Existe na prática das empresas algumas atitudes, muitas vezes consideradas comuns que confrontam-se com o ERC, entre as principais estão:
ν O conceito de “zero-defeitos”
ν O uso da variação da média do processo
ν Tampering
9.1- Zero-Defeitos e o ERC
O conceito de zero-defeitos contrasta-se com o ERC. Vejamos por que.
Zero-defeitos é basicamente buscar produzir certo desde a primeira vez.(Crosby, 1985,pg. (59)). Convém ressaltar que este autor é reconhecido como um dos maiores defensores do zero-defeitos, mas segundo ele, produzir certo é produzir dentro das especificações. Vide (23)
Segundo Douch, “zero-defeitos não é um zero absoluto, mas um procedimento, uma filosofia que mobilizará todos os participantes da empresa para tender ao fazer bem da primeira vez.” ( Douch, 1992,pg.45 (60)).
Também “zero-defeitos é o fazer bem da primeira vez, as especificações tendo sido definidas.” (idem, pg.61 (61)).
Baseado nestes depoimentos verificamos que o conceito atual de ZD identifica-se com o ETC e neste um índice de capacidade Cpk=1 já é o suficiente. Com este valor de Cpk teremos que lidar com uma “fração defeituosa” de no mínimo 0.3% que se separa
através de inspeção, enquanto é considerado que o processo está sob “controle”. As aspas são propositais pois de um instante para outro fica fácil cair para valores de capacidade menor que 1, e consequentemente ter uma fração defeituosa maior que 0.3%. Ainda que todos os produtos estejam em conformidade com a especificação, pode haver conjuntos trabalhando com desempenho reduzido ou necessitando de retrabalho caso os componentes estiverem próximos dos limites especificados.
Quanto à esta questão da fração defeituosa são oportunos os comentários de Kondo : “Manter a fração defeituosa da produção no valor ótimo e assegurar que a fração defeituosa dos produtos expedidos seja nula, (zero-defeitos) por meio de processos posteriores de seleção 100% e reparos de defeitos, não é uma alternativa tão fácil se levarmos em consideração os erros inerentes à seleção 100% e a diminuição da confiabilidade causada pelo retrabalho.
A segunda questão se refere ao caso em que o fabricante não detém o monopólio do mercado, ou seja, enfrenta concorrência. Neste caso, empresas concorrentes poderão descobrir algum método que, além de diminuir a fração defeituosa, possibilite reduzir o custo de produção. Se isso ocorrer, evidentemente o fabricante em questão será vencido pela concorrência. O esforço de manter a fração defeituosa em seu valor ótimo terá sido inútil caso a empresa venha a ser derrotada pelas suas rivais.” (Kondo, 1994, pg.68 (62))
Outra maneira de se lidar com a fração defeituosa para garantir o “zero-defeitos” é implantar dispositivos de controle, de modo que estes garantam a não ocorrência de ítens fora da especificação já no processo. Embora por este meio o zero-defeitos venha realmente impedir a produção de uma fração defeituosa, este procedimento não leva em conta se os ítens estão sendo produzidos próximos dos limites especificados. Deming, declara :
“Dispositivos e servomecanismos que garantem, atraves de circuitos eletrônicos ou mecânicos, o zero-defeito, destroem a vantagem de uma bela distribuição estreita de dimensões. Eles deslocam a distribuição para frente e para trás, dentro dos limites das especificações, atingindo o zero-defeito e, ao mesmo tempo, elevando as perdas e os custos ao máximo.” (Deming, 1990, pg.105 (63))
Taguchi, também comenta sobre o mesmo ponto destacando que o princípio contra a
idéia do zero-defeitos baseia-se no fato que robustez de processo deriva de consistência. Onde a dispersão é consistentemente baixa, o ajuste em torno do valor-alvo é possível. (Taguchi, 1991, pg.56 (64))
Fica então evidenciado que a idéia de zero-defeitos está intimamente relacionada com o ETC, mas se choca frontalmente com os objetivos do ERC.
