3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.4 Instrumentos de Coleta de Dados
3.4.2 Procedimentos de Coleta e Análise dos Dados
Charmaz (2009) orienta que o pesquisador deve refletir sobre o que está vendo e ouvindo na coleta e análise dos dados, o pesquisador deve atentar-se para perguntas que podem ser enganosas, com respostas ingênuas que levam a um nível bastante superficial e não alcançar os processos sociais fundamentais para o estudo. Para evitar essa condição, Charmaz (2009, p. 39) orienta as seguintes maneiras para a construção dos dados para a entrevista:
Observar as ações e processo, bem como as palavras.
Delinear o contexto, as cenas e as circunstâncias da ação com cautela.
Registrar quem fez o que, quando ocorreu, por que aconteceu, e como ocorreu.
Identificar as condições nas quais determinadas ações, intenções e processos emergem ou são abrandados.
Procurar caminhos para interpretar esses dados.
Concentrar-se nas palavras e expressões específicas às quais os participantes parecem atribuir um significado especial.
Descobrir as suposições tidas como óbvias e ocultas de vários participantes; demonstrar a forma como são reveladas por meio da ação e como a afetam.
A Figura 11 representa o processo linear da pesquisa para construção da teoria fundamentada nos dados adaptado de Charmaz (2009). Para autora (2009, p. 25) “na prática, o processo da pesquisa não é tão linear. Os pesquisadores que utilizam a teoria fundamentada param e escrevem sempre que as ideias lhes ocorrem”. Segundo Glaser (1978), um dos aspectos-chave da teoria fundamentada é a geração de "boas ideias".
Figura 11 - Processo Linear da Pesquisa para Construção da Teoria Fundamentada nos Dados
Fonte: Adaptado de: Charmaz (2009)
Com base nessas orientações, se iniciou o processo da pesquisa, a partir da identificação da área substantiva de estudo e do problema de pesquisa e, em seguida, com a
coleta de dados relevantes nas empresas Natura e 3M, a análise por meio dos métodos comparativos, aos quais, foram utilizadas estratégias adotadas da teoria fundamentada, como instrumentos para desenvolvimento da teoria substantiva.
A coleta e análise dos dados, então, permitiu realizar a codificação aberta (inicial) para classificar a quantidade de dados de acordo com o que eles indicaram. A codificação aberta foi desenvolvida de duas maneiras: 1) linha a linha, ou seja, induzindo o pesquisador a estudar os seus dados rigorosamente linha a linha e a começar a conceituar suas ideias e 2) codificação focalizada, permitindo ao pesquisador separar, classificar e sintetizar a quantidade de dados identificados nas entrevistas.
Durante este processo de codificação aberta e coleta de dados, foram inscritas notas ao longo do processo – memorandos – que são registros escritos de análise que variaram em tipo e formato e diagramas – memorandos visuais, não inscritos. Os memorandos projetam, registram e detalham, a principal fase analítica da pesquisa durante todo o processo de coleta, análise dos dados e relatos da pesquisa (CHARMAZ, 2009).
A partir do conjunto de dados coletados e codificados de forma aberta na teoria fundamentada, se utilizou os métodos comparativos constantes (GLASER; STRAUSS, 1967; GOULDING, 2002; STRAUSS; CORBIN, 2008; CHARMAZ, 2009). Esse método foi utilizado para estabelecer distinções analíticas e realizar comparações a cada nível do processo analítico, ou seja, há a comparação de dados com dados para identificar as semelhanças e as diferenças das entrevistas (CHARMAZ, 2009).
Uma vez identificados os padrões na codificação aberta, a etapa seguinte foi tratada como um processo mais focado de codificação, em que os códigos são agrupados conforme seu relacionamento. Esta etapa pode ser desenvolvida com diretrizes simples e flexíveis que levaram a maior tolerância de ambiguidade tratada de codificação focalizada como sendo uma segunda fase da codificação.
Esses códigos foram mais direcionados, seletivos e conceituais que os gerados pela codificação inicial ou aberta. A codificação focalizada significou “utilizar os códigos anteriores mais significativos e/ou frequentes para analisar minuciosamente grandes montantes de dados” (CHARMAZ, 2009, p. 87). Desse modo, exigiu-se a tomada de decisão sobre quais códigos iniciais que permitiram uma compreensão analítica melhor para categorizar os dados de forma incisiva e completa.
Após o exame e decisão das categorias conceituais e suas propriedades provisórias e ideias emergentes orientadas pela codificação inicial, seguida da segunda etapa a codificação
focalizada, foi então desenvolvida a última etapa, a codificação teórica. Os códigos e categorias teóricos são integrativos; eles dão um contorno as categorias e códigos focais reunidos (CHARMAZ, 2009). Assim, categorias foram verificadas em relação a dados subsequentes que foram refletidos, refinados e priorizados para a construção da teoria (CHARMAZ, 2009).
Nesta etapa de codificação teórica, buscou-se no mundo empírico, coletar mais dados sobre as propriedades das categorias identificadas até o ponto de saturação dessas propriedades por meio da amostragem teórica que consistiu de novas observações num processo de revisão e avaliação. Após a definição da teoria substantiva, confrontaram-se os argumentos encontrados corroborando com os argumentos da pesquisa dos autores identificados no capítulo dois, revisão da literatura.
Como anteriormente já citado, neste estudo, os dados foram coletados nas empresas 3M e Natura, por serem empresas que demonstraram terem práticas de inovação aberta. A coleta de dados preliminar foi por meio de entrevistas individuais com um gestor em cada empresa, para extração dos dados. Posteriormente, foi feito a primeira análise dos dados por meio da codificação inicial. Com base nos códigos gerados na codificação inicial, foram feitas novas entrevistas por meio de grupo focal para uma codificação mais focalizada que gerou as categorias iniciais e os códigos relacionados. Após extração e análise dos dados, na codificação focalizada, foram realizadas entrevistas nas empresas, sendo que na “Natura” uma entrevista individual e, na 3M uma entrevista em dupla, a fim de refinar as categorias e os códigos relacionados, num processo de saturação dos dados, para desenvolvimento da teoria substantiva.
Ao longo do processo de pesquisa, os dados foram reunidos e, além de analisados, categorizados por meio da codificação e, posteriormente, foram inter-relacionados, a partir da redação dos memorandos que, foram ampliados, por meio da realização da amostragem teórica, além de especificados as direções que levaram a teorização fundamentada, por meio da classificação e da integração das categorias, comunicando, assim, os resultados, conforme defende Charmaz (2009).
A partir da seção 4.1 denominada, entrevista e coleta de dados, a compreensão será entendida, a partir das explicações de cada etapa de codificação (inicial, focalizada e teórica), além de como foram desenvolvidos os códigos e categorias que levaram ao desenvolvimento da teoria substantiva, neste estudo.
A próxima seção (3.4.3) orienta sobre a credibilidade, validade e qualidade da pesquisa para este estudo.