ARDIS DA PALAVRA CERCEADA
QUADRO GERAL DOS PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO
3.1 Processos de apagamento
3.1.2 Processos de suspensão/interrupção
A suspensão, como figura retórica (um metalogismo, na concepção de Dubois e seus colaboradores), consiste numa ruptura provisória do discurso, enquanto que a reticência11 (ou aposiopese) seria uma ruptura permanente. Com a primeira, o elocutor interrompe o fluxo discursivo para o retomar mais adiante; com a segunda, ele simplesmente cala, omitindo o que se esperaria que dissesse. Ambos os procedimentos constituem processos de apagamento, assim como o silêncio, uma vez que: “Nos três casos, o código não é alterado, mas propriamente eliminado” (DUBOIS et al., 1974, p. 188).
A diferença é que, no caso do silêncio, nada é dito, e o sentido se constrói a partir de referência externa, ao passo que, nos casos de suspensão ou interrupção, o que é dito pode ser (e normalmente é) suficiente para pressupor o que foi omitido. Assim, estes dois últimos processos, se não prescindem totalmente, sem dúvida dependem menos do contexto exterior (ao discurso) para significar.
Podemos dizer, então, que a suspensão e a reticência de certa forma apontam para aquilo que omitem, fornecendo, portanto, uma pista, um indício daquilo que foi eliminado no discurso. Nesse sentido, podem ser associadas ao que, em semiologia, é chamado índice, noção que foi aproveitada por estruturalistas como Roland Barthes12 para explicar certas funções narrativas13. Nos termos de Barthes, índice é uma unidade de conteúdo que remete “a um conceito mais ou menos difuso, necessário entretanto ao sentido da história” (1976, p. 31).
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Do latim reticentia, ae, que significa “sillêncio do que se deveria dizer”. O verbo latino reticere, de onde deriva reticentia, significa precisamente “calar, não dizer”. (CRETELLA Jr.; CINTRA. Dicionário latino-
português, 1956.)
12 BARTHES, Roland. Introdução à análise estrutural da narrativa. In: BARTHES, Roland et. al. Análise
estrutural da narrativa. 4. ed. Trad. Maria Zélia Barbosa Pinto. Petrópolis, RJ: Vozes, 1976. [L’analyse structurale du récit, 1. ed. 1966]
13
Para Barthes (1976), tudo na narrativa é funcional, tudo tem um sentido, uma razão de ser. Dividindo-se a narrativa em unidades mínimas de significação, chega-se ao que Barthes denomina funções. Numa narrativa, verificam-se duas classes de funções: as de caráter distribucional, às quais é reservado o nome de funções propriamente ditas; e as de caráter integrativo, chamadas índices. Entre as primeiras, encontram-se dois tipos de funções: os núcleos e as catálises. Já entre as funções indiciais, distinguem-se os índices propriamente ditos e os
Possui caráter integrativo e, para compreendê-lo, precisamos passar a um nível superior ao das funções (para o nível das personagens ou o da narração), pois é somente nesses níveis que um índice pode se esclarecer 14.
[...] os índices, pela natureza de certa forma vertical de suas relações, são unidades verdadeiramente semânticas, pois, contrariamente às «funções» propriamente ditas, eles remetem a um significado, não a uma «operação»; a sanção dos índices é «mais alta», por vezes mesmo virtual, fora do sintagma explícito [...]. (BARTHES, 1976, p. 31)
Atente-se para a última observação a respeito dos índices (“por vezes mesmo virtual, fora do sintagma explícito”) e se perceberá por que os inserimos na classe dos processos de apagamento. Com efeito, o índice propriamente dito é aquele que remete a uma informação implícita, não manifesta linguisticamente no discurso; enquanto que os informantes (outro tipo de função indicial) fornecem os dados de maneira direta. Sobre essas duas funções indiciais, Barthes explica o seguinte:
Os índices têm pois sempre significados implícitos; os informantes, ao contrário, não o têm, pelo menos ao nível da história: são dados puros imediatamente significantes. Os índices implicam uma atividade de deciframento: trata-se para o leitor de aprender a conhecer um caráter, uma atmosfera; os informantes trazem um conhecimento todo feito [...]. (BARTHES, 1976, p. 34)
Destas duas funções, a que mais nos interessa é naturalmente o índice propriamente dito, pois é a partir dele que se podem indexar informações sem explicitá-las no discurso. Da mesma forma que os demais processos de apagamento, o índice omite o significante e mantém o significado. Muitas vezes, diz menos, justamente para poder dizer mais. Outras vezes, no entanto, inflaciona o discurso, com um excesso de sinais a apontar para uma mesma ideia que poderia ser sintetizada em um único segmento de função informativa. Nesse caso, a um informante “apagado” corresponde uma profusão de índices: trata-se de uma substituição inflacionária (retomaremos este ponto na abordagem do último grupo de operações – os processos de inflação).