9.2- O uso da variação da média em processos com Cp maior que 1
Pode ocorrer na prática de várias empresas em aproveitar-se da condição favorável onde o índice de capacidade é bem superior a 1 por propositalmente permitir a variação do processo dentro dos limites da especificação, beneficiando-se assim do isolamento de alguma causa de variação da média .
Indices de capacidade superiores garantem um maior nível de conformidade, mas se esta prática for adotada os valores de Cpk e Cpm cairão significativamente.
Permitir a variação da média de um processo com Cp > 1, ainda garantindo um Cpk igual a 1 é uma prática dentro do conceito do ETC.
Ross, comenta uma situação em usinagem onde ajusta-se a ferramenta de corte próximo a um limite da especificação (dmín no caso dos eixos e Dmáx no caso dos furos) e aproveita-se assim uma faixa maior de desgaste desta ferramenta até atingir-se o outro limite da especificação (Ross, 1991, pg.15 (65)).
Este proceder seria prático caso a especificação em questão não seja muito importante, mas em se tratando de uma característica de desempenho, estamos jogando fora o bom efeito dos elevados índices de capacidade nos moldes do ERC. Vejamos isto graficamente:
LIE alvo LSE menor variabilidade
Cp = Cpk = Cpm
aumento de variabilidade devido a querer
se aproveitar do máximo desgaste da ferramenta de corte Cpm < Cpk < Cp
figura 13- Uso indevido da variação da média Deslocamento da
distribuicão inicial em função do desgaste da ferramenta de corte, fazendo variar Cpk e Cpm
Em síntese, se este procedimento de forçar a condição Cpm <
CPk <
Cp através da variação proposital da média do processo for adotado com o intuito de aumentar o tempo de operação do processo, sem interrupção do mesmo, visando com isto economia de custos, o resultado será um desvio do valor alvo, caracterizando o ETC em detrimento do ERC.
9.3- Tampering
Aplicar ajustes a cada variação do processo (tampering), ao contrário de deixá-lo variar livremente causará variação e perda maior, se este estiver sob controle estatístico. Este é um mau procedimento, pois pode concentrar o valor da característica de vários ítens produzidos próximos dos limites da especificação, ou até fora destes limites. Isto vai contra o empenho do ERC de concentrar os valores desta característica em torno da média da especificação.
Na Nashua aplicava-se um revestimento químico sobre uma bobina de papel em movimento, que funcionaria após o processo como papel copiador sem carbono.
Quando os testes evidenciavam intensidade muito baixa ou muito alta do revestimento, o operador procedia à uma regulagem, tentando ajustar a quantidade de revestimento. Era comum as paradas para realizar estas regulagens e tais paradas constantes afetavam muito a produtividade.
Posteriormente verificou-se que se o cabeçote de revestimento fosse deixado quieto, sem ajustes, este mantinha-se sob controle estatístico satisfatório, além do que tornou possível estudos para posteriores melhorias. ( Deming, 1990, pág.7,(66))
Outro exemplo:
“O cobre fundido é extraído através de um orifício; ele sai quente, enlouquecido, borbulhante. Um homem tem a tarefa de produzir lingotes que pesem 326 Kg. A pesagem dos lingotes é automática. O peso de cada lingote aparece diante dele em números em negrito.
Se o peso for inferior a 326 Kg, ele deve girar uma alavanca em sentido anti- horário. Se o peso for superior a 326 Kg, ele deve girar a alavanca em sentido horário.
A uniformidade era o objetivo. Infelizmente, a tarefa do homem, embora nem ele nem seu chefe o soubessem, era a falta de uniformidade. Estava sendo pago para piorar as coisas. Esta era sua tarefa.
O que ele poderia ter feito que seria melhor?
É simples. Indicar pontos que mostrassem o peso de cada lingote, individualmente. Verificar as tendencias. Verificar a consistência de nível inferior ou superior à especificação de 326 Kg. Melhor ainda seria criar um gráfico de controle, um para