5 PERCURSO METODOLÓGICO
5.7 Procedimentos de tratamento e análise dos ‘dados’
Law (2007) caracteriza a ANT como um conjunto disparatado de técnicas analíticas das mais diversas origens, a ponto de dizer que não existe uma única ANT.
As incertezas e indefinições metodológicas existentes sobre a forma de analisar os dados levantados em campo sugerem ser esta ainda uma lacuna a ser preenchida (MITEV, 2009), caracterizando-se numa oportunidade para o presente estudo.
Santos (2006) explorou duas técnicas preconizadas por dois fundadores da ANT como métodos analíticos. O primeiro foi o ‘gráfico sociotécnico’ recomendado por Latour, Mauguin e Teil (1992). O segundo é a ‘análise de palavras associadas’ (co-word analisys) recomendado por Callon. A autora considerou ambas as abordagens limitadas para aplicação de todo o espectro de conceitos adotados pelos defensores da ANT.
Cabe lembrar que o texto seminal de Latour ([1984] 1993) foi elaborado adotando-se práticas de semiótica de Greimas (LAW, 2007). Portanto, outra forma de análise da ANT seria seguir essa vertente.
No entanto, tendo em vista que a semiótica é caracteristicamente uma abordagem estruturalista por buscar a identificação de um a estrutura elementar por trás da linguagem (BARROS, 2005) e que Latour (2005) não considera a existência de nada acima ou abaixo, mas apenas aquilo que possa ser observado, desconsiderando que exista qualquer estrutura subjacente, entendemos não se configurar a semiótica uma abordagem paradigmaticamente adequada à ANT e ao presente estudo.
Simpson (2007), por seu turno, defende a combinação da ‘análise de conversação’ com a ANT, por considerar a utilização desse método no transcorrer das situações. Essa autora atribui a origem dessa abordagem na etnometodologia, sendo uma forma de analisar as interações humanas. É utilizada tanto na linguística, quanto nas ciências sociais. Ambas abordam eventos do dia-a-dia, adotando práticas descritivas.
Uma abordagem potencialmente contributiva em estudos realizados à luz da ANT é a defendida por Cooren (2004), que utiliza a teoria dos ‘atos da fala’ de Searle e, na análise, considera a agência dos textos nas organizações. Ao invés dos textos serem vistos como elementos intermediários entre seres humanos sobre atividades organizacionais a serem
executadas, o autor adota a agência do texto em si, como um ente organizacional. O autor exemplifica algumas das possibilidades analisando a agência de um checklist.
Checklists estruturam o diálogo, decretam diretrizes, estabelecem registros, proveem referenciais de orientação de tarefas, assim como, regularizam procedimentos, percepções e manipulações. Atividades organizacionais, portanto, são discursivamente estruturadas, o que significa que o texto em todas as suas formas (escrita, oral, icônica) pode mostrar uma forma de agência, ou seja, pode fazer uma diferença (COOREN, 2004).
A partir dessas considerações iniciais o autor apresenta a agência textual por atos assertivos (ex.: informa, indica, nega), de comprometimento (ex.: promete, garante, assegura), diretivos (ex.: requisita, convida, sugere), expressivos (ex.: elogia) e declarativos (ex.: declara, aprova, confirma).
Uma possível aplicabilidade da abordagem proposta por Cooren (2004) seria na análise da agência de documentos internos (instrumentos organizacionais) e externos (legislação, decisões governamentais, etc.), publicações nas mídias interna e externa (tanto em papel, quanto eletrônica). A atenção dispensada pelo autor à agência de textos (actantes não-humanos) foi considerada no presente estudo, apesar de não termos aplicado a teoria dos atos da fala em si.
Outra possibilidade para auxiliar na análise seria a adoção dos conceitos de cartografia.
