CURSO DE MESTRADO
SAYONARA DA SILVA SOARES
A REDE DE CUIDADORES DE CRIANÇAS EM UMA COMUNIDADE DE BAIXA RENDA
RECIFE 2014
A REDE DE CUIDADORES DE CRIANÇAS EM UMA COMUNIDADE DE BAIXA RENDA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Psicologia.
Orientadora: Profª. Drª. Maria Isabel Patrício de Carvalho Pedrosa
RECIFE 2014
Catalogação na fonte
Bibliotecária, Divonete Tenório Ferraz Gominho. CRB4- 985
S676r Soares, Sayonara da Silva.
A rede de cuidadores de crianças em uma comunidade de baixa renda / Sayonara da Silva Soares. – Recife: O autor, 2014.
124 f. , il. ; 30 cm.
Orientador: Prof.ª Dr.ª Maria Isabel Patrício de Carvalho Pedrosa. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Pernambuco. CFCH. Pós-Graduação em Psicologia, 2014.
Inclui referências, apêndices e anexos.
1. Psicologia. 2. Cuidadores de crianças. 3. Crianças – Cuidado e tratamento. I. Pedrosa, Maria Isabel Patrício de Carvalho (Orientadora). II. Título.
150 CDD (22.ed.) UFPE (BCFCH2015-25)
A REDE DE CUIDADORES DE CRIANÇAS EM UMA COMUNIDADE DE BAIXA RENDA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Psicologia.
Aprovada em: 29/07/2014.
BANCA EXAMINADORA
___________________________________________________ Profª. Drª. Maria Isabel Patrício de Carvalho Pedrosa (Orientador)
Universidade Federal de Pernambuco
___________________________________________________ Profª. Drª. Maria de Fátima de Souza Santos (Examinador Interno)
Universidade Federal de Pernambuco
___________________________________________________ Profª. Drª. Ilka Dias Bichara (Examinador Externo)
Universidade Federal da Bahia
Dedico este trabalho à minha rede de cuidadores, tão extensa quanto o afeto que nos une.
Invadida por um sentimento imenso de gratidão, traduzo o carinho e o amor que carrego em um afetuoso agradecimento aos que contribuíram para a construção de uma importante caminhada e de uma linda conquista.
Agradeço a Deus, pelo espetáculo da vida que, em sua construção, me possibilita vivenciar experiências tão significativas.
A Bel, minha orientadora, por mostrar que a construção do conhecimento une ética, comprometimento e afeto; por, nesse processo de construção, me motivar e contagiar com sua alegria a cada encontro com um dado que possui infinitas faces. Agradeço imensamente pelo acolhimento e parceria que geraram importantes frutos!
Aos meus amados pais, Teresa e Guiarone, por me mostrarem a educação como oportunidade de crescimento. É com muita emoção que agradeço pelo amor incondicional, pelo afetuoso cuidado, pelo respeito e apoio às minhas escolhas. Vocês são minha fortaleza!
A Nara, minha querida irmã, por acreditar em mim e estar sempre presente nos momentos mais significativos da minha vida. Seu companheirismo me dá força para ir mais além!
A Weber, meu companheiro, por está sempre ao meu lado, e, com seu amor, ter tornado essa caminhada mais leve. Obrigada pelo seu cuidado e pelas madrugadas nas quais pacientemente me ajudou!
A Nessa, minha querida amiga, por juntas vivenciarmos essa experiência tão marcante, e pelos encontros e desencontros que fortalecem a nossa especial amizade. Agradeço às queridas Anita, Dani Charamba, Leylly e Raíssa por tornarem a graduação mais afetiva, e pelos laços construídos.
Aos queridos companheiros do LabInt que muito me inspiram, me instigam e me contagiam com tanto entusiasmo na construção do conhecimento. Agradeço carinhosamente a Carina, Juliana, Karine, Mel, Nicole, Pedro, Priscila, Simone, Vanessa, pelo acolhimento, apoio, carinho, atenção, orientações, trocas e coversas. Ter vocês nessa caminhada foi fundamental para a construção e realização desse trabalho. É imenso meu sentimento de gratidão por vocês!
Em especial, agradeço a Mel, pela atenção e carinho com os quais me acompanhou nessa trajetória; pela disponibilidade para me ajudar na finalização da dissertação, apontando aspectos tão importantes. Agradeço a Vanessa pela leitura cuidadosa da minha dissertação e
À minha turma do mestrado e aos professores, pelas orientações, provocações e importantes discussões. E a João, pela atenção e carinho que nos recebe e atende aos nossos pedidos.
A Ana Carvalho e a Fátima Cruz que, com bom senso e leveza, tornaram minha qualificação um momento rico de aprendizagens, contribuindo significativamente para a realização desse estudo.
A Fátima Santos e a Ilka Bichara, que, com respeito e simplicidade, compuseram minha banca de defesa de dissertação, contribuindo com aspectos significativos e abrindo um leque de possibilidades para que novos trabalhos ganhem vida.
À minha família querida do Caminhando para Jesus, por entender a minha ausência, pelo apoio consolador e por me mostrar, a todo o momento, o quanto a alegria e o afeto são essenciais para compormos a nossa vida.
A Vera que, além de me possibilitar o acesso às participantes da pesquisa, foi especialmente acolhedora e companheira, me permitindo ter vivências marcantes na comunidade, meu local de pesquisa. Muito obrigada por me receber com tanto carinho!
Às participantes da pesquisa, por terem aberto as portas de suas casas, compartilhando comigo aspectos importantes de suas vidas. Obrigada por tornarem esse trabalho possível!
O cuidado da criança envolve diferentes pessoas, concepções e práticas em contextos culturais específicos. Partindo da psicoetologia, uma perspectiva interacionista que possui um olhar biopsicossocial do ser humano – considerando que seu comportamento, assim como sua estrutura orgânica e corporal, é produto e instrumento de seu processo de evolução – o cuidado da criança pode ser compreendido a partir do cuidado parental. Este é concebido como um conjunto de ações e comportamentos selecionados ao longo da história evolutiva da espécie, de modo a garantir a sobrevivência da prole, ajustando-o a transformações socioculturais que caracterizam o modo de vida dos seres humanos. A presente pesquisa tem como objetivo investigar as redes de cuidadores de crianças de zero a seis anos por cuidadores familiares e não familiares em uma comunidade de baixa renda da cidade do Recife. De forma específica, buscou-se identificar, descrever e discutir rotinas, práticas e redes sociais de apoio que configurem o cuidado da criança, bem como perquirir modos compartilhados de cuidar da criança e as significações atribuídas ao cuidado por familiares ou outros adultos que compartilham essa tarefa. Participaram da pesquisa trinta mulheres: 16 mães, 9 avós, 2 babás, 2 empregadas domésticas e 1 tia, na faixa etária de 20 a 80 anos que tinham pelos menos uma criança de zero a seis anos sob seus cuidados. Os dados foram coletados mediante visitas à comunidade com a realização de entrevistas nas residências das participantes, o que possibilitou observar importantes aspectos do cuidado da criança e complementar os dados das entrevistas. O material coletado foi organizado de modo quantitativo, sendo, assim, possível indicar o número de integrantes das redes de cuidado, o número de homens e mulheres e de familiares e não familiares dessas redes, a frequência de crianças a instituições educacionais e outros aspectos relevantes para a caracterização da tarefa de cuidar das crianças. Realizou-se também uma análise qualitativa, buscando-se identificar núcleos de sentidos realçados nas falas das participantes. Os resultados apontam as redes de cuidadores como um importante apoio às famílias e como estratégia para compartilhar o cuidado da criança, sendo tais redes constituídas majoritariamente por mulheres familiares que residem com a criança. A prevalência feminina nas tarefas de cuidado tanto da criança quanto da casa também é um aspecto de destaque, sinalizando a manutenção de uma divisão tradicional das tarefas de cuidado e a sobrecarga de atividades enfrentada pelas mulheres. E, por fim, a instituição educacional se sobressai como um importante componente na maioria das redes de cuidadores, porém se identifica pouca confiabilidade na creche ou no CMEI, o que instiga um olhar mais atento para as questões que envolvem a opção dos pais em compartilhar ou não o cuidado/educação da criança com essa instituição e para o tipo de serviço que ela oferece. Conclui-se que investigar a rede de cuidadores da criança suscita importantes aspectos acerca da dinâmica do grupo familiar com poucos recursos financeiros. Além disso, estudos como este têm um potencial de subsidiar políticas públicas que promovam melhores condições para a criança e a família.
