se caracteriza pela produção de testes com resultados falsos negativos, já que os testes atualmente à disposição, algumas vezes, não são capazes de detectar a presença de doenças transmissíveis pelo sangue em alguns portadores aparentemente saudáveis. 101

Um caso dramático decorrente da janela imunológica aconteceu em Brasília. Um bebê de cinco meses de vida contraiu AIDS numa transfusão de sangue. O Hemocentro usou testes capazes de acusar o vírus do HIV após 22 dias da contaminação. No caso da

Hepatite C, o prazo é de 70 a 82 dias. O vírus do HIV não foi identificado porque o doador

99 Ibid, p. 5.

100 Ibid, p. 6.

101 Aspectos jurídicos das transfusões de sangue. Disponível em: <http://www.hemonline.com.br/aspectos. htm> Acesso em 20 nov. 2004.

deve ter cedido sangue antes de completar 22 dias de contaminação. O Hemocentro analisou o plasma do sangue do doador, que estava no estoque. O material foi submetido a teste em Brasília e não foi detectado o vírus; a bolsa de plasma foi enviada para a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, que realiza o Teste de Ácido Nucleico (NAT). Tal análise identifica os anticorpos para o HIV após 11 dias da contaminação, diminuindo em 50% o período da janela imunológica, mas não o elimina. Não há como descartar a possibilidade desse sangue ter sido o que contaminou a menina. Fica difícil saber ao certo quando o doador contraiu o HIV, já que vão restar 11 dias sob suspeita. Os dados dos doadores do sangue recebidos pela criança foram levantados a partir do prontuário da paciente, no HRAS, que mantém um banco de dados com todas as informações sobre os doadores e o material coletado. Seis das 11 pessoas que doaram o sangue à menina são doadores regulares do Hemocentro e já fizeram novas coletas depois dessa transfusão. Eles haviam passado por teste de HIV posteriormente; obrigatório em cada doação e, por isso, foram descartados da lista de suspeitos. As outras cinco pessoas foram convocadas para novo exame; descobriu-se que uma delas tem o vírus.102

Mas as transfusões padecem de outros problemas. Os estoques de sangue estão cada vez mais reduzidos. Cinco milhões de pessoas são contaminadas por Hepatite C a cada ano. Em 2001, uma unidade de sangue transfundida, na Europa, custava 63 euros. Em 2003, passou para 142 euros - o que mostra que os custos mais elevados castigam a Saúde Pública. As indenizações pagas por transfusões oneram os operadores já que os testes de sangue não são de resultado totalmente seguro. Há evidências de transfusões absolutamente desnecessárias, pois dois estudos na Europa, o Sanguis e o Biomed, constataram que, nos

102 Correio Braziliense. 26 jun. 2003. Bebê pega Aids em transfusão. Disponível em: <http://www.giv.org. br/noticias/noticia.php?codigo=119> Acesso em: 20 nov. 2004.

hospitais onde as transfusões de sangue foram reduzidas não houve aumento da mortalidade, quanto à recuperação dos pacientes, essa se tornou até mais rápida, reduzindo os custos. Existe ainda a hipótese de erro humano - dar-se ao paciente o tipo errado de sangue – isso é mais comum do que se pensa e acontece mesmo nos melhores hospitais, além da possibilidade das reações negativas do próprio corpo do paciente que recebeu sangue, pois, de qualquer maneira, é o sangue de outra pessoa, e pode não ser aceito pelo sistema imunológico.103

Assim, há uma imperiosa necessidade de superar as transfusões de sangue.