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3. PERCURSO TEÓRICO-METODOLÓGICO

3.3. Procedimento de coleta dos dados

Quanto ao que se entende como pesquisa em Representações Sociais, concordamos com Souza Filho (1995, p. 118), para quem “uma vez definido o problema a ser estudado e as populações pertinentes, há que se decidir qual aspecto de R.S. (Representações Sociais) será investigado para, em seguida, elaborar o instrumento e/ou procedimento de pesquisa”.

Ainda nesse debate, reportamo-nos a Cruz Neto (2007), que chama a atenção para o fato de que a ação de determinar etapas a serem seguidas na coleta dos dados auxiliará o pesquisador na realização desse momento. Não obstante, a presente pesquisa consistiu também em seguir alguns procedimentos considerados importantes para essa etapa da investigação. Tal procedimento está organizado da seguinte maneira: a Definição dos

instrumentos de coleta dos dados, item em que relataremos como ocorreu essa preparação, e

aInserção no campode pesquisa, momento em que descreveremos como foi realizada essa inserção e o contato com os docentes.

3.3.1. Definição dos instrumentos de Coleta dos Dados

Nessa primeira etapa, após o levantamento dos docentes que participariam da coleta como também das disciplinas que lecionavam, partimos para a delimitação dos instrumentos

de coleta dos dados. Para tanto, escolhemos, a partir da delimitação do objeto, utilizar o questionário a fim de investigar o perfil dos participantes. Aplicamos o questionário semiprojetivo e a entrevista semiestruturada, pois, conforme Sá (1998) e Almeida (2005), esses instrumentos são adequados para uma investigação sobre representações sociais por permitirem que os sujeitos formulem respostas a respeito do objeto em questão. Assim, possibilitam ao investigador, além de delimitar o grupo social a ser pesquisado, perceber como estão estruturados os elementos de representações nas mentes dos sujeitos, respondendo, assim, as cinco questões clássicas apresentadas por Jodelet: a) “Quem fala?; b) O que fala?; c) De onde fala?; d) Como fala?; e) Por que fala?” (Sá, 1998).

Ainda em relação a instrumentos de investigação, remetemo-nos a Babbie (2003) que, tratando de pesquisas realizadas com questionário survey, chama a atenção para a importância de aplicar um questionário bem elaborado na coleta dos dados, visto que, por esse instrumento viabilizar maior flexibilidade, confiabilidade e qualidade nas respostas, influenciando na análise dos dados, tanto aquele que elabora as perguntas como os sujeitos participantes da pesquisa chegam mais facilmente a uma maior sistematização.

Xavier (2012), por sua vez, numa perspectiva antropológica e sociológica, defende que, na aplicação do questionário para a coleta de dados, deve-se levar em consideração o contexto em que os sujeitos estão inseridos e as relações deles com esse contexto, e o comportamento deles no momento em que respondem ao instrumento. Para essa autora, esses elementos influenciarão na análise dos dados da pesquisa.

Nesta pesquisa, o questionário semiprojetivo auxiliou-nos na compreensão do processo de elaboração de representações sociais pelo grupo por nós investigado. Tal questionário, apesar de ser ainda pouco utilizado em pesquisas no campo educacional, proporciona a investigações que utilizam a Teoria das Representações Sociais o acesso ao mundo simbólico dos sujeitos, permitindo ao pesquisador compreender como esses sujeitos projetam suas realidades externas a partir de concepções internas, atribuindo-lhes pensamentos, emoções, valores (MOURA, 2008).

Esse instrumento consiste na complementação de frases. A partir de uma determinada temática ou trecho de frase semiestruturada, os sujeitos dão continuidade ao pensamento iniciado, tomando como referência suas representações acerca do objeto em questão (MOURA, 2008; PIRES, 2012; TOMÁS, 2014). Assim, neste estudo, foram utilizadas frases como: “Ser professor universitário é...”, “O ensino no campo das ciências exatas exige...”, dentre outras questões que serão descritas e analisadas posteriormente.

As respostas foram analisadas com base na Teoria das Representações Sociais, que nos permitiu compreender como essas representações estão estruturadas e são partilhadas pelo grupo, como também nos levou a conhecer, além dos sentidos e significados atribuídos ao fenômeno da docência universitária no contexto dos professores das ciências exatas e da natureza, a possível gênese das representações desse grupo em específico.

Como já enunciado anteriormente, os questionários relativos ao perfil dos sujeitos e o semiprojetivo foram aplicados a quatorze (14) docentes, dentre os quais oito (08) se disponibilizaram a participar da segunda etapa da coleta dos dados, contudo apenas seis (06) confirmaram essa participação. O acesso e procedimento de recolha serão descritos detalhadamente mais adiante.

A entrevista semiestruturada, por sua vez, foi escolhida para a segunda etapa de coleta, visto que tínhamos a necessidade não só de aprofundar as respostas ao questionário semiprojetivo como também de entender outras questões importantes que atenderiam aos objetivos da presente investigação, pois esse tipo de entrevista permite ao pesquisador considerar aspectos culturais, sociais e econômicos que permeiam e influenciam as realidades grupais.

