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Programa Nacional de Educação Fiscal

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 156-160)

2. POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO: INTERSEÇÃO NEBULOSA ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO. INTERSEÇÃO NEBULOSA ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

2.3 MAPEAMENTO DOS PROGRAMAS EDUCACIONAIS DA SEEDUC/RJ

2.3.8 Programa Nacional de Educação Fiscal

Segundo a SEEDUC/RJ,

O programa tem como objetivos: estimular o exercício da cidadania e do controle social assegurando a participação do cidadão na gestão do estado; fomentar o debate em torno das políticas públicas capazes de reduzir as desigualdades sociais; difundir informações que possibilitem a construção da consciência cidadã em torno do papel social dos tributos, dos bens e orçamentos públicos; além de informar a sociedade em relação aos efeitos lesivos da corrupção, da sonegação fiscal e da má gestão dos recursos públicos.202

Quando analisamos os objetivos desse programa, percebemos a presença dos elementos elencados como prioridades pelos reformadores gerenciais de segunda geração e pelos pós-reformadores (CAVALCANTE, 2017), em função de o foco da prestação do serviço público não estar centrado apenas no poder hierárquico e nem somente na ideia do cidadão-cliente, mas na maior participação do cidadão na proposição e implementação de políticas públicas que

202Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=365187>. Acesso em: 04 set. 2017, grifo nosso.

visam reduzir as desigualdades sociais, além de manter formas de controle, pelo cidadão, da forma como o dinheiro público está sendo gasto.

Nesse primeiro momento, concordamos que os cidadãos devem ser ativos na proposição de políticas públicas visando diminuir as desigualdades sociais, ou seja, não podem ser tratados apenas como clientes que pagam por um serviço público e exigem dele “qualidade”; mas, sim, alguém que, também, participa das decisões. Num próximo momento, aprofundamos nosso raciocínio e questionamos: os cidadãos são estimulados a propor políticas públicas que combatam os elementos estruturais que dão origem às desigualdades?

Parece-nos que a margem de participação dos cidadãos está restrita à proposição de políticas públicas voltadas a amenizar as desigualdades sociais e a fiscalizar os gastos públicos. Esse programa está sendo construído com base no consenso de que a educação fiscal está diretamente ligada à Reforma Gerencial no que diz respeito à tarefa dos Estados em diminuírem seus gastos com a máquina pública. Essa identificação de um problema fiscal com a falta de gestão de dinheiro público pode conduzir à linha de pensamento de que quanto menos Estado, teríamos, consequentemente, menos gastos públicos e, por fim, equilíbrio fiscal. Essa linha de raciocínio é que tem servido de referencial teórico para o fechamento de escolas na zona rural e para o fechamento de turmas consideradas esvaziadas, nas áreas urbanas, do estado do Rio de Janeiro203.

Essa proposta, na aparência, é um instrumento de controle social do dinheiro público e teria a finalidade de zelar pelo seu “bom uso”. Em função de seu caráter de controle social, na imediaticidade, esse programa apresenta-se como uma iniciativa de interesse de “todos” os componentes de uma determinada formação social e não de uma classe específica. Entrementes, diante do discurso de controle fiscal (que tem o objetivo de garantir ao Estado acumular uma poupança para ter a capacidade de investimento em infraestrutura, capaz de criar as condições de expansão do capital, mesmo que para isso o investimento na assistência social seja reduzido), percebemos que esse programa de educação fiscal é uma inciativa de, também, disseminar a ideia de que o Estado não teria condições de arcar sozinho com a assistência social; por isso, diferentes atores sociais (mercado e “terceiro setor”) seriam chamados a assumir essa tarefa também.

2.4 CONCLUSÃO DO CAPÍTULO

203Ver reportagem sobre fechamento de escolas no estado do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://extra.globo.com/noticias/rio/por-ano-quase-40-escolas-fecham-as-portas-na-zona-rural-do-estado-do-rio-17350874.html>. Acesso em: 04 set. 2015.

