4. METODOLOGIA
4.3. Procedimentos e técnicas de coletas de dados
Ao longo deste trabalho a pesquisa documental e a entrevista qualitativa semiestruturada foram os procedimentos de coleta de dados principais, sendo a pesquisa documental realizada primeiramente como um norteador e facilitador para compreensão do contexto para o qual as entrevistas foram realizadas, identificando as características do grupo certificado.
A técnica principal utilizada foi a entrevista qualitativa semiestruturada, gravada com o auxílio de um gravador para posterior transcrição, com os produtores definidos na amostragem, cooperativa e gerência do grupo certificado, sendo selecionada devido à flexibilidade que oferece ao pesquisador em elaborar perguntas à medida que o diálogo se desenvolve (GODOI e MATTOS, 2011). Triviños (1987) coloca que a entrevista semiestruturada é comumente embasada em modelos teóricos ou hipóteses preestabelecidas que tem relação com um determinado tema pesquisado, que permite o surgimento de novos focos a partir das respostas dos entrevistados, favorecendo a compreensão da totalidade do fenômeno estudado.
O uso de entrevista semiestruturada como metodologia de coleta de dados foi identificado em diversos trabalhos relacionados à certificação Rainforest Alliance em relação ao seu programa de certificação de café (RAINFOREST ALLIANCE, 2015) e da perspectiva de seu programa de conservação ambiental (RAINFOREST ALLIANCE, 2015), uma avaliação do programa de certificação de chá da UTZ no Sri Lanka (HAAGSMA, VREDEVELD, et al., 2016), uma avaliação ampla da ISEAL sobre a perspectiva dos produtores e seus desafios
(ISEAL ALLIANCE, 2018), e uma revisão de literatura de impacto (PETROKOFSKY e JENNINGS, 2018).
As entrevistas foram realizadas com todos os componentes da amostra estabelecida, onde foram colocadas perguntas que visaram identificar as mudanças das práticas após a certificação, observando como se deram essas transições, e os impactos gerados por essas mudanças no contexto da certificação, sobretudo sob a perspectiva da observação direta da realidade, com relação aos acontecimentos em tempo real; e observação contextual, tratando do contexto do evento a ser estudado (YIN, 2001). Adicionalmente, lideranças da cooperativa foram incluídas entre os entrevistados para entender o valor e função dessa organização no contexto da certificação com base em Bruce (2016) e Pinto, Gardner et al. (2014).
Como a população foi composta majoritariamente de produtores rurais, a entrevista de forma espontânea foi utilizada, que permite a coleta de opiniões sobre fatos e não meramente a narração dos mesmos, o que favoreceu o trabalho por dois motivos: a possibilidade de, a partir de um roteiro prévio, elaborar novas perguntas e coletas de opiniões; e ao aumento da sensação de confiança e no aumento da coleção de detalhes dos fatos narrados – cruciais para uma pesquisa qualitativa de estratégia em estudo de caso (YIN, 2001).
As entrevistas foram realizadas diretamente nas propriedades dos produtores amostrados, o que permitiu observações in loco de como as práticas são realizadas pelos produtores para manutenção da certificação. Essas observações geraram um diário de campo com anotações, servindo de fontes adicionais de contextualização das entrevistas realizadas com os produtores (CRESWELL, 2010).
Para embasar os trabalhos das entrevistas em campo, utilizou-se a pesquisa documental como orientador dessas intervenções em duas frentes principais, sendo a primeira delas a análise dos documentos relevantes à certificação UTZ como a descrição do Código de Conduta e Protocolo de Certificação para prover direcionamento às perguntas do questionário em relação à situação na certificação dos produtores e o mapeamento geral das características do grupo.
Em um segundo momento, foram também analisados através da pesquisa documental relatórios de impacto de entidades privadas e de organizações não governamentais acerca da certificação UTZ em seu contexto de operação, bem como a relação de componentes do grupo e descrição das não-conformidades identificadas pelos auditores durante as auditorias em escopo de grupo. Foram obtidos dados em relação à não conformidades observadas em auditoria no período de 2016 a 2018, que é o período que compreende o tempo em que os produtores estiveram certificados desde seu primeiro ano de certificação até a realização deste trabalho.
O roteiro semiestruturado da entrevista se encontra no Apêndice I, composto de dezesseis perguntas feitas na intervenção em campo. O roteiro semiestruturado permite que novas perguntas sejam elaboradas ao longo da entrevista, isso significa, tomar oportunidades de esclarecimento e de estabelecer novos focos ao longo da condução da entrevista, afim de traçar o panorama mais completo possível do fenômeno pesquisado (CRESWELL, 2010).
Cada uma das perguntas realizadas foi relacionada com o modelo teórico utilizado nesse trabalho, deixando claro quais eram as Práticas de Mercado e Translações que visavam ser observadas através dos questionamentos realizados.
4.3.1. Observação participante
O pesquisador que conduziu esse trabalho vem trabalhando com a cultura do café e na certificação UTZ ao longo dos últimos oito anos, o que lhe dotou de capacidade analítica e experiencia extras para interpretar os dados obtidos ao longo do trabalho. Esse fator facilitou a identificação dos documentos necessários para certificação, bem como o entendimento do funcionamento, processo e dinâmicas da certificação ocorrendo no contexto analisado, como se observa ao longo do trabalho.
Tal experiencia proveu-lhe de acesso facilitado aos documentos referente a certificação do grupo, devido ao conhecimento de quais locais eram os mais adequados para viabilizar tal acesso. Os documentos referentes ao Protocolo de Certificação, Código de Conduta e processos de certificação foram obtidos diretamente do website da UTZ.
Todavia alguns documentos não estavam disponíveis diretamente. Os documentos referentes às não-conformidades do grupo foram obtidos junto ao departamento de Normas & Garantias da UTZ, na Holanda; os documentos referentes aos dados de composição do grupo quanto às características dos membros que o compunham foram obtidos parte com a Coopercam e parte com a Equipe de Suporte ao Membro da UTZ, no Brasil.
A divulgação desses dados foi condicionada à veiculação agregada, ou seja, sem identificar individualmente os produtores no conjunto de dados. A mesma codificação das entrevistas foi utilizada para identificar casos relevantes onde, por exemplo, um produtor declarou ter sido parte de uma amostra de auditoria, ou ter recebido uma não-conformidade em específico. A razão disso é uma restrição no Protocolo de Certificação da UTZ (UTZ, 2018, p. 37), que veda a veiculação de dados de maneira individualizada por produtor, preservando os dados obtidos ao longo do processo de auditoria.
Adicionalmente, foram obtidas autorizações da UTZ e da Coopercam para que tivessem os nomes de suas respectivas organizações citadas e mencionadas neste trabalho. A autorização
da Empresa Privada que coordena a gestão do grupo não foi obtida, portanto sendo mencionada como tal sempre que for referida neste trabalho.
Cabe ressaltar que em nenhum momento das entrevistas o pesquisador se apresentou como parte da UTZ, mas sim, como mestrando da Universidade Federal de Lavras. Dessa forma, preservando a transparência, veracidade das respostas e conforto dos entrevistados no momento da entrevista, sem possibilidade de indicarem respostas enviesadas devido às relações do pesquisador com a certificação UTZ.