4.1 Rede de cuidadores: os sujeitos e as práticas que envolvem o cuidado da criança
4.1.2 A dimensão funcional das redes de cuidadores
4.1.2.1 Tipo de cuidado
O tipo de cuidado foi caracterizado a partir das atividades realizadas pelos cuidadores no cotidiano da criança. Essas atividades, conforme exposto anteriormente, foram mapeadas considerando o relato das entrevistadas quando respondiam quais eram as atividades que realizavam rotineiramente com a criança e com outras pessoas de seu convívio. Esse mapeamento possibilitou identificar tanto as pessoas envolvidas no cuidado da criança, permitindo a construção das redes de cuidadores, quanto as atividades que caracterizam o cotidiano do cuidado das crianças da comunidade investigada. Assim, as atividades foram distribuídas em quatro agrupamentos de tarefas de cuidado: cuidado físico; lazer/convivência; educação/disciplina; e atividades externas (MOREIRA et al., 2012), expostos no quadro 3. A distribuição das atividades no quadro não é mutuamente exclusiva; por exemplo, Passear poderia ser alocada na coluna “Atividades externas”; ou, Levar e buscar na instituição
educacional poderia ser colocada em “Educação/disciplina”. Entretanto, ao se tomar uma decisão sobre em qual coluna a atividade era colocada, outras que surgissem, seguia-se a mesma orientação das precedentes; além disso, a análise não visava a uma comparação quantitativa entre os diferentes agrupamentos; o quadro foi elaborado para apresentar as atividades de modo mais organizado a fim de inspecionar a quem cabia, entre os membros da rede, cada uma dessas tarefas.
Quadro 3 - Tarefas de cuidado com base nas atividades do cotidiano da criança Cuidado
físico Educação/disciplina Lazer/convivência Atividades externas
Alimentação Tomar decisões referentes à instituição educacional Passear
Levar e buscar na instituição educacional /
casa da babá Higiene Auxiliar nas tarefas escolares Contar história/ assistir filme Levar ao médico
Sono Estabelecer regras e rotinas Brincar Levar à igreja A seguir será apresentado cada agrupamento, destacando a participação dos cuidadores em cada tarefa de cuidado.
Cuidado físico
O cuidado físico da criança inclui tarefas relacionadas com a alimentação, a higiene e o sono. Essas tarefas são realizadas com mais frequência pela maioria das entrevistadas: a mãe, a avó, a tia e a babá, que são as cuidadoras que passam mais tempo com a criança diariamente.
Educação/disciplina
Esse agrupamento é composto por três tarefas. A primeira delas, tomar decisões
quanto à instituição educacional, se refere à responsabilidade tanto pela decisão de compartilhar ou não o cuidado/educação da criança com a instituição educacional, quanto pela escolha da instituição a ser frequentada pela criança. Nesse sentido, ainda que algumas mães apontem a não inserção da criança na instituição educacional por falta de concordância do pai, a maioria delas são as responsáveis pela decisão de compartilhar o cuidado/educação da criança e pela escolha da instituição. Em algumas redes, essa responsabilidade é da mãe e da avó em conjunto e, em outras, a avó é a única responsável. Em apenas um caso o pai é apontado como a pessoa que escolheu a instituição educacional frequentada pela criança. Nos poucos relatos acerca do auxílio nas tarefas escolares, a mãe se responsabiliza por essa atividade, sendo mencionados em alguns casos o pai e a avó.
A tarefa de estabelecer regras e rotinas diz respeito a algumas atitudes que visam regular e orientar o comportamento da criança como: repreender alguma atitude; colocar de castigo; determinar os lugares que pode frequentar e as pessoas com as quais pode se relacionar; e definir horários para a realização de atividades diárias. Essas regras foram identificadas tanto a partir do relato das entrevistas, como a partir de observações realizadas durante as entrevistas com algumas participantes. No local da entrevista foi possível presenciar alguns cuidadores (mãe, avó, empregada, babá, tia, cunhado) repreendendo a criança e limitando seu espaço de brincadeira e de circulação. Assim, verificou-se entre as entrevistadas uma participação significativa nessa tarefa.
Lazer/convivência
As tarefas que constituem o agrupamento lazer/convivência inclui passear, contar história/assistir filme e brincar. Referente ao passeio as entrevistadas apontam que costumam frequentar: pracinha, parque, shopping, praia, zoológico, lanchonete, festa de aniversário e
casa de parentes. Essa tarefa possui o maior número e a maior diversidade de cuidadores: mãe, pai, tia, avó, tio, irmã, irmão, prima, tia-avó e padrasto. A mãe e o pai, conjunta ou separadamente, são os mais mencionados, realizando essa tarefa, com ou sem a companhia de outro cuidadores.
As tarefas contar história e assistir filme são pouco mencionadas; quando aparecem, o pai e a mãe, sozinhos ou em conjunto, são os responsáveis por realizá-las; outros cuidadores não as realizam, ou pelo menos não foram mencionados.
