2 A TEORIA ATOR-REDE
2.1 Redes de atores / atores-rede
Latour (2005) afirma que o conceito de rede foi introduzido nos anos 80 quando ainda não existiam a internet nem a al-Qaida. O que era uma exceção virou regra. Foi utilizada, pois
“precisávamos de algo para designar os fluxos de translações” (LATOUR, 2005, p. 123). Esse autor alerta que a adoção do conceito de rede deve ser entendida como uma ferramenta para auxiliar a descrever a dinâmica social e não que seja confundida com o objeto a ser descrito.
Moraes (2000) discute o conceito de rede apresentando suas características topológicas15 e destacando que tal conceito vai além da topologia para uma questão ontológica, como fica claro em suas palavras:
Do ponto de vista topológico, uma rede é caracterizada por suas conexões, seus pontos de convergência e bifurcação. Ela é uma lógica de conexões, e não de superfícies, definidas por seus agenciamentos internos e não por seus limites externos. Assim, uma rede é uma totalidade aberta capaz de crescer em todos os lados e direções [...] A rede é mais do que um conceito topológico: ela é ontológica.
[...] uma rede é formada num dado instante por uma pluralidade de pontos ligados entre si por uma pluralidade de conexões. [...] O modelo da rede [...] é marcado pela pluralidade e complexidade das vias mediadoras; não há um caminho logicamente necessário(MORAES, 2000, p.2).
Freire (2006) observa que a concepção de rede para a ANT é próxima à de rizoma de Deleuze e Guattari:
15 Segundo Houaiss e Salles (2001, p. 2735) topologia é o “estudo das propriedades geométricas de um corpo, que não sejam alteradas por uma deformação contínua”.
Tal como no rizoma, na rede não há unidade, apenas agenciamentos; não há pontos fixos, apenas linhas. Assim, uma rede é uma totalidade aberta capaz de crescer em todos os lados e direções, sendo seu único elemento constitutivo o nó. Na abordagem da TAR trata-se então de enfatizar os fluxos, os movimentos de agenciamento e as mudanças por eles provocadas ... (FREIRE, 2006, p. 26)
Latour (2000) afirma que as associações podem ser fortes e fracas. Cabe a quem analisa essas associações a identificação tanto dos elementos constituintes da rede, quanto da intensidade das conexões entre tais elementos. Dependendo da situação, a relevância tanto de humanos quanto de não-humanos será diferente (LATOUR, 2005).
Tal relevância é definida à medida que os acontecimentos vão se sucedendo, mediante a participação de cada actante. Quando assume um papel transformador, o actante é entendido como um ‘mediador’; se atuar como mero transportador sem modificar a situação, é visto como um ‘intermediário’. A diferenciação entre intermediários e mediadores fica clara nas palavras de Latour (2005) quando afirma que:
[u]m intermediário, em meu vocabulário, é o que transporta significado ou força sem transformação: definir suas entradas é suficiente para definir suas saídas. Para todos os propósitos práticos, um intermediário pode ser tomado não só como uma caixa-preta, mas também como uma caixa-preta contando por um, mesmo se internamente é feita de várias partes. Mediadores, por outro lado, não podem ser contados como apenas um; podem ser contados por um, por nenhum, por vários ou por infinitos.
Suas entradas nunca são uma boa predição de suas saídas; suas especificidades tem que ser levadas em conta sempre. Mediadores transformam, transladam, distorcem e modificam o significado ou os elementos que supostamente carregam (LATOUR, 2005, p. 39, tradução livre).
Latour (1993) discute outras características dos actantes nessas redes, tais como, sua força, a observância de regras, a quantidade, a convivência em harmonia e seu posicionamento (location). Um actante, para esse autor, ganha força ao associar-se a outros actantes. Quanto à observância de regras, leis ou estruturas não se pode dizer que um actante as siga ou não. A quantidade de actantes é a priori indeterminada. Somente por meio da mensuração de um contra os demais é que tal quantidade pode ser determinada. Não existe harmonia, nem integração. A agregação ou não de tais actantes é determinada no campo de batalha. Quanto ao seu posicionamento também não é possível sua definição antecipadamente. Segundo
torna (NIKOLOVA, 2010). Além disso, tais redes são “tênues, frágeis e esparsas” (LATOUR, 1993, p. 222). Redes são mutáveis, podendo se autotransformar (NIKOLOVA, 2010).
Latour (1992) destaca que a passagem do tempo é consequência das associações e não de referenciais assumidos por um observador dos acontecimentos ou de escalas previamente definidas. Assim como os actantes definem quais relações e transformações são por eles criadas também a forma de medir o tempo cabe a eles.
Moraes (2000) complementa ao afirmar que as redes não se caracterizam apenas por uma dispersão no espaço e por uma evolução no tempo, mas sim como “o lugar de construção simultânea do espaço e do tempo” (MORAES, 2000, p. 3).
Law (1992) esclarece a aparente dificuldade de distinção entre actantes e redes, pois a palavra ator na expressão ator-rede é sempre uma rede.
