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Programa de Educação Integral

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 122-147)

2. POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO: INTERSEÇÃO NEBULOSA ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO. INTERSEÇÃO NEBULOSA ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

2.3 MAPEAMENTO DOS PROGRAMAS EDUCACIONAIS DA SEEDUC/RJ

2.3.1 Programa de Educação Integral

O nosso objeto de análise (SEEM) está inserido dentro do Programa de Educação Integral do Estado do Rio de Janeiro (PEI/RJ) que compreende “a formação plena do estudante, a partir do desenvolvimento de competências e habilidades que contemplam tanto aspectos cognitivos quanto socioemocionais” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 2). Portanto, a concepção de formação plena do PEI/RJ (educação cognitiva + educação socioemocional) é o eixo estruturante da concepção de educação para o século XXI, presente no SEEM, a partir da adoção de um currículo inovador e flexível. Diante disso, nesse item, pretendemos apresentar a concepção de educação presente no PEI/RJ, com o objetivo de analisar, no capítulo VI, as bases legais e os fundamentos teórico-metodológicos de funcionamento do SEEM.

O PEI/RJ foi uma das ações implementadas como um dos desdobramentos da Reforma Gerencial fluminense, no âmbito da SEEDUC/RJ, considerando “a responsabilidade desta Secretaria em atender às demandas da contemporaneidade e melhorar a qualidade do ensino da rede estadual [...]” (RIO DE JANEIRO, 2016, p. 41). Partindo da necessidade de “melhorar a qualidade do ensino”, o PEI/RJ compreende a educação integral como aquela que conjuga habilidades cognitivas com habilidades socioemocionais, pois dessa forma, o aluno estaria recebendo uma formação plena (integral). Diante disso,

O Programa de Educação Integral compreende uma concepção contemporânea de educação que promove a formação plena do estudante, a partir do desenvolvimento de competências e habilidades que contemplam tanto aspectos cognitivos quanto

socioemocionais. (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 2, grifo nosso)

Essa educação plena viria em resposta à educação do “passado”, que não atenderia aos desafios do século XXI e, portanto, seria necessário desenvolver, nos alunos, de forma intencional e concomitante com as habilidades cognitivas, as habilidades socioemocionais voltadas para o convívio e desenvolvimento do espírito cívico, cujo centro do processo fosse o protagonismo juvenil, de forma a atender aos anseios da sociedade e do mundo do trabalho do século XXI. Assim, a SEEDUC/RJ informa que

O Programa de Educação Integral compreende uma concepção contemporânea que promove a formação plena do estudante, a partir do desenvolvimento de competências e habilidades essenciais para o enfrentamento dos desafios do século XXI, para o

convívio e a participação social e para o mundo do trabalho. Também propõe um

novo olhar sobre a juventude, contemplando, assim, o desenvolvimento integral do estudante, enquanto cidadão do mundo globalizado.139

Nessa concepção de educação integral, os estudantes estão situados “no centro do processo educativo e transforma a escola para o desenvolvimento dessas competências com

intencionalidade e evidência”140. Assim, no PEI/RJ o protagonismo juvenil assume um papel

fundamental de princípio educativo, através do estímulo, aos estudantes, no desenvolvimento das habilidades cognitivas associadas às habilidades socioemocionais, que se traduzam em comportamentos e valores que habilitem às pessoas conviverem e assumirem uma participação social efetiva para enfrentamento dos desafios do século XXI e para o mundo do trabalho.

139Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532145>. Acesso em: 30 jul. 2018, grifo nosso.

140Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532145>. Acesso em: 30 jul. 2018, grifo nosso.

O Programa de Educação Integral pressupõe o protagonismo juvenil, princípio

educativo do Programa, devendo ser desenvolvido de forma a desafiar os estudantes

a assumirem e incorporarem atitudes protagonistas a favor do desenvolvimento de suas competências cognitivas e socioemocionais, contando com o apoio qualificado dos professores e da equipe de gestão da escola. (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 2, § 2, grifo nosso)

O PEI/RJ traz consigo novos arranjos curriculares que atuam de forma “integrada e flexível” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 3, I), “inclusive nas escolas de tempo parcial” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 2, § 3), tendo como um de seus focos principais o protagonismo juvenil, possibilitando aos alunos serem “capazes de serem gestores de sua aprendizagem e de seus projetos de futuro” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 3, V). Dessa forma, a lógica organizacional da PEI/RJ está erigida sobre dois pilares fundamentais: a flexibilidade de um currículo que agregue competências cognitivas com competências socioemocionais e o protagonismo juvenil, de forma a preparar os jovens a fazerem suas escolhas dos caminhos formativos que desejam trilhar para alcançar uma colocação profissional no mercado de trabalho.

