1.5. Turismo acessível
1.5.3. Procura potencial: determinantes e tendências
Os dados demográficos apontam para uma tendência de crescimento de viagens realizadas por pessoas com incapacidade. Segundo a WHO (2007), em 2020, haverá 1,2 mil milhões de pessoas com mais de 60 anos de idade, sendo este fenómeno mais acentuado nos principais mercados emissores. Estas tendências têm implicações consideráveis para o turismo global (Dwyer et al., 2004; Dwyer & Darcy, 2008).
De facto, o envelhecimento da população dos países desenvolvidos, associado à forte ligação da idade com a falta de mobilidade, bem como o aumento gradual do rendimento discricionário das pessoas com incapacidade, fruto da promoção da igualdade no acesso ao emprego e de outras políticas de integração, levará a um aumento significativo de pessoas com incapacidade detentoras de condições económicas para viajar. Por outro lado, também o desenvolvimento científico e tecnológico, que promove a autonomia e a independência, contribuirá para o aumento do número de pessoas que, tendo alguma incapacidade, não deixam, por isso, de viajar, sendo as suas decisões de viagem fortemente influenciados pelas condições de acessibilidade oferecidas pelos destinos turísticos.
Não havendo nenhum estudo abrangente sobre o potencial de mercado do turismo acessível, que, como vimos, engloba as pessoas com incapacidade e outras que, por qualquer razão, tenham necessidades especiais durante a viagem, é importante analisar alguns dos estudos e relatórios que têm sido produzidos neste campo, de modo a permitir construir uma imagem da sua importância em termos económicos e sociais. Note-se, no entanto, que a utilização de diferentes abordagens metodológicas na recolha dos dados se traduz numa grande variabilidade, conforme as diferentes fontes, não havendo, ainda, critérios e métodos sistematizados, que permitam análises comparativas objetivas sobre a prevalência de incapacidade entre as populações de diversos países.
De acordo com o Relatório Mundial da Deficiência, há cerca de mil milhões de pessoas com incapacidade, o que equivale a cerca de 15% da população mundial com incapacidades moderadas a severas, e destas, 2,9% têm incapacidade severa (WHO, 2011). Verifica-se uma evidente concentração de incapacidades na população com idades superiores a 60 anos, mas parece não haver diferenças significativas no que respeita ao desenvolvimento económico dos países.
É de salientar a existência de diferenças significativas entre os países nas estimativas sobre a incapacidade e deficiência. Tal poderá ser parcialmente explicado pelo facto destes estudos se basearem na autoavaliação da incapacidade e, como tal, as perceções dos sujeitos exercerem uma influência considerável nos dados, estando dependentes de atitudes mais gerais em relação à satisfação com a sua vida, das expectativas em relação ao futuro e da perceção do seu estado geral de saúde (WHO, 2011).
Estes dados evidenciam o potencial de mercado do turismo acessível. Nas duas últimas décadas, têm vindo a ser produzidos alguns relatórios que procuram chamar a atenção para este potencial dos turistas com incapacidade e para o seu valor económico.
O primeiro, publicado em 1993, identificou um gasto potencial de 17 mil milhões de libras na Europa, assim estivessem disponíveis as estruturas adequadas (Touche Ross, 1993).
Mais recentemente, uma investigação no âmbito do projeto OSSATE5, coordenada por Buhalis et al. (2005), considera que o mercado de turismo acessível é constituido por sete segmentos em função do tipo de incapacidade (baseado na dificuldade de longo prazo sentida na realização de tarefas diárias), nomeadamente de mobilidade, visual, auditiva, fala, mental/intelectual, incapacidades não visíveis (que inclui as pessoas com problemas cardíacos, renais e respiratórios, alergias, diabetes e epilepsia) e ainda a população com idade superior a 65 anos.
Como se pode verificar, no Quadro 3, a procura total do mercado acessível atinge, na Europa,cerca de 127 milhões de pessoas, o que corresponde a cerca de 25% da população. No entanto, estes números não incluem a população com idade inferior a 16 anos, que apresenta em média 2 a 5% da população com necessidades de acesso (Buhalis & Michopoulou, 2011), assim como também não integram as pessoas com incapacidade temporária, ou outras situações, que de alguma forma, se refletem em incapacidade (como por exemplo pessoas com carrinhos de bebés ou pessoas muito obesas).
Os maiores índices de incapacidade encontram-se na Finlândia (37, 1%), seguido do Reino Unido (34%), França (32,4%) e Estónia (32%), Holanda (30,6%), Suécia (30,4%) e Portugal (30,3%), sendo a Polónia o país que apresenta um índice menor (13,2%), de acordo com o mesmo estudo. Convém aqui alertar, novamente, para o facto de estes resultados se basearem em dados provenientes do uso de metodologias diferenciadas de recolha de informação por parte dos países.
