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a) Antes da constituinte 1933-

2.4. Processo constituinte e transição social

Usando o percurso das expectativas demonstradas antes e durante o processo constituinte, a pesquisa enfatizou a compreensão (ou não) de liames das disputas políticas, com contradições discursivas e com visíveis limites para a defesa de direitos – aqui mais especificamente, garantia de direitos para as mulheres – o que resultou no texto da própria Constituição de 1934.

Uma constatação inicial chamou atenção: o futuro era elemento motivador dos discursos e essa perspectiva assumida pela maioria dos grupos sociais141. No entanto,

140 Miranda, Pontes. Comentários à Constituição da República dos E.U. do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, (data 1936?), 2V.

141 François Hartog, em seu artigo “The Modern Régime of Historicity in the Face of Two World Wars” faz referência a Raymond Aron que, em 1938, publica feroz critica ao positivismo da historia, questionando se não era realidade, então ao menos a regularidade do progresso. Para Aron, historicismo é a filosofia do

as sociedades manejam os discursos sobre as dimensões do tempo (passado, presente e futuro) conforme as construções de seus específicos interesses, com as marcas de suas próprias histórias.

Os discursos da época tratavam de expressões preocupadas com o sentido frustrado de República, que já existia no país há quarenta anos, com fortes apostas em relação às promessas e aos compromissos assumidos na Revolução de 1930 e carregavam o uso contínuo e insistente de expressões como “moderno”, “progresso”, no caso das mulheres também “emancipação”.

A predominância de uma categoria do tempo em determinado período histórico não é descolado dos interesses políticos e também pode variar em eventos específicos. A identificação da causa-efeito dessa escolha é denotada pelas narrativas do período: textos oficiais, de instituições, interpretações dos intelectuais e pela versão dos historiadores.

A reticente experiência democrática brasileira dos anos 1930 teve peculiaridades típicas das experimentações de principiantes. Em que pese toda a fricção social vivenciada desde o início do século XX, aprofundada nos anos de 1920 pelos discursos em prol de um novo e moderno Estado Republicano do século iniciado, a institucionalização da construção democrática chegaria após um evento inusitado, atribuído a um processo revolucionário: o próprio resultado eleitoral de 1930 seria desconsiderado. Em nome do rumo democrático que o país deveria seguir, foi articulada uma tomada de poder – para alguns um golpe; para outros uma revolução (FAUSTO, 2015) - resultando em um Governo Provisório empossado.

Dessa confusão inicial foram empenhados os alicerces e as definições da estruturação de um tempo novo? A democracia seria defendida e em nome da qual deveria ser espelhada a organização do Estado?

Como dito no texto introdutório deste capítulo, o próprio Getúlio e seus aliados de primeira hora trataram seu governo como uma ditadura. Lógico que é preciso ter atenção ao linguajar utilizado na época sobre a caracterização política do governo.

relativismo. Isso corresponde ao período de incertezas consigo e do futuro da sociedade que se expressa na substituição do mito do que virá pelo mito do progresso. Na certeza do otimismo de que o futuro será melhor do que o presente, a sorte do pessimismo ou agnosticismo se espalha e, contra esses fatalismos, Aron defende a ideia de que o passado depende de conhecimento e o futuro da vontade, ele não será observado, será criado. Para ele não há duvida de que a historia existe – muitas vezes trágica – e existem escolhas a serem feitas, também que a humanidade faz sua historia, historia infinita. Fatalismo é só simetricamente inverso ao otimismo do futuro no regime moderno: o sinal é invertido, mas a estrutura continua a ser a mesma.

Vale mencionar a carta de Pedro da Matta Machado142, em que explicitamente nomeia e defende a “ditadura” do Governo de Getúlio.

A proposta do Club 3 de outubro – comissão formada por Stenio Caio de Albuquerque Lima, Augusto do Amaral Peixoto Junior, Waldemar Falcão e Abelardo Marinho de Andrade – trazia na introdução críticas duras à República anterior, chamando- a de “mentira” e definia uma forma de organização republicana bastante peculiar, com algumas instâncias colegiadas, com conselhos técnicos em várias áreas. O texto ainda conceituava a sociedade brasileira e tratava da ordem social e da politica de maneira reveladora da perspectiva do clube de militares que mesmo apoiando Vargas, não escondia suas idiossincrasias (p. 56 a 65).