Diante do exposto, o PEI/RJ, ao adotar um currículo inovador e flexível, corre o risco de dissolver o pragmatismo do caminho formativo a ser escolhido pelo estudante numa concepção utilitária da educação (associada somente à preparação para o mercado de trabalho), na medida em que os “caminhos formativos” que trabalham mais profundamente a construção histórica da educação e o trabalho numa perspectiva ontológica podem ser relegadas a um plano inferior por não se constituírem em etapas obrigatórias de determinados percursos formativos destinados a alcançar uma colocação profissional no mercado de trabalho. O debate envolvendo essa concepção de educação integral nos ajuda a pensar o problema envolvendo a dualidade da educação nos limites da sociedade regulada pelo capital: um tipo de educação elementar e utilitária destinada aos filhos dos trabalhadores e outro tipo de educação filosófico-científica destinada às camadas dominantes da sociedade.

Nesse ponto, acreditamos que “soluções educacionais inovadoras” podem acentuar cada vez mais o abismo educacional entre as diferentes classes sociais, uma vez que as escolas destinadas aos filhos dos trabalhadores podem se concentrar, ainda mais, num tipo de “caminho formativo” mais utilitário, relegando os aspectos filosófico-científicos para um segundo plano. Embora as escolas destinadas às classes dirigentes possam adotar, também, “caminhos formativos” mais utilitaristas, é sabido que seus filhos têm acesso a bens culturais produzidos pela humanidade, por meios diferentes, inclusive, pelo convívio familiar; por sua vez, para muitos filhos dos trabalhadores, o único acesso a uma cultura mais geral e filosófico-científica

pode ser a escola pública e, assim, estreitar seus percursos formativos pode se traduzir na negação do acesso à cultura filosófico-científica.

Destarte, o PEI/RJ “poderá ser implantado nas unidades escolares a partir de convênios entre a SEEDUC e instituições públicas ou privadas, com o objetivo de atender de forma célere às demandas sociais” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 20). Nessa direção, a SEEDUC/RJ pode firmar acordos com empresas privadas e órgãos públicos para o financiamento dos currículos inovadores e flexíveis, na implementação do programa de educação integral que conjugue o desenvolvimento de competências cognitivas com competências socioemocionais (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 2, § 2). O estímulo a assinaturas de parcerias com outros órgãos públicos e com a iniciativa privada está em consonância com as diretrizes da Reforma Gerencial do estado do Rio de Janeiro (RIO DE JANEIRO, 2010a) e com o Plano Estadual de Educação (RIO DE JANEIRO, 2009b), sendo sistematizado de forma mais intensa com a mudança

estrutural da área educacional proporcionada pelo Planejamento Estratégico da SEEDUC/RJ141.

O PEI/RJ está estruturado em duas vertentes: Dupla Escola e Solução Educacional (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 4). Embora nosso objeto de estudo seja a vertente Solução Educacional, especificamente para o Ensino Médio, acreditamos que é importante apresentarmos alguns elementos constitutivos da vertente Dupla Escola em razão de situarmos essas transformações no âmbito da SEEDUC/RJ como partes do todo, mas que se interconectam e refletem uma determinada concepção de educação que está sendo levada para toda a rede pública de educação estadual fluminense.

2.3.1.1 Vertente Dupla Escola do PEI/RJ

A vertente Dupla Escola do PEI/RJ “baseia-se numa perspectiva de educação integrada, em que a educação geral se torna parte inseparável da educação profissional e da educação para a vida […]” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 5). Essa lógica de integração da educação geral com a educação profissional, assentada no estabelecimento de parcerias com organizações públicas e privadas (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 20) é vista pela pesquisa

coordenada pelo professor Bruno Gawryszewski142, numa hipótese inicial, como uma forma de

141O Planejamento Estratégico da SEEDUC/RJ introduziu alguns programas e projetos educacionais, a partir da assinatura de convênios com a iniciativa privada e com outros órgãos públicos, objetivando colocar o estado do Rio de Janeiro entre os 5 primeiros colocados nos rankings educacionais elaborados pelas avaliações de larga escala de nível nacional e internacional. Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=374683>. Acesso em: 15 ago. 2017.