Em vista dessas particularidades do índice, se poderia objetar que, com base na proposta de Dubois e seus colaboradores, que prevêem três operações básicas – a supressão, a adjunção e a permutação –, o processo de indiciamento narrativo se enquadraria melhor nas operações de supressão-adjunção, já que suprime um dado, mas coloca em seu lugar outros
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Em sua proposta de análise estrutural, Barthes (1976) destaca três níveis de descrição sobre os quais a análise da narrativa deve incidir: o nível das funções (grosso modo, seria o eixo da história, mas não só), o das ações (personagens e suas inter-relações) e o da narração (discurso).
elementos, a partir dos quais se pode chegar ao dado suprimido. Assim, na adaptação dessa proposta ao caso que nos ocupa, o índice deveria ser tomado como um processo não de apagamento, mas de substituição. De fato, o índice se aproxima dos processos metonímicos (considerados neste trabalho como processos de substituição), uma vez que põe em cena elementos que guardam relação com o aspecto não mencionado. Barthes, por sua vez, refere o caráter metafórico do índice, ao chamar a atenção para o fato de que sua sanção se dá no eixo paradigmático (da seleção), enquanto a das funções propriamente ditas se dá no eixo sintagmático (da combinação): “as Funções implicam relata metonímicos, os Índices relata metafóricos; uns correspondem a uma funcionalidade do fazer, as outras a uma funcionalidade do ser” (BARTHES, 1976, p. 32).
Uma e outra concepção – a de que os índices apresentam propriedades da metonímia/sinédoque e a de que guardam parentesco com a metáfora – são, na verdade, não excludentes, mas complementares. Com efeito, o índice, como operação linguística/narrativa, se apoia num processo metonímico, ao expressar, ao invés da coisa em si, algo que está de algum modo vinculado a ela, algo que é como uma extensão sua. Por outro lado, no nível da significação, ou seja, no nível das funções, o índice só pode ser compreendido como marca, sinal representativo de algo, e que substitui esse algo discursivamente. Nesse sentido, ele sai do eixo da contiguidade – onde se efetuam as operações metonímicas – e passa para o da similaridade, onde se realizam as operações metafóricas.
Se o índice participa, portanto, da natureza da metáfora e da metonímia, por que afinal o situamos no âmbito dos processos de apagamento? Poderíamos inverter a questão: dado que a metáfora e a metonímia/sinédoque também se assentam sobre apagamentos (no caso da sinédoque, no apagamento de uma parte da coisa; e no caso da metáfora, na omissão de um dos termos da comparação que a embasa), por que não situamos também estas figuras entre os processos de apagamento?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que não trabalhamos com processos “puros”; entre as operações por nós examinadas (apagamento, substituição, inversão, inflação), mais de uma pode coexistir em um mesmo processo. Daí que nossa classificação necessariamente se apóie nos traços mais marcantes de cada processo e também no efeito que dele decorre. Assim, o índice – ponto em questão aqui – pode ser compreendido dentro de diferentes grupos, segundo o modo pelo qual o processo se realiza.
Como processo de apagamento, consideramos aqui apenas os índices que funcionam por meio da omissão de informações diretas e que fornecem, em lugar delas, parcos sinais, ainda que suficientes, para inferir o dado não explicitado, procedendo assim a uma economia
no código. Além dessa espécie de índice, há pelo menos mais uma, que consideraremos entre os processos de inflação.