3. SOBRE A UEPG E SEUS PROCESSOS SELETIVOS
4.1 Notícia
4.1.2 Processo Seletivo Seriado III – 2014
ELABORE SUA REDAÇÃO, EM PROSA,
COM UM MÍNIMO DE 10 LINHAS E MÁXIMO DE 17 LINHAS, COLOCANDO UM TÍTULO.
PROPOSTA
31 O Manual do Candidato usa a terminologia “gêneros textuais” para se referir ao trabalho com a
linguagem quando da realização dos textos propostos em seus processos seletivos. Como já vimos, a escolha por uma dessas perspectivas – gêneros discursivos ou textuais – demarca diferentes posicionamentos relacionados ao trabalho com a língua(gem).
Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas
"Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam páss aros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado."
Adaptado de: Rubem Alves. O texto de apoio destaca dois tipos de escola:
Escolas que são gaiolas Escolas que são asas
Escolha apenas UM dos tipos de escola para desenvolver um texto no GÊNERO NOTÍCIA. A expressão escolhida pode ser utilizada como título/manchete do seu texto.
Figura 3: Proposta de redação do PSS III – 2014
Diferentemente da proposta do PSS II, nesta não houve o engessamento da manchete, apenas a sugestão: “pode ser utilizada como título/manchete do seu texto”. Intuímos que esta diferença esteja relacionada ao fato de se tratar do PSS III (que ocorre na 3ª série do ensino médio) e, portanto, os interlocutores deste enunciado serem estudantes que – espera-se – já tenham este conhecimento adquirido, visto que o estudo do gênero textual notícia é pertinente aos anos anteriores de formação escolar. Ainda com relação a reflexões suscitadas a partir da forma de articulação deste comando, por meio da locução verbal indicativa de possibilidade (pode ser), na revista Arquitetura da Redação (2015) – em uma análise comentada dessa proposta – encontramos a seguinte avaliação:
O comando da proposta ainda apontava para a necessidade de o candidato- autor atribuir um título (manchete) a seu texto e oferecia como opção a utilização da expressão escolhida para caracterizar o espaço em que o fato noticiado aconteceria. Mas essa era apenas uma sugestão e outra manchete
relacionada ao fato poderia ser criada, revelando maior nível de autoria ou mais criatividade ou conhecimento de mundo. (UEPG, 2015, p. 71 –
ênfase adicionada)
Nesta proposta, há também texto de apoio, o que não ocorre na proposta anterior. Entretanto, a análise desse texto-estímulo como pertinente ao encaminhamento da proposta explicita uma situação problemática. A utilização da
metáfora – para posterior escolha – entre “‘Escolas que são gaiolas’ e ‘Escolas que são asas’” pode dificultar a execução da proposta, tendo em vista que um título metafórico não corresponde ao que geralmente encontramos nos textos do gênero que circulam em nossa sociedade. Sobre os títulos em notícias, Ataíde e Travassos (2018) são categóricos ao sinalizar a importância deles, tanto no que se refere à organização do texto, como em relação ao enfoque temático:
Os títulos são componentes privilegiados dos textos, pois devido à sua posição de destaque, são os primeiros a serem lidos. Entre as categorias textuais, eles são classificados como contextualizadores perspectivos, pois projetam expectativas a respeito do conteúdo [Marcuschi, 2009]. Eles também são considerados delimitadores e organizadores do texto, portanto não devem ser prescindidos em análises textuais. (ATAÍDE; TRAVASSOS, 2018, p. 87)
Ainda que os gêneros sejam, conforme já repetimos inúmeras vezes, “relativamente estáveis”, essa relativa estabilidade vem acompanhada de um aspecto normativo que, segundo Marcuschi (2017, p. 150), são estratégias convencionais para atingir determinados objetivos, pois “cada gênero textual tem um propósito bastante claro que o determina e lhe dá uma esfera de circulação”. Conforme encontramos em Bakhtin (1997, p. 302):
Se não existissem os gêneros do discurso, e se não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo da fala, se tivéssemos de construir cada um de nossos enunciados, a comunicação verbal seria quase impossível. (BAKHTIN,1997, p. 302)
Um aspecto bastante relevante para a discussão desta proposta refere-se ao emprego das palavras “gaiolas” e “asas”, que neste contexto assumem a condição de signos ideológicos. Para Bakhtin e o Círculo, a quem – segundo Faraco (2013) – a identificação entre o ideológico e o semiótico é fundamento para construir a teoria da materialidade, “O signo, então, é criado por uma função ideológica precisa e permanente inseparável dela. A palavra, ao contrário, é neutra em relação a qualquer função ideológica específica” (Bakhtin/Volochinov, 1997, p. 37).
Ao assumirem a posição de signos ideológicos, “asas” e “gaiolas” são fornecidos ao candidato-autor, nesta proposta, como as duas únicas possibilidades de se vislumbrar a escola. Não é oferecida, por exemplo, a possibilidade de se articular a escola como sendo ao mesmo tempo “asas” e “gaiola”, ou nenhuma das duas perspectivas.
Outra questão observada é, novamente, a ausência de indicações sobre o interlocutor e sobre a (possível) esfera de circulação desta notícia. Como já afirmamos na análise anterior, essas informações são relevantes para que o candidato-autor tenha maiores chances de produzir sentido em seu “projeto de dizer”, ou seja, em sua produção textual. Em Sobral (2009), na mesma direção, encontramos:
Para o Círculo, a recepção presumida dos discursos é tão parte da criação do sentido quanto o são sua produção e sua circulação: não há sentido fora da diferença, da arena, do confronto, da interação dialógica, e assim como não há discurso sem outros discursos, não há eu sem outro, nem outro sem eu. Em suma, a concepção dialógica sustenta que, antes mesmo de falar, o locutor altera, “modula”, sua fala, seu modo de dizer, de acordo com a “imagem presumida” que cria de interlocutores típicos, ou seja, representativos, do grupo a que se dirige. Esse modo de entender as relações dialógicas marca a concepção de interação do Círculo. (SOBRAL, 2009, p. 39)
Entendemos ser um desafio o momento da execução da proposta de Redação, realizada em meio ao concurso Vestibular ou PSS, tendo em vista as próprias condições de produção que ali estão expressas, especialmente no que se refere à relação entre candidato-autor e professor(es) corretor(es). Essa relação precisa, então, ser superada a partir de uma proposta de produção de texto capaz de trazer ao candidato a sensação de trabalhar com a escrita de textos que se fazem presentes nas mais diversas esferas de atividade humana. Portanto, consideramos imprescindível a explicitação sobre a esfera de circulação da notícia a ser produzida, bem como de seus possíveis interlocutores.