Considerando o efeito dos acompanhantes, o potencial do mercado de viagens, varia entre os 134 milhões e os 260 milhões, cuja receita turística varia entre 83 mil milhões a 166 mil milhões de euros, apenas no mercado de turistas europeus (Buhalis et
al., 2005)6.
Segmentos de mercado Procura total por tipo de incapacidade (em milhares)
Incapacidade de mobilidade 16 067 Incapacidade visual 1 911 Incapacidade auditiva 986 Incapacidade da fala 246 Incapacidade mental/intelectual 4 519
5O projeto OSSATE tem como objetivo a implementação de um serviço de informação digital, em diferentes
línguas, para disponibilização de informação de conteúdos sobre locais turísticos acessíveis, incluindo atrações e alojamento.
6 Este cálculo teve em consideração que cerca de 70% da procura potencial possui condições económicas e
Capítulo 1:Deficiência, Incapacidade e Turismo Acessível: Enquadramento e Evolução Conceptual
25
Incapacidade oculta 20 185
Total da população com incapacidade (incluindo problemas de saúde prolongados)
46 593
População acima dos 65 anos 80 903
Procura total 127 496
Quadro 3.Dimensão do mercado acessível na Europa Fonte: Adaptado de Buhalis & Michopoulou (2011).
No que se refere ao mercado norte-americano, já em 2001, Burnett e Baker chamaram a atenção para o rendimento discricionário deste grupo nos EUA, salientando que este é um mercado de 50 milhões de norte americanos para o qual o setor do turismo não estaria atento.
A investigação realizada por Neuman e Reuber, em 2004, sobre os estímulos económicos concretos decorrentes da implementação do “Turismo Acessível para Todos”, na Alemanha, estima que os turistas alemães com incapacidade contribuem com cerca de 2,5 € mil milhões para a economia. Um outro dado a destacar, resultante deste estudo, é o facto de, para 75,8% dos turistas com incapacidade, a existência e disponibilidade de meios adequados, que lhes permitam a livre movimentação, influencia, significativamente, a escolha do destino de férias. Além disso, a maioria dos inquiridos (62,3%) não se importaria de pagar um preço superior, se estivessem disponíveis facilidades e serviços acessíveis, e 50% revelou que viajaria mais se houvesse melhor acessibilidade (Neuman & Reuber 2004).
Em termos de valor económico, o mesmo estudo conclui que, considerando o montante gasto em férias por cada indivíduo com incapacidade, e o facto de viajarem quase sempre acompanhados, o retorno anual com turistas alemães com incapacidade poderá estar compreendido entre € 2,5 e € 4,8 mil milhões, num ambiente turístico acessível.
Neste contexto, a investigação sobre o impacto económico do turismo acessível coloca em evidência que existe uma procura latente, com o mercado a mostrar potencial para crescer se as barreiras à participação forem removidas. Dwyer & Darcy (2008), embora reconheçam a importância dos estudos anteriores (Buhalis et al., 2005; Neumann & Reuber, 2004) para análise detalhada das características e uma perceção real do valor económico do turismo acessível, defendem a necessidade de estudos económicos mais sofisticados, integrando os padrões de despesa e perfis dos consumidores.
Outro aspeto que tem sobressaído em alguns estudos é o grau de lealdade deste grupo de turistas7. A literatura sublinha que as pessoas com incapacidade são
7
A lealdade do consumidor tem sido reconhecida como um objetivo fundamental para o planeamento estratégico de marketing, com muitos resultados favoráveis para as empresas. Os consumidores fiéis são mais propensos a discutir as suas experiências positivas do que os que não o são, o que constitui um grande potencial para a publicidade boca a boca, sem acarretar nenhum custo adicional para o fornecedor de serviços. Permite, ainda, garantir a relação entre o consumidor e o prestador de serviço, tornando o
comparativamente mais fiéis aos serviços e produtos turísticos, melhor formatados para satisfazer as suas necessidades, evitando, desta forma, o risco que poderá advir da opção por outros serviços que não o façam (Turco, Stumbo, & Garncarz, 1998; Burnett & Baker, 2001; Yau et al., 2004; Neumann & Reuber, 2004; Buhalis et al., 2005).
Daruwalla & Darcy (2005) chamam, ainda, a atenção para o facto de muitas entidades ignorarem a prestação de serviços básicos aos seus consumidores, negando às pessoas direitos básicos de cidadania, e podendo, por esse motivo, ser alvo de procedimentos legais. Assim, alertam para o facto de a falta de acessibilidade nos serviços turísticos poder ser considerada como sendo uma prática discriminatória. Tal pode resultar em procedimentos legais, com consequências graves, não só pelas perdas financeiras diretas, mas, também, pelas consequências ao nível da imagem negativa da empresa, fortemente penalizadora.
Face ao exposto, considerando a existência de um mercado supletivo com grande potencial de desenvolvimento, a oferta de produtos turísticos acessíveis fortalece a posição competitiva do destino e melhora a sua imagem, pela sua associação a uma causa socialmente justa, válida e atual.