Já o brincar é uma tarefa que, embora inclua uma considerável diversidade de cuidadores (mãe, pai, tia, tio, irmã, sogra e babá), reúne poucos participantes, sendo a mãe e o pai os mais mencionados. A maioria das participantes aponta – quando indagadas sobre as pessoas com quem brinca a criança – os irmãos, os primos e os colegas (da vizinhança e da instituição educacional) como parceiros de brincadeira da criança, não fazendo referência a si própria, nem a outros cuidadores. Confirmando o relato de algumas cuidadoras, pôde-se observar durante as visitas às residências, momentos de brincadeira da/s criança/s com os irmãos, primos e vizinhos, na maioria das vezes dentro de casa. Em algumas residências havia, além da entrevistada, outro cuidador e criança/s, porém em nenhum caso o cuidador presente brincou com a/s criança/s ou foi convidado por ela/s para se envolver na brincadeira que realizava/m.
Sobre o brincar, é válido ressaltar a sua importância para a criança, sobretudo por ser uma atividade divertida, prazerosa e um momento de descontração com outros parceiros. Ao brincar as crianças aprendem e cooperam umas com as outras na construção ou transformação de objetos, compartilham significados, fazem antecipações acerca do comportamento do parceiro, atribuem novos sentidos a objetos sociais etc. (CARVALHO, PEDROSA et al., 2012). Eyer, Hirsh-Pasek e Golinkoff (2006) apontam que quando os pais se envolvem em brincadeiras com crianças estas brincam mais, aumentando também a variedade de brincadeiras promovidas por elas. Entretanto, ainda salientam que, hoje em dia, muitos pais acreditam que o brincar não é importante e que a criança não aprende nada quando está “só” brincando.
Nesse sentido, pode-se inferir que essa pouca participação dos cuidadores na brincadeira com a criança pode estar apoiado nessa desvalorização do brincar, que indica o desconhecimento de sua importância. Além disso, é possível supor que os cuidadores considerem a criança, e não o adulto, como o parceiro mais apropriado para brincar com
outras crianças, o que pode justificar a não participação ou o pouco envolvimento do adulto na brincadeira com a criança.
De fato a criança é um importante parceiro de interação. Carvalho e Pedrosa et al. (2012) afirmam que a criança desde muito cedo se interessa fortemente por outra criança, que é um parceiro menos previsível e mais difícil de controlar do que o adulto. Contudo, os pais ou outras figuras de apego também são importantes parceiros de brincadeiras; ao brincar com o bebê, eles vão, paulatinamente, possibilitando que seu mundo se estruture, significando os objetos utilizados na interação com o bebê, atribuindo sentidos as vocalizações do bebê e dialogando através da alternância de papeis, aprendendo, pois, a comunicar-se com ele.
As crianças desse estudo, sobretudo as mais novas (com um e dois anos), estão constantemente em companhia de adultos. E uma vez que esses adultos reconheçam a sua importância enquanto parceiro de interação da criança e a relevância do brincar é provável que se envolvam mais com a criança em momentos de brincadeira, constituindo, assim, um contexto fértil de troca social e afetividade, tão significativo para o bem-estar e desenvolvimento da criança.
Atividades externas
Três tarefas constituem esse agrupamento. Levar/buscar na instituição
educacional/casa da babá foi uma tarefa que contou com uma significativa diversidade de cuidadores: mãe, avó, tia, pai, irmã, babá, vizinha e tio, sendo a mãe e a avó as cuidadoras mais mencionadas nessa tarefa, seguidas da tia e do pai. As tarefas de levar ao médico e levar
à igreja quase não foram mencionadas. Para a primeira, apenas a mãe é mencionada, podendo ser considerada a principal responsável por essa tarefa. Já a segunda, é realizada tanto por alguns cuidadores em conjunto, mãe e pai, quanto por um único cuidador, como a mãe ou a tia.
Ainda no que se refere às tarefas de cuidado, cabe aqui salientar o destaque dado ao cuidado físico, visto que quase todas as entrevistadas, quando indagadas sobre o aspecto mais importante do cuidado da criança, apontam as tarefas relacionadas à alimentação, à higienização, ao sono, bem como à saúde e integridade física da criança (ter atenção e zelo para evitar que a criança se machuque ou adoeça, levá-la ao médico quando doente e para tomar as vacinas). Como exemplo seguem os excertos:
20E: Em relação ao cuidado da criança o que a senhora acha mais importante ter?
S8: Dar banho, dar comida na hora certa, dar o lanchinho na hora certa, ter cuidado pra não cair, tudo isso, né. (Avó materna da criança)
E: E em relação ao cuidado da criança, o que é que tu acha21 mais importante? Acha que não pode faltar?
S4: No cuidado eu acho que... levar pro médico, né, cuidar sempre levando pro médico, as vacinas, tá tudo em dias.Tem alimentação. (Mãe da criança)
Algumas participantes ainda apontaram como importante a educação tanto no que se refere ao aspecto disciplinar (orientar e regular o comportamento da criança) quanto à frequência à instituição educacional, conforme é expresso nos trechos abaixo:
E: Tem alguma outra coisa que senhora ache importante também? S5: Que o que?