Apoiando-se em uma metáfora para reforçar a relevância da cartografia Latour (2001, p. 39) afirma que “[s]e uma imagem vale mais que mil palavras, um mapa [...] vale mais que uma floresta inteira”. Nobre e Pedro (2010) sugerem a adoção desse método para registrar e analisar os diferentes momentos da translação, especialmente as controvérsias, entendidas por eles como disputas a favor ou contra o objetivo final da translação.
A cartografia vem sendo desenvolvida e adotada por Latour ao longo do tempo e, com mais ênfase, em tempos recentes, para análise de controvérsias. Foi nossa opção para o tratamento e a análise dos dados relativos à implementação do CSC na Empresa X por razões que procuramos elucidar na sequência.
As diretrizes latourianas já apresentadas neste trabalho, de que o pesquisador deveria ter o papel como de uma ‘mosca na parede’ para que pudesse observar a dinâmica social e a importância na ANT da descrição dos acontecimentos envolvendo actantes para poder
‘explicar’ a dinâmica social, aparecem imbricadas no projeto de pesquisa europeu
denominado MACOSPOL – Mapping Controversies in Science and Technology for Politics48, implementado e liderado por Latour desde 2007. O mote do projeto é tratar a complexidade, mapeando as ações dos actantes humanos e não-humanos participantes em controvérsias.
Dentre os membros constituintes do referido projeto, merece destaque, Tommaso Venturini, pesquisador da Universidade de Ciências Políticas (Paris) e coordenador de atividades de pesquisa do Laboratório de Mídia da referida instituição49. Venturini destaca-se pela produção científica focada no mapeamento de controvérsias, sendo autor ou coautor de artigos científicos centrados nessa temática.
Esse autor caracteriza os debates da cartografia de controvérsias como “a melhor forma de observar a construção da vida social” (VENTURINI, 2010b, p. 4, tradução livre). Neste estudo, procuramos observar a construção do CSC, olhando para os ‘tijolos’ (as associações), à medida em que estavam sendo fabricados.
Para Raisz (1969), os mapas são tão antigos quanto a própria história, precedendo a própria escrita. Mapas são encontrados em povos (indígenas esquimós e astecas) e civilizações antigas (Babilônica, Egípcia, Chinesa). Coube aos gregos a base do sistema cartográfico atual.
A cartografia envolve uma série de conceitos relevantes, tais como o que vem a ser a cartografia em si, a diferenciação entre carta e mapa, assim como a projeção, a escala e a simbolização, atributos distintos e interdependentes, que diferenciam cartas e mapas de outros tipos de gráficos (ANDERSON et al., 1982).
A cartografia pode ser conceituada como sendo um:
... conjunto de estudos e operações científicas, técnicas e artísticas que, tendo por base os resultados de observações diretas ou da análise de documentação, se voltam para a elaboração de mapas, cartas e outras formas de expressão ou representação de
48 O MACOSPOL - Mapping Controversies on Science for Politics é um projeto de pesquisa colaborativo europeu, congregando pesquisadores em Ciência, Tecnologia e Sociedade com o objetivo de compartilhar, por meio de uma plataforma tecnológica na web, recursos de pesquisa, que permitam o mapeamento de controvérsias, científicas ou técnicas, a estudantes, profissionais e cidadãos. Fazem parte desse esforço diversas universidades europeias, tais como: 7º Programa de Ciências Políticas da União Européia (Paris), Universidade de Oslo, Centro de Pesquisa Observa (Itália), Universidade Ludwig-Maximillians, Universidade Munique de Liege (Alemanha), Escola Politécnica Federal de Lausane (Suíca), Universidade de Amsterdã (Nova Zelândia) e Universidade de Manchester (Inglaterra). Como recursos colaborativos a plataforma compartilha estudos de caso, abordagens de mapeamento, ferramentas aplicadas, tipos de usuários, estilo de investigação, visualizações, tipos de controvérsias, gerenciamento de dados, conceitos e temáticas gerais. Maiores informações disponíveis em www.mappingcontroversies.net.
