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Todos nós crescemos convencidos de que o grande vale mais que o pequeno. Janusz Korczak.

3.3.1 Violência sexual extrafamiliar

Embora se apresente com freqüência menor do que a violência sexual intrafamiliar, a violência sexual extrafamiliar de crianças acontece em níveis bastante elevados. Este tipo

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Freud (1974, p.391) afirmou que, se houvesse barreiras naturais ao incesto, não seriam necessárias severas proibições. Como não existem tais barreiras, a primeira escolha objetal do ser humano é regularmente incestuosa.

de violência é perpetrado por desconhecidos ou por pessoas com uma relação pouco intensa com a vítima e/ou com a família da vítima. Em geral são relatados em escolas, creches, consultórios médicos e lares grupais, nos quais os adultos que cuidam das crianças são os principais perpetradores (AMAZZARAY; KOLLER apud KAPLAN; SADOCK, 1998). Segundo dados da delegacia especializada – GPCA –, de janeiro a setembro de 2009, dos casos atendidos, 17,7% são desconhecidos, 79,1% são conhecidos e/ou familiares e 3,2% não informaram. Como no nosso estudo tratamos da violência sexual infantil intrafamiliar, não discutimos essa forma de violência com maiores detalhes e aprofundamento.

3.3.2 Violência sexual intrafamiliar

A violência sexual infantil abordada neste trabalho refere-se àquela praticada pela figura paterna, contra sua filha criança e que, na maioria das vezes, é classificada por diversos estudiosos da área como violência doméstica (GUERRA, 1995). Como já mencionado, a prática sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente só tornou-se visível socialmente a partir da noção de abuso, uma construção do século XX, produto de acordos que constituem regras que regulam e ordenam as práticas cotidianas (MÉLLO, 2006).

Ainda para este autor, a sexualidade humana no formato criança/jovem/adulto atravessou várias construções no tempo, “os mais longínquos da emergência da proibição do incesto; tempos menos longínquos... da emergência da infância; tempos mais recentes da emergência do abuso sexual infantil” (MÉLLO, 2006, p.100). Essas práticas são consideradas “violentas” 32

no convívio humano, principalmente na cultura ocidental, que trata o tema como um “tabu” 33

. A violência sexual infantil intrafamiliar, trata-se de uma construção social, que

Reflete, de um lado, a evolução das concepções que as sociedades construíram acerca da sexualidade humana; e de outro, a posição da criança e do adolescente nessas mesmas sociedades e, finalmente, o papel da família na estrutura das sociedades ao longo do tempo e do espaço (AZEVEDO apud FALEIROS, 1997, p.17).

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Entende-se como prática sexual genital ou não, quando uma das partes é induzida por constrangimento ou coação.

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Proibição religiosa, social ou cultural de certo comportamento, gesto ou linguagem. Que não pode ser feito, tocado ou pronunciado, por crença, respeito pudor (HOUAISS. Dicionário da língua portuguesa, 2004).

Na sociedade ocidental, a violência sexual intrafamiliar passou a ser considerada um problema social de violência contra a criança e/ou adolescente, associado ao abuso, deixando de ser restrito ao âmbito moral e privado da família. Torna-se, assim, um problema político e de saúde pública, pois desrespeita a criança e/ou adolescente, como sujeitos de direitos.

Essa forma de violência doméstica acontece habitualmente de forma repetitiva, capciosa, em um ambiente relacional favorável ─ em geral, o lar ─, sem que a criança tome, inicialmente, consciência do ato abusivo do adulto. Essa aproximação pode ser recebida, a princípio, com satisfação pela criança, que se sente privilegiada pela atenção dispensada pelo adulto. Este, por sua vez, tenta passar a idéia de que seus atos seriam “normais” em um relacionamento entre pais e filhas, ou mesmo entre pessoas na posição de parentesco que mantém com a vítima.

