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3. SOBRE A UEPG E SEUS PROCESSOS SELETIVOS

4.1 Notícia

4.1.1 Processo Seletivo Seriado II – 2014

ELABORE SUA REDAÇÃO, EM PROSA,

COM UM MÍNIMO DE 10 LINHAS E MÁXIMO DE 17 LINHAS, COLOCANDO UM TÍTULO.

Considerando a manchete e o título auxiliar abaixo, desenvolva um texto no

GÊNERO NOTÍCIA.

TROQUE SEU LIXO POR COMIDA

Cidade no Paraná desenvolve programa em que latas ou vidros usados se transformam em

moeda de troca em feiras de alimentos frescos Adaptado de: Revista Vida Simples, dezembro de 2013. Ilustração: Vanessa Kinoshita. Ilustração: Vanessa

Kinoshita.

Figura 2: Proposta de redação do PSS II - 2014

Como um primeiro aspecto a ser discutido, chamamos a atenção para o fragmento do comando “colocando um título”, que aparece nas considerações gerais da prova, seguido por outra orientação, agora especificamente na proposta, “Considerando a manchete e o título auxiliar abaixo”. Ou seja, não fica claro se o candidato-autor deve elaborar um título ou repetir aquele que já vem expresso “Troque seu lixo por comida”. Esse desencontro nas solicitações da proposta, a nosso ver, pode acarretar uma insegurança em relação a como proceder. Sobre esse aspecto, encontramos na revista Arquitetura da Redação (2015), que é um documento posterior à execução da prova, uma análise comentada sobre essa mesma proposta, e que dialoga com a perspectiva por nós apresentada:

É preciso observar ainda que o comando, apesar de solicitar que sejam considerados a manchete e o título auxiliar, não determina que o texto a ser produzido incorpore esses itens tais quais estão redigidos na proposta. Não há, no comando, orientação para que haja continuidade na notícia a partir da manchete já existente na proposta. Por outro lado, a possibilidade de incorporação das partes apresentadas não está excluída. (UEPG, 2015, p. 58)

A questão que surge aqui está relacionada ao percurso dialógico desse enunciado, que deve se propor a antecipar eventuais dúvidas do candidato-autor, e não gerá-las. Bakhtin (2015b) sobre o horizonte de interpretação que o discurso oferece – ou não – para que as relações se tornem dialógicas, reflete:

Na vida real do discurso, toda interpretação concreta é ativa: familiariza o interpretável com seu horizonte concreto-expressivo e está indissoluvelmente fundida com a resposta, com a objeção-aceitação motivada (ainda que implícita). Em certo sentido, o primado cabe exatamente à resposta como princípio ativo: cria o terreno para a interpretação, um apresto ativo e interessado para ela. A interpretação só amadurece na resposta. A

interpretação e a resposta estão dialeticamente fundidas e se condicionam mutuamente: uma é impossível sem a outra. (BAKHTIN,

2015b, p. 55 – ênfase adicionada)

Percebemos que ao formular a proposta, houve uma preocupação em adiantar aos candidatos algumas das características essenciais do gênero: manchete e linha- fina. Consideramos válida tal ação tendo em vista que se trata da primeira proposta relacionada à transição “tipo – gênero”. Ainda assim, cabe outra ressalva sobre a possível dúvida gerada nos candidatos em relação à manchete: se deveria ser a mesma já explicitada ou se o candidato teria que pensar em outra manchete. A incerteza em relação a este comando incide sobre um aspecto bastante importante: a repetição da manchete poderia, ainda, ser considerada cópia.

A respeito do tema da proposta (a adesão a uma campanha de reciclagem, motivada pela troca por alimentos orgânicos), lembrando que “tema e assunto não são a mesma coisa” (Sobral, 2009), observamos que são oferecidos ao leitor alguns subsídios sobre o tipo de lixo ao qual remete a proposta, o que é positivo. A junção entre os elementos verbais e não verbais da proposta é bastante elucidativa para essa compreensão. Ainda sobre a concepção de tema, em perspectiva bakhtiniana, Sobral (2009) esclarece:

O tema só é entendido quando se levam em conta os elementos extra-verbais da enunciação ao lado dos elementos verbais; o tema não é fixado, mas dinâmico; é uma mobilização de formas da língua segundo as condições da enunciação, é o lugar em que significado + enunciação produzem sentido. (SOBRAL, 2009, p. 75)

Assim, outra questão surge quando nos deparamos com o fato de que essa proposta remete a um projeto já existente na cidade de Ponta Grossa, exatamente nos mesmos moldes. Considerando que os processos seletivos da UEPG são abertos a toda comunidade, e não apenas aos moradores da região, as condições de enunciação podem ser influenciadas por esta situação, tendo em vista que “as condições de enunciação produzem o sentido” (Sobral, 2009). Köche, Marinello e Boff (2012), amparadas por Barros, sobre a (pseudo)neutralidade a que se propõe a notícia e as manifestações ideológicas que subjazem os discursos, sintetizam:

