2. O discurso sobre o parto e a maternidade nas Artes Visuais (após os anos 90)
2.2. O Parto e a maternidade nas Artes Visuais
2.2.3. Profanações, disputas de poder e permanências
Os estudos e pesquisas feitos presencialmente nas coleções e exposições de arte, ou por catálogos e dispositivos virtuais, assim como nos livros, teses e dissertações já mencionados fazem crer que as imagens maternas associadas à doçura e amorosidade não correspondem às representações elencadas aqui sobre o parto nas artes visuais após os anos 80. A mesma observação já foi feita por Nádia Senna (2007) e Ana Paula Sabiá (2015) sobre as imagens maternas após os movimentos feministas, principalmente após a década de 80.
As imagens de parto na arte contemporânea tratam este tema com múltiplas possibilidades, pois descortinam um véu imposto por uma sociedade patriarcal aos corpos femininos. Pensar este corpo que faz seu próprio filho nascer explicitamente é pensar também sobre o corpo nu, um corpo que é representado, pensado por uma artista ou pelo próprio corpo/artista nos casos dos autorretratos e performances. Segundo Matesco (2009), o corpo nu está ligado à representação e à imagem desde a Grécia Antiga. No início do século XX, a tradição do nu foi subvertida, o corpo fragmentado, deformado e transformado. Para a autora, na segunda metade do mesmo século, acentua-se o distanciamento do corpo como uma imagem idealizada, mudando a direção das representações para um corpo constituído de matéria, animalidade e crueza. “Dessa maneira, a arte contemporânea profana a imagem do corpo idealizado por meio do intermédio do reconhecimento da corporalidade humana, seja através de uma ação ou pela ênfase da sexualidade, a utilização de fluidos e odores” (MATESCO, 2009, p.08). Entender como estas relações se estabelecem nos espaços oficiais de circulação artística é muito importante, de modo a ser possível analisar as obras de arte aqui estudadas, pensando em como são, ao mesmo tempo, efeitos e instrumentos de discursos (FOUCAULT, 2016).
Apesar de este tema ser considerado frequentemente como um assunto feminino, nas pesquisas é possível encontrar várias obras sobre parto produzidas também por homens. De modo que vale lembrar que antes das mulheres conseguirem entrar no espaço legitimado da arte, as imagens de parto eram produzidas por homens. Porém, mesmo assim, não são frequentes nas galerias e museus de arte, pois muitas destas imagens eram feitas para ilustrar livros, geralmente no campo do saber médico, como gravuras para enciclopédias obstétricas e ginecológicas, que descrevem anatomicamente o corpo e procedimentos médicos. Jessica Clements (2009) comenta sobre sua dificuldade em encontrar representações realistas do parto
na arte ocidental:
(…) com exceção de poucas imagens em textos médicos, a grande maioria de imagens de partos são de partos cesárianos ou celebrações pós-parto do nascimento da criança. Estas duas tradições da arte ocidental compartilham uma atitude fria diante da mulher que pari: primeiramente, ela é um símbolo decorativo, e ninguém realmente nota ou se preocupa com sua presença lá. (CLEMENTS, 2009)
Destaco que essa desvalorização da mulher que pari, descrita por Clements (2009) como “símbolo decorativo”, ressalta um discurso frequente de desvalorização do corpo feminino em operação. Este corpo feminino é destituído de poder pelas imagens, é apresentado como um acessório, já que o assunto importante e central destas ilustrações ou são os procedimentos médicos ou a criança que nasce, mas quase nunca a mãe/mulher. O que esta autora, e também artista, procurava era uma imagem na qual o parto fosse centralizado na mulher, não como corpo passivo, mas como corpo ativo, presente e responsável por aquela ação.
É neste sentido que, ao observar as obras de arte estudas aqui, geralmente não há representações de “mulheres amorosas” ou “doces”, o que não implica uma nova visão unificada da maternidade nas obras de Artes Visuais. Nas imagens de parto, que são aqui o foco de atenção, haverá, em alguns momentos, a presença de corpos dissecados anatomicamente, em outros, uma aproximação com elementos da natureza, como passarinhos. Em algumas produções, é clara a aproximação do nascimento e da morte, já em outras, o sangue as aproxima da violência, e não podem ser esquecidas as imagens que associam o parto ao prazer e à sexualidade. Seria impossível hoje identificar uma matriz de pensamento para estas imagens ou considerá-las meramente semelhantes. Suas diferenças são interessantes, pois demonstram que outras abordagens sobre o corpo feminino, maternal e parindo são possíveis.
