2.2. Estudos de Mercado Construtivistas
2.2.2. Translação e suas cadeias
Ao considerar o conceito de Translação, Kjellberg e Helgesson (2007) solucionam a questão de considerar as práticas como dimensões isoladas, atribuindo consequências às suas interações. Latour (1986, apud KJELLBERG e HELGESSON, 2007, p. 144) define Translação como “uma ideia, regra, texto, produto, tecnologia ou declaração que se espalha ao longo do tempo e espaço”, e esta visão se adapta à perspectiva dos EMC.
Com o uso do conceito de Translação, deixamos de identificar características existentes nos mercados (epistemologia), e passamos a identificar como esses mercados são produzidos (ontologia) (KJELLBERG e HELGESSON, 2007). Em suma, as modificações nas práticas,
normativas, de representação e de transação resultam em Translações que modificam e constroem o mercado às quais estão inseridas.
É importante salientar que além das Práticas de Mercado influenciarem na construção do mercado em si, as Práticas de Transação, de representação e normativas influenciam umas às outras, provocando efeitos em cadeia que alteram as dimensões que o mercado opera naquele momento. Na Figura 4, a tipologia dessas dimensões é representada pelas setas que afetam as práticas do mercado entre si através das Cadeias de Translação.
Kjellberg e Helgesson (2007) citam alguns exemplos que demonstram como Práticas de Representação e normativas influenciam as Práticas de Transação, considerando contextos onde a representação estimula a comercialização; ou o caráter normativo alterou as transações em mercados financeiros consolidados. Os autores denominam regras e ferramentas como principais resultados das cadeias de Translações realizadas nesse contexto.
O mesmo ocorre em situações em que transações e representações influenciam o contexto de normatização de um mercado, já que a forma pela qual um mercado se comportará em direção a regulação depende de como essa representação no mercado ocorre, portanto, há uma cadeia de Translação resultando em uma relação de descrição desse mercado (KJELLBERG e HELGESSON, 2007).
Uma outra relação possível é a forma pela qual transações e normas afetam as representações, que tem relação direta com como o mercado é construído em termos quantitativos. Em outras palavras, Cadeias de Translação que determinam o que deve ser medido e como deve ser medido, resultam em uma relação de mensuração desse mercado (KJELLBERG e HELGESSON, 2007).
Com base nessas definições, Kjellberg e Helgesson (2007) propõem, com esses exemplos de interação com base em Translações, uma visão de como o mercado interage nessas três categorias de Práticas de Mercado e quais os resultados essas Práticas de Mercado, ao interagirem, causam ao próprio mercado. Considerando as Cadeias de Translação que resultam em regras e ferramentas; originárias da influência da representação e normas nas Práticas de Transação; das descrições, influencias das representações e transações nas normatizações; e mensurações, influenciadas pelas normas e transações nas representações; os autores adicionam ainda: os resultados práticos dessas descrições; os interesses que permeiam as relações de
transação; e por fim métodos de mensuração para endereçar as necessidades normativas, que também podem ser entendidos como Cadeias de Translação, conforme a Figura 4.
Figura 4 – Translações nas construções de mercado.
Fonte: Do autor (2019), com base em Kjellberg e Helgesson (2007, p. 151).
O modelo apresentado auxilia na compreensão de como os mercados estão sendo continuamente constituídos, isto é, como os movimentos de Translação continuamente modificam o meio pelo qual o mercado opera. É possível relacionar esse modelo com diferentes configurações de mercado, como por exemplo [1] aqueles com menor quantidade de associações feitas entre representação, que resulta em instrumentos de mensuração mais justos e estáveis; da mesma forma, considerando aspectos de concorrência, menor quantidade de associações entre representação e transação resultam em regras mais estáveis e bem definidas de operação no mercado (KJELLBERG e HELGESSON, 2007).
Por exemplo, segundo Kjellberg e Helgesson (2007), [2] mercados onde há intensa ocorrência de transações expõem os atores desse mercado à mudança, ou não especificam os elementos transacionais com detalhamento. Questões como definição de competências, definição de objetos de contrato e condições de transação são endereçadas através de Práticas de Transação intensificadas, além de concomitantemente impactar nas Práticas Normativas e de representação desse mesmo mercado – levando à conclusão de que não se trata apenas de uma transação econômica, mas que o conceito também engloba transações de relacionamento. Há [3] mercados que são formados por um forte aparato normativo. Em um cenário como esse, as Práticas Normativas são desenvolvidas pois as regras e ferramentas do mercado
foram estabelecidas de maneira insuficiente, logo, o uso de Práticas Normativas para direcionar o mercado pode ser utilizado; sabendo que isto impactará nas Práticas de Representação e transação. A não definição normativa parece caracterizar mercados já em transição, o que pode acarretar atores diferentes que desempenhem mesmas funções (KJELLBERG e HELGESSON, 2007).