142O professor Bruno Gawryszewski coordena a pesquisa intitulada “A educação profissional no estado do Rio de Janeiro: um estudo sobre a formação da força de trabalho”. Esta pesquisa é desenvolvida no âmbito do grupo de

fornecer força de trabalho mais qualificada para o empresariado local, a partir da criação de “escolas de excelência”, que receberiam mais investimentos e apresentariam melhor infraestrutura física e de pessoal, justamente num período de crise econômica que se agudizou a partir de 2015.

A Vertente Dupla Escola compreende as dimensões “intercultural” e

“profissionalizante” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 6), “considerando todos os campos em que se efetiva a formação integral do estudante” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 5). Discorreremos sobre as dimensões intercultural e profissionalizante com o objetivo de percebemos quais são os atores sociais que estão atuando em parceria com o estado do Rio de Janeiro para oferecer esses percursos formativos.

(i). Dimensão Intercultural

A Dimensão Intercultural da Vertente Dupla Escola, do PEI/RJ, oferece ao estudante, no seu percurso formativo, a proficiência em uma língua estrangeira, tendo o protagonismo juvenil como centro desse processo, com o objetivo de melhorar o desempenho cognitivo dos alunos, “com ações pedagógicas formais e não formais, promovendo e valorizando aspectos

culturais e a interculturalidade”143. Nesse contexto,

Na dimensão Intercultural, o percurso formativo oferta ao estudante o intercâmbio cultural e a proficiência na língua estrangeira, valorizando a interculturalidade,

potencializando a aprendizagem cognitiva e o desenvolvimento do protagonismo juvenil. (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 7, grifo nosso)

É interessante percebermos que uma preocupação central presente nos vários programas educacionais da SEEDUC/RJ está justamente na tentativa de potencializar o desempenho cognitivo dos alunos. Como dito no decorrer desse capítulo, o Plano de Educação do Estado do

Rio de Janeiro144 traçou como uma das suas prioridades colocar as escolas públicas estaduais

fluminenses entre os cinco melhores estados da federação nos rankings de desempenho cognitivo produzidos pelas avaliações nacionais e internacionais de larga escala. A estratégia

trabalho “Empresariamento da educação pública”, do Coletivo de Estudos em Marxismo e Educação (COLEMARX) da Faculdade de Educação da UFRJ. A pesquisa encontra-se em andamento e conta com a participação dos bolsistas de iniciação científica Fernanda Nogueira Lavouras e Guilherme de Souza Marques. Disponível em: <http://www.colemarx.com.br/a-educacao-profissional/>. Acesso em: 07 ago. 2018.

143Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532145>. Acesso em: 31 jul. 2018.

144Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=1687124>. Acesso em: 15 set. 2017.

utilizada pela vertente Dupla Escola, em sua dimensão intercultural é a de estimular atividades voltadas para o desenvolvimento da linguagem, em diferentes idiomas e a partir de uma leitura intercultural, visando aumentar o desempenho cognitivo dos alunos nessa área de conhecimento.

Apresentamos, abaixo, a relação das unidades do Dupla Escola na dimensão intercultural, com o objetivo de identificar a disposição geográfica das escolas integrantes do programa e os atores sociais que têm atuado juntamente com a SEEDUC/RJ na implementação de políticas públicas para a educação.

Ciep 117 Carlos Drummond de Andrade, localizado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, é “fruto de um convênio entre a Secretaria de Estado de Educação e a Superintendência de Escolas Públicas do Condado de Prince George, com o apoio da

Embaixada dos Estados Unidos da América”145.

No Ciep 449 Leonel de Moura Brizola, localizado em Charitas, Niterói, na Região Metropolitana, é “oferecido a partir de um convênio entre a Secretaria de Estado de Educação

e a Académie de Créteil, com apoio do Consulado Geral da França no Rio de Janeiro”146.

Colégio Estadual Hispano Brasileiro João Cabral de Melo Neto, localizada no Méier, Rio de Janeiro, oferta Ensino Médio Intercultural Brasil-Espanha, por meio de uma “parceria entre a Secretaria de Estado de Educação e o Ministério de Educação, Cultura e Esporte da Espanha,

através da Consejeria de Educación da Embaixada da Espanha”147.

