• Nenhum resultado encontrado

Processo de Consentimento de Parques Eólicos Offshore na Alemanha

A Federal Maritime And Hydrographic Agency - Agência Federal Marítima e Hidrográfica Alemã (BSH), órgão vinculado ao BMWi, é a entidade responsável pelo licenciamento de parques eólicos situados na ZEE; na zona de 12 mn, a competência é das autoridades designadas pelos respectivos Estados costeiros (BEURSKENS; NOORD, 2003; BMWi, 2015; O’HAGAN, 2012; PRALL, 2009). A BSH também lidera o processo de desenvolvimento de padrões para autorização, operação e descomissionamento de usinas eólicas offshore (PORTMAN et al., 2009).

As aprovações de projetos na ZEE têm base legal na CNUDM e na Lei Federal de Responsabilidades Marítimas da Alemanha. A Portaria de Instalações Offshore, que regulamenta o processo de aprovação, baseia-se nesses dois acordos (BMWi, 2015).

O processo de aprovação de um projeto eólico offshore, segundo a legislação alemã, é um ato administrativo não discricionário, conhecido também como princípio First Come First Served150 - FCFS (COD, 2005b). Isto significa que a presunção é favorável à aprovação

e somente é recusada por razões especificas, ou seja, se houver ameaça ao meio ambiente marinho, à segurança ou eficiência do tráfego marítimo, à defesa nacional ou aliada (PORTMAN et al., 2009; PRALL, 2009).

De acordo com Hamilton et al. (2014), devido à falta de um processo de licenciamento padronizado, os primeiros parques eólicos offshore propostos na Alemanha tiveram que definir seu próprio plano de investigações do site. Em 2004, a Lei Federal de Planejamento Espacial da Alemanha foi expandida para a ZEE, o que permitiu o desenvolvimento de um plano espacial para a energia eólica offshore liderado pela BSH.

Ainda segundo Hamilton et al. (2014), na Alemanha, as licenças para parques eólicos

offshore são alocadas através de um procedimento de “portas abertas”. O primeiro

candidato a apresentar uma proposta para um projeto que atenda a todos os critérios declarados da BSH tem prioridade para desenvolver o site.

BMWi (2015) confirma que a permissão de planejamento só é concedida se o parque eólico não afeta a segurança, a eficiência do tráfego e a segurança da defesa nacional e aliada; e não põe em perigo nem o ambiente marinho, nem a migração de ave, além de outros requisitos exigidos na Portaria de Instalações Offshore, e na Lei Federal de Conservação da Natureza (FEDERAL MINISTRY FOR THE ENVIRONMENT, NATURE

CONSERVATION AND NUCLEAR SAFETY - BMU, 2002).

Uma AIA é obrigatória para a maioria dos projetos com 20 ou mais turbinas, e o público pode participar do processo de consentimento, com base na legislação ambiental (O’HAGAN, 2012; BSH, 2003).

Para Viertl (2006), um requisito fundamental é que “a expansão do uso de energia eólica

offshore seja compatível com o meio ambiente e a natureza, e economicamente viável.

150Princípio segundo o qual é concedido a licença ao primeiro requerente que satisfizer as exigências de registro.

Ele recomenda que o desenvolvimento seja realizado mediante um processo passo a passo, levando-se em conta o princípio da precaução.

Viertl relata que na Alemanha foram designadas áreas protegidas e áreas adequadas para turbinas eólicas na ZEE, e que a pesquisa técnica, ambiental e de conservação da natureza foi parte da estratégia. Além disto, adotou-se o acompanhamento da expansão do uso de energia eólica offshore por um período maior de tempo, em todas as fases.

De acordo com o BMWi (2015), o processo para atestar se o projeto está em conformidade com os requisitos estabelecidos, cumpre as etapas, e após a apresentação do pedido, são realizadas verificações para determinar se este é suficientemente detalhado e preciso.

São realizadas consultas públicas para ouvir a opinião de vários órgãos governamentais, e uma segunda rodada participativa é realizada com associações de conservação da natureza, marinha, pesca, energia eólica e o público em geral. Os estados federais que fazem fronteira com a zona de 12 mn e os operadores do sistema de transmissão responsáveis pela conexão à rede elétrica, também participam. Todos os documentos referentes às propostas ficam disponíveis à inspeção pública.

Conforme Bruns e Ohlhorst (2011), a atual estrutura legal-regulatória alemã instituiu o planejamento espacial na ZEE e a seleção de áreas apropriadas, com o objetivo de harmonizar os parques eólicos offshore e os outros usos marinhos. Um fluxograma do processo de consentimento na Alemanha é apresentado na Figura 6.2.

Figura 6.2 - Processo de consentimento de usinas eólicas offshore na Alemanha

Fonte: Mani e Dhingra (2013a, p.904).

6.2.2. Síntese dos Princípios Regulatórios – Alemanha

Na Tabela 6.2 apresenta-se uma síntese dos principais princípios regulatórios para a implantação de parques eólicos offshore na Alemanha.

Tabela 6.2 - Síntese dos princípios regulatórios (Alemanha)

Fonte: Elaboração própria.

• Instalações de navegação e marcações não seriam afetadas; • As faixas de embarque ou o espaço aéreo não seriam interrompidos; • O ambiente marinho não seria poluído; ou

• A migração de aves não estaria ameaçada.