Barros ressalta que uma notícia, a princípio, deveria registrar os fatos de modo objetivo, imparcial e descomprometido. Contudo, segundo a autora, na prática, constata-se que a própria escolha do ângulo do relato revela certo comprometimento do jornalista com o fato (2002, p. 204). Assim, pode-se

afirmar que não há uma total neutralidade na notícia, visto estar sempre carregada da subjetividade de quem a escreve . (KÖCHE, MARINELLO e

BOFF, 2012, p.50 – ênfase adicionada)

Ainda com relação ao conteúdo temático, a análise sobre esse aspecto indica que há, sim, clareza sobre o que está sendo pedido, entretanto, consideramos que existem alguns elementos pressupostos que limitam a criatividade do candidato, bem como a possibilidade de expor os conhecimentos de mundo, e até mesmo sobre a composição dos gêneros. É o caso das informações contidas na linha-fina (ou subtítulo); conforme consta, essas orientações devem ser respeitadas quando da elaboração da notícia, o que não dá muita autonomia ao candidato para formular outras ideias, mesmo que também fossem pertinentes à proposta.

Sobre os elementos que compõem o estilo da linguagem empregada neste enunciado – tendo em vista que não há nenhuma indicação explícita no comando da proposta sobre a variedade a ser utilizada pelo candidato para a escrita da notícia –, verificamos que se fez o uso da norma culta. O emprego dessa forma de linguagem é condizente com as notícias que circulam socialmente, visto que o gênero em questão pressupõe uma linguagem mais formal, ainda assim comum, em sua elaboração. Köche, Marinello e Boff (2012), também sobre a linguagem empregada em notícias, ressaltam:

A notícia pertence à ordem do relatar, e sua tipologia textual base é narrativa. Vale-se da linguagem comum, e, ao usar termos técnicos, quase sempre registra seus significados entre parênteses. Esse gênero emprega o mínimo de palavras e o máximo de informações. Utiliza geralmente períodos curtos e na ordem direta – sujeito, verbo e complementos –, evitando frases intercaladas. (KÖCHE; MARINELLO; BOFF, 2012, p. 50)

As considerações que fazemos a respeito do emprego da linguagem, entretanto, são pensadas a partir de um formato de notícia situado em plano mais convencional; sabemos que existem outros formatos de notícias, nos quais o emprego da linguagem também sofre modificações em decorrência da situação de interação, afinal “os gêneros são relativamente estáveis” (Bakhtin, 1997, ênfase adicionada).

Não obstante os encaminhamentos sobre o conteúdo temático e a linguagem, não há indicativos sobre o suporte em que este texto circularia, e nem sobre o

interlocutor presumido para a recepção desta notícia, o que em nosso entendimento seria muito importante para o candidato-autor, tendo em vista que:

Quando se produz um discurso, esse discurso circula em partes da sociedade, ou na sociedade como um todo, e é objeto de uma dada recepção. Mesmo quando circula e é objeto de recepção na sociedade como um todo, o discurso apresenta um dado modo de ver o mundo, a sociedade, etc., que reflete a posição relativa dos que estão nele envolvidos – um dado locutor e um dado interlocutor típico, seja ele mais geral ou mais específico. (SOBRAL, 2009, p. 120)

Além disso, Bonini (2011), dialogando com as ideias de Marcuschi sobre a importância de se considerar o suporte para o estudo do gênero, enfatiza: “o suporte é uma espécie de elemento em que o gênero se fixa e que está encarregado de pôr esse gênero em circulação” (BONINI, 2011, p. 57). Entretanto, Bonini (2011) chama a atenção para o fato de que, diferente de Marcuschi, o autor não caracteriza gênero e suporte como elementos independentes. A perspectiva de Bonini (2011, p. 57) a respeito dessa questão “vai mais no sentido de tentar caracterizar o que vem a ser um ‘portador’ de texto e, mais especificamente, em que nível se dá essa interferência do suporte no gênero e vice-versa”. Assim, entendemos que seria importante para o candidato-autor a indicação do suporte em que a notícia solicitada circularia.

Sobre a estrutura composicional, verificamos que a proposta traz algumas partes importantes desse gênero já prontas, “engessadas”, como é o caso da manchete e da linha-fina – ainda que não use esta terminologia específica do gênero notícia. Ressaltamos que é a primeira vez que uma proposta dos processos seletivos da UEPG se utiliza da abordagem via gêneros discursivos31, então, pode ter havido

uma tentativa de nortear o candidato sobre como estruturar sua notícia.