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Programa Autonomia

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 149-152)

2. POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO: INTERSEÇÃO NEBULOSA ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO. INTERSEÇÃO NEBULOSA ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

2.3 MAPEAMENTO DOS PROGRAMAS EDUCACIONAIS DA SEEDUC/RJ

2.3.3 Programa Autonomia

O Programa Autonomia, no âmbito da SEEDUC/RJ, é fruto de uma parceria entre o Estado do Rio de Janeiro e a Fundação Roberto marinho (FRM), firmada através do Contrato 38/2008 (RIO DE JANEIRO, 2009a). A implementação do programa foi regulamentada pela Resolução SEEDUC/RJ 4295, que fora publicada no Diário Oficial do estado de 05.06.2009, com o objetivo de acelerar os estudos dos alunos dos ensinos fundamental e médio, que se encontram com distorção série-idade, através da utilização da metodologia Projeto Autonomia. Nessa perspectiva, o Programa Autonomia busca atacar as distorções série-idade, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio, a partir da aceleração de estudos, conforme indica a SEEDUC/RJ em seu site oficial:

O Programa, de aceleração de estudos, Autonomia, uma parceria entre a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro e a Fundação Roberto Marinho, foi lançado em março de 2009 com o objetivo de reduzir a distorção idade-série, tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio.194

Não pretendemos, aqui, discutir filosoficamente o que seria a distorção série-idade, muito menos, se essa concepção é suficiente ou não para explicar a escolha das faixas etárias para cada turma nas escolas públicas. Mais uma vez, chamamos a atenção para um programa que foi implementado, no mesmo ano (2009) e em consonância com o Plano Estadual de

Educação195, com a finalidade de reduzir um dos problemas que leva à má “qualidade” do

“serviço” público educacional, no âmbito da SEEDUC/RJ: a distorção série-idade. Como vimos no Plano Estadual de Educação, para cumprir essa missão, uma das tarefas do Estado deveria ser convocar as organizações da sociedade civil e organizações empresariais para firmarem um grande pacto na prestação do serviço público educacional. Dessa forma, dentro da proposta de um pacto “supraclassista”, a Fundação Roberto Marinho (ligada a poderosos grupos empresariais de comunicação) desenvolveria um programa de aceleração da aprendizagem voltado àqueles estudantes cujas idades estariam em descompasso com a série.

O que nos interessa, nesse estudo, é a compreensão desse programa como ação prática que reflete exatamente o que fora proposto teoricamente no Plano Estadual de Educação do Rio de Janeiro, principalmente no que diz respeito ao estabelecimento de parcerias com a iniciativa privada para resolver problemas relativos à distorção série-idade. Dentro desse contexto de reestruturação da SEEDUC/RJ, numa perspectiva de reforma gerencial, uma organização da sociedade civil (Fundação Roberto Marinho) é chamada a trazer sua expertise em aceleração da aprendizagem, sob o manto de colaboração dos diferentes atores sociais, prestando um serviço “técnico”, supostamente revestido de “neutralidade” política e ideológica.

Magalhães (2016, p. 99) avalia de forma positiva a implementação do Programa Autonomia que se constituiria numa “poderosa ferramenta” que pode corrigir o fluxo escolar, aumentando as possibilidades de a escola alcançar as metas estabelecidas para o IDEB. Nessa linha de pensamento, a autora afirma, no resumo da dissertação (MAGALHÃES, 2016), que os dados mostram que os resultados do Programa Autonomia tendem a ser melhores nas escolas

194Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=1790814>. Acesso em: 10 ago. 2017, grifo nosso.

195O programa Autonomia foi implementado em 04.06.2009 (RIO DE JANEIRO, 2009a), antes mesmo do Plano Estadual de Educação, que fora implementado em 18.12.2009 (RIO DE JANEIRO, 2009b). Contudo, o programa Autonomia já começou a atuar em consonância com a política de educação que esteva sendo finalizada e posteriormente se concretizou no Plano Estadual de Educação, com a finalidade de colocar o estado do Rio de Janeiro entre os melhores estados nos rankings produzidos pelas avaliações nacionais e internacionais de larga escala.

em que os gestores estão “integrados” às políticas estaduais para educação. Na mesma linha argumentativa, a autora indica que a melhoria de desempenho, com a implementação do Programa Autonomia, só seria possível se a direção, professores e equipe pedagógica assumissem um compromisso com a objetivação dos resultados e conhecessem bem o funcionamento do programa (MAGALHÃES, 2016, p. 100-103).

