5 MÉTODOS E TÉCNICAS
5.6 PROCESSO DE COLETA DE DADOS
O processo de coleta de dados ocorreu de forma processual e cronologicamente em parceria com as outras etapas da investigação realizadas no mesmo projeto intitulado: “Capacidade física, incontinências e determinantes do processo de envelhecimento em pessoas acima de 65 anos”. Ele foi antecedido por momentos interacionais entre o pesquisador, o ambiente e os potenciais sujeitos a serem investigados com vistas à realização da ambiência local, captação da confiança do entrevistado, compreensão do contexto social em que a investigação iria ocorrer.
Após a compreensão do perfil sociocultural e ambiental do cenário da investigação, os dados foram coletados com adequação de abordagem para o perfil dos moradores, as condições/restrições de receptividade local e os objetivos delineados da investigação.
Houve uma abordagem aos dez primeiros sujeitos da investigação. O conteúdo deste material foi imediatamente consolidado em base eletrônica e tratado de forma a permitir que o processo de coleta e análise dos dados ocorresse de forma processual, visando facilitar a compreensão do vocabulário dos sujeitos e adequar as abordagens interacionais e comunicacionais até a apropriação ao perfil dos sujeitos114. O conteúdo das entrevistas foi incluído na amostra final.
Para operacionalização da abordagem qualitativa, foram realizadas: 1) a técnica de evocação livre e hierarquizada de palavras/expressões a partir de termos indutores; 2) entrevista gravada para obter o conteúdo de crenças por meio das abordagens das representações sociais processuais, concepção de uma pessoa ser idosa ou envelhecida e os tipos de crenças de Rokeach e técnica de evocação livre de palavras/expressões desencadeada por imagens a partir de termos indutores.
O ambiente da coleta de dados foi o domicílio dos próprios sujeitos. As entrevistas foram realizadas predominantemente no ambiente da cozinha, da sala ou do quarto. Cabe mencionar que estes dois últimos cenários citados foram o recurso disponibilizado pelo sujeito quando havia familiar ou mediante solicitação preferencial do(a) próprio(a) entrevistado(a).
A operacionalização da técnica de evocação livre e hierarquizada de palavras/expressões utilizou os termos indutores “pessoa ser idosa” e “pessoa ser envelhecida”. Foi coletada por meio de entrevista projetiva realizada individualmente, sendo os registros realizados de forma cursiva.
Na realização da TALP, foi solicitado aos entrevistados que falassem as cinco primeiras palavras que lhes viessem à mente quando cada expressão indutora foi mencionada. Em seguida,
58 foi solicitado aos sujeitos que as hierarquizassem. Houve registro cursivo para documentação da sequência lógica das palavras/expressões evocadas.
A utilização da TALP mostra-se útil para se obter uma análise das propriedades qualitativas e quantitativas quando se pretende determinar os elementos centrais e periféricos de uma representação social. Ela permite a atualização de elementos implícitos ou latentes que poderiam ser perdidos ou mascarados em produções discursivas63; 89. Esta técnica requer que a pessoa realize um trabalho cognitivo de análise, comparação e hierarquização sobre sua própria produção87; 89.
O fato de os sujeitos evocarem expressões aliadas às evidências descritas na literatura sobre a dificuldade/impossibilidade de pessoas idosas, crianças e/ou aquelas que apresentam baixa escolaridade realizarem com sucesso a técnica da evocação em decorrência da lentificação do pensamento; da redução da capacidade de análise; da rememoração e da abstração91 fez com que fosse repetida esta técnica com o apoio de imagens, sendo utilizada a Técnica de Associação Livre de Palavras Desencadeada por Imagens (TALPDI).
As recomendações existentes na literatura referentes à TALPDI realizada com o suporte de figuras/imagens sugerem que se devam utilizar elementos de valor neutro, positivo e negativo quando aplicada a pessoas idosas, crianças, ou pessoas com baixa escolaridade115; 116; foi acrescentada a técnica da iconização. Sua finalidade foi a de facilitar a abstração do termo indutor pelos sujeitos, uma vez que a dificuldade dos sujeitos em abstrair o conteúdo da temática justificou a utilização da técnica de iconização como estrutura de suporte ao termo indutor.
