CAPÍTULO I – REFORMA DO ESTADO NO BRASIL E O DIREITO AO ACESSO, PERMANÊNCIA E QUALIDADE NA EDUCAÇÃO
2.3 Revisitando os Programas de Educação em Tempo Integral no Brasil: De Anísio Teixeira ao Programa Novo Mais Educação
2.3.5 O Programa Mais Educação (PME)
Já vimos anteriormente que, em 2007, o Governo Federal (na gestão do Governo Lula) lançou o Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação (PDE), por meio do decreto N° 6.094 de 24 de junho de 2007 (BRASIL, 2007a). Dentre as diretrizes do decreto constante no artigo 2º, estava: “VII - ampliar as possibilidades de permanência do educando sob responsabilidade da escola para além da jornada regular”.
Como um dos subprojetos do PDE, criou-se em 2007 o Programa Mais Educação (PME), instituído pela Portaria Normativa Interministerial N° 17 de 24 de abril de 2007 (BRASIL, 2007b) e regulamentado pelo Decreto Nº 7.083, de 27 de janeiro de 2010 (BRASIL, 2010b).
O Programa Mais Educação (PME) foi um programa intersetorial entre as políticas públicas educacionais e sociais, tendo como objetivo contribuir para a diminuição das desigualdades educacionais e para a valorização da diversidade cultural brasileira (BRASIL, 2007c; BRASIL, 2007f) e teve amparo legal em várias legislações.
A Lei 8.069 de 13 de julho de 1990, que trata sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estabelece: “A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”, assegurando-se lhes: “I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola” (BRASIL, 1990, art. 53).
A Política Nacional de Assistência Social (PNAS) (BRASIL, 2004b) também serviu de amparo legal ao PME. A PNAS determinava como função do Estado o provimento à proteção social à criança, ao adolescente e ao jovem, em situações de vulnerabilidade, risco ou exclusão social potencializando recursos individuais e coletivos capazes de contribuir para a superação de tais situações, resgate de seus direitos e alcance da autonomia.
Outra legislação que respaldou o Programa Mais Educação (PME) foi a Lei n°11.494/07 de 20 de junho de 2007 que regulamentou o Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, o FUNDEB.
No que tange ao financiamento, é importante evidenciar que o Programa Mais Educação (PME) foi operacionalizado pela Secretaria de Educação Básica (SEB), por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). As instituições escolares públicas que possuíam alunos matriculados no ensino fundamental e médio, selecionadas pela SEB/MEC e que aderiram ao Programa, receberam os recursos financeiros correspondentes à implementação do PME por intermédio de suas Unidades Executoras Próprias (UEx) (MENEZES, 2012).
Para fins de determinar a carga horária da jornada escolar em tempo integral de modo que os governos estaduais e municipais fizessem jus ao recebimento do referido recurso, o Governo Federal publicou o decreto Nº 6.253 de 13 de novembro de 2007 estabelecendo a carga horária mínima da jornada em tempo integral.
Para os fins deste Decreto, considera-se educação básica em tempo integral a jornada escolar com duração igual ou superior a sete horas diárias, durante todo o período letivo, compreendendo o tempo total que um mesmo aluno permanece na escola ou em atividades escolares, observado o disposto no art. 20 deste Decreto (BRASIL, 2007d, Art. 4o).
A Resolução n° 038 de 19 de agosto de 2008 (BRASIL, 2008c), complementada pela Resolução n° 04 de 17 de março de 2009 (BRASIL, 2009b), ambas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), estabeleceu critérios para o repasse de recursos financeiros ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), bem como definiu as diretrizes para a operacionalização da assistência financeira suplementar aos projetos educacionais que promovessem o acesso e a permanência de estudantes de baixa renda.
O Programa Mais Educação (PME) foi uma estratégia do Governo Federal para fomentar a ampliação da jornada escolar nas redes estaduais e municipais de educação. Visava à ampliação dos tempos, espaços e oportunidades educativas como forma de diminuir as desigualdades educacionais por meio da jornada escolar ampliada.