E: Que a senhora ache importante em relação ao cuidado dele?
S5: Isso, né. Também educar pra mais tarde quando já tiver fechado os olhos, aí.... né, minha avó, né, me ensinou isso, né. (Avó paterna da criança)
E: E em relação ao cuidado da criança, o que é que tu acha mais importante? S10: Educação, higiene [...] Essas duas coisa é o que mais importa, pelo menos pra mim. Sempre limpinha, cabelo sempre arrumado, unha sempre cortada. Educação... [...] sempre procuro saber como ela tá na escola [...] sempre toco nesse assunto. (Mãe da criança)
Em poucas respostas, expostas adiante, as entrevistadas também consideram o lazer (brincar, passear) como um fator importante no cuidado da criança, embora sempre realcem o cuidado físico como elemento principal:
20 A letra ‘E’ identifica a entrevistadora e ‘S8’ identifica o sujeito número oito no que se refere à ordem em que os trinta sujeitos foram entrevistados.
21Em alguns lugares do Nordeste, a norma culta da fala não é respeitada com o intuito de sinalizar um tom
E: Em relação ao cuidado da criança o que é que tu acha mais importante? S28: Rapaz, a alimentação dele. Ele ultimamente tá ruinzinho pra comer, eu gosto que ele coma. O banho dele, deixo ficar bem à vontade, brincar. (Avó materna da criança)
E: E assim em relação ao cuidado da criança, o que é que tu acha mais importante?
S29: O que eu acho mais importante, cuidar deles. Educação e lazer pra eles. É o que eu acho, mas primeiro vem a limpeza. Eles tando limpinho, eles tando limpinho, eles tando limpinho, brincando assim, ó, depois quando chega toma um banho. Aí pronto, é o que eu acho no cuidado da criança, que eles é pequeno ainda, mas quando ele crescer, tiver maiorzinho aí é a educação. A educação, eu gosto muito quando eu to com dinheiro e a gente vai almoçar fora, a gente vai se divertir, acho massa. Gosto, a gente foi pro shopping do Rio Mar [...]. (Mãe das crianças)
Ademais, apenas uma cuidadora delega importância ao vínculo afetivo com a criança:
E: Quando se fala assim do cuidado da criança, tem alguma coisa que a senhora acha mais importante, que não pode faltar?
S30: O amor, o carinho, paciência, muita. Tem que ter, né, senão... Sem o amor e sem... Sem amor e sem carinho pra criança, a criança não... Não, não pega amor a gente. Pra pegar amor pela gente tem que ter amor a eles [...].
(Babá da criança)
Uma vez que a satisfação das necessidades básicas – como a fome, a sede e o sono – são essenciais para a sobrevivência da criança e eliminação de seu desconforto, não surpreende que a maioria das cuidadoras considere como mais importantes no cuidado da criança as tarefas que visem satisfazer tais necessidades também denominadas primárias. Contudo se apresenta como um dado significativo o fato de apenas uma entrevistada apontar o vínculo afetivo com a criança como o aspecto mais importante, o que pode ser justificado pelo menor reconhecimento da troca afetiva como uma necessidade primária tão fundamental quanto às necessidades físicas básicas. No entanto, o cuidado físico pode se caracterizar como
um momento privilegiado para o estabelecimento do vínculo afetivo entre o adulto e a criança. Por exemplo, o cuidador ao alimentar, dar banho ou trocar a roupa da criança pode se engajar com ela em divertidos momentos de brincadeiras, sorrisos, cócegas, caretas e vocalizações (CARVALHO; PEDROSA et al., 2012), configurando um contexto de desenvolvimento que preze pela qualidade de vida da criança.
Entretanto, vale salientar que embora o cuidado físico seja considerado o elemento mais importante do cuidado da criança, observou-se, tanto no relato das entrevistadas quanto nas observações realizadas durante as entrevistas, que o lazer e a relação afetiva são fatores significativos no cuidado da criança. Quanto ao lazer, um número considerável aponta as seguintes tarefas: passear, assistir filme, contar história e brincar; e os considera como melhores momentos com a criança. No que se refere à afetividade entre cuidador e criança, algumas entrevistadas colocam que o melhor momento com a criança é quando recebe ou dá carinho; enquanto que muitos participantes, ao serem indagados sobre o que a criança faz que eles mais gostam, apontam receber elogio e carinho da criança. Além disso, durante a entrevista, em algumas residências, pode-se observar trocas afetivas entre cuidador e criança: em todos os casos, com exceção dos bebês, a criança espontaneamente se aproxima da entrevistada, sendo acolhida por ela com carinho e palavras afetuosas. Diante disso, mesmo sendo pouco citados, o lazer e a relação afetiva parecem, pois, ocupar um lugar especial no cuidado de muitas crianças desse estudo.