Note-se que não era unanimidade a convocação para um novo texto constitucional. O Club dos Advogados do Rio de Janeiro iniciou uma série de debates sobre o tema constitucional em 1932. Em sua primeira conferência, publicada no Jornal do Commercio de 24 de janeiro de 1932143, o dr. Paulo M. de Lacerda apresenta sua defesa da Constituição de 1981, expondo sua interpretação de aspectos que poderiam ser modificados para atender aos anseios da revolução de 1930. Para ele, as revoluções irrompem um perfil destrutivo, mas é preciso debelar rapidamente o hiato imposto à vida jurídica da nação. Assim concluiu sua manifestação:

“Estamos felizmente convencidos de que a nossa Patria tem já a sua constituição na obra da Constituinte republicana, (...). As falhas de origem e os melhoramentos aconselhados pela evolução durante quarenta annos de regime por ella instituído, corrigem-se, introduzem- se no seu texto, procurando sempre tel-a tão brasileira quanto a bandeira (...). Assim, permitti que affirme que o problema constitucional brasileiro não consiste na elaboração de outra, sim apenas na revisão da constituição de 1891.”

A condução do governo promoveu forte elaboração legislativa, via decretos, sobre as políticas essenciais de Estado, como trabalho, educação e saúde, e sustentava com forte eixo sobre as opções econômicas tomadas e pela tradição moral. Quanto ao primeiro aspecto, o capitalismo pós-1930 sai fortalecido. Como conclui Fonseca (1989: 242), permaneceu a concentração de renda do período anterior, pois “soluções favoráveis ao capital como resposta aos conflitos são antes regularidade que exceção”. Sabendo que

142 Sugestão nº 42 à Comissão de Elaboração do anteprojeto de Constituição. Acesrvo físico da Câmara dos Deputados. Ano 1933: Lata 891, Maço 1, Pasta 1, Jaqueta 2.

143 LACERDA, Paulo M. de. Problema Constitucional Brasileiro. Archivo Judiciario, Publicação quinzenal do Jornal do Comercio, Volume XXI (janeiro, fevereiro e março). Rio de Janeiro, Typog. do Jornal do Commercio Rodrigues & C.: 1932: p. 91-100.

a base da economia da época era agrícola, nota-se que a “estrutura da posse da terra certamente não sofreu alterações, mas a forma pela qual os setores agrários passaram a fazer valer seus interesses no aparelho do Estado alterou-se, pois tiveram que compartilhá-lo mais intensamente com outras frações burguesas”, porquanto a indústria recebeu mais atenção a partir de 1930.

Mesmo com a Proclamação da República, o Brasil não apresentava marcas e provas do sentido republicano que as construções conceituais lhe atribuíam. A cultura coronelista dominava a economia e a politica do país, enquanto industriários144 e grandes

comerciantes avançavam no domínio dos ambientes urbanos. O poder econômico era exercido não apenas nos espaços de produção, mas também na esfera politica, inclusive assegurando apadrinhados na ocupação da máquina estatal. Isso tudo carregando a contenção dos movimentos sindicais, considerados “antinacionais”, ou “antissocial”, se oferecessem resistência ou contraposição ao aparato estatal que lhe teria beneficiado com a regulação das relações trabalhistas.

Quanto ao segundo aspecto, da tradição moral, aquela experiência que tinha o futuro com progresso como motivador nos discursos e assumido pela maioria dos grupos sociais, inclusive e fortemente de mulheres, oferecia cenário e bastidores muito mais complexos do que a expectativa poderia sustentar.

No instrumental do regime de historicidade (Hartog, 2013)145, o tempo

histórico e o horizonte de expectativas para as mulheres eram despontados com um efeito simbólico ainda mais forte: o futuro não era apenas discurso, havia concreta positivação do direito ao voto, a participação na Constituinte e a emancipação feminina a ser consolidada. O passado tinha que passar, o futuro, este sim, viria a iluminar tudo.

O momento constituinte de 1933 parecia inaugurar o rompimento e o surgimento do novo cronótopo (Gumbrecht) para as mulheres. O regime moderno para elas, na perspectiva inclusiva da participação na política institucional, esperava-se consolidar naquele momento. Porém, essa visão não era homogênea.

144 Os banqueiros nacionais a partir da década de 1920 já apresentavam solidez financeira, desenvolvendo bem o setor se seguros privados, embora o Banco do Brasil tenha crescimento exponencial, segundo Maria Antonieta Leopoldi (A economia política do primeiro governo Vargas (1930-1945): a política econômica em tempos de turbulência. In Ferreira, Jorge. Delgado, Lucília de Almeida Neves (org.). O Brasil republicano – O tempo do nacional-estatismo – do início da década de 1930 ao apogeu do estado novo. 6ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013: 264-268).

145 O uso conceitual da expressão “regime de historicidade” trazido por Fraçois Hartog descreve como as diferentes culturas manejam as diversas dimensões do tempo – passado, presente e futuro – ao longo da História. Hartog propõe análise sobre as relações com o tempo; dispondo que cada regime tem uma compreensão do seu próprio tempo – esse contemporâneo a ser observado pelo historiador em cada regime.

A inédita presença feminina no Parlamento não rompeu com a representação que se tinha (e queria) das mulheres na sociedade. A emancipação feminina com ruptura de estereótipos não fazia parte do discurso do progresso compartilhado por todos. Nem mesmo entre grupos organizados de mulheres havia consensos sobre a inclusão no ambiente institucional.