49 O Laboratório de Mídia de Ciências Políticas foi fundado em 2009 como um centro de pesquisa e prática ligando Ciências Sociais a ferramentas digitais. Dentre suas contribuições constam sua especialização em técnicas de mapeamento de controvérsias, além da participação no desenvolvimento do software Gephi para visualização de análise de redes.
objetos, elementos, fenômenos e ambientes físicos e socioeconômicos, bem como a sua utilização.” (IBGE, 1999, p.12)
Mapa e carta são conceitos próximos, porém envolvendo diferentes escalas de representação.
Um mapa é:
[a] representação no plano, normalmente em escala pequena, dos aspectos geográficos, naturais, culturais e artificiais de uma área tomada na superfície de uma figura planetária, delimitada por elementos físicos, político-administrativos, destinada aos mais variados usos, temáticos, culturais e ilustrativos (IBGE, 1999, p. 21).
Por sua vez, uma carta consistiria numa:
... representação no plano, em escala média ou grande, dos aspectos artificiais e naturais de uma área tomada de uma superfície planetária, subdividida em folhas delimitadas por linhas convencionais – paralelos e meridianos – com a finalidade de possibilitar a avaliação de pormenores, com grau de precisão compatível com a escala (IBGE, 1999, p. 21).
O primeiro atributo característico de mapas é a escala, entendida como “a relação entre a medida de um objeto ou lugar representado no papel e sua medida real” (IBGE, 1999, p. 23).
Num comparativo entre duas escalas a maior será aquela com menor denominador.
As projeções podem alterar formas e distâncias por meio da compressão ou expansão. Por sua vez, a simbolização apresenta fenômenos a serem representados por meio de sinais, não necessariamente semelhantes à realidade de forma a comunicarem aspectos visíveis ou não da paisagem (ANDERSON et al, 1982)
A cartografia é um campo de estudo que vem passando por uma renovação teórica e metodológica, notadamente nas últimas três décadas. Originalmente, era vista como um campo auxiliar da geografia (centrada na história dos descobrimentos e das explorações), conceitual que seria o futuro motor da renovação da HC [história da cartografia]; a abordagem dos mapas como artefatos, e a ênfase nos processos técnicos de sua produção e; a abordagem dos mapas antigos como meios de comunicação. As novas teorias consideravam o mapeamento como uma ciência cognitiva que envolvia comunicação entre o cartógrafo e o usuário (GOMES, 2004, p. 69).
A questão dos mapas tanto como meios de comunicação quanto como linguagem gráfica já tinha ocupado a preocupação da História da Cartografia na década de 1970, havendo uma
ampliação de seus horizontes teóricos e metodológicos nas duas décadas seguintes (GOMES, 2004).
O trabalho de Harley buscou debater as bases teóricas e epistemológicas da História da Cartografia, introduzindo inovações significativas, como pode ser observado nas considerações de Gomes (2004):
A partir de leituras de autores como Erwin Panofsky, Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida, Harley formulou um novo programa para a HC.
Convidou os pesquisadores a adotarem os conceitos e as posturas analíticas dos filósofos franceses na análise dos mapas (GOMES, 2004, p.70)
Gomes (2004) afirma que pouco tem sido feito no Brasil para renovação teórica e metodológica mencionadas. Exceção é a tese de doutorado de Enali Di Biaggi que concebeu mapas como construções sociais e enfatizou sua dimensão discursiva, fazendo uma investigação histórica que permeou os quinhentos anos da história brasileira, um trabalho de fôlego.
Entendemos que a aplicação dos conceitos da cartografia restritos originalmente à Geografia podem ser adotados para outras áreas do conhecimento. Latour adota a cartografia para discutir como se constrói a ciência (VENTURINI, 2010a). Nosso interesse, como já foi expresso, é nos estudos organizacionais e especificamente no entendimento da dinâmica social no âmbito organizacional. Para tal, no entanto, necessitamos compreender como ocorre a constituição de caixas-pretas a partir da estabilização das controvérsias. Portanto, o entendimento de como controvérsias se desenvolvem ao longo do tempo é essencial para o presente estudo. Desta forma, passaremos a discutir o que seria uma ‘cartografia de controvérsias’ propriamente dito.
