Das eleições legislativas de 20 de Fevereiro de 2005 resultou uma mudança na distribuição de deputados por partidos, com uma clara viragem à “esquerda”, em relação às anteriores eleições legislativas. Destas eleições resultou a formação do XVII Governo Constitucional, chefiado pelo Secretário-Geral do Partido Socialista, o Eng. José Sócrates.
Da leitura do Programa do XVII Governo Constitucional, importa destacar algumas referências que poderão ter implicações na área de estudo desta tese:
1- Com o objectivo de dar o exemplo, o Estado adoptará boas práticas de governação societária (Corporate Governance), tendo em vista a definição de um quadro de rigor, que responsabilize os responsáveis e promova uma maior transparência da sua acção. Assim, “(...) quanto às empresas do Sector Empresarial do Estado (SEE) não abertas ao mercado, o Estado deverá integrar, com os devidos ajustamentos, as regras de Corporate Governance aplicadas às sociedades cotadas no mercado regulamentado. O Estado deverá também, como accionista, fomentar uma relação contratualizada com a administração destas empresas, através da definição clara das
responsabilidades assumidas pelo accionista e pela administração, abstendo-se de se imiscuir na gestão corrente. Desta forma, as administrações disporão de um quadro claro de referência para a gestão das empresas, sendo possível uma efectiva responsabilização dos administradores quanto ao sucesso ou insucesso da sua acção.” (extracto da página 28 do Programa do Governo). Esta clara intenção de transparência de contas e de clareza na definição das missões de cada administração, poderão potenciar o tão desejável afastamento da esfera política na gestão corrente das empresas públicas. Só assim se poderá responsabilizar as administrações e no mesmo sentido, fomentar maior eficiência na gestão deste tipo de empresas;
2- Também no sentido da clarificação do papel do Estado com o objectivo de promover a competitividade da economia portuguesa, é referido, na página 39 do Programa, que “(...) o Governo definirá as responsabilidades do Estado e a sua intervenção como accionista, concedente e parceiro no âmbito de parcerias público-privadas.”; 3- Ao tratar as políticas a adoptar especificamente na área do ambiente, nas páginas 92
e 93 do Programa, é referida a necessidade de “(...) qualificar as nossas infra- estruturas ambientais e a respectiva gestão, de forma a alcançar níveis de atendimento próprios dos países desenvolvidos, designadamente em domínios como o abastecimento de água, o saneamento e o tratamento de resíduos.”. Nesse sentido este Governo propõem-se “(...) relançar os investimentos nas infra-estruturas, optimizando o aproveitamento dos fundos comunitários disponíveis. Para garantir o sucesso desses investimentos e a sua racionalização a uma escala adequada, é vital o papel do Grupo Águas de Portugal como um forte grupo empresarial português capaz de assegurar o desenvolvimento da política pública de ambiente para o sector, sem prejuízo do estabelecimento de parcerias estratégicas que permitam reforçar a sua capacidade de resposta, desenvolver capacidades nacionais e estruturar os investimentos, tendo em vista as metas do Plano Estratégico de Abastecimento de Água e Saneamento de Águas Residuais (PEAASAR). Neste sentido, o Governo adoptará uma estratégia para o sector empresarial das águas e dos resíduos, revogando as orientações que constam na Resolução do Conselho de Ministros que preconiza o desmembramento do Grupo Águas de Portugal.” (negrito do autor); 4- Neste mesmo Sub-Capítulo do Programa do Governo é salientada, por um lado, a
recursos hídricos por bacia hidrográfica e por outro, a necessidade de reforçar a regulação a cargo do Instituto Regulador de Águas e Resíduos;
5- Ao tratar as políticas para a modernização da administração territorial autárquica, nas páginas 125 e 126 do Programa, este Governo revela a sua intenção de modernizar a administração local também por via do fomento de parcerias público-privadas, propondo-se rever o “(...) regime de organização e funcionamento dos serviços das autarquias e a regulamentação do regime de cooperação entre a Administração central e a Administração local e desta com as entidades públicas e privadas. A revisão da lei das empresas municipais e intermunicipais e o estabelecimento de novos regimes para as parcerias público-privadas e para a concessão de serviços municipais fornecerão, assim, um novo quadro de actuação ao dispor das autarquias. (...) Particular atenção será dada ao apoio aos municípios na conclusão do ciclo de investimentos nas infra-estruturas básicas em matéria de saneamento e resíduos (...)” (negrito do autor).
Se da leitura do Programa poderiam subsistir algumas dúvidas sobre o grau de participação do sector privado pretendido nestas políticas do Governo, no seu discurso de 21 de Março de 2005, de apresentação, na Assembleia da República, do Programa do XVII Governo Constitucional, o Senhor Primeiro-Ministro José Sócrates esclareceu claramente as intenções deste Executivo.
Assim, ao abordar o primeiro eixo central do programa económico da Agenda deste Governo para o crescimento – “um Novo Contrato para a Confiança” entre todos os agentes económicos128 – referiu, por um lado, a necessidade de elaborar e apresentar um Programa de Acção, até 30 de Junho, que clarifique e estabilize os investimentos prioritários em variadas áreas de infra-estruturação do país, entre elas a área ambiental – na área ambiental concretizou que se referia “(..) aos investimentos ambientais no abastecimento de água e saneamento de águas residuais.” – e por outro lado, a necessidade de recorrer ao investimento privado para concretizar esse Programa de Acção.
Em relação à necessidade de recorrer ao investimento privado transcreve-se o discurso do Senhor Primeiro-Ministro: “Estes investimentos não podem continuar a ser adiados. Trata- se de um Programa que deverá envolver, nos quatro anos de legislatura, mais de 20 mil milhões de euros de investimento, cuja origem principal terá de ser, e só pode ser, o
128 Páginas 5, 6 e 7 do discurso do Senhor Primeiro-Ministro José Sócrates, em 21 de Março de 2005, na
investimento privado. Fundos públicos, de origem comunitária e nacional, apoiarão este esforço de investimento – mas, insisto, o fulcro e o motor desta aposta será o investimento privado, nacional e estrangeiro. Está, na altura de lançar em Portugal uma nova e ambiciosa parceria estratégica público-privada, que oriente e favoreça a modernização infra- estrutural do País e que sirva, também, o relançamento da nossa economia.” (negrito original).
Ainda que nesta fase não seja possível fazer uma comparação definitiva sobre as estratégias de reestruturação do sector das águas ambicionadas pelo actual e o anterior Executivo, é pelo menos possível identificar um ponto fundamental de divergência nos modelos escolhidos, tendo nomeadamente em atenção os quatro modelos alternativos (e potencialmente combináveis entre si) propostos pelo relatório do Grupo de Peritos nomeado a 09 de Outubro de 2003 (ver também nota de rodapé número 126, na página 81).
Assim, se na reestruturação do sector das águas do anterior Governo, prevista na Resolução do Conselho de Ministros n.º 72/2004, se pretendia, até ao final de 2005, privatizar o Grupo Águas de Portugal até ao limite de 49%, já o espírito enformado pelo actual Governo vai no sentido de manter a AdP sobre o controlo Estatal total, tendo talvez em vista a possibilidade de transformar as actuais empresas gestoras de sistemas multimunicipais (por contrato de concessão com o Estado) em empresas de gestão delegada (o Estado delega directamente nas empresas gestoras as suas atribuições e poderes respeitantes à prestação desses serviços públicos), que poderão concessionar os serviços que lhe são delegados, através do recurso a parcerias público-privadas.