Por fim, a quarta configuração diz respeito aos [4] mercados que, por vezes, adotam Práticas de Representação, normativa e de transação, onde as transações acontecem sob forte aparato normativo. Nesse contexto, a identificação da ocorrência do mercado é mais complexa devido ao fato de o papel dos atores ser bem definido, já que alguns se ocupam das transações, outros na definição das normas e outros ainda na descrição desse mercado (KJELLBERG e HELGESSON, 2007). Logo, o que se entende é que as Cadeias de Translação entre as práticas fomentam umas às outras permitindo que elas participem em um processo ativo de construção do mercado em que ocorrem.
Dessa forma, as cadeias de Translações refletem como as Práticas de Mercado são alteradas ao longo do curso de uma dada configuração de mercado. O termo em inglês translation citado por Kjellberg e Helgesson (2007) revela que é possível entendê-la tanto como
Translação como tradução.
Ainda que ambos os conceitos estejam relacionados às modificações das Práticas de Mercados ao longo da existência de uma dada configuração de mercado, o conceito de Translação de Kjellberg e Helgesson (2007) está relacionado com como as Práticas de Mercado acarretam em cadeias Translações que causam outras Práticas de Mercado, resultando em uma nova configuração de mercado performada2.
No caso da tradução, temos que buscar respaldo em Latour (1986) que discorre sobre o processo de tradução em uma concepção de construção da realidade, onde coloca que a tradução é um transporte de um objeto para uma outra posição:
In a linear perspective, no matter from what distance and angle an object is seen, it is always possible to transfer it —to translate it— and to obtain the same object at a different size as seen from another position. In the course of this translation, its internal properties have not been modified (LATOUR, 1986, p. 7).
Latour assume que a tradução de um objeto para uma outra posição possibilita explorar esse objeto de uma perspectiva linear, ou seja, enxergar o objeto por uma outra posição, porém, sem modificar o objeto em si - o que chama de Consistência Ótica, na visão de Irvns (1973, apud Latour, 1986).
Todavia, estabelecendo uma analogia com a proposta de Latour, podemos enxergar a Prática de Mercado como um “objeto” e, com base em Latour (1986), entendendo que essa prática pode ser traduzida sem perder sua Consistência Ótica, podemos inferir que a outra posição a qual Latour se refere pode ser um outro ponto da configuração de mercado, ou mesmo a visão de um outro ator.
A posição do objeto é sem dúvida crucial na perspectiva linear proposta por Latour (1986), entretanto, as traduções dos discursos envolvidos na veiculação dessas práticas, uma vez que estejam em outra posição, podem ser alteradas sob uma perspectiva prática e até literária (BACHUR, 2016). Esse é o conceito Inscrição trazido por Latour (1986) como uma forma crucial de veicular essas traduções (translations) ao longo do processo de percepção da realidade. Em curtas palavras, uma nova Inscrição é um novo meio de perceber algo, que inicialmente não foi modificado da perspectiva de objeto enquanto traduzido/transladado. Esse processo de tradução em perspectiva linear, é representado pela Figura 5.
Figura 5 – Processos de tradução na perspectiva dos EMC.
Conforme colocado na Figura 5, a Translação tem duas perspectivas de observação: a primeira, relacionada com como as práticas modificam práticas dentro de um contexto de configuração de mercado; e a segunda, relaciona com como essas práticas são externamente veiculadas e ‘inscritas’ de uma nova posição uma vez que são traduzidas por outros atores preceptores dessa realidade, logo, atores do mercado, que na perspectiva dos Estudos de Construção do Mercado, conduzem Práticas de Mercado (KJELLBERG e HELGESSON, 2007) e de Construção do Mercado (LEME e REZENDE, 2016).
Dessa forma, Translações estão relacionadas com a transformação estrutural do mercado e com a interação entre Práticas de Mercado de natureza distinta, enquanto as Inscrições estão relacionadas com o transporte dessas Práticas entre as perspectivas dos atores.