Palavras-chave: rede de cuidadores; cuidado da criança; cotidiano do cuidado; cuidado institucional.
Based on Psychoethology, an interactionist perspective that has a biopsychosocial look on the human being – considering that their behavior and their organic and body structure constitute both a product and an instrument of their process of evolution – the child care can be understood from parental care. This is conceived as a set of actions and behaviors selected along the evolutionary history of the species, as to ensure the survival of the offspring, adjusting it to sociocultural changes that characterize the way of living of human beings. This research aims to investigate the network of caregivers of children aged zero to six years by family and nonfamily caregivers in a low income community in Recife. Specifically, it was sought to identify, describe and discuss routines, practices and social support networks that constitute the child's care as well as to assert shared modes of child care and the meanings assigned to care by relatives or other adults who share this task. Thirty women participated in the study: 16 mothers, 9 grandmothers, 2 babysitters, 2 maids and 1 aunt, aged 20-80 years who had at least one child from birth to six years under their care. Data were collected by means of visits to their community with interviews held in the homes of the participants, which made it possible to observe important aspects of child care and complement the interview data. The collected material was organized in a quantitative manner, indicating the number of participants of the networks of care, the number of men and women as well as the family and nonfamily members of these networks, the attendance of children in educational institutions and other aspects relevant to the characterization of the task of taking care of the children. A qualitative analysis was also conducted, seeking to identify nuclei of meaning highlighted in the speech of the participants. The results indicate the networks of caregivers as an important support for families and as a strategy to share the care of the child, and that those networks are mostly consisted of women members of the family residing with the child. The female prevalence in care of both the child and the house is also a prominent aspect, signaling the maintenance of a traditional division of care tasks and activity overload faced by women. And finally, the educational institution stands out as an important component in most networks of caregivers, but poor reliability is identified in the day care or CMEI, which instigates a closer look into the issues involving the choice of parents to share or not to share the care / education of the child with that institution and the type of service it offers. The conclusion is that investigating the network of caregivers of children raises important issues about the dynamics of the family group with poor financial resources. Furthermore, studies like this have the potential to support public policies that promote better conditions for children and families.
da pesquisa ... 32
Quadro 2 – Instituições educacionais municipais que atendem à comunidade ... 34 Quadro 3 – Tarefas de cuidado com base nas atividades do cotidiano da
Tabela 1 – Número de crianças que cada entrevistada tem sob seus
cuidados ... 33 Tabela 2 – Tamanho da rede relacionada ao número de redes e de crianças
atendidas em cada rede ... 41
Tabela 3 – Número de crianças atendidas em instituição educacional
relacionado ao tamanho da rede e ao número de crianças por rede ... 42 Tabela 4 – Número de crianças de acordo com sua faixa etária e tamanho
da rede ... 43 Tabela 5 – Número de crianças de acordo com sua idade e tamanho da rede
que participa ... 44 Tabela 6 – Número de cuidadores e sua relação com a criança ... 45 Tabela 7 – Número de cuidadores de acordo com a relação familiar
(critério de consaguinidade) ou não familiar ... 46 Tabela 8 – Número de redes de cuidadores de acordo com o seu tamanho e o
número de cuidadores familiares nas redes ... 49 Tabela 9 – Número de redes de cuidadores de acordo com o seu tamanho e o
número de cuidadores não familiares nas redes ... 49 Tabela 10 – Número de cuidadores femininos e masculinos e sua relação com a
criança ... 51 Tabela 11 – Número de redes de acordo com o seu tamanho e o número de
cuidadoras femininas ... 51 Tabela 12 – Número de redes de acordo com o seu tamanho e o número de
cuidadores masculinos ... 52 Tabela 13 – Cuidadores que residem ou não com a criança e sua relação
com ela ... 52 Tabela 14 – Número de cuidadores de acordo com a coabitação e o
parentesco ... 53 Tabela 15 – Número de cuidadores de acordo com a coabitação e o
gênero ... 53 Tabela 16 – Número de cuidadores de acordo com a coabitação e o parentesco
Tabela 18 – Número de redes de cuidadores de acordo com o seu tamanho e o
número de cuidadores residentes ... 55 Tabela 19 – Número de redes de cuidadores de acordo com o seu tamanho e o
número de cuidadores não residentes ... 56 Tabela 20 – Tipo de cuidador com base na frequência nos períodos (diurno,
noturno e fins de semana) e nas tarefas de cuidado ... 65 Tabela 21 – Número de crianças que frequentam ou não instituições educacionais
CMEI - Centro Municipal de Educação Infantil USF - Unidade de Saúde da Família
ACS - Agente Comunitária de saúde
NSEb - Nível Socioeducacional baixo NSEmdA - Nível Socioeducacional médio alto
1 INTRODUÇÃO ... 14
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 17
2.1 O cuidado parental na perspectiva psicoetológica ... 17
2.1.1 O cuidado parental na história evolutiva humana ... 21
2.2 O cuidado da criança e a dinâmica familiar ... 23
2.3 O cuidado alternativo: a creche na atenção ao cuidado da criança ... 26
2.4 Objetivos ... 30
3 MÉTODO ... 31
3.1 Os sujeitos da pesquisa ... 31
3.2 Contextualizando o local de pesquisa: a comunidade... 33
3.3 Instrumentos de coleta ... 34
3.4 Procedimentos de coleta ... 35
3.5 Procedimentos de análise ... 38
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 40
4.1 Rede de cuidadores: os sujeitos e as práticas que envolvem o cuidado da criança ... 40
4.1.1 A dimensão estrutural das redes de cuidadores ... 41
4.1.1.1 Tamanho das redes ... 41
4.1.1.2 Composição das redes ... 45
4.1.1.3 Densidade, Dispersão e Homogeneidade/Heterogeneidade das redes ... 56
4.1.2 A dimensão funcional das redes de cuidadores ... 57
4.1.2.1 Tipo de cuidado... 58
4.1.2.2 Tipo de cuidador ... 64
4.1.2.3 Participação do pai ... 66
4.2 Significando o cuidado da criança ... 67
4.2.1 A prevalência feminina no cuidado da criança ... 68
4.2.2 O cuidado institucional ... 81
4.2.2.1 As crianças que frequentam/frequentaram creche/CMEI ... 82
4.2.2.2 As crianças que frequentam (pré)escola pública ou privada ... 92
4.2.2.3 As crianças que não frequentam instituição educacional ... 94
APÊNDICE A – Roteiro de entrevista... 116
APÊNDICE B – Termo de consentimento livre e esclarecido ... 119
ANEXOS ... 122
1 INTRODUÇÃO
A literatura que aborda o tema cuidado de crianças é muito ampla, perpassando disciplinas psi e outras das áreas de humanas, biomédicas e sociais aplicadas. Os estudos sobre essa temática têm, por isso, a possibilidade de, dialogar com diferentes áreas do conhecimento (CARVALHO; FRANCO; COSTA; OIWA, 2012). Ademais, debruçar-se sobre cuidado de crianças, implica, necessariamente, adentrar no contexto sociocultural, uma vez que a compreensão desse fenômeno perpassa importantes questões no que diz respeito às transformações socioeconômicas, à dinâmica familiar, às relações de gênero, às políticas públicas etc.
Em Psicologia, a perspectiva psicoetológica tem se colocado como uma importante abordagem no estudo sobre a temática do cuidado da criança. Com base nessa perspectiva, apoiada em um olhar biopsicossocial, Carvalho, Bussab e Rabinovich (2013) apresentam significativas evidências acerca do cuidado parental e seu compartilhamento no reino animal, principalmente entre primatas humanos e não humanos, bem como as transformações dessa prática nos diferentes modos de vida características da espécie humana. Nesse contexto as autoras afirmam que “modos de vida e de produção, concepções e valores culturais circunscrevem as variações nos modelos de cuidado, dentro dos limites de flexibilidade das adaptações humanas.” (p. 97).