A Reforma Gerencial do Estado do Rio de Janeiro se desenhou a partir das diretrizes estabelecidas pelo Pró-Gestão (do BIRD) e se materializou nas ações propostas pelo Planejamento Estratégico do Estado do Rio de Janeiro para a Educação, tais como a criação de um sistema de bonificação, a introdução da metodologia de gestão GIDE, acompanhamento de

resultados, criação do SAERJ e instituição de um plano de metas para cada escola204.

Somando-se a essas ações propostas pelo Planejamento Estratégico do Estado do Rio de Janeiro para a Educação, o governo estadual fluminense anunciou o Programa de Educação do Estado, que instituiu currículo mínimo para cada disciplina e processos seletivos para os gestores da educação, cuja principal meta seria colocar o estado do Rio de Janeiro entre os cinco estados

com melhor IDEB até o fim de 2014205.

Nessa direção, para que essas medidas fossem sistematizadas por toda a rede da SEEDUC/RJ, foram criados programas de diversas naturezas, desde redesenhos curriculares, bolsas de estudos para os alunos com “bom” desempenho no SAERJ, até programas educacionais que pudessem contribuir para a melhoria dos índices educacionais: quer seja através da manutenção dos alunos nas escolas, quer seja do treinamento para a realização das avaliações externas, quer seja através da criação de currículos inovadores e quer seja de ações de aceleração da aprendizagem para alunos com “defasagem série-idade”.

Nesse ambiente de reforma estrutural da SEEDUC/RJ, a partir dos preceitos do Pró-Gestão, inserimos o nosso objeto de estudo (SEEM) como um dos programas propostos para atacar o problema dos baixos índices educacionais, que supostamente refletiriam a “má qualidade” da educação pública estadual fluminense. O debate em torno da concepção de “qualidade” da educação que esses programas educacionais trouxeram consigo, identificam-na com a elevação dos índices educacionais, muito em função de a própria educação ser conceituada como um “serviço técnico e neutro” (destituído de caráter ideológico, político e econômico), cujo “fornecimento” deveria ser de responsabilidade de todos os atores sociais, agindo em harmonia, numa perspectiva de pacto supraclassista.

Essa forma de conceituar a educação como um serviço, a partir de um pacto supraclassista, é amplamente divulgada por uma concepção político-econômica desenvolvimentista, estruturada em dois pilares: atendimento pontual de algumas demandas

204Ver Planejamento Estratégico para a SEEDUC/RJ. Disponível em:

<http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=374683>. Acesso em: 04 jul. 2018.

205Ver Planejamento Estratégico para a SEEDUC/RJ. Disponível em:

sociais (Bolsa família, por exemplo) e no atingimento das metas educacionais estabelecidas por organismos intergovernamentais (OCDE, por exemplo), “espelhando” uma maior “qualificação” da força de trabalho disponível, capaz de atrair grandes investimentos do capital externo. A ligação causa-efeito entre educação de “qualidade” (nos limites dos índices educacionais) e desenvolvimento econômico, nessa perspectiva, não leva em conta a condição de “capitalismo dependente” de alguns países e é apresentada como uma fórmula universal a ser adotada para que esses países se tornem potências centrais do capitalismo.

Em síntese: a Reforma Gerencial do Estado do Rio de Janeiro, ainda em curso, é um instrumento que criou condições para o avanço privado na direção de criar novas formas de obtenção de mais-valia utilizando-se do Estado, tendo reflexos na educação pública, a partir de sua identificação como um “serviço” que obedece a um padrão de “qualidade” espelhado no mercado. Um dos problemas dessa identificação é que esse padrão de “qualidade” é apresentado como sendo apenas “técnico e neutro” e, portanto, atenderia aos interesses de toda sociedade. Contudo, avançando para além da aparência, percebemos que esse padrão de “qualidade” é a expressão de uma determinada concepção de “qualidade”, elaborada e disseminada por instituições com ligações orgânicas à classe/fração de classe que não atende aos interesses dos trabalhadores e de seus filhos (usuários da escola pública). É nesse contexto que está inserida a contratação de organizações da sociedade civil, dentre ela o IAS, a fim de desenvolver tecnologias sociais capazes de levar um tipo de educação de “qualidade”.

3 ATUAÇÃO EMPRESARIAL NA EDUCAÇÃO BÁSICA DAS ESCOLAS DA REDE

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 156-160)