Colégio Estadual Matemático Joaquim Gomes de Sousa, localizado em Charitas, Niterói,

“tem parceria com a Universidade Normal de Hebei”148.

145Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532193>. Acesso em: 31 jul. 2018.

146Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532201>. Acesso em: 02 ago. 2018.

147Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532209>. Acesso em: 02 ago. 2018.

148Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532217>. Acesso em: 02 ago. 2018.

Ciep 218 Ministro Hermes Lima, em Duque de Caxias, “é fruto de um convênio da Seeduc

com o Centro Cultural Brasil-Turquia”149.

Essa dimensão intercultural da vertente Dupla Escola, do PEI/RJ, que trata do Ensino Médio Regular de Formação Geral e não Profissionalizante, está concentrada na região

“metropolitana e na capital fluminense” 150 , e seus parceiros são, em sua maioria,

“universidades, órgãos públicos e privados ligados à cultura e à educação, cuja finalidade seria o desenvolvimento de ações pedagógicas formais e não formais, promovendo aspectos culturais e a interculturalidade”151.

O convênio com organizações ligadas à cultura e à educação pode se constituir numa boa medida para trocas de experiências culturais. Uma das questões que colocamos é a possibilidade de a utilização da linguagem, enquanto elemento potencializador dos aspectos cognitivos, se constituir num fim em si mesmo. Dito de outra forma: a busca pela melhoria dos resultados cognitivos poderia conduzir o ensino da linguagem à dissolução do pragmatismo numa concepção utilitária do que está sendo ensinado (em função da centralidade dada à busca pelos elementos formais que constituem a linguagem) pois são frequentemente cobrados em exames de larga escala; por outro lado, os aspectos ligados à estética e à história das relações sociais presentes no desenvolvimento da linguagem, nessa perspectiva utilitária, seriam relegadas à condição de categorias inferiores. O que estamos chamando a atenção é para o fato de a centralidade no ensino da linguagem, enquanto elemento potencializador do desempenho cognitivo, poder servir de meio para a idealização de determinada cultura, tratando aspectos de ordem social como se fossem naturais, ocultando as relações sociais que perpassam as diferentes formas de sociabilidade.

(ii). Dimensão Profissionalizante

Na dimensão profissionalizante da vertente Dupla Escola do PEI/RJ, será “ofertada formação técnica de nível médio, sob a égide da educação integral, com horário diferenciado, conjugando a formação propedêutica à formação para o mundo do trabalho” (RIO DE

149Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532249>. Acesso em: 02 ago. 2018.

150Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532145>. Acesso em: 02 ago. 2018.

151Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532145>. Acesso em: 02 ago. 2018.

JANEIRO, 2016, Art. 8). Nessa dimensão profissionalizante, o ensino técnico abrangerá o Ensino Médio Integrado à Educação Profissional e o Ensino Médio Articulado à Educação Profissional (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 9).

a). Ensino Médio Integrado à Educação Profissional

O Ensino Médio Integrado à Educação Profissional (EMIEP), modalidade instituída pelo Decreto 5.154/04, adota o “trabalho como princípio norteador e a pesquisa como princípio educativo” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 10, grifo nosso). Por ter a pesquisa papel fundamental na construção de um modelo educativo a ser seguido por essa modalidade de ensino na SEEDUC/RJ, deverá buscar o “desenvolvimento de saberes cognitivos e socioemocionais” (RIO DE JANEIRO, 2016, Art. 10, parágrafo único). Chamamos a atenção para um fator importante no EMIEP: a pesquisa que busca o desenvolvimento de saberes cognitivos associados aos saberes socioemocionais assume uma centralidade maior do que a categoria trabalho.

Enquanto no EMIEP a pesquisa é apresentada como princípio educativo, no Decreto 5.154/04 (que institui essa modalidade de ensino em todo o território nacional), a educação profissional assume o pressuposto da “centralidade do trabalho como princípio educativo (BRASIL, 2004a, Art. 2, III, grifo nosso). Operando no nível abstrato-formal, o EMIEP atuaria como instrumento de deslocamento da centralidade da categoria trabalho, enquanto prática humana conceituada ontologicamente, para dar centralidade à pesquisa científica de saberes cognitivos e socioemocionais. Nesse plano de análise, a discussão do caráter histórico e social do trabalho é reduzida à forma como se manifesta na sociedade regulada pelo capital, em seu sentido negativo, desconsiderando a sua função mediadora entre os homens com a natureza e com outros os homens. Reduzir a discussão envolvendo a categoria trabalho à empregabilidade é uma forma de naturalizar a forma como as relações do homem com a natureza e com outros homens se apresentam historicamente na sociedade capitalista.