Desse modo, frente às transformações que possibilitaram a redefinição da tarefa de cuidar, o papel da mulher tem assumido lugar de destaque. Algumas décadas atrás, o cuidado de crianças era tarefa exclusiva da mulher que não estava inserida no mercado de trabalho. A prole de cada família era mais extensa do que hoje e existiam vários familiares (avós, tias e outras parentes, geralmente escolhidas para ser madrinha) que compartilhavam o cuidar dos filhos de uma grande família. Algumas vezes, o irmão ou irmã mais velha recebia dos pais a incumbência de cuidar do irmão mais novo, delineando, assim, uma rede hierárquica de responsabilidades (CORSARO, 2011b).
O contexto sociocultural mudou e a mulher de todas as camadas de renda passou a ser trabalhadora. Ela buscou não somente a divisão de tarefas de cuidar dos filhos com o companheiro, mas também lutou para que o Estado promovesse política de atendimento a crianças em ambientes seguros. Surgiram, timidamente, algumas creches, de responsabilidade de Secretarias de Assistência Social, acompanhando uma tendência já em curso de caráter filantrópica. Aos poucos, as exigências se tornaram mais especificas para um cuidar com
melhor qualidade e, então, no final da década de 90, as creches passaram para a responsabilidade de Secretarias de Educação e o cuidar foi transformado em cuidar/educar, binômio que vem sendo respaldado com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional/96 – LDBEN/96 – (BRASIL, 1996), que incluiu as creches ao sistema de ensino. Estas atendem crianças de 0 a 3 anos, em período parcial ou integral, e juntamente com as pré-escolas, voltadas às crianças de 4 e 5 anos, constituem-se como primeira etapa da educação básica. Do ponto de vista da legislação brasileira, portanto, as creches se transformaram em instituições de direito da criança pequena. Os pais, entretanto, não são obrigados a matricular o filho numa creche; é uma opção deles compartilhar a responsabilidade de cuidar e educar os filhos com o Estado. Muitos se utilizam de redes sociais alternativas; isso ocorre por opção ou por não dispor de instituição educacional no bairro ou comunidade onde moram.
Nesse sentido, percebe-se a importância que assume o estudo do cuidado da criança, visto que põe em evidência um contexto de interação que envolve ambiente, criança, familiares e possíveis cuidadores. Isto é corroborado por Carvalho et al. (2012) ao exporem que o ato de cuidar envolve redes que incluem tanto os familiares (mãe, pai, irmão, avós) quanto não familiares (vizinhos, amigos, babás, creche), além dos processos de sociabilidade e comunicabilidade entre os sujeitos.
Outras importantes questões possuem estreita relação com a prática do cuidado, o que pode ser evidenciado quando Carvalho et al. (2013, p. 97) colocam que “as transformações nos sistemas de cuidado parental são necessariamente acompanhadas por ajustes nas concepções sobre a infância e a educação, e, portanto também em práticas de cuidado diferenciadas e resultados diferentes dessas práticas.” Nesse sentido, torna-se perceptível o quanto investigar o cuidado implica que o pesquisador tenha um olhar amplo que possibilite abarcar as diversas questões que envolvem essa prática e que dela podem emergir.
O diálogo com essas questões suscitou o interesse em estudar o cotidiano da criança com o intuito de perscrutar as práticas que caracterizam o ato de cuidar de crianças e as significações atribuídas pelos cuidadores a essa tarefa em um contexto sociocultural específico no qual a criança é cuidada.
A opção por investigar o cuidado sob a perspectiva dos cuidadores é subsidiada por um interesse anterior de estudar a criança considerando seus pais ou responsáveis, tanto pelo dever que têm em promover o desenvolvimento da criança, quanto pelas obrigações sociais que lhes são atribuídas para garantir a proteção da criança. Apoiando esse interesse Long,
Wilson, Kutnick, e Telford1 (1996 apud RAPOPORT; PICCININI, 2004) expõem que a revisão da literatura evidencia a existência de poucos estudos que se propõem explorar as atitudes dos pais a respeito dos cuidados infantis, suas escolhas por cuidados alternativos dentro e fora do âmbito familiar, bem como suas expectativas referentes a tais cuidados.
Ademais a proposta de realizar um estudo no ambiente em que a criança é cuidada – além de convergir com a proposta da Psicoetologia de realizar estudos no ambiente natural, ou seja, no ambiente onde o fenômeno se expressa – visa alçar indícios importantes para a compreensão do cotidiano do cuidado, bem como instigar que mais estudos valorizem a aproximação com o contexto de desenvolvimento da criança. “É consensual o reconhecimento de que é em torno da família que se estrutura a vida cotidiana, especialmente quando as políticas públicas são omissas e/ou não igualitárias em relação aos direitos humanos mais básicos [...]” (BASTOS; ALCÂNTARA; FERREIRA-SANTOS, 2002, p. 99).
Sendo assim, considerando a proposta dessa pesquisa, são apontadas como questões norteadoras para esse estudo: Como se organiza o cuidado da criança? Quais as pessoas e as tarefas que configuram o cuidado da criança? Quais os significados que delineiam essa prática? Como a dinâmica do cuidado repercute na organização familiar a nas relações que se estabelecem nesse contexto?
1 Long, P.; Wilson, P.; Kutnick, P.; Telford, L. Choice and childcare: a survey of parental perceptions and views. Early Child Developmental and Care, v. 119, p. 51-63, 1996.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 O cuidado parental na perspectiva psicoetológica
Adentrando no campo da Psicologia, no qual a investigação sobre o cuidado parental tem sido recente, busca-se a compreensão desse fenômeno a partir de uma perspectiva psicoetológica, que considera tanto a estrutura orgânica quanto o comportamento, isto é, a psicologia de uma espécie, como, concomitantemente, instrumento e produto de seu processo evolutivo.
A Etologia pode ser caracterizada como uma perspectiva que se propõe a estudar e discutir os comportamentos típicos de cada espécie e como se dá a sua ocorrência em condições naturais. Investiga os elementos biológicos que garantem a sobrevivência do indivíduo e da espécie, bem como as funções adaptativas do comportamento, considerando o contexto ecológico (PRADO, 2005). Ardans (1996) afirma que a Etologia é um termo que identifica um campo de conhecimento que se caracteriza pelo estudo comparativo do comportamento, pela perspectiva evolucionária do estudo do comportamento, seja animal humano ou não humano. Esse estudo pode ser tanto intraespecífico, observação e análise do modo de vida de uma espécie em seu meio ambiente, quanto interespecífico, estudo das relações entre diferentes espécies em um meio ambiente comum, considerando a dimensão evolutiva filogenética e ontogenética. O autor ainda expõe que a Etologia, desde o início, se caracterizou pelo uso privilegiado da observação dos organismos em seu meio ambiente natural que de acordo com Carvalho (1988) é o ambiente onde se encontram às pressões seletivas que atuaram no sentido de tornar uma característica adaptativa, explicando, assim, sua seleção.
Estando a perspectiva psicoetológica orientada por um olhar evolucionista, uma vez que se baseia no estudo da espécie considerando sua história evolutiva filogenética e ontogenética, é importante apontar que a evolução, nessa perspectiva, vai ser concebida como um “processo dialético e dinâmico, ao qual não se aplicam raciocínios lineares.” (CARVALHO et al., 2013). De acordo com Ades (2009) a perspectiva evolucionista realiza a interpretação do comportamento humano como adaptação tanto do ambiente físico quanto do ambiente social onde o ser humano enquanto espécie teve sua evolução. É uma abordagem comparativa entre o ser humano e outros animais, no que tange às suas semelhanças e diferenças, que busca averiguar, a partir do confronto, a possibilidade de aplicar os preceitos
de uma lógica evolucionista. Freitas e Lamas (2010), sobre a Psicologia Evolucionista, afirma que, basicamente, sua meta é entender a mente humana, o comportamento humano no que se refere a sua história.
