CAPÍTULO 2 PROFISSÃO, PROFISSIONALIZAÇÃO E PROFISSIONALIDADE
2.4 Profissionalidade como processo de construção da identidade profissional
O debate da profissionalidade docente está relacionado ainda à discussão sobre a construção da identidade profissional. Assim, muitos estudos têm analisado como os sujeitos constroem as marcas sociais e culturais de uma determinada profissão, o que lhe permitiria constituir sua identidade profissional. Nesses estudos, a identidade é entendida como um processo dinâmico e mutável, respondendo a uma multiplicidade de demandas sociais, econômicas, políticas, entre outras, tanto externas à profissão, como as relativas a processos de relações sociais mais internas ao exercício da profissão. Tudo isso através da criação e participação em associações, da formulação de regras éticas e da regulação legal.
O processo de constituição da identidade profissional reflete ainda algumas características individuais que dão corpo também a uma coletividade. Esta vai, paulatinamente, sendo construída num processo de “diálogo” entre as marcas identitárias dos sujeitos, de forma particular, com aquelas oriundas de seus processos de socialização.
Podemos dizer que, no contexto dos anos iniciais do Ensino Fundamental, essas marcas identitárias estão bastante associadas ao processo de feminização do magistério e à forma como os sistemas de ensino definiram os perfis de professores que atuariam em determinado nível de ensino. Correspondem também às políticas de carreira e valorização docente, formação de professores inicial e continuada, dentre outros aspectos já comentados na parte inicial da seção anterior.
Assim, no caso do professor, a identidade profissional é construída ao longo de sua trajetória social nos diversos espaços de socialização, nos quais ele se insere desde a escolarização básica como aluno até quando adentram nas escolas onde aprendem e exercem sua profissão. Nessa trajetória, Monteiro (2005) considera que o processo de realização da formação na área específica seria a base da construção da identidade profissional.
A identidade profissional é algo também construído num contexto histórico de resposta às necessidades tanto da sociedade como dos próprios saberes que estão relacionados à profissão docente. Dessa forma, a identidade docente tem a ver com os saberes do campo pedagógico e educacional de maneira geral. Como o campo educacional é multidimensional, coloca-se, então, à frente da profissão de professor um leque bastante amplo de elementos para a análise da realidade dentro de um contexto mais amplo da ação docente Esta é
entendida como facilitadora e possibilitadora de um projeto de formação e humanização dos sujeitos na sociedade como característica mesmo da docência (PIMENTA, 1996/2005). Pimenta (2005, p. 76) diz ainda que a identidade profissional docente
se constrói, pois, a partir da significação social da profissão, da revisão constante dos significados sociais da profissão; da revisão das tradições. Mas também da reafirmação de práticas consagradas culturalmente e que permanecem significativas.
Essas questões referem-se a um plano mais macro da profissionalização docente. Existe, porém, um outro elemento significativo na construção da identidade profissional: a ação individual do próprio sujeito que, como autor, atribui significado a sua atividade no cotidiano da escola, no modo de situar-se no mundo, na sua história de vida, nas relações com os pares e com outros grupos representativos da profissão.
A identidade é então entendida como construção social e histórica desenvolvida pelos sujeitos. Em relação à identidade profissional, Dubar (op. cit.) comenta que esta faz parte da identidade social, gestada em processos que os sujeitos vivenciaram com os diversos grupos sociais que integram a profissão por eles escolhida. Esses processos integram a socialização secundária, como apontam Berger e Luckman (1985). Contudo, a construção da identidade profissional docente não se inicia na socialização secundária, pois já se apresenta nos seus grupos primários, tais como a família e a escola quando como integrante desses grupos já comentava ou vivenciava aspectos em relação à profissão de professor. Prossegue-se, então, na experiência de estudante ao longo de todo o processo de escolarização e formação profissional. Para Dubar (1997), a identidade social pode ser definida como uma dupla articulação entre trajetória e sistema. A trajetória teria orientação mais estratégica e o sistema refere-se a uma relação posicional. Dessa maneira, aponta que a trajetória é caracterizada por um balanço subjetivo das capacidades que os indivíduos têm em enfrentar os desafios instaurados por um dado sistema. Esta trajetória é vista como a possibilidade estratégica deles realizarem seus objetivos. Sendo assim, a estratégia e a trajetória se imbricam numa rede de relações internas ao sistema, no qual o indivíduo tende a definir sua identidade específica.