E boa parte das limitações e silenciamentos sobre as questões específicas das mulheres se dava pelos alicerces da tradição moralista que tanto apoiava o processo de 1930, quanto foi predominante no processo constituinte de 1933-34.

Como visto acima, não obstante fosse pouco usada a palavra “democracia” e reconhecido o Governo provisório como ditatorial, o ambiente em que as decisões políticas eram construídas continha sempre um conteúdo contraditório, de pluralidade, mas sem espaço para radicalidades (vide a repressão aos discursos associações ao comunismo), pois o propósito era de ampliação de apoios ou aliados sem oferecer risco à continuidade do poder.

Foi um tanto assim “democrática” a decisão de Getúlio Vargas para assegurar um novo texto constitucional. Foram realizadas as eleições em 3 de maio de 1933 e no mesmo ano instituída a “Comissão para elaboração de Ante-projeto de Constituição”, por óbvio, com a esperança de que a Carta não estivesse tão desviada dos propósitos do Governo Provisório e assim ter um anteprojeto a oferecer pronto para a Assembleia Nacional Constituinte.

As coisas não saíram exatamente como planejado. A comissão foi mais plural, mesmo consolidando um anteprojeto direcionador dos trabalhos da ANC e o texto recebeu milhares de emendas ao longo de sua tramitação. Além disso, só depois de muitas tratativas Getúlio fora eleito presidente no encerramento da Assembleia, por eleição indireta.

A evolução dos acontecimentos até o desenlace da inserção da mulher na ANC poderia levar à conclusão de que houve uma transição democrática, em sua dimensão inclusiva e de abertura para garantia de direitos entre mulheres e homens no espaço público legislativo. No entanto, os alicerces dessa experiência democrática, que seria a marca do novo tempo prometido e empenhado, não se confirmariam no processo histórico cronologicamente considerado. A pretendida emancipação feminina estava longe de ser alcançada. O patriarcado manteve a dominação masculina nas dimensões públicas e de poder, moldando uma paisagem que resiste em se transformar e esse

modelo, infelizmente, também é reproduzido pelas mulheres que ocupam as estruturas politicas e as ações de Estado.

Porém, uma pesquisa na história deve olhar o passado com o espírito da época. Pelos olhos dos personagens de quem se aproxima no percurso investigativo cada passo em avanço é um acontecimento a ser comemorado. Discutir, participar, estar presente, ter legislação própria, ter direitos novos assegurados em legislação são ações vitoriosas.

O reconhecimento da diversidade que a Idade Moderna alcançou também trouxe ao mundo instrumentos variados rumo à ocupação dos espaços públicos para a convivência com plurais identidades e a escandalização das discriminações que se reduzem na medida em que se produz ênfase ao pluralismo.

No caso da produção constitucional, importa o conteúdo, mas também o processo que leva às decisões políticas que materializam esse texto que incidirá no exercício da cidadania e na organização e funcionalidade do Estado, da sociedade e da própria aplicação da Constituição146.

Nesse processo, quando escondidas, as mulheres estavam certas de que a igualdade entre gêneros se alcançaria com as possibilidades iguais de desenvolvimento de uma sociedade, de um país, quando mulheres e homens tivessem acesso e condições iguais em ambientes públicos ou privados, construindo e aprofundando as suas existências. Quando expostas à vivência democrática, as lideranças primeiras pareceram demasiadamente discretas para a viabilidade dessa igualdade. No caso brasileiro, é o que se denota do processo constituinte sob análise.

Transição social nesse processo constituinte existiu sim, o tema foi pautado, a primeira mulher ascendeu ao posto legislativo de maior estatura nacional, porém, as disputas de concepção dessa transição sob a perspectiva de gênero e os silenciamentos institucionalizados sobre a participação e as falas delas atenuaram as conquistas, diante da dimensão em que se esperava realizar.

146 Como nos esclarecem Paixão e Carvalho Netto o sujeito constitucional é formado por uma comunidade de pessoas que volta-se criticamente para si mesma para formar seus próprios sentidos. Quando não são problematizadas as tradições, práticas e costumes – o que é comum nos regimes autoritários -, isso passa a compor o pano-de-fundo de silêncio que sustenta e naturaliza o horizonte de significação do nosso agir e falar cotidianos. A inércia tem como efeito a redução da novidade dos conteúdos trazidos no texto constitucional, que o tornaria uma forma vazia e não estimula o aprendizado por uma nova gramática de práticas e usos do texto constitucional (Cristiano Paixão e Menelick de Carvalho Netto. Entre permanência e mudança: reflexões sobre o conceito de constituição. Revista Páginas de Direito, Porto Alegre, ano 13, nº 1081, 13 de setembro de 2013).

Capítulo 3. Debates por novos direitos no texto constitucional.