4 MATERIAL E MÉTODOS
4.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A metodologia baseou-se preliminarmente na revisão e análise crítica da literatura existente sobre o município de Guaraqueçaba e sobre as Ucs existentes no seu território. Posteriormente, realizaram-se visitas às comunidades locais para realização de entrevistas, seguindo um questionário semi-estruturado como roteiro; observações da dinâmica social e relatos de convivência.
Foram visitadas oito comunidades continentais: Batuva, Morato, Poruquara, Potinga, Saco da Rita, Sede do município, Serra Negra e Tagaçaba; e três comunidades insulares - Vila das Peças, Saco do Morro e Barra do Superagüi. Outras comunidades também foram visitadas, como Abacateiro, Tibicanga, Laranjeiras, Guapicum e Barbados, porém sem aplicação de questionário. Neste caso foram realizadas observações apenas com intuito de agregar mais substância cognitiva sobre o cotidiano das pessoas, relativo aos efeitos decorrentes da implantação das UCs, de maneira a captar manifestações espontâneas dos comunitários (sem exercer nenhum tipo de indução.
As comunidades foram visitadas diversas vezes durante o período da pesquisa, conforme a necessidade e a possibilidade de acesso geográfico e social, com intensa observação e participação no convívio geral dos moradores. Atividades como visita à roça, preparo de refeições e passeios pela
comunidade eram realizadas junto aos entrevistados. As visitas compreenderam o período de agosto de 2003 a outubro de 2006 (Tabela 02).
TABELA 02. COMUNIDADES VISITADAS E NÚMERO DE VISITAS
Comunidade N. de visitas Entrevistas Observações
Batuva 3 x * X
Morato 2 x X
Serra Negra 4 x X
Tagaçaba 2 x X
Vila das Peças 3 x X
Barra do Superagüi 3 x X Cidade de Guaraqueçaba 4 x X Poruquara 3 x X Saco da Rita 2 x X Saco do Morro 3 x X Potinga 1 x X Abacateiro 2 - X Tibicanga 1 - X Laranjeiras 1 - X Guapicum 1 - X Barbados 2 - X
Fonte: Pesquisa de campo
x* comunidades visitadas e/ ou entrevistadas; - comunidades sem entrevista
Vieira (1995) afirma que as informações relativas a necessidades, aspirações e estilos de vida das populações devem ser obtidos por meio de diagnósticos participativos. Assim, a identificação de problemas e alternativas de soluções deve ser feita com base no registro de percepções, atitudes e valores dos segmentos sociais envolvidos.
Gasparetto et al. (1986) explicam que de uma perspectiva científica e sociológica, particularmente, é imprescindível que o diagnóstico possibilite uma compreensão clara e adequada da realidade social a que está se referindo.
Em relação ao uso do questionário aberto, tem-se que quanto mais aberta a pergunta, ou seja, quanto menos restritiva, maior é a liberdade deixada ao narrador para responder segundo sua própria lógica e conceito.
A esse respeito, Viertler (2002) aponta que as técnicas de pesquisa qualitativas, em termos ideais, deveriam sempre ser complementadas com abordagens de cunho quantitativo e vice-versa. Assim, a técnica mais fechada de lidar com as falas dos informantes corresponde ao questionário,
sendo que no outro extremo estaria a técnica da observação participante. Por meio desta técnica, o pesquisador se entregaria à rotina e à participação nas várias atividades de interesse dos pesquisados, fazendo com que os “nós de incompreensão” do pesquisador sejam dissolvidos pouco a pouco. A compreensão dos sentidos até então não detectados passa a ser mais aprofundada.
Entre esses dois extremos haveria técnicas onde a relação de comunicação é mais equilibrada, entre elas a entrevista. Esta técnica vem a ser bem mais flexível do que o questionário, pelo tipo de linguagem empregada e pode ser organizada em inteiramente estruturada, semi-estruturada e não estruturada, conforme a pré-definição dos tópicos a serem abordados.
No caso do presente trabalho, quando se cita a realização de entrevista, esta se refere à semi-estruturada. Na coleta de dados com observação e relato de convivência, utilizou-se também a técnica da entrevista não estruturada, devido ao diálogo livre que ocorria com o entrevistado.
Viertler (2002) chega a afirmar que os aspectos mais profundos de uma sociedade humana só logram serem descobertos quando ocorre um envolvimento não só racional, mas também afetivo entre os pesquisadores e seus informantes. Neste contexto de profunda amizade e respeito é que os informantes permitem falar de seus segredos, sofrimentos e suas fraquezas em sua humanidade. Dentro dessa premissa, transcorreu a coleta de informações desta pesquisa.
Em relação à natureza dos grupos avaliados, critérios diferenciados foram adotados em virtude das peculiaridades de cada um. Para o segmento da pesca, as comunidades selecionadas para a aplicação do questionário foram a Vila das Peças na Ilha das Peças, devido a sua facilidade de acesso marítimo; a Vila de Superagüi, na Ilha de Superagüi, pela mesma razão da escolha anterior; Saco do Morro, por possuir uma situação sócio- econômica mais discrepante em relação ao contexto histórico do conjunto das comunidades avaliadas, e por se encontrar no interior do Parque Nacional; Saco da Rita, por ter sido considerada uma comunidade que tem preservado fortemente suas características culturais e por ainda apresentar um elevado grau de isolamento.
É importante ressaltar que a região de Ilha Rasa não foi contemplada no estudo devido a dificuldades de acesso na época da pesquisa, não sendo contempladas consequentemente as questões sobre o extrativismo de caranguejo no estudo.
No segmento da agricultura as comunidades rurais visitadas foram: Serra Negra, pela sua importância econômica histórica; Tagaçaba, por ser atualmente uma das mais prósperas, além de Potinga, Batuva, por possuir um grau de isolamento maior do que as outras comunidades rurais e Morato, por possuir uma experiência mais forte de interação com uma outra categoria de UC: a Reserva Particular do Patrimônio Natural.
Os demais segmentos pesquisados foram o comércio, e, em menor escala, a educação. Estes setores foram pesquisados tanto na sede do município quanto nas comunidades rurais e insulares. Estes segmentos foram contemplados face à influência que os mesmos desempenham no cotidiano da região.
Pelo fato da coleta de dados no campo basear-se também em observação participante na sua forma livre de expressão, convivência com os sujeitos, não foi estipulado um tempo de duração das entrevistas, ficando livre também o informante de questionário para empregar seu tempo disponível nas entrevistas. Dessa forma, a duração das entrevistas foi muito variável, e dependeu na maioria das vezes do grau de entrosamento com o informante, da necessidade segundo as informações obtidas e da disponibilidade do entrevistado.
Buscou-se com as entrevistas, dentre outros objetivos, captar a percepção da população sobre a sua situação antes da criação das UCs assim como do município em relação a categoria de atividade que exerce. Com o questionário procurou-se também detectar opiniões sobre alternativas para a melhoria da qualidade de vida em combinação com a conservação da natureza no município, segundo o entendimento da própria comunidade. Além desses aspectos, buscou-se identificar as potencialidades das comunidades, relativamente à agrossilvicultura, ecoturismo comunitário, agroecologia, associações e cooperativas.
De forma complementar foi avaliada a percepção de servidores de instituições públicas presentes no município (IBAMA, EMATER, Prefeitura e Secretaria de Educação).