ARDIS DA PALAVRA CERCEADA
QUADRO GERAL DOS PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO
3.2 Processos de substituição
3.2.1 Processos metafóricos
Os processos metafóricos são naturalmente assim por nós designados porque se apoiam na metáfora, figura cuja definição não é, de maneira alguma, ponto pacífico entre os estudiosos. Muitas vezes, o tropo é compreendido num âmbito muito restrito (o da palavra), reservando-se a designar as translações que atuam por analogia. Outras vezes, é considerado como um procedimento de amplo espectro, abarcando praticamente todos os processos imagísticos. Além disso, a metáfora é comumente situada na base de vários outros processos, como a alegoria (metáfora distendida), e o símbolo (metáfora cristalizada)17. Em vista disso, sentimos a necessidade de retomar algumas noções concernentes à metáfora de modo a explicitar em que medida entendemos a metaforicidade verificada nos romances analisados.
O conceito aristotélico de metáfora como “transposição do nome de uma coisa para outra”18 pode ser tomado como ponto de partida, mas não é suficiente para explicar o fenômeno por nós estudado. Mais proveitosas serão as reflexões feitas por Costa Lima19 em seu estudo sobre a metáfora, no qual o autor procura desmistificar a ideia de que esta seria simples elemento de ornamentação da linguagem. Partindo da concepção aristotélica, Costa Lima lança luzes sobre o conceito, mostrando que, mesmo para Aristóteles, a metáfora consiste num transporte que afeta tanto a ordem da expressão quanto a do conhecimento. Costa Lima concentra-se, portanto, no que ele considera as duas funções da metáfora: servir à “eficiência expressiva” e à “produção cognoscitiva” (1989, p. 124).
É justamente essa potencialidade expressiva e cognoscitiva o traço da metáfora que nos interessa destacar. Deixaremos de lado, pois, o seu caráter ornamental e nos concentraremos na capacidade que esse tropo tem de expressar o que em outras palavras não poderia ser expresso. Nesse sentido, a metáfora pode recobrir uma lacuna originada por uma
17
É certo que essas definições, bastante correntes, de alegoria como metáfora distendida e de símbolo como metáfora cristalizada, são demasiado simplistas e não esclarecem a contento os processos implicados na alegoria e no símbolo. Retomaremos estas noções ao final deste tópico.
18
ARISTÓTELES. Arte retórica e Arte poética. Trad. Antônio Pinto de Carvalho. Rio de Janeiro: Tecnoprint, [s/d].
19
LIMA, Luiz Costa. Metáfora: do ornato ao transtorno. In: ______. A aguarrás do tempo: estudos sobre narrativa. Rio de janeiro: Rocco, 1989.
impossibilidade da linguagem dita “própria”, ou ainda, conforme sugerimos, por uma restrição contextual.
Considerada dessa perspectiva, a metáfora assume uma dimensão subversiva, pois ela permite driblar os limites do dizer – do dizer possível ou permissível. O exame de seus usos e funções pode, assim, revelar algo sobre o contexto histórico-social de ocorrência dessa figura, pois, como afirma Edward Lopes em seu estudo sobre a metáfora20,
todos esses discursos sociais são retoricizados, guardando nas marcas dos seus desvios e das suas figuras o conflito intertextual do dito e do interdito, do sentido autorizado e do subversivo, da palavra “própria” e da “imprópria”. (1986, p. 4)
Lopes justifica assim o exame desse tropo nos dias atuais, defendendo um movimento de retorno às “bases ideológicas do discurso enquanto manifestação vigiada dos saberes problemáticos” (1986, p. 4). Segundo o autor, é nesse contexto que o estudo de figuras como a metáfora adquire significado.