A discussão do que vem a ser uma controvérsia já mereceu detalhamento no capítulo sobre ANT. Apenas referencialmente, apresentamos a conceituação adotada por Venturini (2010a), um dos estudiosos que se debruçaram sobre o estudo das controvérsias. Esse autor conceitua controvérsia como
“[…] controvérsias são situações onde atores discordam (ou melhor concordam na sua discordância). A noção de discordância é para ser tomada em seu sentido mais amplo: controvérsias começam quando atores descobrem que não podem ignorar uns aos outros e controvérsias terminam quando atores conseguem trabalhar um sólido compromisso de convivência. Qualquer coisa entre esses dois extremos (frio consenso de recíproca ignorância e o consenso morno do acordo e aliança) pode ser chamada de controvérsia (VENTURINI, 2010a, p. 6, tradução livre).
Venturini (2010a) comenta a origem da cartografia de controvérsias como uma técnica didática, que passou por uma ampliação de escopo e relevância metodológica que vão além dos seus objetos iniciais:
A cartografia de controvérsias é um conjunto de técnicas para explorar e vizualizar assuntos. Foi desenvolvido por Bruno Latour como uma versão didática da Teoria ator-rede para treinar estudantes universitários na investigação de debates sócio-técnicos contemporâneos. O escopo e interesse de tal cartografia, entretanto, excedeu suas origens didáticas. Adotada e desenvolvida em várias universidades na Europa e nos Estados Unidades, a cartografia das controvérsias é hoje um método de pesquisa completo, apesar de, desafortunadamente, não tão documentada.
(VENTURINI, 2010a, p. 1, tradução livre)
Para selecionar ‘boas’ controvérsias Venturini (2010a) recomenda que sejam evitadas controvérsias: (a) frias (boas controvérsias envolvem ação); (b) passadas (observação teria que voltar ao momento que a controvérsia estava acontecendo); (c) não delimitadas (a análise seria facilitada, quanto mais restrito for o tema estudado); (d) subterrâneas (temas confidenciais, sigilosos ou sectários podem redundar em teorias de conspiração).
Diversamente do que se pode supor, Venturini (2010a) afirma que estudos adotando a cartografia de controvérsias têm mostrado que quanto mais tecnológico um tema, mais fácil é a sua avaliação, por conta de três características dos assuntos científicos: são mais restritos, documentados e abertamente discutidos.
Diferentemente, o presente estudo não teve foco tecnológico e sim organizacional, ao tratar a implementação de um Centro de Serviços Compartilhados na Empresa X, uma estatal.
Existem inúmeros documentos, porém não foram concebidos com o objetivo científico, além de uma parcela deles ser de natureza sigilosa. Os dados também não são de domínio amplo, como os preconizados por Venturini (2010a), e não são tão abertamente debatidos, por caracterizarem-se em translações ocorridas preponderantemente dentro da referida empresa.
De qualquer forma, esse autor, aponta a dificuldade inerente da utilização da cartografia de controvérsias, destacando que seu objetivo nunca foi facilitar a investigação, nem ensinar os actantes, mas sim aprender a partir deles.
Isso não quer dizer que a cartografia de controvérsias seja complexa, mas sim a vida coletiva, pois quanto mais actantes forem envolvidos (especialmente não-humanos) mais essas situações serão intrincadas. Portanto, defende Venturini (2010a, p. 10-11, tradução livre) que
“não é a cartografia de controvérsias que complica algo simples, mas sim outras abordagens que simplificam algo complexo”. Se por um lado a cartografia de controvérsias torna a
investigação mais lenta e dura, por outro leva o pesquisador a abraçar a complexidade por meio de múltiplos pontos de vista e perspectivas.
Essa é a situação do presente estudo de caso, no qual se adotando múltiplas fontes de evidência (observação participante, documentos diversos, entrevistas individuais e grupos de foco), conseguimos captar a expressão de pontos de vista distintos ao longo da translação de implementação do Centro de Serviços Compartilhados.