O ideal da Educação Integral traduz a compreensão do direito de aprender como inerente ao direito à vida, à saúde, à liberdade, ao respeito, à dignidade e à convivência familiar e comunitária e como condição para o próprio desenvolvimento de uma sociedade republicana e democrática (BRASIL, 2007b, p.7).
Nessa perspectiva, o discurso era de uma educação que ultrapassasse o aspecto formal, hierarquizado e fragmentado, de modo a adotar uma perspectiva de educação que compreendesse as múltiplas dimensões da vida humana e contribuísse para o crescimento orgânico, como direito inerente à pessoa humana. Nessa direção, o Programa Mais Educação adotou como objetivo:
[...] contribuir para a formação integral de crianças, adolescentes e jovens, por meio da articulação de ações, de projetos e de programas do Governo Federal e suas contribuições às propostas, visões e práticas curriculares de redes públicas de ensino e escolas, alterando o ambiente escolar e ampliando a oferta de saberes, métodos, processos e conteúdos educativos (BRASIL, 2007b, Art. 1°).
O programa visava não somente ampliar a jornada escolar na própria instituição, mas também promover a articulação com outras instituições da sociedade civil organizada. Tinha como público prioritário crianças e adolescentes pertencentes às famílias de baixa renda e que se encontravam em situação de vulnerabilidade social (BRASIL, 2007f). Nesse sentido, o Programa Mais Educação (PME) caracterizou-se como uma política redistributiva de combate à pobreza.
O Programa Mais Educação não se caracterizou como uma política universal, tendo em vista os critérios de seleção para escolha das instituições. De acordo com as diretrizes do programa, seria oferecido exclusivamente às escolas estaduais, municipais contempladas com o PDE/Escola e que apresentavam um Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) abaixo ou igual a 3,5 nos anos iniciais e/ou finais; IDEB anos iniciais menor 4.6 e IDEB anos finais menor 3.9, localizadas em todos os municípios do país e também escolas com índices igual ou superior a 50% de estudantes participantes do Programa Bolsa Família (BRASIL, 2013).
Coelho; Hora; Rosa (2013) afirmam que o Programa Mais Educação (PME) foi implantado como política focal, ou, nas palavras das autoras, “políticas afirmativas; políticas compensatórias; de ações afirmativas, políticas inclusivas”, tendo como objetivo atender a um público específico e não universalizar a educação em tempo integral. Cury (2002) ressalta que focalizar as políticas públicas a certos grupos em detrimento do princípio da igualdade de acesso e da equidade, mais do que uma decisão técnica, representa uma opção política que está atrelada à concepção de Estado.
Arroyo (1988, p.4) afirma que a Educação em Tempo Integral que se propõe a uma formação integral do sujeito tem um caráter formador voltado para uma ação educativa
total e integradora, “[...] que se limite a ilustrar a mente, mas que organize seu tempo, seu espaço, que discipline seu corpo, que transforme e conforme sua personalidade por inteiro”.
O Programa Mais Educação (PME) atuou, principalmente, por meio do tripé: tempo, espaço e currículo, como a expressão de um novo modelo de educação que ampliava a jornada e o espaço escolar, propondo uma educação que trabalhasse a transversalidade do conhecimento.
Em relação ao tempo escolar, Cavaliere (2007) associa-o como parte integrante da concepção de educação escolar que se pretenda oferecer, tomando como princípio a função da escola na formação dos estudantes. A autora afirma que a maior quantidade de tempo escolar, se estiver dissociada de outros fatores, quais sejam: o tempo e o espaço escolar, o currículo, a formação docente e, principalmente, a adoção de uma política focalizada em crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, não produzirá os resultados esperados na educação integral, ou seja, não contribuirá para a formação do sujeito em suas múltiplas dimensões.
Para Cavaliere (2007, p. 1017),
O tempo é um elemento fundamental para a compreensão não apenas dos processos civilizatórios, num sentido mais amplo, mas também dos processos de criação, acumulação e distribuição de riquezas materiais e simbólicas nas sociedades.
É necessário compreender que a ampliação do tempo na escola deve ultrapassar a tentativa de superar os déficits do rendimento escolar, muito questionada por instituições que tratam sobre a avaliação da educação. É preciso pensar no tempo escolar em uma dimensão mais ampla e que compreenda o tempo social, como elemento que reflete e constitui as formas de organização da sociedade.
