3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.3. PROCEDIMENTOS DE COLETA E ANÁLISE DOS DADOS
Em estudos de natureza qualitativa a observação (participante ou não), entrevistas em profundidade e análise documental são as estratégias de pesquisa mais comumente utilizadas. Na presente pesquisa o método de coleta de dados adotado foi documental. Como documento considera-se qualquer registro escrito que possa ser usado como fonte de informação (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSNAJDER, 2004).
O instrumento utilizado na coleta de dados consiste nas histórias de vida autobiográficas das empreendedoras catarinenses. Conforme Chizzotti (2005), a história de vida é um modelo que privilegia as informações da vida pessoal dos informantes, podendo ter a forma literária biográfica tradicional como memórias, crônicas ou retratos que narram os feitos vividos pelo indivíduo central. Segundo o mesmo autor, atualmente emergem nas pesquisas a oralidade nesses relatos.
Ainda sobre as histórias de vida, Chizzotti (2005, p. 95-96) ressalta:
A história de vida ou relato de vida pode ter a forma autobiográfica, onde o autor relata suas experiências pessoais, ou sentimentos íntimos que marcaram a sua experiência ou os acontecimentos vividos no contexto da sua trajetória de vida. Pode ser um discurso livre de percepções subjetivas ou recorrer a fontes documentais para fundamentar as afirmações e relatos pessoais. Outra forma dos relatos de vida é a psicobiografia, onde o autor se situa no interior de uma trama de acontecimentos aos quais atribui uma significação pessoal e diante dos quais assume uma posição particular. A psicobiografia reúne informações tanto sobre fatos quanto sobre o significado de acontecimentos vividos que forjaram os comportamentos, a compreensão da vida e do mundo da pessoa.
Os dados utilizados para fins desse estudo foram de caráter secundário, visto a utilização das histórias enviadas pelas participantes ao SEBRAE para
concorrer ao prêmio. A pesquisadora entende tais histórias de vida como uma autobiografia dessas mulheres.
Visto que foram escritas para participação no prêmio, as histórias trazem relatos das participantes inscritas, em até 100 linhas via site, e segue diretrizes de apresentação, buscando uniformizar a avaliação do PSMN (vide anexo II).
Gil (1999) aponta que a utilização desses tipos de documentos apresentam limitações quanto à dificuldade de serem tratados estatisticamente assim como, por serem frutos da memória do indivíduo, estão sujeitos a erros, por esquecimento ou disposição de quem o fez. Como documentos pessoais mais comumente utilizados em pesquisas o autor cita as cartas (atualmente em desuso), diários, memórias e autobiografias. O autor acrescenta que por outro lado, tais documentos permitem importantes conhecimentos acerca da vida íntima da pessoa, possibilita conhecer o passado com menor custo e oferecendo menos constrangimento ao sujeito a ser pesquisado. Acrescenta-se que tais instrumentos permitem adentrar mais facilmente as subjetividades do pesquisado.
A pesquisa documental se justifica pela confiabilidade da instituição a qual realiza o prêmio e a proximidade que tal instituição tem com as participantes, que se sentem seguras e felizes por poderem contar suas histórias e ter sua trajetória reconhecida. Ainda, acrescenta-se que as mulheres selecionadas tem suas empresas visitadas por avaliadores da equipe técnica do SEBRAE que validam as informações contidas nas histórias.
A riqueza de detalhes solicitados nas narrativas caracterizam esta como uma fonte abrangente para a pesquisa. E por se tratar de material ainda não utilizado em pesquisas, tais informações são inéditas.
Quivy e Campenhoudt (2008) acrescenta que o instrumento de pesquisa pode ser direto ou indireto, sendo que na primeira o pesquisador não realiza intervenção com o sujeito pesquisado, tendo como suporte um guia. Na indireta o investigador dirige-se ao sujeito para buscar a informação, utiliza como instrumento questionário ou guia de entrevista. Nesse sentido, o instrumento desta pesquisa é direto e o guia é o modelo estabelecido pelo SEBRAE, conforme anexo II.
Ao contrário da pesquisa quantitativa, a coleta de dados na qualitativa não é um processo acumulativo e linear, controlado e mensurado. Os dados são colhidos interativamente, num processo de idas e voltas, nas diversas etapas da pesquisa e na interação com os dados. A posição ocupada pelo investigador não é reativa,
trazendo novas descobertas que promovem ações no sentido de modificar as condições e as circunstâncias indesejadas ou não planejadas (CHIZZOTTI, 2005).
Nesta pesquisa, tendo em vista seus objetivos, objeto de análise e forma de coleta de dados adotada, o método de análise adotado foi análise de conteúdo. Conforme Bardin (1979) a análise de conteúdo pode ser aplicada ao estudo de documentos escritos. Tal método de análise consiste em:
Uma técnica de investigação que, através de uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações, tem por finalidade a interpretação dessas mesmas comunicações (BERELSON, 1952, p. 13 apud GIL, 1999).
A análise de conteúdo consiste em método de tratamento e análise de informações. Nesse estudo a técnica foi aplicada à análise dos textos que descrevem as histórias das empreendedoras catarinenses. O objetivo deste método de análise é compreender o significado do que está contido no texto (CHIZZOTTI, 2005).
Três fases compõem o modelo da análise de conteúdo, quais sejam: pré análise; exploração do material e tratamento dos dados, inferência e interpretação. A primeira etapa é a fase de organização, num primeiro contato com o material empírico, selecionando, separando documentos e preparando-o para a análise. A exploração consiste em uma fase longa e complexa, na qual se realiza a categorização, a releitura que propicia o recorte (escolha das unidades), a enumeração (escolha das regras de contagem) e a classificação (escolha de categoria para cada segmento do texto). E, por fim, o tratamento dos dados, a inferência e a interpretação, cujo objetivo é validar os dados. Para tanto, se faz uso de procedimentos estatísticos, diagramas, figuras que sintetizem informações. Assim, os resultados podem ser confrontados com informações relevantes de outras pesquisas, podendo-se fazer generalizações (BARDIN, 1979).