Venturini (2010b) descreve o trabalho do cartógrafo em campo:
Exploração e representação sempre caminham juntas na cartografia. Nenhum cartógrafo sério viajaria pelo território sem tomar notas, esboçando planos, emendando atlas prévios. Essa é a forma pela qual mapas vêm sendo manufaturados;
por meio de uma ajustamento recursivo de observações e descrições [...] Desde o início de suas campanhas, eles lidam com mapas (VENTURINI, 2010b, p. 2, tradução livre).
Esse autor destaca a importância do cartógrafo de controvérsias utilizar o maior número possível de ferramentas de observação para se atingir a objetividade por meio de diferentes pontos de observação, sublinhando que:
[q]uanto mais numerosas e parciais são as perspectivas pelas quais o fenômeno é considerado, mais objetivo e imparcial será sua observação [...] Na cartografia de controvérsias, todos os conceitos e todos os protocolos merecem consideração, especialmente se eles vêm dos próprios atores. Todos os atalhos são rejeitados, observação é compelida a ser tão rica e complexa quanto seus temas (VENTURINI, 2010a, p. 6, tradução livre).
Ao cartógrafo de controvérsias recomenda-se que dê visibilidade a diferentes pontos de vista, considerando sua representatividade (afirmações ou argumentos compartilhados por vários actantes deveriam ter maior visibilidade), influência (actantes com posição de influência merecem tratamento diferenciado) e interesse (considerar as minorias e não apenas posições majoritárias) (VENTURINI, 2010b).
Como já foi relatado em item anterior, procuramos dar voz aos mais diferentes grupos de interesse. Tanto mediante a observação participante, quanto pelas demais fontes de evidência (documentos e entrevistas) consideramos as diferentes manifestações dos actantes, a voz de actantes com posições hierárquicas diferenciadas, além dos posicionamentos de maiorias e minorias, permitindo a constatação de convergências e divergências de entendimento entre os actantes envolvidos na dinâmica social cartografada.
Venturini (2010b) alerta ainda sobre três cuidados a serem tomados pelo cartógrafo durante o mapeamento de controvérsias: (a) adaptação: procurando cobrir uma diversidade de
representações dos nativos; (b) redundância: elaborando diferentes representações por meio de diferentes mapas, cada qual procurando explorar aspectos específicos. A visão conjunta dos mapas superaria as visões parciais de cada mapa de forma a trazer toda a riqueza do debate. A consequência prática é a necessidade de repetição de determinadas informações.
Longe de ser um problema tal repetição permite a estabilização das representações;
(c) flexibilidade: garantindo a rastreabilidade entre as diferentes translações de representação dos mapas e o fenômeno original nas duas direções.
As três recomendações acima foram seguidas no presente estudo. As representações dos actantes foram expressas nas diferentes fontes de evidência. A questão da redundância também ocorreu mediante a elaboração de diferentes tipos de mapas a partir de diversas ferramentas e detalhadas mais adiante. Quanto à rastreabilidade, foram mantidas as versões originais das gravações, filmagens, relatos dos diários do projeto, transcrições, documentos, planilhas analíticas intermediárias de forma a permitir, a qualquer momento, consultas aos dados originais, que mantém a complexidade inerente à construção social aqui investigada.
Esse último aspecto é particularmente relevante na cartografia de controvérsias, pois ao cartografar faz-se a agregação de informações, entendida como poucos elementos representando muitos outros. Esse processo, na ótica de Venturini (2010b) deve ser feito com cuidado uma vez que:
...sempre envolve o risco de descartar algo importante. Por essa razão a reversibilidade é tão importante […] tendo certeza que as reduções podem ser desfeitas […] Mantendo a agregação reversível, pesquisadores asseguram a si mesmos (e a seus pares) a possibilidade de escalar de volta suas formalizações e tentar outras decidas (VENTURINI, 2010b, p. 10-11, tradução livre).