Nesse contexto, mostra-se fundamental apontar a concepção de sujeito que embasa essa pesquisa. A Psicoetologia concebe o ser humano como um ser biopsicossocial, ou seja, um ser biologicamente sociocultural, um ser que tem suas características compreendidas “como parte de um equipamento biopsicológico adaptado a certa modalidade de vida social: a que envolve a inserção numa cultura.” (CARVALHO, 1988, p. 32) Nesse sentido, Bussab e Ribeiro (1998) afirmam, a partir da compreensão do impacto da cultura no processo evolutivo do ser humano, a possibilidade de a seleção natural ter iniciado o favorecimento de genes para o comportamento cultural quando nossos ancestrais começaram a desenvolver, para a sua sobrevivência, uma dependência da cultura. A partir disso, torna-se evidente, de acordo com CARVALHO (1988) que a evolução cultural não se coloca como oposta a evolução biológica; ambas podem ser concebidas como inseparáveis na história evolutiva do ser humano. Diante disso, é possível considerar a psicoetologia como uma perspectiva interacionista, que se caracteriza por uma “[...] compreensão integrada dos efeitos dos fatores hereditários e ambientais, com reconhecimento da complexidade e inseparabilidade entre eles.” (BUSSAB, 2000, s/p) Ou seja, uma abordagem que, esvazia a oposição entre inato e adquirido ao considerar que tanto os genes quanto o ambiente podem de maneiras diversas afetar o comportamento e também por acreditar na impossibilidade de separação dos efeitos da experiência e dos genes no comportamento (CARVALHO, 1988).
É interessante expor que o ser humano, segundo Carvalho (1988), é sensível tanto as contingências ambientais quanto, de modo especial, as contingências históricas e culturais, o que não significa negar a história evolutiva humana, uma vez que tais contingências e a suscetibilidade a estas são também consideradas instrumento e produto do processo evolutivo, caracterizando a especificidade humana. A partir disso, percebe-se a importância do diálogo entre essa perspectiva psicoetológica e demais ciências como a Antropologia, a História, a Sociologia; isto porque sendo o ser humano constituído em um modo de vida sociocultural, sua compreensão implica debruçar-se sobre as várias dimensões: biológica, social, histórica, cultural.
Partindo da Psicoetologia, no diálogo com outras ciências acima citadas, Carvalho et al. (2013) refletem acerca da Família e do Comportamento Parental, situando-o comparativamente no reino animal e, de modo particular, no campo evolutivo dos primatas,
buscando examinar suas funções adaptativas, as relações com as pressões do meio ambiente e os modos de vida que lhe são associados. Apontando importantes evidências, as autoras expõem que são presentes entre os seres humanos tanto as diferentes configurações familiares quanto a diversidade de cuidado parental existentes no reio animal, exceto a não existência da família e a troca de parceiros sem cuidado parental, embora apontem, ainda que incomum, ser possível no ser humano a troca de parceiros com cuidado coletivo, trazendo como exemplo da contemporaneidade as comunidades hippies. As autoras também afirmam que há uma variabilidade do tempo de convivência e do cuidado parental que vai desde apenas um ciclo reprodutivo até a vida inteira do/s progenitor/es cuidador/es. Ademais, o parentesco não é concebido como critério por excelência, uma vez que se pode constatar a adoção de filhotes de pais diferentes, bem como de outras espécies.
Ainda no que se refere à estrutura familiar e ao cuidado parental no reino animal, Carvalho et al. (2013) apontam que mesmo havendo variabilidade nesse arranjo familiar e de cuidado, todos os primatas utilizam a estratégia K – estratégia reprodutiva que tem como características um crescente custo reprodutivo, que envolve diferentes graus de investimento parental e decrescente número de filhotes/ovos a cada estação reprodutiva, associando-se positivamente, no que se referem as suas variantes, à dependência do filhote. A mãe tem sua participação no cuidado garantida através da amamentação, havendo variação tanto na sua duração como no vínculo entre mãe e filhote durante a vida. Já o pai, quanto à sua participação, há uma maior variabilidade, assim como a de outros integrantes do grupo.
A partir disso, percebe-se claramente, de acordo com Carvalho et al. (2013) entre os primatas, sobretudo no ser humano, o quanto
[...] as alternativas de configuração familiar e de cuidado parental podem assumir como foi visto, diversas combinações possíveis de estabilidade/ instabilidade de unidades familiares, maior ou menor participação de pais no cuidado, maior ou menor participação de outros cuidadores – com forte tendência para maior participação do sexo feminino. Seus limites parecem ser a necessidade de algum tipo de unidade familiar (ainda que uniparental) e, na maioria dos casos, de algum grau de compartilhamento do cuidado. (p. 102-103).
No que diz respeito ao compartilhamento do cuidado, Hrdy2 (2005 apud CARVALHO et al., 2013) expõe que é raro o compartilhamento do cuidado parental no reino animal,
2 HRDY, S. B. Evolutionary context of human development: The cooperative breeding model. In: CARTER, C.S.;LAHNERT, K.E.; GROSSMAN, K.; HRDY, S.B.; LAMB, M. E.; PORGES, S.W.; SACHSER, N. (Eds.) Attachmnent and bonding – A new synthesis. Cambridge, MA/ Londres: MIT Press, 2005, p. 9-32.
ocorrendo de formas distintas em mamíferos, aves e insetos sociais. No entanto, ao se referir aos primatas, afirma que todos são fortemente sociais e favoráveis a algum grau de cuidado compartilhado, o que pode ser evidenciado na tendência a proteger os filhotes e ser atraídos por eles, bem como na forte atração por segurar e carregar filhotes. Além disso, os primatas possuem os bebês que demandam maior investimento parental, exigências nutricionais e de proteção, possuindo um tempo maior de imaturidade e dependência. Nesse contexto, as autoras apontam os possíveis fatores seletivos que atuaram de modo a direcionar o cuidado parental compartilhado no ser humano, tais como o coletivismo das sociedades pré-históricas e pré-humanas, a disponibilidade de cuidadoras não familiares (“alomães” aparentadas) e as condições que poderiam dificultar um modo de reprodução com cuidado uniparental ou excepcionalmente parental.
Hrdy (2005 apud CARVALHO et al., 2013) ao levantar questões referentes ao compartilhamento do cuidado parental e as condições que a propiciam, apontando possíveis ganhos evolutivos dessa prática, apresenta algumas hipóteses. Uma delas tem como base o conceito de aptidão inclusiva no qual se expõe que a colaboração de indivíduos para a sobrevivência de seus parentes aumenta a probabilidade de seus genes permanecerem na população, o que se pode dizer de uma possível “seleção de parentes”. Isso poderia explicar, primeiramente, a participação dos pais no cuidado, uma vez que estes compartilham uma maior carga genética com os filhotes, garantindo a permanência de uma maior proporção de genes na população (50% de cada progenitor). A partir disso, dentre outros argumentos, Eibl-Eibesfeldt3 (1989 apud CARVALHO et al., 2013) considera que “[...] o cuidado parental é a forma primária de altruísmo no reino animal.” (p. 89), sendo sua evolução um elemento primordial na evolução da sociabilidade entre insetos sociais e vertebrados. Ademais, a aptidão inclusiva pode justificar a participação de outros sujeitos no cuidado parental, tais como irmãos, tios, avós (a depender do grupo social), visto que há entre estes um compartilhamento de genes, ainda que em menor proporção em relação aos pais. Ainda sobre o ganho evolutivo desse compartilhamento de cuidado, são expostos alguns benefícios potenciais para esses outros cuidadores como: a concessão para permanência em seu grupo de origem, a possibilidade de conseguir uma melhor posição no grupo por estabelecer relações afiliativas, e a obtenção de experiência como cuidador.
2.1.1 O cuidado parental na história evolutiva humana
Direcionando o foco para o ser humano Carvalho et al. (2013) também evidenciam importantes transformações no cuidado parental, considerando momentos específicos da evolução humana com seus característicos modos de vida e de produção.