Estas imagens que não podem ser esquecidas também atuam como dispositivos, estão ligados à relação de poder que anulará discursos e proporá outros sobre o parto e a maternidade. Segundo Foucault, o dispositivo seria “tanto o dito como o não dito” (FOUCAULT, 1977, apud AGAMBEN, 2009, p.28) em uma trama de discursos que estrategicamente regem a formação de um momento histórico. “O dispositivo é um conjunto de estratégias de relações de força que condicionam certos tipos de saber e por ele são condicionados” (FOUCAULT, 1977, apud AGAMBEN, 2009, p.28).
Proponho pensar aqui como as imagens de parto podem funcionar também como dispositivos de profanação da imagem da “boa” e “amorosa mãe”. Utilizando a noção de
dispositivo e da necessidade da profanação descritos por Giorgio Agamben (2007), sugiro que as imagens produzidas sobre o parto pelas artistas contemporâneas parecem profanar duas situações que foram transformadas em objetos sagrados pelos discursos de poder. A primeira delas seria a imagem sagrada da maternidade, a segunda, a imagem da segurança hospitalar e do controle dos corpos pelos meios médicos. Destaco que o significado de profanação (AGAMBEN, 2007) está ligado não à retomada de antigos usos e significados sobre os objetos, mas à criação de um novo uso e um novo significado, de modo que é neste sentido que o conjunto de obras aqui analisado alimenta o jogo de poder e força entre os discursos. Mas será que estas imagens de corpos que dão a luz em um estado de poder inauguram uma nova perspectiva sobre o parto dentro do sistema da arte? Como estes trabalhos agem para se fazem ouvir neste espaço institucional?
Ao argumentar sobre a primeira profanação proposta aqui, que age sobre a imagem sagrada da maternidade, reflito sobre como, nas Artes Visuais, são bastante comuns as representações maternas até o início do século XX, mas não as representações de parto, e, geralmente, as imagens de mães são representadas com amorosidade, carinho e doçura. Os dispositivos de controle parecem restringir à imagem da boa mãe ou até a da boa mulher como mãe. Isto porque mostram mães amamentando e cuidando atenciosamente de seus filhos, preparando comidas ou dando banhos, ou seja, a mulher como a cuidadora essencial. As imagens de parto de mulheres ficam então restritas neste período histórico a um universo da ilustração ou educação, como é o caso de algumas gravuras, ilustrações de textos e objetos ligados a crenças religiosas. O que vemos nas imagens de parto divulgadas nos meios artísticos e criadas por mulheres, em sua maioria, a partir da década de 90, são representações de mulheres poderosas, sexualizadas, nuas, potentes, que se aproximam de um discurso diferente da mulher e da maternidade. Estes corpos não são mais objetos observados e dispostos ao uso do olhar do masculino, mas são corpos ativos, sujeitos em ação e potência. Estas obras devolvem a imagem da mãe ao uso comum, ou seja, profanam a imagem amorosa da maternidade ao mostrar o momento em que a mulher vira mãe, focando o sujeito em seu parto. Deste modo, devolvem ao uso uma nova imagem de mãe, ensanguentada, suada, ativa, sensitiva, expressiva, próxima de um animal selvagem ou até mesmo em gozo. É importante, portanto, assinalar uma mudança na representação não só da maternidade, mas da mulher na sociedade para entender estas imagens. Segundo Andrea Liss:
culturais que posicionavam as mulheres como inferiores aos homens com oposições binárias como: poder/submissão, ativo/passivo, rigoroso/suave e tantas outras falsas dicotomias. A figura do pai foi objeto de reflexão extensa no campo do feminismo, que revelou e contestou o lugar do patriarcado. A figura da mãe, porém, ficou de fora de várias discussões feministas, que estrategicamente precisavam se afastar de tudo que era codificado como passivo, fraco e irracional, algumas vezes era necessário repudiar suas próprias mães (LISS, 2009, p.XV).
