A fase empírica da pesquisa, a princípio, foi dividida em três etapas, a fim de buscar um aprimoramento progressivo dos dados fornecidos pelas informantes (CRUZ, 2006). A primeira etapa foi subdividida em dois momentos.
No primeiro momento, utilizamos imagens-indutoras (foto-imagens37), como recurso nos questionários de associação livre, permitindo que se identificasse o campo semântico das representações sociais da paternidade revelada por meio indireto através de imagens que remetem a filha, paternidade, família e violência sexual infantil. Essas imagens “[...] têm uma alta qualidade icônica, a qual pode auxiliar a ativar as memórias das pessoas ou a estimulá-las/encorajá-las a elaborarem enunciados sobre situações e processos complexo” (COLLIER apud FLICK, 2004, p.164). As imagens, como afirma Flick (2004), influenciam cada vez mais as realidades cotidianas e podem dizer muito a respeito da construção social da realidade das participantes.
As fotografias foram minuciosamente selecionadas considerando as características socioeconômicas das participantes atendidas na instituição. Ponderamos ser mais prudente selecionar as fotos que fossem mais pertinentes à realidade das mães do estudo. Essas informações socioeconômicas do grupo foram sistematizadas, a partir da pasta social das mães, no Cendhec antes de ingressar no campo.
Desta fase da pesquisa, participaram sete mães, em contato individual. A instrução dada foi para que falassem as quatro primeiras palavras que lhes vinham à mente, quando olhassem as imagens apresentadas. A pesquisadora apresentou cada imagem por vez e registrou estas palavras em formulário (Apêndice I), equivalente aos questionários de associação livre. Segundo Cruz (2006), a maior vantagem desse procedimento é não permitir muitas racionalizações, diminuindo os artifícios de autoproteção das participantes. Na primeira fase da associação livre, considerou-se na análise a freqüência de palavras produzidas pelos sujeitos da pesquisa. Essas palavras ou expressões espontâneas, ou seja, menos controladas, admitem o acesso mais fácil aos elementos que compõem o
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campo semântico do objeto em estudo, aproximando-se mais dos núcleos estruturais latentes das representações sociais (ABRIC, 2003).
A regularidade de um vocabulário específico indica a existência de certo campo contextual, um espaço semântico específico. Acredita-se que as palavras excedem os significados assinalados nos dicionários, uma vez que se inscrevem na história das participantes, pois são utilizadas como uma atualização do próprio sujeito e de seu campo de referência aos objetos, em um “aqui e agora” do discurso (FLICK, 2004).
O vocabulário de um enunciado acaba por se constituir em um traço, uma referência, um funcionamento, enfim, uma intenção de sentido das mães participantes. Ou seja, o uso de um vocabulário específico é visto como uma fonte para detectar maneiras de pensar sobre a paternidade, após a violência sexual sofrida pelas filhas.
No segundo momento, adaptamos a técnica de hierarquização das palavras que se dá a partir da importância que o sujeito atribui a cada termo evocado. Neste momento, foi exposto para cada participante o conjunto de todas as fotos, de forma que as mães, em contato individual, pudessem vê-las em sua totalidade. Foi solicitado que selecionassem entre as imagens apresentadas as que consideravam como: a família ideal; a família que mais se aproxima da sua família atualmente; o pai que se assemelha ao pai de sua filha; o pai que desejaria para sua filha e explicassem o porquê de cada escolha. As falas foram gravadas para posterior transcrição e análise. Esse momento possibilitou uma característica mais qualitativa ao método da associação livre, permitindo uma maior aproximação da representação social da paternidade.
Na segunda etapa, realizaríamos entrevistas semi-estruturadas de aprofundamento em que iríamos buscar aprofundar os conteúdos e compreender o que essas mães compartilham sobre a paternidade. Nessa etapa objetivávamos capturar os elementos centrais das representações sociais sobre a paternidade. Estas entrevistas seriam realizadas com três mães, entre as que participaram do primeiro momento, tendo como critério a escolha de três diferentes condutas assumidas por estas após a violência sofrida por suas filhas ─ a mãe que denunciou a violência sexual sofrida pela filha, a mãe que está indignada pela denúncia realizada e a mãe que se apresentou indiferente.
Nesta ocasião, seriam fornecidos a cada participante os resultados da análise do campo semântico construído na primeira etapa, com as palavras mais recorrentes apresentados no formato de cartelas e que serviriam de estímulo para a produção das falas
das participantes na ocasião da entrevista. Esta fase também seria gravada pela entrevistadora, para posterior transcrição e análise.
Porém, essa etapa precisou ser reconfigurada. Ainda no primeiro momento de aplicação da atividade de associação livre, obtivemos, de quase todo o universo das mães participantes, relatos espontâneos, além das palavras associadas dizendo do conteúdo da violência sexual sofrida pelas filhas, do sofrimento que haviam vivenciado junto às mesmas e que ainda experimentam, discorrendo também a respeito da convivência familiar.
Como não tínhamos pensado previamente na possibilidade desses relatos espontâneos, alguns deles foram perdidos por falta de gravação, já que depois do término da hierarquização a pesquisadora parava a gravação. No entanto, fomos percebendo que depois desse momento formal de realização da atividade, surgiam os relatos espontâneos.
Dessa forma, depois das primeiras entrevistas, mantínhamos o gravador ligado, o que gerou o registro de relatos espontâneos que tiveram tanta riqueza quanto uma entrevista, pois ficaram livres de qualquer racionalização em busca de uma autoproteção e mesmo de qualquer intervenção da pesquisadora. Assim, dispensamos a realização das três entrevistas previstas no planejamento inicial para o procedimento de coleta dos dados.
Flick (2004), afirma que todo entrevistado possui uma reserva de conhecimento a respeito do assunto em estudo, a que ele se refere como “teoria subjetiva”. O autor assegura que “[...] é mais provável que os pontos de vista dos sujeitos entrevistados sejam expressos em uma situação de entrevista com um planejamento relativamente aberto do que em uma entrevista padronizada ou em um questionário” (FLICK, 2004, p. 89).
Na terceira etapa, realizamos uma análise documental através das pastas sociais e jurídicas das mães que são acompanhadas pelo Cendhec como mais uma fonte de dados. Utilizamos essa abordagem, não só para embasar o conhecimento adquirido nas duas outras etapas, mas também para buscar elementos que pudessem complementar os dados, e que consideramos importante para ampliar o escopo e a profundidade da análise.
Essa análise documental não foi apresentada em separado das duas outras etapas na discussão dos dados, pois fizemos uma discussão dinâmica, permeando todas as análises. Trata-se de um processo de garimpagem no qual se encontram mais informações orientadas pelo problema proposto pela pesquisa, na tentativa de se estudar as categorias de análise. As fontes documentais foram analisadas de forma crítica, considerando o contexto histórico e social do momento em que foram produzidas.