Inicialmente é importante explicitar como se deu a escolha da comunidade. Essa escolha foi devida à aproximação da pesquisadora com alguns integrantes de um projeto social realizado naquela localidade, condição esta que facilitou o acesso da pesquisadora à comunidade, uma vez que tais integrantes do projeto mediaram esse acesso.
O primeiro acesso àquele local, onde foram juntas pesquisadora e orientadora, foi mediado pelos integrantes acima referidos. Nesse primeiro acesso foi possível conhecer parte
da comunidade, algumas instituições educacionais infantis e conversar sobre a forma de acesso aos sujeitos em suas residências, sendo, então, sugerida a parceria com as Agentes Comunitárias de Saúde (ACS).
Já o segundo acesso, quando a pesquisadora foi acompanhada de um dos integrantes do projeto social, teve como intuito conhecer os profissionais da Unidade de Saúde da Família (USF), e conversar sobre o projeto e a possível parceria com as ACSs para a realização da coleta de dados. O contato com os profissionais aconteceu na sede da USF em uma das reuniões semanais com todos os profissionais da unidade. Os profissionais presentes se mostraram bastantes solícitos e colocaram a importância de realizações de pesquisas na comunidade. Foi salientado pela pesquisadora que a investigação seria submetida à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e que mediante aprovação haveria seu retorno à comunidade para o agendamento dos encontros com a ACS que iria mediar as visitas domiciliares.
A parceria com as ACSs implicou que a pesquisa fosse vinculada à Secretaria de Saúde da Cidade do Recife, sendo através dessa Secretaria que se obteve a carta de anuência para acesso à comunidade. Essa parceira pôs como exigência que todos os sujeitos de pesquisa fossem membros de famílias cadastradas na USF da comunidade. Tal exigência não se configurou como uma dificuldade de acesso aos sujeitos pelo fato de todas as famílias visitadas pelas ACSs serem cadastradas na USF da comunidade.
Após aprovação pelo CEP, a pesquisadora foi à comunidade, no dia que acontece a reunião semanal com os profissionais, informar a aprovação do projeto e conversar com a ACS que iria mediar o acesso aos sujeitos em suas residências. Foi decido começar a coleta na semana seguinte, no horário da manhã.
A coleta de dados teve início e término, respectivamente, nos dias 05/06/2013 e 23/07/2013. A pesquisadora foi à comunidade cerca de duas vezes por semana, realizando em média de três entrevistas por dia, alguns dias no período da manhã e outros à tarde. As quatro primeiras entrevistas realizadas no primeiro dia de coleta indicaram a necessidade do acréscimo de algumas perguntas ao roteiro, e, em consequência, tais entrevistas foram consideradas entrevistas piloto. Quanto ao tempo de duração de cada entrevista, obteve-se uma média de 20 minutos, tendo a mais curta e a mais longa, respectivamente, 11 e 56 minutos de duração.
O ponto de encontro entre a pesquisadora e a ACS durante toda a coleta foi na casa da própria profissional que ficava bem próxima à rua principal da comunidade. A relação
estabelecida com a ACS foi bastante amigável, o que gerou uma parceria produtiva. A ACS esteve sempre atenta às solicitações da pesquisadora, fazendo o possível para atendê-las da melhor forma. Por exemplo, a pesquisadora ao entrevistar só mães nas primeiras entrevistas, solicitou a ACS que a indicasse outros sujeitos, como: cuidadoras sem relação de parentesco com a criança, pais, avó, e outros familiares que assumiam esse papel de cuidador. A partir de tal solicitação a ACS averiguou os sujeitos possíveis e fez indicações mais diversificadas: avós, cuidadoras sem relação de parentesco com a criança e tia. Além disso, a ACS ofereceu importante auxilio no mapeamento das instituições educacionais que atendem à comunidade.
Nas visitas às residências, a ACS apresentava a pesquisadora à entrevistada, ora como psicóloga que queria conversar, ora como estudante de mestrado da Universidade Federal que queria fazer uma pesquisa. Uma vez que essa forma de apresentar em nenhum momento causou intimidação, a ponto de causar desistência nos sujeitos, a pesquisadora deixou que a ACS a apresentasse dessa forma. Após a apresentação, a ACS deixava a pesquisadora na residência do sujeito e continuava fazendo visitas nas residências próximas. As formas de encontrar a ACS novamente para continuar as visitas variavam: algumas vezes a ACS indicava a casa que estaria visitando para a pesquisadora ir a seu encontro; outras vezes a ACS pedia às pessoas que estavam conversando em frente às residências próximas que avisasse a pesquisadora a casa em que ela estaria a fim de que esta fosse ao seu encontro ou, então, a ACS pedia para que a pesquisadora ligasse para o seu celular para novo encontro.
Ao ser deixada numa residência, a pesquisadora apresentava as informações necessárias para que o sujeito compreendesse o objetivo do trabalho, explicitando todos os seus direitos frente à aceitação para participar da pesquisa. Assim, após consentimento do sujeito, ele era convidado a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (ver APÊNDICE B), dando, assim, início a entrevista. A pesquisadora deixava o sujeito livre para escolher o melhor lugar para ser realizada a entrevista, fazendo apenas a exigência, em alguns casos, para se aproximar mais da entrevistada para que o equipamento de gravação de áudio pudesse ficar próximo de ambos. Muitas entrevistas foram realizadas estando as crianças presentes, situação já esperada, uma vez que não houve agendamento prévio. Nestes casos, a pesquisadora podia observar a relação entre a cuidadora e a criança. Além disso, foi possível observar os espaços nos quais as crianças circulavam, seja em situação de brincadeira ou outra qualquer. Houve interrupções devidas a choros e demais solicitações das crianças, mas não a ponto de suspender ou comprometer significativamente a entrevista.
Também é importante salientar que não houve nenhuma recusa dos sujeitos quanto à participação ou desistências no decorrer das entrevistas, mesmo em situações nas quais algumas entrevistadas demonstraram grande emoção através do choro. Nesse momento a pesquisadora ofereceu o espaço de escuta de modo a deixar as entrevistadas à vontade para expressar, a sua maneira, a emoção que emergiu.