4.2 Mulher, maternidade e feminino
4.2.1 Ser mulher
Não se pode mais pensar em um conceito a respeito de ser mulher, pois “[...] é sempre um ato arbitrário que abandona as diferenças individuais em prol de uma Representação Social, como se possível fosse encontrar uma essência da mulher” (AMAZONAS; PINTO, 2006, p.27). Existe uma pluralidade de sentidos de ser mulher que vai para além dos sujeitos em particular, porque são decorrentes de uma vasta e emaranhada rede de significações sociais.
Por isto, para se falar do lugar da mulher na família, considera-se o tempo sócio- histórico-cultural em que a estamos localizando, uma vez que a identidade é motivada por um contexto sócio-histórico no qual as atitudes ganham sentido e se definem como apropriadas, pertinentes ou indevidas, dentre outras possibilidades. Para Amazonas e Pinto (2006, p. 290), dizer “[...] da mulher, hoje, é uma tarefa ainda mais difícil, pois estamos numa era em que as identidades foram descentradas e fragmentadas. É, portanto, impossível atribuir à mulher uma única significação”.
Na atualidade, a visão convencional ─ na qual a sociedade se caracterizava por uma divisão social do trabalho, que localizava o homem no espaço público e a mulher no espaço privado do lar ─ não mais se sustenta. Este comportamento ficou mais evidente após a Revolução Industrial, mais precisamente depois das duas maiores Guerras Mundiais, e acabou por forçar transformações nos homens e mulheres, que precisaram rever posicionamentos sociais e lugares que ocupavam. As mulheres passaram a ocupar, cada vez mais, o mundo do trabalho, o mundo acadêmico, ou seja, lugares tidos como exclusivamente masculinos.
Para Amazonas e Pinto (2006), ser mulher é algo que extrapola a constituição do corpo biológico, da anatomia. Todavia,
Durante quase toda a modernidade o que pautava a concepção feminina, era, sobretudo, a idéia de natureza respaldada na biologia e que atribuía à mulher um lugar de inferioridade, por ser “mais frágil” do que o homem em decorrência da sua constituição anatômica. Assim, a contribuição feminina para a sociedade era relegada às tarefas práticas e que se relacionassem ao lar, pois, de acordo com essa visão, a mulher não possuía inteligência suficiente para tratar das grandes discussões sociais que rondavam o espaço público, destinado ao homem.
A lógica que orientava essa divisão era de que homens e mulheres eram biologicamente diferentes e que, assim, a relação entre eles deveriam decorrer dessa distinção. Os sexos seriam complementares e,
por isso, cada qual deveria desempenhar um papel determinado (AMAZONAS; PINTO, 2006, p.29-30).
Sendo assim, a diferença biológica, tanto no domínio do senso comum quanto revestido por uma linguagem rebuscada e cientificada, acabava por justificar a desigualdade social entre homens e mulheres. O mundo era dividido de forma que homens e mulheres tinham espaço determinado no mundo público e privado, bem como pelos direitos e deveres, que não apenas,
Separava os sexos, mas comparava e diferenciava o que era ser homem e ser mulher, a partir de suas capacidades e papéis sociais, que, simultaneamente, expressavam relações de poder. Sendo assim, ser mulher era se reconhecer como aquilo que o homem não era (AMAZONA; PINTO, 2006, p.30).
Com as transformações da sociedade, o modelo dessa mulher obediente e submissa passou a ser discutido notadamente quando a sociedade passou a necessitar de sua força de trabalho laboral diante da insuficiência mão-de-obra masculina advinda, sobretudo, da sua participação nas duas guerras mundiais. Essa passagem, apesar de ser decorrente de modificações políticas, econômicas e sociais, representa um progresso para as mulheres, refletindo sobre
A subjetividade feminina e as mulheres começam a rever posturas anteriores e a ressignificar suas identidades. Do mesmo modo, sua Representação Social se modificou em decorrência de sua abertura para o mundo profissional; a mulher ganhou visibilidade social (AMAZONAS; PINTO, 2006, p.31).
Essas mudanças não significaram uma igualdade entre os sexos, “nem mesmo que o imaginário, tanto feminino quanto masculino se encontre despovoado dos antigos preconceitos e crenças irracionais. Muitos desses perduram até hoje” (AMAZONAS; PINTO, 2006, p.31). Porém, há de se considerar que a mulher passou a ser um sujeito reconhecidamente atuante na sociedade e o trabalho foi um dos maiores possibilitadores da sua afirmação social.
Contudo, a responsabilidade por um lugar no mundo laboral tem atribuído às mulheres muitos sacrifícios. Além desta responsabilidade, permaneceram conferidas a elas as atividades do lar, os cuidados com a alimentação e educação dos filhos, os cuidados com o marido e tudo aquilo que diga respeito às atividades do âmbito privado da casa. Somado a isto, ainda lhe é exigido aperfeiçoamento profissional constante. Diante dessa situação, as mulheres experimentam intensas contradições e conflitos de sentimentos, pois se vêem presas a um modelo tradicional e, concomitantemente, solicitadas a assumir novas
posições, na qual “as próprias mulheres não exorcizam de si mesmas essas crenças. E, em muitos casos, isso significa para elas um enorme dispêndio de tempo e energia, embora, também, acarrete um grande poder” (AMAZONAS; PINTO, 2006, p.32).
Essas autoras afirmam que hoje há exigência de um padrão de construção de uma “supermulher” com capacidade para dar conta de todas as demandas que lhe são conferidas, sob pena de não se sentirem reconhecidas/realizadas. Esse modelo termina fragilizando a desejada liberdade da mulher:
Se anteriormente, libertar-se para uma mulher significava livrar-se do julgo da sociedade patriarcal, falocêntrica, hoje essa mulher se encontra sob o julgo do mercado e é dele que necessita liberta-se. De um modo ou de outro, isso representa uma aprisionamento do ser, e, nesse caso, do ser-mulher (AMAZONAS; PINTO, 2006, p. 34).
Faz-se importante refletir que todas essas demandas são realizadas com uma pluralidade de sentimentos angústia e ansiedade pela quantidade e variedade de tarefas a desempenhar; culpa por não atender todas as expectativas e apelo dos filhos e marido; alegria, realização, liberdade e orgulho pelas conquistas profissionais conseguidas. Muitos destes sentimentos apareceram no exercício da maternidade de que se passa a discutir na seqüência.