Tais mudanças foram sentidas e promovidas também pelas Artes Visuais, como é possível observar nesta pesquisa. Porém, como descrito por Liss, a primeira reação das artistas e feministas da década de 60 foi rejeitar o papel de mãe, as obras das artistas aqui estudadas mostram justamente outro momento, promovem uma nova representação sobre a mãe. Tais artistas se encontram em um momento no qual não é mais preciso combater a maternidade como única função da mulher, de modo que é possível então pensar a maternidade e, mais especificamente o parto, como um processo por vezes como ato político, sexual ou até espetacular. Neste sentido, o caminho destas imagens parece respeitar as implicações da profanação descritas por Agamben:
A profanação implica, por sua vez, uma neutralização daquilo que profana. Depois de ter sido profanado, o que estava indisponível e separado perde a sua aura e acaba restituído ao uso. (AGAMBEN, 2007, p.68)
Ofereço estas reflexões no intuito de analisar estas imagens de parto na arte como tentativas de resgatar o parto para o uso comum. Todavia, será que, ao ocupar o espaço da arte, em coleções e em museus, tais imagens não promovem outra vez sua própria sacralização? Não faria sentido que os novos modelos de maternidade atuassem novamente como discursos únicos e, por isso, novamente restritivos sobre o parto e a maternidade que deve ser vivida. Acredito que pela diversidade de imagens encontradas, o discurso aqui proposto é o da possibilidade de se pensar outros padrões e outras possibilidades de representações sociais da mãe e do parto. Não vislumbro a recusa da possibilidade da mãe amorosa e doce, assim como da dor e do sofrimento do parto, mas sim propostas que ampliam as possibilidades de entendimento destes sujeitos e destes processos, das mães e dos partos.
O segundo embate provocado pelos discursos de várias destas artistas diz respeito ao tipo de parto que estas produções mostram como positivo, o parto natural. Por isso, sugiro uma segunda profanação, que age questionando a segurança hospitalar e o controle dos corpos pelos meios médicos. A recente hospitalização da mulher para parir tem provocado reações em diversos campos da sociedade, de modo que em diversos países muitas destas reações questionam, por exemplo, os vários procedimentos sem embasamento científico, os quais são
ensinados e usados por alguns médicos. No Brasil, observa-se um crescente aumento do número de cesarianas, que alcança hoje mais de 50% das mulheres22, o que acompanha também uma reação oposta, que propõe a atualização dos modelos de atendimento e saúde da mulher com a inserção da assistência obstétrica realizada por enfermeiras e parteiras tradicionais (MOTT, 2002).
Um dos processos mais claros usados para o controle do parto são as ações que distanciam o poder da mulher sobre seu próprio corpo e, consequentemente, de sua autonomia em seu parto. Inúmeras intervenções realizadas no corpo da mulher por médicos no ambiente hospitalar (às vezes com o seu consentimento, outras vezes sem) podem rapidamente exemplificar os procedimentos usados com este objetivo. Nas Artes Visuais, é possível encontrar posicionamentos claros de artistas sobre estas intervenções no parto. A artista Ana Alvarez-Errecalde, por exemplo, ao descrever um dos objetivos de seu trabalho, o faz a partir da reflexão sobre como suas imagens serão vistas pelos espectadores e como podem afetar sua percepção sobre o parto:
Me interessava dar visibilidade a um outro tipo de parto, aquele em que, como mulher, tive em controle até o ponto de poder me fotografar. Pensei que ao ver as fotografias outras pessoas poderiam repensar o conceito de fragilidade, a dor e a necessidade de intervenção médica indiscriminada e de todas as regras culturais, sociais e religiosas que levamos impressas profundamente em nosso ser. (ÁLVAREZ-ERRECALDE, 2013. Entrevista concedida a Calvin Dexter.)
A artista tem clareza sobre a influência das imagens no imaginário, de modo que pretende, a partir de suas próprias imagens, construir questionamentos sobre o parto e seu distanciamento do prazer, da intimidade e do empoderamento feminino. Na perspectiva aqui adotada, a artista tenta assim driblar os dispositivos de controle que restringem as possibilidades de um parto e, ao se colocar em controle de seu parto, retira ou nega o então controle estabelecido, o controle médico hospitalar. Esta profanação é necessária para a constituição de sua obra de arte. A ação de Ana Alvarez-Errezcalde deixa claro que conscientemente ela propõe um novo posicionamento sobre o ato de parir, aproximando-o inclusive da sexualidade. Diz a artista:
22Segundo matéria veiculada na BBC e Folha de São Paulo em abril de 2014: “Com 52% dos partos feitos por cesarianas – enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15% -, o Brasil é o pais recordista desse tipo de parto no mundo. Na rede privada, o índice sobre para 83%, chegando a mais de 90% em algumas maternidade. A intervenção deixou de ser recurso para salvar vidas e passou, na prática, a ser regra” (Mariana Della Barba e
Rafael Barifouse, Disponível em:
Para mim o importante é oferecer um novo imaginário maternal que se aproxime da fortaleza, do instinto, da coragem, da responsabilidade, da autonomia, do poder de decisão, da sexualidade e da liberdade. Se assim foi como que vivi minha experiência, essa experiência também é parte do conceito de maternidade universal. (ÁLVAREZ-ERREZCALDE, 2013. Entrevista concedida a Calvin Dexter.)