Ao se ter como ponto de partida o modo de vida pré-histórica, que na história da evolução humana representa a maior parte, os grupos eram formados por famílias extensas, tendo como meio de subsistência a caça e a coleta com compartilhamento dos produtos entre os membros. Havia uma tendência a poliginia, mas também a existência de relações monogâmicas temporárias que se associavam, provavelmente, a um momento de maior dependência dos filhos (cf. HINDE, 1987)4. Adentrando nas sociedades contemporâneas de caça e coleta, estas se caracterizam por um modo de vida com um padrão reprodutivo de poucos filhos e elevado investimento parental, com intenso cuidado materno para os padrões do ocidente. Há o compartilhamento do cuidado, principalmente, com as demais mulheres (avós, tias e irmãs mais velhas) que se ajudam entre si, ainda que nos primeiros anos de vida da criança seja a mãe a principal cuidadora. O pai tem sua participação na subsistência e proteção dos membros do grupo, bem como na interação lúdica com as crianças, demandando de todo o grupo muito interesse, atenção e tolerância.
Com o advento do modo de vida agrícola, há cerca de 10 mil anos, ocorrem significativas transformações. A família vai se caracterizar por um modelo patriarcal, com a aceitação e valorização da poliginia; a mulher tem sua atividade produtiva, gradativamente, restrita à maternidade e ao ambiente doméstico; e o grande número de filhos passa a ser sinônimo de riqueza, uma vez que se transforma em recurso humano para a atividade de pasto e cultivo. Diferenças emergem no que diz respeito às estratégias de cuidado devido às desigualdades, tendo as crianças seu cuidado partilhado tanto com as mulheres da família como com outras, remuneradas ou não (amas de leite, escravas e servas), isso nas famílias favorecidas economicamente. Já a função paterna tem seu foco na promoção da subsistência e na autoridade do pai sobre os componentes da família (cf. ENGELS, 1884/2002)5.
Adiante, com surgimento do modo de produção industrial, transformações radicais acontecem no modo de vida. Nesse contexto caracteriza-se como uma das transformações mais marcantes o crescimento das cidades em decorrência do êxodo rural, que vai se
4 HINDE, R. A. Individuals, relationships and culture – Links between ethology and social sciences. NY: Cambridge University Press, 1987.
constituir como fator significativo para a emergência da família nuclear. Na sociedade ocidental a monogamia se torna regra, mas pode coexistir com a poliginia em outros lugares do mundo. Nas práticas de cuidado, mais uma vez, vai haver variações associadas às diferenças socioeconômicas, no entanto permanece o apoio dos familiares (irmã mais velhas, tias e avós), principalmente nas famílias menos favorecidas, bem como de cuidadores não familiares, geralmente mulheres (vizinhas ou demais conhecidas nas famílias mais pobres e babás e trabalhadoras domésticas nas famílias mais ricas).
Apesar de os contextos apresentados mostrarem um modo de vida característico das sociedades ocidentais, é possível perceber semelhanças em outras sociedades, no tocante ao compartilhamento do cuidado. Corsaro (2011b) ao apresentar estudos em famílias não ocidentais, no que diz respeito à socialização inicial, aponta dados significativos do contexto africano, demonstrado haver no país uma longa tradição de crianças pequenas possuírem múltiplos responsáveis. Ao se referir a um estudo de um grupo específico da África, os Efes (Pgimeus), expõe que as crianças desse grupo ficavam longe de suas mães grande parte do tempo, uma vez que estas voltavam ao trabalho poucos dias após o parto. E no local de trabalho, geralmente, o cuidado das crianças era compartilhado por vários indivíduos (cf. TRONICK; MORELLI; WINN, 1987)6. Em outro estudo, ao apresentar o cuidado das crianças em Camarões, essa prática é descrita como um empreendimento social com a participação de pais e parentes, contando, algumas vezes, com amigos e vizinho, assim como com a frequente participação de crianças mais velhas. É destacado que tarefas relacionadas à rotina de cuidado nunca são destinados aos pais, além disso, ao ocorrer o desmame das crianças, grande parte do seu cuidado é assumido, com autorização da mãe, pelos irmãos mais velhos ou amigos (cf. NSAMENANG, 1992)7. Corsaro (2011b) ainda apresenta dados significativos no tocante ao cuidado entre pares com idades distintas documentados em alguns países no Leste africano. Em tais sociedades, com frequência, a criança com 1 ano e 3 meses ficava sob o cuidado de crianças babás, com idade entre 6 e 10 anos, consideradas responsáveis primárias. E as mães normalmente retornavam, em tempo integral, ao trabalho agrícola (cf. HARKNESS; SUPER, 1992)8.
6 TRONICK, E.; MORELLI, G.; WINN, S. Multiple caretaking of EFE (pygmy) infants. American Anthropologist, v. 89, p. 96-106, 1987.
7 NSAMENANG, B. Early childhood care and education in Cameroon. In: LAMB, M.; STERNBERG, K..; HAWANG, C.; BROBERG, A. (Eds.). Child care in context: Cross cultural perspectives. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum, 1992, p. 441-459.
8 HARKNESS, S.; SUPER, C. Shared child care in east Africa: Sociocultural orings and developmental consequences. In: LAMB, M.; STERNBERG, K..; HAWANG, C.; BROBERG, A. (Eds.). Child care in context: Cross cultural perspectives. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum, 1992, p. 441-459.
É importante salientar que em tais sociedades, no que se assemelha com o modo de vida ocidental, o compartilhamento do cuidado de crianças também tem sua estruturação em função do trabalho da mulher fora do ambiente doméstico. Nas sociedades ocidentais, a entrada da mulher no mercado de trabalho, com acentuado crescimento a partir da década de 50 do século XX, há um drástico aumento da necessidade de cuidados externos, assumindo, assim, o cuidado compartilhado novas proporções (CARVALHO et al., 2013; CORSARO, 2011b). Na Europa ocidental, segundo Corsaro (2011a), a maioria dos países rapidamente respondeu a tais exigências de cuidado da criança no âmbito externo com a rápida expansão de programas para a educação infantil. Entretanto, nos Estados Unidos, havia uma crença entre a maioria dos pais de que as crianças na faixa etária correspondente a pré-escola teriam melhor atendimento em casa, isso até recentemente. E mesmo que estes valores estejam, hoje, destoantes da realidade econômica norte-americana, tanto os pais quanto o governo ainda são relutantes quanto ao fato de os filhos deixarem o cuidado da família antes mesmo de atingirem a idade necessária para iniciar a educação formal (cf. MASON; KUHLTHAU, 1989; HOFFERTH et al., 1991)9.
2.2 O cuidado da criança e a dinâmica familiar
Significativas transformações vêm redefinindo e modificando concepções e práticas de cuidados de crianças, principalmente no âmbito familiar, revelando, assim, um rico campo de investigativo. Castro et al. (2012), partindo de uma pesquisa realizada em 30 países (cf. GEORGAS et al., 2006)10, ressaltam importantes fatores que constituem esse contexto de transformações dos quais se pode apontar a nuclearização da família, com a consequente diminuição da família extensa, como a mudança mais fortemente influenciada pelas alterações ocorridas na sociedade. Esse padrão de residência nuclear foi percebido em mais da metade dos países e como tendência nas famílias extensas em um terço dos países, estando relacionado a fatores econômicos e à urbanização. Ademais, essa transição da família extensa para a nuclear demonstra um possível efeito limitado sobre práticas de apoio recíproco e laços
9 MASON, K.; KUHLTHAU, K. Determinants of child care ideals among mother of preschool-aged children. Journal of marriage and the family, v.511, 1989, p. 593-603.
HOFFERTH, S.; BRAYFIELD, A.; DEICH, S.; HOLCOMB, P. National Child Care Survey, 1990. Washington, DC: The Urban Institute Press, 1991.
10 GEORGAS, J.; et al. Families across cultures: a 30-nation psychological study. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.
afetivos entre pais e filhos. Entretanto, essa nova configuração nuclear não deve ser associada à ausência das influências e laços dos demais familiares, visto que vários autores afirmam ser função da família ou função dos pais os cuidados de criança. Além disso, residir próximo dos pais do recém-casal foi uma tendência comum nos países industrializados do ocidente.