Pedro (2008) complementa ao afirmar que:
Freire (2006) destaca a irredutibilidade de uma rede de atores a um único ator, apontando a sua constituição por elementos interconectados, animados ou não, possuidores de agência:
Uma rede de atores não é redutível a um ator sozinho; nem a uma rede, mas composta de séries heterogêneas de elementos, animados e inanimados conectados, agenciados. Ela é simultaneamente um ator, cuja atividade consiste em fazer alianças com novos elementos e uma rede capaz de redefinir e transformar seus componentes (FREIRE, 2006, p. 26)
Latour (2000) discute a formação desses atores ao longo do tempo por meio da sedimentação de elementos antigos aos mais novos:
Qualquer objeto novo é assim formado pela importação simultânea de muitos outros mais antigos para a sua forma reificada. [...] O essencial é que o objeto novo emerge de uma formação complexa de elementos sedimentados, que já foram objetos novos em algum ponto do tempo e do espaço. A genealogia e a arqueologia desse passado sedimentado é sempre possível em teoria, mas se torna cada vez mais difícil à medida que o tempo passa e que o número de elementos agrupados aumenta (LATOUR, 2000, p. 153).
Quando as redes estão estabilizadas, isto é, tornam-se ‘caixas-pretas’ (LATOUR, 2000), podem passar a ser tratadas como blocos únicos. Essa simplificação é atingida por um processo denominado ‘pontualização’. Em geral as caixas-pretas são padrões de rede que são
amplamente utilizadas e aceitas sem questionamento. Uma vez atingida, a estabilidade apresenta um equilíbrio precário e que enfrenta resistência (NIKOLOVA, 2010).
Para Harman (2009), apesar de não ter inventado o termo caixa-preta16, Latour é responsável por trazê-lo para a Filosofia. Harman conceitua caixa-preta como:
… qualquer actante tão firmemente estabelecido que somos capazes de tomar seu interior por certo. As propriedades internas de uma caixa-preta não contam enquanto estivermos preocupados apenas com suas entradas e saídas (HARMAN, 2009, p. 33, tradução livre).
O mesmo autor entende que Latour considera o conceito de caixa-preta como substituto de substância. Caixas-pretas são ‘muitas’ (uma rede de alianças) enquanto substância é ‘uma’.
Uma caixa-preta pode ser vista como um conjunto de actantes estabilizados, uma controvérsia pode reabri-la (HARMAN, 2009).
Fazendo uma metáfora com a manutenção de automóveis, Harman (2009) observa que caixas-pretas são de baixa-manutenção por conta de ser algo que confiamos e que não nos preocupamos sobre de que maneira ela chegou a se formar. Apesar disso, caixas-pretas nunca estão totalmente fechadas. Baixa-manutenção não significa sem-manutenção.
Para Latour (2000), são exemplos de caixas-pretas os conhecimentos consolidados em que pesquisadores se apoiam para suas argumentações nos trabalhos científicos. Outros exemplos podem ser citados: um pesquisador não questiona o software estatístico, nem o astrônomo, as lentes de seu telescópio, nem o administrador, os instrumentos organizacionais.
Nas organizações, um procedimento ou mesmo todo um programa pode vir a se transladar para caixas-pretas (atores-rede estabilizados). Isso não quer dizer que elas sejam inquestionáveis, pelo contrário, como coloca Harman (2009), apesar da dificuldade que os actantes enfrentam ao tentarem abri-las (LATOUR, 2000).
Nesse sentido, Latour (2000) exemplifica o desafio enfrentado por um ‘discordante’, personagem criado com o objetivo de opor-se a um cientista, para questionar o conteúdo de um texto científico. Além do esforço de arregimentar um conjunto de elementos para subsidiá-lo nessa tarefa, sua ‘batalha’ não ficará restrita ao texto escrito pelo cientista, mas também aos aliados que sustentam o referido texto. Isso fica claro em suas palavras quanto afirma que:
16 Oriunda da cibernética quando um conjunto de comandos é muito complexo. É usado quando o conhecimento de como algo funciona é desnecessário, exceto suas entradas e saídas (LATOUR, 2000).
... ao discordarem, as pessoas vão abrindo cada vez mais caixas-pretas e subindo cada vez mais o ‘rio’, digamos, em direção às condições que produziram as afirmações. [...] É necessário sair à cata de mais recursos em outros lugares e outros tempos. As pessoas começam a lançar mão de textos, arquivos, documentos e artigos para forçar os outros a transformar o que antes foi uma opinião num fato. [...]
O discordante terá de enfrentar pilhas de relatórios, audiências, transcrições e estudos. (LATOUR, 2000, p. 54).
... ao atacar um texto carregado de notas de rodapé, o discordante terá de enfraquecer cada um dos outros textos, ou pelo menos será possível exigir isso dele, ao passo que, ao atacar um texto despido de referências, o leitor e o autor estão em pé de igualdade: face a face. Nesse aspecto, a diferença entre literatura técnica e não-técnica não está em uma delas tratar de fatos e a outra, de ficção, mas está em que a última arregimenta poucos recursos e a primeira, muitos, incluindo os distantes no tempo e no espaço (LATOUR, 2000, p. 59).
Se o discordante conseguir arregimentar aliados a ponto de conseguir abrir a caixa-preta, essa nova rede resultará em poder.