Dubar (1997) reforça o caráter dinâmico da construção da identidade profissional ao destacar que esta se desenvolve a partir de duas transações: uma interna ao indivíduo e uma outra externa entre o indivíduo e as instituições com as quais se relaciona. Assim, não existe uma separação entre a identidade para si e a identidade para o outro. Na verdade, ambas são interdependentes e se articulam de maneira complexa. Antes mesmo de vivenciar a profissão de professor e se atribuir uma identidade docente, o sujeito traz consigo uma série de
representações sobre o que é ser professor e as constrói em confronto com as experiências vivenciadas tanto nos cursos de formação como no exercício efetivo da profissão. Tal processo dialético, para esse autor, permite compreender as identidades como produtos da interação entre os campos sociais e comunitários entre o individual e o coletivo, entre a biografia e a estrutura social, nos processos vivenciados tanto pelos indivíduos como pelas instituições.
Para Pimenta (2005), esse aspecto é denominado autoformação, uma vez que os professores, ao longo de suas experiências, agregam saberes que são construídos em confronto com os saberes adquiridos em sua formação inicial, bem como na interação com diversos espaços e sujeitos, fazendo-se, então, professor. Assim, as identidades profissionais são construídas no encontro de trajetórias marcadas socialmente em campos estruturados também socialmente, denotando ainda possibilidades de rupturas e modificações. (MONTEIRO, 2005)
Para Melo (1999), a identidade profissional docente é construída a partir do vínculo com o trabalho educativo, remetendo-se às exigências específicas de formação profissional, na perspectiva de consolidar e qualificar o próprio trabalho educativo com base na construção de tal identidade.
Outra questão tem chamado a atenção dos que analisam profissionalidade docente como um processo de identificação profissional: o caráter provisório, variável e problemático do conceito de identidade. Não se pode falar de uma identidade profissional docente, mas de diferentes identidades que são construídas em diferentes momentos, que podem tornar-se até contraditórias entre si. Por isso, Monteiro (2005) nos chama a atenção ao dizer que:
a melhor maneira de pensarmos a identidade, passa por uma concepção relacional e situacional que coloca o estudo da relação no centro da análise, em detrimento da busca de uma suposta essência que definiria uma dada identidade (2005, p. 166).
Portanto, a construção da identidade profissional docente é um processo social no qual os professores assumem, enquanto atores sociais, escolhas que refletem a relação entre o pessoal e o profissional. Estas sofrem influências de natureza externa e interna e desvelam a capacidade potencial do professor de demonstrar, na prática profissional, seus valores, objetivos, fatores contextuais e representações sociais sobre o papel do professor.
Nessa dinâmica, Lopes (2007) aponta que a noção de identidade dá conta do movimento de construção da profissão docente pelos próprios sujeitos; já a noção de
profissionalidade focaliza a estrutura sob a qual esse sujeito precisa atuar para constituir modos de ser e estar na profissão.
No caso do professor dos anos iniciais, a característica da polivalência por vezes tem sido usada como elemento de diferenciação e, consequentemente, de construção identitária frente a outras características atribuídas à função docente, mas, marcadamente, ao do professor chamado “professor de matéria”. Tal processo de construção identitária parece justificar um modelo de formação e atuação docente que se contrapõe à divisão hierárquica e fragmentada dos conhecimentos e à supervalorização do conhecimento técnico-científico. Todavia, valoriza o conhecimento pedagógico porque este promoveria uma visão global do aluno, um dos elementos considerados centrais da docência que atende aos anos iniciais da escolarização. Esse processo de construção de identidade profissional também garantiria um lugar social específico para esses docentes, como também justificaria a sua função social no processo de formação dos sujeitos na sociedade.
Por fim, gostaríamos de destacar que este elenco de perspectivas sob as quais a profissionalidade docente pode ser conceituada, apresentado nessa seção, é por nós apontado como indicador de possíveis especificidades de construção da profissionalidade polivalente, e não se configura como conceitos fechados sob os quais nos referenciaremos.