Ato administrativo baseado no princípio First Come First Served (FCFS).

Órgão(s) Responsável(is) Encaminhamento da Solicitação do Site Licenças / Permissões / Condições Planejamento Espacial / Seleção de áreas / Alocação do Site

É avaliada em conjunto com a AIA pela BSH, que é obrigada a conceder permissão desde que todos os padrões sejam cumpridos e demonstrado que: Desenvolvedores podem requerer o desenvolvimento de sites em uma

abordagem de "portas abertas". A alocação exclusiva é dada somente quando o projeto é aprovado.

• A Agência Federal Marítima e Hidrográfica (BSH), é a única responsável pelo licenciamento na ZEE.

• Na zona de 12 mn, a competência é do Estados costeiros.

AIA obrigatório para projetos com mais de 20 turbinas eólicas. Consulta pública com a participação de órgãos governamentais, ONG's e o

público interessado.

Adota-se o planejamento espacial na ZEE, conduzido pela BSH, que identifica

áreas adequadas para energia eólica offshore. O desenvolvedor pode propor o desenvolvimento de um site específico.

Princípio Líder para Outorga da Concessão

Avaliação de Impacto Ambiental

A Experiência da Dinamarca

A Dinamarca foi o país pioneiro no mundo na instalação de usinas eólicas offshore, com a entrada em operação, em 1991, do Parque Eólico Vindeby, composto de 11 aerogeradores de 450 kW, localizados entre 1,5 a 3,0 km da costa, no Noroeste de Lolland, a uma profundidade de 2,5 a 5,0 metros (MEYER, 1995; BEURSKENS; NOORD, 2003; DANISH ENERGY AGENCY – DEA, AGÊNCIA DINAMARQUESA DE ENERGIA, 2009).

Horns Rev I e Nysted (Rødsand I) com capacidade de 160 e 165 MW, respectivamente, foram os dois primeiros grandes parques eólicos offshore da Dinamarca (DEA, 2009). Em termos de capacidade instalada, a Dinamarca ocupa atualmente a quarta posição em nível mundial, com 1.266 MW (GWEC, 2018).

A construção de usinas eólicas offshore na Dinamarca foi impulsionada pela escassez de terras e pela qualidade do vento em águas rasas no mar. Antes da liberalização do setor elétrico151, algumas concessionárias de energia elétrica foram obrigadas a investir nesse segmento e implantaram os parques Horns Rev 1 e Nysted (DEA, 2017; DEA, 2015).

Em 1995, o governo Dinamarquês criou um comitê com a participação da DEA e de concessionárias de energia elétrica, para identificar e avaliar áreas apropriadas para instalação de parques eólicos (DEA, 2015; DONG ENERGY, 2006). Em 1997, foi lançado o “Plano de Ação para Energia Eólica Offshore” que recomendou o desenvolvimento de um programa de demonstração de usinas de grande escala (DEA, 2005; DEA, 2015).

De acordo com DEA (2015), esse programa teve como objetivo investigar questões econômicas, técnicas e ambientais para acelerar o desenvolvimento de futuros parques eólicos offshore. O monitoramento ambiental de cada fase de implantação foi recomendado, a fim de que a experiência fosse utilizada para ajustes do próprio plano de ação e dos futuros parques (DEA, 2005).

É importante destacar que o desenvolvimento da energia eólica offshore na Dinamarca tem sido conduzido sob o princípio da precaução com relação às questões ambientais e dos múltiplos usos do mar. Isto pode ser comprovado pelo fato de que das cinco áreas pré-selecionadas no programa de 1997, três delas foram posteriormente descartadas por envolver restrições de outros usos (rotas de navegação) e para preservar espécies marinhas. Nas duas outras áreas foi estabelecido um programa de monitoramento ambiental para avaliar os efeitos antes, durante e depois da conclusão das usinas (DEA, 2017).

Uma peculiaridade na Dinamarca é a participação de concessionárias de energia e de cooperativas locais nos empreendimentos eólicos offshore, além de entidades públicas e privadas (DEA, 2015). Mast, van Kuik e Zaaijer (2007) relatam que a partir da liberalização do mercado de energia elétrica na Dinamarca, teve início a participação de cooperativas e investidores privados no desenvolvimento e nos direitos societários de parques eólicos offshore, conforme mostrado na Tabela 6.3.

Tabela 6.3 – Panorama da propriedade de parques eólicos offshore na Dinamarca

Fonte: Adaptado de DEA (2015, p.23).

Na Dinamarca a legislação permite que as municipalidades recebam financiamento e sejam proprietárias de parques eólicos. Na ilha de Sansø, para citar um caso, uma companhia municipal possui cinco turbinas eólicas offshore, o que demonstra que os

municípios podem ser, ao mesmo tempo, autoridade de planejamento, desenvolvedores de projeto e proprietários de usinas eólicas (SPERLING, HVELPLUND e MATHIESEN, 2010, p.5448).

A Dinamarca tem uma meta para que 30% do consumo final bruto de energia seja proveniente de fontes renováveis. Em 2012, foi acordado em nível nacional uma quota de 35% de energia renovável até 2020 (MÜLLER, 2015).