Acreditamos que o programa Autonomia da FRM deve realmente ajudar na melhoria do IDEB, em função de atacar um dos problemas que causam a redução desse índice educacional (distorção série-idade); entrementes, o que estamos chamando a atenção não é para o fato de haver aumento ou não do IDEB, mas para a percepção de que esse índice não reflete a “qualidade” da educação nacional, mas, sim, uma determinada concepção de “qualidade” com ligações orgânicas com uma classe/fração de classe.

Dessa forma, argumentamos que a análise de Magalhães está restrita à aparência, à operacionalização dos dados num nível baixo de abstração, no que diz respeito a relacionar a implementação do programa Autonomia com melhoria da “qualidade” da educação, estabelecendo uma relação causa-efeito entre “serviço técnico” (educação) e “neutralidade” político-filosófica com aumento da “qualidade” (uma entidade também neutra). Aprofundando nossa reflexão, percebemos que é essa identificação da educação como um “serviço” que obscurece o papel de formulador e disseminador de uma determinada hegemonia que acompanha essas organizações da sociedade civil (FRM, por exemplo), pois se a educação fosse compreendida como prática humana mediadora, esse caráter apenas “técnico” e “neutro” não se sustentaria.

Esse contrato assinado entre o ente público e privado para a prestação de serviços educacionais (momento) está inscrito dentro da lógica de expansão do processo de acumulação capitalista, ampliando as possibilidades de mais-valia. Esse movimento da particularidade para o todo e do todo para as particularidades nos permite compreender que a atuação da Fundação Roberto Marinho na prestação do serviço de aceleração da aprendizagem (Autonomia) não está descolada da atuação da busca constante de ampliação da mais-valia pelos seus parceiros filantropos. Assim, analisar a filantropia empresarial desconectada do processo de ampliação da acumulação pode nos trazer uma visão turva sobre a concepção de educação, a partir de sua identificação como um “serviço” não político e sem ideologia.

Acreditamos que a relação político-filosófica entre os parceiros filantropos e as organizações da sociedade civil sem fins lucrativos, não se dá, sempre, numa relação causa-efeito, pois há mediações, inclusive, na implementação do que fora idealizado; todavia, também, não podemos desconsiderar que o “investimento social privado” leva em consideração

as afinidades ideológicas e a possibilidade de ampliação da mais-valia, pelo investidor, através do empoderamento da associação de sua marca com projetos sociais, criando um diferencial competitivo no mercado.

Embora a relação não seja de causa-efeito (pois uma empresa poderia patrocinar um programa contrário à sua ideologia, em função da conjuntura histórica, a fim de se beneficiar por uma melhoria de sua imagem junto aos consumidores), num plano mais alto de abstração, esse patrocínio teria por finalidade última a garantia de sua expansão no mercado consumidor e, portanto, não estaria pondo em questão a estrutura social, mesmo patrocinando um programa educacional contrário à sua ideologia. Um bom exemplo é o destaque midiático que os parceiros filantropos da FRM ganham ao associarem sua marca aos valores expressos pelo Grupo Globo e seus produtos, conforme consta no site oficial da Fundação:

A Fundação Roberto Marinho tem seus valores expressos pela Essência Globo [...]. Buscamos qualidade em tudo que fazemos . Queremos que nosso público perceba nossos produtos como os melhores [...] Nossa atuação deve ser benéfica para todos que se relacionam conosco, e assim ser percebida”.196

Por sua vez, Ramos (2016, p. 135) argumenta que o Projeto Autonomia reflete uma nova forma de expansão do processo de acumulação através de investimentos de recursos públicos para a área de atuação empresarial, sob argumento de economizar recursos, reduzindo o tempo de formação. Em outras palavras: a implementação do Projeto Autonomia estaria situada num contexto de expansão do processo de acumulação, a partir do financiamento público a organizações privadas, contratando prestadores de serviço, contratando consultorias e comprando materiais didáticos-metodológicos, possibilitando ao mundo empresarial o acesso a novas frentes para a obtenção de mais-valia.

Em síntese: o programa autonomia foi uma das estratégias para reduzir as distorções série-idade e aumentar os índices da educacionais das escolas da SEEDUC/RJ. Sua concepção e aplicação parte do pressuposto de que os diferentes atores sociais deveriam ser os responsáveis pelo fornecimento de uma educação de qualidade.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 149-152)