Num primeiro momento de análise, realizou-se um pré diagnóstico do material empírico, no qual as histórias das participantes foram lidas, e, com o auxílio das experiências empreendedoras relatadas e fundamentado nas teorias e pesquisas levantadas construiu-se o modelo de análise, por meio de categorização. Essa pré análise se justifica pelo volume de dados disponíveis para a análise, com vistas a facilitar a compreensão, identificam-se dimensões e categorias, que é um processo complexo e detalhado que se desenvolve acerca da interpretação dos
dados (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSNAJDER, 2004).
Após a leitura do referencial teórico, o modelo de análise foi pré definido, e posteriormente com o pré diagnóstico dos dados esse foi corroborado e ampliado com demais dimensões não imaginadas no quadro inicial. Como exemplo pode-se citar a análise de redes influenciando as empreendedoras, não previsto no início do projeto, porém com a constatação da importância desse tema junto ao objeto de análise, foi, então, adotado como objetivo da pesquisa e contemplou-se no quadro de análise, numa forma construcionista de pesquisa.
Tal método permitiu o engrandecimento do estudo, do pesquisador, problema de pesquisa e resultados, visto que ao longo do estudo emergiram conhecimentos e percepções, num processo progressivo e interativo com a coleta e análise dos dados (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSNAJDER, 2004).
Como etapa preliminar da análise de conteúdo, foi realizada a categorização dos dados visto que contribui na redução das extensas informações contidas nos textos a algumas categorias particulares, facilitando sua compreensão e interpretação (CHIZZOTTI, 2005).
Num segundo momento foram tabuladas em planilha Excel as informações coletadas nas histórias conforme o modelo referencial de análise. Dessa forma, foi possível agrupar relatos semelhantes segundo essas dimensões definidas, podendo-se relacionar as diferentes percepções acerca do mesmo enfoque, trazendo evidências que corroborariam ou refutariam o quadro teórico no qual a pesquisa se baseou. Como prevê Flick (2009) um obstáculo encontrado foi quanto à ausência de declarações de um ou outro assunto, não apresentadas por um ou mais participantes, onde se adotou para categorização a expressão “não cita”, buscando explicar que tais relatos não abordam tais informações ou não foi possível evidenciá-la.
Em pesquisas qualitativas o uso de quadro teórico prévio com base na literatura não é consensualmente aceito entre os teóricos da área, tendo como base os construtivistas. Nesta pesquisa utilizou-se esquema conceitual prévio com base na literatura, que serviu de base, porém, foi construído e melhorado junto ao processo de análise dos dados (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSNAJDER, 2004).
O material ainda foi organizado na sequência que se adotou para a análise de modo a facilitar o processo. Dos relatos foram somente retirados os conteúdos relevantes para o esclarecimento dos objetivos do estudo. Releituras foram
realizadas com vistas a não deixar que nenhum dado importante se perdesse, prejudicando assim o processo de análise.
A organização do material empírico foi um momento importante para a análise, no qual se realizaram as primeiras observações e, com isso, as descobertas frente aos objetivos.
Foi realizado o agrupamento dos conteúdos do texto nas categorias de análise. Após a categorização dos relatos, foi procedida sua codificação, de forma, que tais informações pudessem ser tabuladas.
Os dados que puderam ser quantificados sofreram análises estatísticas principalmente a distribuição de frequências de respostas, gerando dados percentuais. Realizou-se ainda, o cruzamento de dados buscando estabelecer relações entre as variáveis, correlações, inferência de relações causais, tais procedimentos são adotados por autores como Richardson (1999).
A análise quantitativa permite a padronização de dados (FLICK, 2009). Esse método de análise foi utilizado para informações do questionário de inscrição que as participantes do PSMN responderam previamente ao envio da história, bem como na interpretação de relatos nos quais foi possível quantificar os conteúdos.
Conforme recomenda Flick (2009) a etapa de coleta de dados e análise das 86 histórias de vida das empreendedoras foi interligada, acontecendo entre os meses de setembro de 2011 e fevereiro de 2012.
A categorização contou com as seguintes categorias de análise: - Código da história no registro do SEBRAE;
- Nome do negócio; - Ano de abertura; - Atividade principal;
- Quantidade de empregados;
- Categoria setorial: Comércio, indústria, serviço e artesanato; - Principais produtos;
- Grau de instrução da empreendedora;
- Idade da empreendedora na abertura da empresa; - Surgimento da ideia empreendedora;
- Motivação a criar o negócio; - Origem;
- Experiência profissional;
- Histórico familiar (estado civil, número de filhos, chefes de família); - Processo empreendedor (criação do negócio);
- Fonte de recursos para iniciar empreendimento; - Forma de administrar a empresa;
- Forma de crescimento do negócio;
- Benefícios ou Problemas em virtude de ser mulher; e
- Participação das redes na empresa (amigos, familiares ou marido).
Por meio dessa categorização foi possível a tabulação, e posterior análise e interpretação do conteúdo, classificando-os quanto às dimensões definidas, o que possibilitou uma melhor visão das questões a serem esclarecidas.
Análise e interpretação são momentos distintos, porém estritamente relacionados. A análise teve como objetivo organizar e sumarizar os dados de tal forma, que conseguiam guiar o pesquisador a alcançar as respostas para o seu problema de pesquisa (GIL, 1999). Conforme Bardin (1979) a interpretação é a extração de outra significação que está permeada na mensagem apresentada, sob a perspectiva dos objetivos da pesquisa.