O processo de preparo, elaboração e seleção das imagens sobre “pessoa ser idosa” e “pessoa ser envelhecida” utilizou-se de sete critérios/etapas que compreenderam a fase de idealização, criação e validação das imagens: 1) imagens cuja autoria proporcionasse independência de direitos autorais; 2) conteúdos consensualizados num grupo de peritos para a temática do processo de envelhecimento; 3) imagens que retratassem situações diversas capazes de suscitar informações, valores, comportamentos e atitudes de valoração variada; 4) texto contendo a descrição de um cenário no qual o processo do envelhecimento foi retratado com o conteúdo consensualizado entre os peritos; 5) elaboração das figuras propriamente ditas por meio de 38 desenhos; 6) seleção e julgamento dos peritos para escolha das imagens que melhor retratavam o processo do envelhecimento; 7) formatação das imagens com suas respectivas situações antagônicas com vista a não induzir caráter valorativo para as imagens.
As figuras foram criadas a partir da consensualização das imagens que envolvem o cotidiano das pessoas com idade ≥ 65 anos. A descrição das situações cotidianas foi transformada
59 em desenhos elaborados exclusivamente para a finalidade da investigação, por isso foram retratadas pessoas idosas com ou sem dependência e perda de autonomia/funcionalidade, estando ou não em situação de vulnerabilidade (Figura 9).
Figura 9: Desenhos elaborados para subsidiar a aplicação da TALPDI na representação social estrutural para os
termos: “pessoa ser idosa” e “pessoa ser envelhecida” entre pessoas com idade ≥65 anos. Juiz de Fora, Jan/2015.
Nota: Arreguy-Sena, Pinto e Melo.
A aplicação da TALPDI consistiu na solicitação para que a pessoa falasse as cinco primeiras palavras ou expressões que lhe surgissem imediatamente à mente quando os termos indutores “pessoa ser idosa” e “pessoa ser envelhecida” foram mencionados após serem mostradas as imagens selecionadas e consensualizadas pelos peritos na fase anteriormente descrita. As respostas foram registradas de forma digital na sequência em que foram mencionadas. Nesta etapa, não foi realizada a enumeração sobre a ordem de importância (hierarquização).
Para a coleta de dados sobre o processo de envelhecimento e o sistema de crenças para a “pessoa ser idosa” e a “pessoa ser envelhecida”, utilizou-se de entrevista gravada a partir das questões norteadoras, abordando o processo de envelhecimento, as concepções sobre a pessoa ser idosa e ser envelhecida e o sistema de crenças de Rokeach.
O conteúdo das questões norteadoras para captar as crenças, os comportamentos, os conhecimentos/informações, os valores e as atitudes foi abordado em 11 eixos temáticos, a saber: 1) concepção de quando e como ocorre o processo de envelhecimento; 2) incorporação da
60 identidade cultural de ser uma pessoa idosa (autoavaliação de ser ou sentir-se idoso); 3) definição cultural do papel do idoso na sociedade; 4) valorização do saber e da experiência do idoso; 5) o papel do idoso na comunidade; 6) impacto da idade no convívio social sobre os familiares, cuidadores, profissionais e outros; 7) posicionamento e adesão frente às políticas, programas e serviços; 8) participação e/ou integração em representações políticas, sociais e associações, fundações, clubes; 9) utilização da rede de saúde (in)formal; 10) adesão ou não dos usuários aos serviços existentes e 11) origem temática ou religiosa com alteração na inserção ou (des)vinculação nos últimos anos.
O conteúdo teve o áudio gravado, tendo sido o aparelho posicionado entre o entrevistado e o entrevistador lateralmente para evitar a inibição e/ou a influência do aparelho sobre o conteúdo do discurso.
As informações adicionais emitidas pelos sujeitos da investigação versaram sobre comentários do cotidiano com enfoque nas relações interpessoais, nas dificuldades vivenciadas, nas questões de violência no bairro, nas preferências religiosas, nas dificuldades vivenciadas no deslocamento até a unidade de saúde e na insatisfação ou restrição dos planos de saúde, quando os tinham.
O diário de campo foi utilizado para: 1) registrar as informações da TALP (por livre associação e hierarquizada) no primeiro momento e 2) permitir ao entrevistador registrar suas percepções a respeito dos conteúdos comunicacionais verbais, para-verbais e não verbais captados durante o processo de coleta de dados.