Mudanças no tocante ao casamento, divórcio e número de filhos também são fatores expostos por Georgas et al. (2006 apud CASTRO et al., 2012), que expõem um aumento nas taxas de divórcio e na idade do casamento, e uma diminuição no número de filhos. Esse aumento na idade do casamento está associado ao aumento de tempo para a conclusão dos estudos e entrada no campo profissional, bem como aos custos para a constituição de uma família. No que tange à taxa de divórcio, seu aumento ocorre em conjunto com o crescimento do número de crianças vivendo com um dos pais apenas, geralmente a mãe. A taxa de divórcio também foi ressaltada como possuindo relação com a idade do casamento, sendo ambas percebidas como causas do enfraquecimento de casamento. Em se tratando do número de filhos, sua diminuição se relaciona com a tendência de aumento na idade das mulheres ao se casarem. É também perceptível nos países ocidentais um maior número de crianças nascidas de mulheres não casadas. Sendo assim, evidencia-se claramente o quanto esses fatores influenciam decisivamente na constituição de novas configurações familiares e em sua dinâmica, o que reverbera nas práticas e forma de cuidado da criança.
Ainda nesse contexto de transformações Castro et al. (2012) se referem a mudanças na hierarquia patriarcal tradicional no que diz respeito aos papeis de mãe e de pai e, mais especificamente, ao decréscimo da autoridade masculina, visto que a partilha do poder é salientada como uma tendência entre os pais; no entanto isso não pode significar a existência de uma igualdade. Nesse sentido, têm-se como razões para tais mudanças o trabalho da mulher fora de casa e a elevação do seu nível educacional (cf. GEORGAS et al., 2006).
É importante enfatizar a entrada da mulher no mercado trabalho e sua crescente atuação nos diversos campos profissionais, visto que são fatores apontados de forma recorrente por vários autores (CARVALHO et al., 2008; CORSARO, 2011b; CASTRO et al., 2012; CARVALHO; et al. 2013) ao tratarem de mudanças significativas na organização e estrutura familiar, o que inclui fortemente os papeis de pais e mães no cuidado de seus filhos/as. Alguns estudos (ROCHA-COUTINHO, 2003; WAGNER; PREDEBON; MOSMANN; VERZA, 2005; ARAÚJO; SCALON, 2006) revelam importantes achados a cerca da participação masculina em atividades tradicionalmente concebidas como femininas, tais como o cuidado de filhos/as e tarefas domésticas. Tais estudos mostraram, de forma
unânime, haver uma maior participação masculina no cuidado de seus filhos/as do que em atividades domésticas. Alguns estudos, especificamente, afirmaram que os papeis de pais e mães no tocante ao cuidado e tarefas domésticas ainda são percebidos de modo conservador; que a participação masculina no cuidado de crianças é mais valorizada do que em atividades domésticas tanto pelos homens quanto pelas mulheres; e que as atividades realizadas pelos pais no cuidado são, geralmente, em parceria com a mãe, principalmente no brincar.
Incentivar esse envolvimento dos pais com seus filhos/as se mostra relevante, visto que, embora significativas mudanças venham ocorrendo, principalmente no que se refere à entrada da mulher no mercado de trabalho, esta é ainda concebida como a principal responsável pelo cuidado dos/as filhos/as e da casa, e o homem como o provedor e figura de autoridade. Caldeira et al. (2012) afirmam que as vozes masculinas apontam assimetria de gênero pela distância percebida entre ser e fazer, prover e cuidar, mesmo já havendo participação masculina no cuidado de crianças. Além disso, esse foco na mulher como principal cuidadora pode ser percebida quando essa mesma autora expõe que apesar de haver uma preocupação entre pais e mães em realizar um projeto comum, ao se tratar da filiação, ainda se percebe o papel materno sendo concebido como algo vinculado à natureza da mulher. Ou seja, no tocante às atividades que envolvem o cuidado dos/as filhos/as, essas são percebidas como sendo naturais ao sexo feminino. O que permite a cristalização de uma concepção sobre o cuidado na qual a mãe assume o papel principal.
Nesse sentido, é possível pensar essa concepção da mulher como principal responsável pelo cuidado de crianças e atividades domésticas como possuindo estreita relação tanto com a desvalorização do trabalho da mulher fora de casa, bem como com a visão do cuidado masculino como sendo algo complementar ao cuidado feminino. Geralmente a mulher recebe salários mais baixos do que o do homem, tem menos acesso a cargos de chefia e autoridade, é discriminada devido à possibilidade de engravidar, entre outros; e a sua contribuição financeira ainda é vista secundária e auxiliar ao provimento do marido, ainda que ganhe mais que ele (DINZ, 1999; ROCHA-COUTINHO, 2003). Ademais, estudos apontam haver um descompasso entre os papéis exercidos por homens e mulheres dentro e fora do âmbito doméstico. À proporção que as mulheres mostram-se mais propensas a exercer funções concebidas tradicionalmente como masculinas no mercado de trabalho, os homens, em sua maioria, se mostram mais relutantes em desempenhar atividades consideradas tradicionalmente como femininas, principalmente as relacionadas ao cuidado; quando desempenhadas por eles, isso ocorre de forma a auxiliar ou complementar o cuidado da mãe
(ARRAIGADA, 2000; FLECK; WAGNER, 2003; ROCHA-COUTINHO, 2003; ARAÚJO; SCALON, 2006).
Diante do exposto, é possível evidenciar a gama de questões que perpassam o cuidado de crianças, sobretudo como este fenômeno também nos oferece importantes subsídios para a compreensão da dinâmica e da estrutura familiar tanto no contexto micro do próprio enredamento familiar quanto no contexto macro sociocultural. Assim, percebe-se:
[...] o quanto ainda é necessário descrever, documentar e analisar crítica e comparativamente, em diversos recortes disciplinares, para que se possa alcançar novas compreensões sobre os caminhos das transformações na família e seus impactos sobre o lugar de homens e mulheres no contexto familiar, especialmente no que diz respeito à função socialmente priorizada desse contexto, o cuidado dos filhos (CASTRO et al., 2012, p. 25).
2.3 O cuidado alternativo: a creche na atenção ao cuidado da criança
De acordo com a discussão empreendida, pode-se perceber o quanto o trabalho da mulher fora do âmbito doméstico influenciou fortemente a busca por cuidados alternativos. De acordo com Davies e Thornburg11 (1994 apud RAPOPORT E PICCININI, 2004), os cuidados alternativos referem-se a tipos de cuidados não-parentais, destacando-se em quatro principais tipos: creches e pré-escolas; creche familiar (grupo de crianças na casa do próprio cuidador); cuidado da criança em sua casa por babá ou empregada; e cuidado da criança por parente em sua casa ou na casa da criança.
No que se refere às escolhas pelo cuidado alternativo, Rapoport e Piccinini (2004) apontam os seguintes fatores: as condições econômicas; estrutura e apoio social da família no cuidado da criança; as crenças e as práticas que envolvem o cuidado de crianças; grau de escolaridade dos pais; etnia; e idade da criança. No entanto, é recorrente nas pesquisas sobre esse tipo de escolha a ênfase no emprego materno e nas condições financeiras para pagar pelo serviço de cuidado, focando pouco os fatores: tamanho da família, idade da criança, disponibilidade do marido ou proximidade dos parentes.
Outro fator importante sobre o cuidado alternativo foi exposto no estudo de Shpancer e Bennett-Murphy12 (2006 apud VASCONCELLOS; SEABRA; EISENBERG; MOREIRA,
11 Davies, N. S.; Thornburg, K. R. Child care: a synthesis of research. Early Child Development and Care, v. 98, p. 39-45, 1994.
12 SHPANCER, N; BENNETT-MURPHY, L. The link between daycare experience and attiudes toward daycare and maternal employment. Early Child Development employment and Care. v. 176, n. 1, p. 87-97, 2006.
2012) o qual apontou que, quando pequenos, os pais que tiveram cuidado alternativo possuem atitudes mais favoráveis a respeito desse tipo de cuidado, bem como acerca do trabalho materno, quando comparados aos pais criados por suas mães em casa.
Em se tratando da creche, essa instituição tem se mostrado como uma importante alternativa para o cuidado da criança. O Censo escolar 2012 realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (INEP) aponta que entre 2007 e 2012 houve um aumento de 62% no número de matrícula em creche, revelando uma forte tendência de expansão no que se refere ao número de crianças matriculadas em creche.