Como temos dito no decorrer de nosso estudo, a perda de centralidade da categoria trabalho é pensada, sim, como estratégia político-ideológica para ocultar as relações sociais que as perpassam; todavia, operando no nível concreto-real, percebemos que nem sempre isso se dá de forma automática e sem resistências, pois esse processo é atravessado por mediações de diversas naturezas. Nessa direção, operando no nível concreto-real, acreditamos que é importante identificarmos os atores sociais que dão suporte, no formato de parceria/convênio, para que essa modalidade de ensino médio integrado seja efetivada. Realizamos um

mapeamento152 das escolas vinculadas à SEEDUC/RJ que oferecem o EMIEP, identificando sua localização geográfica e se há ou não parceiros públicos e privados para implementação do programa.

Colégio Estadual José Leite Lopes: localizado na Tijuca, na Zona Norte do Rio, “é fruto da

parceria entre a Secretaria de Estado da Educação- SEEDUC e o Instituto Oi Futuro”153.

Colégio Estadual Comendador Valentim dos Santos Diniz, localizado no município de São Gonçalo, na Região Metropolitana. “Fruto de uma parceria entre as Secretarias de Estado de Educação e de Agricultura […], com o Instituto Grupo Pão de Açúcar e a Cooperativa Central

dos Produtores de Leite (CCPL)”154.

Colégio Estadual Erich Walter Heine, situado em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, foi criado para “integrar a Educação formal aos valores e habilidades necessários para a preservação do meio ambiente e a sustentabilidade […], uma parceria entre a SEEDUC e a

ThyssenKrupp CSA”155.

Colégio Estadual Infante Dom Henrique, localizado em Copacabana, na Zona Sul do Rio, é

fruto “da parceria com o Centro Cultural Brasil Turquia, e [...] do Instituto Confucius”156.

Centro Interescolar Estadual Miécimo da Silva, localizado em Campo Grande, na Zona

Oeste do Rio é “resultado de uma parceria com a LAFARGE”157.

152O mapeamento das parcerias firmadas pela vertente Dupla Escola, no que diz respeito à educação integral, tem como limitação a possível defasagem dos dados apresentados, uma vez que a última atualização do endereço eletrônico oficial da SEEDUC/RJ foi feita em 13 de agosto de 2015. De qualquer maneira, os dados, mesmo que referentes até 2015, dão-nos uma boa dimensão dos diferentes setores socioeconômicos que estão presentes na proposição e execução das políticas públicas para a educação do estado do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532145>. Acesso em: 01 ago. 2018.

153Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532145>. Acesso em: 01 ago. 2018.

154Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532034>. Acesso em: 01 ago. 2018.

155Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532042>. Acesso em: 01 ago. 2018.

156Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532098>. Acesso em: 01 ago. 2018.

157Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=2532135>. Acesso em: 01 ago. 2018.

Centro Educacional Familiar de Formação por Alternância Rei Alberto I - CEFFA Rei Alberto I, localizado em Nova Friburgo, na Região Serrana, “desenvolve um projeto de Educação do Campo aplicando a Pedagogia da Alternância – numa parceria com o Instituto Bélgica [...]”158.

Colégio Estadual Hebe Camargo, localizado no bairro de Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio, “é fruto do convênio da Secretaria de Estado de Educação com a Fundação Xuxa

Meneghel e o Instituto Embratel Claro”159.

Colégio Estadual Círculo Operário, localizado no distrito de Xerém em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, “é uma parceria entre o Governo do Estado e o Instituto Nacional de

Metrologia, Qualidade e Tecnologia – Inmetro”160.

Dentre as escolas que oferecem a educação integral na vertente Dupla Escola, na sua dimensão profissional, apenas o Colégio Estadual Dom Pedro II, em Petrópolis, e o CEIA Barão de Langsdorff, em Magé, não têm parcerias nem com a iniciativa privada e nem com órgãos públicos. Em função dos dados levantados acima, percebemos que o EMIEP atraiu parceiros de ramos diversos de atuação, tais como empresas/cooperativas voltadas para o agronegócio

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