Com as abordagens mais assíduas e violentas, a criança experimenta sentimentos de insegurança e dúvida, começa a perceber as carícias como algo estranho. O violentador tenta inverter os papéis, atribuindo-lhe a culpa, colocando-a no lugar de provocadora e partícipe, valendo-se da insegurança e imaturidade da criança para colocá-la em dúvida quanto à importância que tem para sua família, tentando, assim, demonstrar que qualquer queixa não adiantaria, o que diminui ainda mais seu amor próprio.

Cria-se, nesta relação, a exigência do silêncio através de todos os tipos de ameaças à criança e às pessoas de quem ela mais gosta ou depende. A violência, em geral, é progressiva, doentia e o medo, aversão ou resistência da vítima, provoca o prazer do agressor e amplia a violência (PFEIFFER, 2004).Segundo Faleiros, a violência aqui,

Não é entendida, como ato isolado, psicologizado pelo descontrole, pela doença, pela patologia, mas como um desencadear de relações que envolvem a cultura, o imaginário, as normas, o processo civilizatório de um povo [...] A gravidade da violência sexual depende fundamentalmente do grau de conhecimento e intimidade, dos papéis de autoridade e de responsabilidade de proteção do vitimizador em relação à vítima, dos sentimentos que os unem, do nível de violência física utilizada (estupro, ferimentos, tortura, assassinato) e das conseqüências (aborto, gravidez, maternidade incestuosa, seqüelas físicas e psicológicas grave, morte) (FALEIROS, 1998, p.19).

Alguns autores como Pfeiffer (2005) e Scodelario (2002), compartilham da idéia de que as sobreviventes da violência sexual comumente repetem o ciclo de vitimização, perpetrando a violência sexual intergeracional com seus próprios filhos, quando não são

trabalhadas psicologicamente. Relatam, ainda, que pode se estabelecer um processo defensivo que tende a se eternizar quando a vítima se identifica com o violentador, como uma maneira psíquica de sobreviver à violência, mesmo quando esta se coloca como transgressora na tentativa de se igualar ao violentador, fazendo com que a violência sexual seja um espólio passado à próxima geração de vítimas. Pode acontecer até de estabelecerem uma relação abusiva consigo mesma, facilitando, assim, sua própria revitimização.

Em muitos casos as mães revelam-se inábeis em lidar com esse fenômeno, porque este se funda sobre uma concreta estrutura composta de sentimentos como culpa e medo do colapso familiar, dependência emocional e financeira. Esses sentimentos podem corroborar com a permanência do segredo por anos.

Para que haja uma ruptura dessa estabilização doméstica a que as pessoas se impõem diante de uma distorção relacional denominada família incestuosa (FURNISS, 1993), quase sempre estabelecida em uma estrutura patriarcal de poder, é necessário que o adulto não violentador ─ neste estudo, a mãe ─ rompa o silêncio. O problema é que esse ato, na maioria das vezes, significa muitas perdas como: destituição familiar, vergonhas, constrangimento, perda de poder aquisitivo, ameaças, dentre outras.

Apesar de ser expressiva a quantidade de mulheres que sentem dificuldade em manter um diálogo com a filha violentada e assim, tentar quebrar o quadro geral de violência, especialmente quando precisam escolher entre a filha e seu companheiro, em geral são elas que rompem esse pacto perverso de silêncio, ocupando um papel importante na interrupção dessa homeostase familiar, baseada na violência (SAFFIOTI, 1997).

Nesse sentido, a violência sexual intrafamiliar é um fenômeno de extremo enredamento, pois está envolvida dentro de uma instituição também complexa, a família. Por esse motivo, requer uma visão ampliada e liberta de “alguns” preconceitos e crenças, como o machismo, conectando-se dessa forma a todas às suas formas e manifestações, considerando, necessariamente, as questões sociais, econômicas, culturais e de relações interpessoais dentro da família, na qual acontece a violência.

4 A VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL INTRAFAMILIAR