Entretanto para que a creche se consolidasse como uma instituição educacional foi preciso percorrer uma trajetória relatada aqui de forma breve. A creche tem sua história atrelada às transformações do papel da mulher na sociedade e suas implicações no seio da família, principalmente no que se refere à educação dos filhos. O atendimento de crianças em creche, até o início de 1900, não diferia do atendimento em internatos e asilos, estando destinado, basicamente, a filhos cujas mães eram solteiras e sem condições de criá-los. Com a chegada da industrialização, na segunda metade do século XVIII, muitas mulheres passaram a incorporar os trabalhos nas fábricas, tendo as mães que buscar alternativas para o cuidado dos filhos, muitas delas, pagando vizinhas para realizar essa tarefa. Nesse novo contexto o operariado passou a reivindicar melhores condições de trabalho, além de creches para seus filhos. Assim, creches e escolas foram construídas pelos donos de indústrias de modo a conter os movimentos dos operários. Entre as décadas de 30 e 50, as poucas creches, fora a das indústrias, eram de responsabilidade de instituições filantrópicas. Nessa época, médicos e sanitaristas também eram em defesa da creche devido à preocupação com as condições de vida das pessoas pobres que, em geral, residiam em locais insalubres e superlotados. Vê-se, diante disso, que o trabalho na creche era de cunho assistencial e filantrópico, não sendo valorizado um trabalho educativo ou que visasse atender emocionalmente às crianças. Em meados do século XX, a participação da mulher no mercado do trabalho aumenta, mantendo a dificuldade de conciliar o trabalho dentro e fora de casa, sobretudo o cuidado com os filhos. Também há um aumento das mulheres de classe média no mercado de trabalho devido ao avanço da industrialização. Nos grandes centros urbanos, na segunda metade dos anos 70, intensifica-se a reivindicação da população por creche impulsionada por movimentos populares e feministas. Nesse contexto a creche passa a ser um direito do trabalhador. Há um aumento na quantidade de creches organizadas e mantidas pelo Poder Público e na participação das mães no trabalho realizado nas creches. Entretanto o número insuficiente de
creches incentivou, por parte do poder público, alternativas de atendimento à criança, como as creches domiciliares que ainda continuam a receber apoio governamental (OLIVEIRA; MELLO; VITÓRIA; ROSSETTI-FERREIRA, 1992).
Com a promulgação da nova Constituição Federal (BRASIL, 1988), na qual a criança vai ser reconhecida enquanto cidadã e sujeito de direitos, o Estado assume o dever com a educação da criança de 0 a 6 anos mediante a garantia de creches e pré-escola (cf., art. nº 207 - IV). Sendo assim, as creches e pré-escolas que tinham sua atuação sob a responsabilidade da Assistência Social, assume o caráter educativo em prol de uma educação que atenda a todas as crianças (COSTA, s/a). Essa nova concepção vai se opor à visão tradicional e estigmatizante da creche como uma instituição com funções exclusivamente assistencialistas e de substituição da família, visando atender à criança pobre (OLIVEIRA et al., 1992).
Adiante, com o Estatuto da criança e do adolescente em 1990 (ECA – Lei Federal n. 8.069/90) foi possível regulamentar artigos da Constituição Federal, bem como explicitar os mecanismos que possibilitem legalmente a exigência dos direitos da criança (ROSSETTI-FERREIRA; RAMOM; SILVA, 2002), ratificando em seu artigo 54, inciso IV o dever do estado em assegurar às crianças de 0 a 6 anos o atendimento em creches e pré-escolas. Entretanto, é com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei Federal n. 394/96) que a educação infantil é incluída efetivamente no sistema educacional brasileiro. Sendo assim, a Educação Infantil vai se constituir como a primeira etapa da educação básica (LDB, art. nº 29), sendo oferecidas em creches, ou instituições equivalentes, para crianças de 0 a 3 anos; e pré-escolas para crianças de 4 a 5 anos13 (LDB, art. 30, incisos I e II). É importante salientar que os pais não são obrigados a matricular o filho numa creche, é uma opção deles compartilhar a responsabilidade de cuidar e educar os filhos com o Estado.
Essa consolidação da creche como uma instituição educacional relaça uma concepção de creche como instituição que realiza, principalmente, um trabalho educativo; e como um espaço de desenvolvimento, interação e ricas aprendizagens (CARVALHO, PEDROSA, ROSSETTI-FERREIRA, 2012). Essa nova concepção de creche pode ser considerada um fator importante no que diz respeito à mudança no perfil das famílias que buscam as creches,
13
Uma Lei recente, a de n. 12.796, de 4 de abril de 2013, altera a Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, em dois aspectos relevantes: (1) a Educação Infantil, primeira etapa do ensino básico, passou a corresponder ao período de zero a cinco anos; antes ela correspondia até aos seis anos; (2) o atendimento a crianças desde os quatro anos passou a ser obrigatório, em instituições educacionais públicas ou privadas, alterando o início da obrigatoriedade que era somente a partir dos sete anos; antes, o atendimento institucional de zero aos seis anos era uma opção dos pais. A lei também determina que, a partir de 2016, os pais poderão ser punidos com multa ou detenção de 15 dias se não cumprirem essa norma. Como toda mudança que ocorre, é preciso transcorrer certo tempo até que a norma seja integrada ao cotidiano dos cidadãos.
que a princípio “[...] eram utilizadas principalmente por famílias operárias e de classe média cuja mãe precisava trabalhar; só mais tarde passaram a ser procuradas por famílias mais ricas que acabaram impondo-lhes novos padrões de qualidade.” (RAPOPORT E PICCININI, 2004, p. 498).
É importante considerar, no que se refere ao serviço oferecido pela creche, a relação creche-família. Vasconcellos et al. (2012) apontam a existência de conflitos, e que sua resolução envolve, dentre outros fatores, as representações e expectativas que tanto a família quanto a equipe da creche têm uma sobre a outra. Ainda afirmam que é comum os educadores terem como queixa em relação à família a falta de compromisso com as questões relacionadas à criança, ficando aborrecidos quando os pais controlam ou contestam seus trabalhos. Quanto à família, as autoras expõem ser frequentemente observados sentimentos de ciúme e hostilidade endereçados às educadoras. Sendo assim, percebe-se o quanto essa relação é perpassada por significativos fatores que vão influenciar fortemente na inserção da criança na creche. Sobre isso Vaconcellos et al. (2012) apontam dois estudos (cf. VASCONCELLOS, 2002; VASCONCELLOS; OLIVEIRA; SILVA; SOUSA, 2008)14 nos quais é sinalizada uma correlação entre a qualidade do processo de inserção da criança na creche e a confiança estabelecida entre pais e educadores. Ademais, evidenciou-se como outro fator nesses trabalhos a permanência das crianças na creche durante todo o ano quando comparado com crianças que não tiveram seu processo de inserção planejado.
Sendo assim, é notório o quanto a parceria saudável entre família e creche é fundamental para que esta instituição atue no sentido de promover o desenvolvimento da criança. Para tanto,
[...] a creche precisa estar aberta a novas formas de organização familiar, favorecendo a participação de outros parceiros além da mãe [...] É importante que sejam criadas alternativas e estratégias de aproximação, de acordo com a realidade cotidiana de cada creche e das famílias, para que esta parceria possa acontecer de forma efetiva, sem reforçar a ideia de que “o lugar da família é do portão para fora.” (VASCONCELLOS, 2012, p. 359). É nesse sentido que Oliveira et al. (1992) afirmam que uma boa relação entre família e educadores pode contribuir bastante para o trabalho com a criança, pois as dificuldades
14 VASCONCELLOS, V. M. R. Construção da subjetividade: Processo de inserção de crianças pequenas e suas famílias à creche. Tese de Professor Titular em Educação Infantil não publicada. Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2002.
VASCOCELLOS, V. M. R.; OLIVEIRA, R. A.; SILVA, D. F.; SOUZA, S. O. Creche, inserção e berçário. GRUPECI, Juiz de Fora, 2008.
encontradas podem ser resolvidas com maior rapidez, havendo maior segurança nas decisões a serem tomadas. Cuidar do relacionamento pode ser uma forma eficaz de prevenir possíveis problemas.