O autor destaca que atualmente essa tarefa tornou-se mais fácil de ser efetivada.
Pesquisadores atualmente podem lidar com vastas quantidades de informações, algo inviável até o advento das tecnologias digitais, além de poder agregar também as vantagens da pesquisa qualitativa. Técnicas digitais facilitam todo o processo de desagregação, permitindo a navegação entre diferentes níveis de agregação, algo particularmente conveniente para as ciências sociais, por preencher a lacuna e propiciar a movimentação entre macro-estruturas e microinterações (VENTURINI, 2010b).
Dessa forma, preocupamo-nos em selecionar recursos de mídia digital com vistas a facilitar o tratamento dos dados, como detalharemos na sequência.
O ponto de partida para o tratamento dos dados foi o diário de campo. Passamos a fazer sua análise por meio de uma leitura flutuante do texto, com o objetivo de identificar os elementos envolvidos na dinâmica social relatada. Especificamente foram identificados: as reuniões, os actantes humanos e não-humanos, as controvérsias, as caixas-pretas, os argumentos utilizados nos debates pelos actantes e as decisões tomadas. Aspectos sigilosos foram omitidos para atender aos preceitos éticos anteriormente mencionados
Além da codificação dos relatos do diário do projeto esse mesmo processo foi utilizado nas outras fontes de evidência (e-mails, relatórios e documentos) com vistas a trazer outros pontos de vista além daqueles do pesquisador.
Nessa etapa merece destaque a necessidade de seleção dos e-mails mais relevantes.
Originalmente foram compilados 830 e-mails levantados durante o período de observação participante. Estes e-mails caracterizavam-se por ser de três tipos principais: e-mails diretos entre um emissor e um receptor; troca de e-mails entre duas pessoas; cadeia de e-mails (sequência de encaminhamentos de e-mails perpassando por mais de duas pessoas).
Para avaliar-se a relevância de tais e-mails foram considerados simultaneamente os seguintes critérios: (a) Para inclusão do e-mail: Tinham o envolvimento de diretor (envio ou recebimento); versavam sobre assuntos não abordados em outras fontes de dados; envolviam tomadas de decisão; fossem fontes de novas controvérsias; caracterizavam-se por divulgações
amplas de conteúdo; foram envios pelo celular 3G do implementador; eram cadeia de e-mails (diálogos extensos); envolviam conflitos de opiniões por e-mail (controvérsia) entre
dois ou mais actantes; eram relatórios de andamento do projeto50; faziam o encaminhamento de não-humanos relevantes (por exemplo: apresentações e relatórios diversos) dando origem aos mesmos no ambiente social; (b) Para exclusão do e-mail: Assuntos sigilosos cuja divulgação poderia gerar constrangimentos entre os envolvidos e revelar aspectos empresariais que feririam os compromissos éticos assumidos; e-mails intermediários da cadeia de e-mails; informações pontuais que não tiveram consequências na dinâmica da translação estudada; envolvimento de atores com participação pontual e de baixa relevância;
e-mails não associados a alguma controvérsia.
50 Tipo de e-mail que o implementador passou a enviar semanalmente durante um determinado período da translação para posicionar o diretor, os gerentes administrativos e seus respectivos superintendentes e gestores sobre os acontecimentos no projeto.
A partir dos critérios apresentados foram feitas três varreduras nos e-mails, chegando-se a uma seleção de 288 mensagens consideradas relevantes.
Todos os elementos anteriormente identificados (nos relatos e demais fontes de evidência de campo, excetuando-se as entrevistas individuais e grupos de foco51) foram inseridos individualmente no software de redes dinâmicas Gephi 0.8 - um dos recursos mais
Todos os elementos anteriormente identificados (nos relatos e demais fontes de evidência de campo, excetuando-se as entrevistas individuais e grupos de foco51) foram inseridos individualmente no software de redes dinâmicas Gephi 0.8 - um dos recursos mais