Aqui, o Retórico perde sua função puramente ornamental para se deixar ler como a prática significante que, subjacente ao “dito” prescrito ou consentido, opera a manifestação, na figura, do “interdito”. O retórico faz-se, assim, por conseguinte, uma categoria semiótica inerente à dimensão mítica das mensagens, onde o tropo se ergue como a face visível de uma invisível ideologia que, com as marcas do desvio da norma que a engendra, constrói a sua máscara de presença oculta. (1986, p. 4-5)
É sobretudo nesse sentido que entendemos a potencialidade cognoscitiva da metáfora: como elemento que permite conhecer aquilo que subjaz ao discurso e que, no entanto, o condiciona. Afinal, ainda que a metáfora seja, conforme asseverou Aristóteles, um enigma, este enigma funciona como um dispositivo gerador de conhecimento. Como bem lembrou Costa Lima, retomando o filósofo grego,
se a transferência metafórica só é exitosa quando se deixa reconhecer como um enigma velado, que isso pode significar senão que nela se identifica... um efeito de conhecimento? Pois não pode haver reconhecimento de enigma onde não se identifica uma informação cognoscitiva que antes não se tinha. (1989, p. 151)
Desse modo, a metáfora cumpre uma função que ultrapassa o puramente retórico, ornamental, e alcança um valor pragmático. Além de veicular uma informação, possibilitar um conhecimento, a metáfora atende a necessidades comunicativas e pode ser pensada também como instrumento de reconhecimento entre escritores/leitores. Nesse sentido, a sua identificação e compreensão permite que se estabeleça uma espécie de cumplicidade entre os
20
interlocutores. É essa a ideia sugerida por Ted Cohen, no ensaio intitulado A metáfora e o
cultivo da intimidade21. Para Cohen, ao utilizar uma metáfora, o falante envia uma espécie de
“convite” ao ouvinte: um convite para que ele se empenhe em desvendar a linguagem, em explorar o próprio pensamento do falante, para poder alcançar o sentido de suas palavras, o qual não está propriamente nas palavras em si. Isso equivale a dizer que, nessa perspectiva, o sentido de uma metáfora é eminentemente contextual. Ao aceitar o convite e desvendar o conteúdo metafórico, o ouvinte se torna cúmplice do falante, e se estabelece então um “ato cooperativo de compreensão”.
O senso comunitário íntimo resulta não apenas da consciência compartilhada de que um convite especial foi oferecido e aceito, mas também da consciência de que não é qualquer um que poderia fazer o convite e aceitá-lo. Em geral, e com algumas restrições óbvias, deve ser verdadeiro que todo uso literal da linguagem é acessível a todos os falantes de uma língua. Porém o uso figurado pode ser inacessível a todos, menos àqueles que compartilham o mesmo conhecimento, as mesmas crenças, intenções e atitudes. (COHEN, 1992, p. 15)
É certo também que a metáfora apresenta um caráter condensativo e sintetizador: uma única palavra pode condensar – e normalmente o faz – uma gama de sentidos correlacionados, constituindo, por assim dizer, o nó de uma ampla rede de significação. Identificar esse nó e reconhecer as diversas linhas que se comunicam nessa rede de sentidos é tarefa do ouvinte – ou, no nosso caso específico, do leitor dos romances que se constroem com base em processos metafóricos amplos.
Veja-se que, no que toca a este último aspecto, a metáfora se aproxima do subentendido, pois, como vimos, os enunciados contendo subentendidos também dirigem ao interlocutor uma espécie de “convite” e permitem que se estabeleça entre emissor e receptor a mesma relação de cumplicidade. Mais uma vez se manifesta aqui o caráter “impuro” dos processos por nós analisados. A metáfora poderia, sem dúvida, ser considerada dentro do grupo de figuras que operam por apagamento, dado que “apaga” um termo da comparação implícita que a embasa. No entanto, o termo mantido funciona como substituto visível: a metáfora suprime um elemento, mas coloca outro em seu lugar. Além disso, como já dissemos, a diferença consiste sobretudo na natureza do substituto: simbólica, figurativa, no caso do elemento metafórico; e linguisticamente ausente, no caso dos subentendidos e índices tratados no item anterior.
21
COHEN, Ted. A metáfora e o cultivo da intimidade. In: SACKS, Sheldon. Da metáfora. São Paulo: Pontes, 1992.