Neste sentido, é possível verificar que a artista propõe devolver ao uso comum, uso este partilhado por todos, a experiência discursiva acerca de parir. A artista se coloca como parte de um todo e é por isso que seu parto também pode ser visto fora da esfera do sagrado. O parto no trabalho de Ana Alvarez é devolvido à esfera comum, podendo ser entendido como um parto profano.
Vale lembrar que a defesa para que o parto seja profanado (AGAMBEN, 2007), ou seja, que devolvam seu uso, não pretende de forma alguma que ele vire consumo. O risco é grande e já vejo várias tentativas de controle sobre o corpo feminino neste sentido. Há uma grande confusão, por exemplo, sobre a necessidade de alguns objetos para o parto. Junto com a naturalização e humanização, crescem também a oferta em alguns ambientes hospitalares de piscinas, bancos de parto e salas que vendem o parto como evento comercial. Neste ambiente planejado comercialmente, muitas coisas são consumidas, mas nem todas são usadas.
Diante do regime de controle demonstrado pelos diversos mecanismos de censura sobre as obras que trabalham com o parto na arte, é perceptível um movimento que parece oposto, que ocorre em espaços de compartilhamento de vídeos, como o Youtube. Inúmeros vídeos, caseiros e profissionais, com imagens de parto são baixados e vistos no mundo inteiro diariamente. O compartilhamento deste conteúdo é um fenômeno contemporâneo, o que me faz perguntar se o excesso destas imagens anularia ou multiplicaria sua suposta potência. Claudine Haroche (2008), ao analisar a história das maneiras de sentir, pergunta-se se o sentir na contemporaneidade estaria somente ligado às sensações efêmeras e se seria ainda possível uma percepção profunda das experiências (HAROCHE, 2008, p.201). Imagens deste tipo, imagens em movimento nas mídias, afetam nossos modos de sentir justamente pela característica da movimentação permanente e da não unidade. Haroche (2008) descreve algumas características destes objetos e como eles afetam nossa percepção:
(...) a rapidez, o instantâneo, o imediato, o movimento afasta a possibilidade de perceber, olhar e ouvir distintamente, e também evita a eventualidade de uma hesitação ou dúvida. Chega inclusive a emperrar a elaboração da percepção e da reflexão, conduzindo-nos a um estado de surdez e cegueira tanto físicas quanto psíquicas. (...) a imaginação e a espontaneidade dos indivíduos tornados consumidores e espectadores pela ação da mídia se atrofiam. (HAROCHE, 2008, p.202)
Segundo Claudine Haroche (2008, p.211), um dos responsáveis pela atual desatenção dos nossos sentidos são as mídias, que provocam a ausência de reflexão e a superficialidade. Será que necessitamos da fixação e permanência destas imagens pela obra de arte? Será então o espaço das artes um espaço que ainda promove a reflexão e a permanência?
As imagens de parto disponibilizadas na internet e amplamente vistas poderiam agir como anestesia sobre as sensações possíveis no parto, seu avanço corresponde às análises, sobre a reprodutibilidade técnica, realizadas por Benjamin (2012). A reprodução destas imagens na mídia podem diminuir o choque do parto pela excessiva e explícita percepção ótica de uma mulher parindo. Desta forma, ela modificam também a atuação e função das imagens de parto na arte, se um dia elas faziam parte de um ritual em direção ao artístico, a arte “terá agora outra praxis como seu fundamento: a política” (Benjamin, 2012, p.16).
As imagens de parto na Arte contemporânea, apesar de não se apresentarem a partir de um sentido único, permanecem unidas pelos enfrentamentos diante de um ambiente hostil à imagem sexualizada maternal, como no caso da mulher e artista que resolve parir como um espetáculo público. Diante de restrições e impossibilidades no campo das Artes Visuais e no campo dos controles sobre os corpos femininos, os caminhos que várias artistas percorrem em suas obras de arte sobre parto podem ser declarados como as profanações necessárias que Agamben (2007) descreve, contestando estereótipos e dando novo uso e visualidade para o parto. A recepção de tais obras, em diversos momentos e lugares, é carregada de críticas e censuras, como poderá ser verificado nos capítulos desta Tese. As instâncias que controlam os corpos das mulheres não aceitam facilmente que uma artista faça de seu parto uma performance, não podem aceitar tal “baixeza” em um espaço da cultura superior. O jogo de disputas está em movimento e novos dispositivos e profanações são estabelecidos. Espero mostrar neste trabalho como as imagens de parto, ao serem transformadas em obras de arte, podem driblar as forças da efemeridade contemporânea e serem percebidas em muitas possibilidades de criação.