A partir do breve caminho trilhado, já se pode perceber a relevância da temática sobre o cuidado de crianças, uma vez que se tem a possibilidade de por em evidência importantes questões acerca da infância, da família e dos contextos de desenvolvimento da criança. Essas questões podem contribuir significativamente para o estudo da criança quanto ao seu desenvolvimento; às práticas em que estão envolvidas; às interações que se estabelecem; e às diferentes concepções que a constitui, incentivando futuros questionamentos, trabalhos e intervenções que visem promover melhores condições de desenvolvimento para a criança, bem como orientar a família quanto ao seu importante papel no exercício do cuidado.
2.4 Objetivos
Apoiado no referencial teórico exposto, a presente pesquisa teve como objetivo geral investigar a rede de cuidadores de crianças de zero a seis anos por cuidadores familiares e não familiares em uma comunidade de baixa renda da cidade do Recife.
De forma específica, buscou-se: 1) Identificar, descrever e discutir rotinas, práticas e redes sociais de apoio que configuram o cuidado de crianças; 2) Perquirir modos compartilhados de cuidar das crianças, os sujeitos e as variáveis que envolvem essa prática; e 3) Investigar as significações atribuídas ao cuidado da criança por familiares ou outros adultos que compartilham essa tarefa.
3 MÉTODO
A presente pesquisa se caracteriza como um estudo qualitativo. Minayo e Sanches (1993) expõem que a abordagem qualitativa permite compreender as relações e as atividades humanas com os significados que as envolvem. Os autores ainda afirmam que a investigação qualitativa tem como objeto os significados, aspirações, atitudes, motivos, valores e crenças expressos na vida cotidiana e pela linguagem comum, sendo sua atividade complementar e concomitante o confronto da prática social e da fala. Nesse sentido, pretendeu-se investigar a rede de cuidadores de criança de zero a seis anos realçando os significados e as práticas que envolvem o ato de cuidar.
Ainda que se tenha realizado uma organização quantitativa dos dados com o intuito evidenciar aspectos relevantes que envolvem o cuidado da criança, a análise foi de cunho qualitativo, uma vez que se privilegiou a singularidade das significações atribuídas pelas cuidadoras.
3.1 Os sujeitos da pesquisa
Participaram desta pesquisa 30 cuidadoras, entre familiares e não familiares da criança, residentes em uma comunidade de baixa renda da cidade do Recife e com pelo menos uma criança de zero a seis anos sob seu cuidado.
Os sujeitos foram selecionados a partir dos seguintes critérios: serem maiores de 18 anos, residirem na comunidade escolhida como local de pesquisa, cuidarem ou compartilharem o cuidado de crianças de zero a seis anos e serem membros de famílias cadastradas na Unidade de Saúde da Família (USF) da comunidade. Esse último critério se deveu à vinculação do projeto com a Secretaria de Saúde da cidade do Recife devido à parceria da pesquisadora com a Agente Comunitária de Saúde (ACS) para o acesso aos sujeitos em suas residências.
A decisão de realizar a coleta de dados na residência dos sujeitos permitiu observar o ambiente em que a criança vive; acessando esse espaço foi possível compreender melhor importantes aspectos da rotina da criança que se configuram em relação com as práticas e a organização de seu cuidado, tais como: as pessoas com quem ela convive, o lugar de suas brincadeiras, as pessoas com as quais brinca e a relação com o cuidador (no caso em que a criança esteve presente no momento da visita).
Em se tratando de uma pesquisa qualitativa, 30 participantes pareceu à pesquisadora um quantitativo suficiente para a obtenção de um corpus denso para trazer à tona diversas significações do cuidar, tendo como base as questões de pesquisa. Além disso, considerou-se o tempo disponível para a realização da coleta e o tamanho do corpus a ser transcrito, uma vez que todas as entrevistas foram gravadas em áudio (BREAKWELL, 2006; GASKELL, 2008).
No que se refere à idade das crianças, a escolha por essa faixa etária, de zero a seis anos, período que corresponde ao atendimento da Educação Infantil, buscou focar as variáveis que envolvem a decisão dos pais/responsáveis em matricular ou não a/s criança/s na creche, ou (pré)escola. Sabe-se que é dever do estado garantir o acesso a essa modalidade de atendimento educacional; é direito da criança de usufruir desse atendimento; mas é opção dos pais/responsáveis matricular as crianças.
A decisão de investigar cuidadores de uma comunidade de baixa renda se deveu ao interesse em ter acesso às opções buscadas pelos pais/responsáveis nos casos em que não há oferta pública de atendimento a crianças pequenas, ou a oferta é inferior à demanda, ou seja, não é disponibilizado um número de vagas suficientes à comunidade. Faz-se a suposição de que as possíveis condições financeiras de sujeitos residentes em uma comunidade de baixa renda não possibilitem a busca por creches privadas, o que seria mais provável nas comunidades de renda mais alta.
Sendo assim, os sujeitos de pesquisa se distribuíram da seguinte forma: 16 mães, 9 avós, 2 babás, 2 empregadas domésticas e 1 tia. Os dados referentes à faixa etária e à escolaridade das participantes são apresentados no quadro a seguir:
Quadro 1 - Idade (em faixa etária) e nível de escolaridade das participantes da pesquisa
Desse modo, vê-se que a maioria das participantes (19 deles) se encontra na faixa etária de 20 a 40 anos. O nível de escolaridade predominante é o Fundamental I incompleto, com 9 sujeitos, seguido do Fundamental II incompleto ou 2º Grau incompleto, cada um com 5 efetivos. No que diz respeito à ocupação, mais da metade das entrevistadas afirmaram exercer atividades no âmbito doméstico, como: do lar, diarista e empregada doméstica.
Nº de sujeitos Faixa etária Nº de sujeitos Escolaridade
10 20 - 30 anos 4 Sem escolaridade (analfabeta)
9 31 - 40 anos 9 Fundamental I incompleto
5 41 - 50 anos 5 Fundamental II incompleto
2 51 - 60 anos 2 1º Grau completo
2 61 - 70 anos 6 2º Grau incompleto
O número de crianças de zero a seis anos sob o cuidado de cada entrevistada é exposto na tabela abaixo:
Tabela 1 - Número de crianças que cada entrevistada tem sob seus cuidados Nº de sujeitos Nº de crianças para cada sujeito
19 1
8 2
3 3
A partir desse quantitativo atinge-se 44 crianças da comunidade na faixa etária de 0 a 6 anos, dentre essas: 17 não frequentam nenhuma instituição de Educação Infantil, 17 frequentam (Pré)escolas públicas e privadas, e 10 frequentam Creche/CMEI.
3.2 Contextualizando o local de pesquisa: a comunidade
A comunidade na qual a pesquisa foi realizada localiza-se num bairro situado na zona oeste da cidade do Recife. Esse bairro possui cerca de 32.000 habitantes, com uma população em sua maioria feminina e com a faixa etária predominante de 25 a 59 anos.
Nessa comunidade é possível reconhecer uma rua principal comprida e asfaltada onde se localiza um terminal de ônibus, bem como pequenos estabelecimentos comerciais tais como: cabeleireiros, farmácia, panificadora, oficina, armazém de materiais de construção, copiadora, loja de eletrônicos e informática, lan house, clínica de fisioterapia, mercadinhos etc. Alguns estabelecimentos se estendem até as calçadas, como os bares, as granjas e algumas lojas de roupa. E outros pontos comerciais fazem uso apenas das calçadas armando barracas, como as feiras de frutas e verduras. Nessa mesma rua também se encontram algumas igrejas, escolas particulares de Educação infantil e Ensino fundamental e USF da comunidade.
As casas e os estabelecimentos comerciais da rua principal são feitos de alvenaria. Ainda é possível identificar grandes valas com esgoto a céu aberto em vários trechos dessa via situado entre a calçada e rua. As principais ruas que partem da principal são asfaltadas. Suas casas também são de alvenaria, tendo muitas delas primeiro andar, fachadas de cerâmica, portão de alumínio e garagem.
À medida que se vai adentrando na localidade a partir das ruas que partem da principal em direção à parte da comunidade que é considerada uma invasão, a estrutura de algumas ruas