De acordo com Bourdieu (1997, p. 693), as entrevistas proporcionam uma maior interação entre entrevistador e entrevistado, proporcionando uma real compreensão das realidades dos sujeitos por meio da comunicação. E, tomando como base a Teoria das Representações Sociais, segundo a qual é na comunicação que os sujeitos constroem, compartilham e (re)elaboram representações (JODELET, 2005; MOSCOVICI, 2009), as entrevistas permitem um olhar mais aprofundado para essas realidades.

Tendo discorrido sobre a elaboração dos instrumentos, passaremos a tratar, no próximo item, da nossa inserção no campo de investigação para o devido contato com os docentes e a recolha dos dados.

3.3.2. A inserção no campo de pesquisa

Minayo (2007) afirma que o trabalho de campo constitui uma possibilidade não apenas de aproximação do pesquisador com o objeto que deseja investigar como também de aprofundamento das questões da própria pesquisa. Contudo, essa autora destaca que não se trata de uma etapa fácil devido à maneira como esse pesquisador adentra ao espaço. Nessa mesma perspectiva, Flick (2009) defende que o acesso ao campo de investigação é um

processo de negociação entre o pesquisador e o(s) sujeito(s)/instituições participantes, o que poderá implicar esclarecimentos, redefinições e retomadas do próprio objeto.

Inferimos, então, que é de fundamental importância para o pesquisador a maneira como ele está inserido no campo. O investigador precisa conhecê-lo, estabelecer contato prévio, relações de respeito, acordos, para, assim, evitar desagradáveis surpresas. Trata-se, portanto, de um processo que requer passos (MINAYO, 2007; FLICK, 2009). Assim, discorreremos, neste item de nossa pesquisa, sobre os passos por meio dos quais se deu nossa inserção no campo, ou seja, no CCEN.

Antes, contudo, de iniciarmos esse relato, lembramos que, nas apresentações e discussões sobre o nosso projeto nas aulas de Metodologia da Pesquisa e Seminários, fomos alertadas (por alguns professores e estudantes) que, na inserção nesse ambiente, poderíamos encontrar algumas resistências por parte de alguns docentes devido à representação pelos que compõem o “núcleo duro da universidade” desse tipo de pesquisa. Ou seja, como bem coloca Flick (2009), essa inserção seria “um processo longo e difícil” (p. 54). Por conta disso, decidimos nos alongar no relato sobre nossa inserção em nosso campo de pesquisa, dedicando um item a esse assunto.

Após a definição dos participantes e a elaboração do instrumento que seria aplicado na primeira etapa da coleta, fomos no mês de maio de 2015, pela primeira vez, ao Centro de Ciências Exatas e da Natureza (CCEN). Ao chegarmos a esse Centro, procuramos conhecer as dependências físicas do local, os respectivos departamentos, as salas dos docentes e como ocorriam as dinâmicas de reuniões departamentais, a organização das aulas, salas e horários, e a frequência com que os docentes compareciam nos departamentos.

De início, não conseguimos contato direto com os professores, pois fomos informados, por funcionários administrativos, de que são pessoas “pouco acessíveis”, devido aos muitos afazeres e ao próprio perfil de “inacessibilidade” dos mesmos. Assim, nos orientaram que enviássemos e-mails, explicando a proposta, os objetivos e a metodologia da pesquisa, como também apresentássemos a solicitação deles participação na mesma, anexando o questionário relativo ao perfil e o semiprojetivo no próprio e-mail. Foi, então, dessa maneira que estabelecemos um primeiro contato com os sujeitos de nossa investigação. O acesso aos e- mails dos docentes se deu por meio de um levantamento dos e-mails cadastrados nos sites dos departamentos desse Centro.

Posteriormente, à medida que recebíamos o retorno dos questionários respondidos, entrávamos novamente em contato com os docentes, que ainda não nos haviam encaminhado

tais questionários. Esse processo ocorreu por quatro vezes. No momento em que percebemos que os docentes deixaram de enviar os questionários, achamos prudente não solicitar-lhes mais esse envio. Julgamos, contudo, importante registrar que, dos 121 e-mails enviados, recebemos o retorno de 18 docentes. Destes, dois afirmaram não ter interesse em participar da pesquisa e dois alegaram outros compromissos que os impossibilitavam responder. Totalizaram, assim, 14 questionários respondidos, dentre os quais dois foram entregues pessoalmente, pois os professores disseram que acreditavam ser, assim, mais seguro.

Como dito acima, as entrevistas foram realizadas após a análise dos questionários semiprojetivos, uma vez que tínhamos a intenção de aprofundar questões surgidas a partir do mesmo. No momento em que enviamos os questionários via e-mail, perguntamos sobre o interesse em participar da segunda etapa da coleta dos dados e, à medida que confirmavam esse interesse, firmávamos contato com os docentes.

Após a análise dos questionários e preparação das perguntas que comporiam o roteiro das entrevistas, entramos em contato, no início do segundo semestre letivo de 2015, com os oito docentes que se dispuseram a participar, contudo recebemos confirmação de seis, pois dois não deram resposta ao nosso pedido. Essa etapa ocorreu de maneira mais tranquila, pois as entrevistas foram marcadas de acordo com a disponibilidade de horário e local dos docentes. Vale ressaltar que obtivemos a autorização desses docentes para a gravação em áudio das entrevistas.

Passaremos, agora, a expor o procedimento escolhido para a análise dos dados coletados na presente investigação, processo que também requereu passos distintos.

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