Na escola em tempo integral que se propõe a oferecer uma formação integral do sujeito, a jornada escolar ampliada não deve caracterizar-se em um tempo empobrecido devido à falta de atividades diversificadas; não deve ser reduzido às aulas convencionais ou ao simples reforço escolar para mostrar melhorias nos índices do IDEB atendendo às exigências do mercado educacional. É importante que a ampliação do tempo escolar contribua para a permanência do estudante no contexto educativo e não se torne mais uma das causas da evasão escolar.
A ampliação do tempo escolar apenas se justifica se propiciar mudanças pedagógicas no processo de educação formal: uma educação que promova a formação das múltiplas dimensões da vida das crianças e adolescentes, uma educação que possibilite a esses
sujeitos a capacidade de tecerem relações uns com os outros e, com isso, promoverem o desenvolvimento da cultura da qual fazem parte e poderem agir para a realização dessas mudanças.
Para Cavaliere (2007, p.1022),
Caso se considere que preparar indivíduos para a vida democrática nas sociedades complexas é função da escola, o tempo integral pode ser um grande aliado, desde que as instituições tenham as condições necessárias para que em seu interior ocorram experiências de compartilhamento e reflexão.
Para a efetivação dessa ampliação do tempo escolar, além da questão curricular, a instituição precisa cercar-se de infraestrutura adequada do ponto de vista do espaço de modo que este adquira uma dimensão educativa.
No Programa Mais Educação (PME), de acordo com o documento elaborado pelo Ministério da Educação, o espaço físico da escola não seria determinante para a oferta de ampliação de atividades educativas, como se segue:
O reconhecimento de que a escola não tem espaço físico para acolher as crianças, adolescentes e jovens nas atividades de Educação Integral não pode desmobilizar. O mapeamento de espaços, tempos e oportunidades é tarefa que deve ser feita com as famílias, os vizinhos, enfim, toda a comunidade (BRASIL, 2007e, p. 14).
Na mesma direção apresentada no Programa Mais Educação (PME), o PNE 2014- 2024 abre a possibilidade de que a oferta de educação em tempo integral seja oferecida em parcerias com instituições além da escolar, mas sob sua responsabilidade. De acordo com Cavaliere (2014, p. 1210), essa determinação do PNE possibilitou a consolidação da educação em tempo integral estruturada
Por meio de atividades complementares ao turno regular, que podem ser oferecidas por outras instâncias que não a escola – em tese sob a coordenação desta – dentro ou fora das suas dependências e por agentes voluntários, para além dos professores, o que traz mudanças significativas à concepção até então vigente de ETI.
Essa concepção de educação em tempo integral, mesmo com muitas críticas, conforme argumentou Saviani (2007), contribuiu para possíveis mudanças na educação básica.
No que concerne ao currículo apontado nas diretrizes do Programa Mais Educação (PME), as atividades que seriam desenvolvidas deveriam estar integradas ao projeto político- pedagógico das redes de ensino e escolas participantes. O Programa Mais Educação (PME) propunha alguns macrocampos sendo o acompanhamento pedagógico uma atividade obrigatória. Os demais macrocampos e atividades ficariam a cargo da opção da escola escolher entre: educação ambiental e desenvolvimento sustentável; esporte e lazer; educação em direitos humanos; cultura, artes e educação patrimonial; cultura digital; promoção da saúde; comunicação e uso de mídias; investigação no campo das ciências da natureza; e educação econômica/economia criativa (BRASIL, 2007f).
De posse dessa gama de sugestões, a escola deveria optar pelas atividades que mais interessassem a sua demanda local a serem realizadas por meio de oficinas no contraturno escolar. Visualizamos com isso que, no discurso, o referido programa objetivava valorizar os saberes próprios da comunidade, relacionando-os aos saberes historicamente elaborados.
Segundo Leclerc; Moll, (2012, p. 96),
Trata-se da proposição dos macrocampos de Educação Integral como um conjunto de vivências, linguagens e conhecimentos disciplinares incorporados ao currículo por legislação, por iniciativas locais, por políticas intersetoriais e outras iniciativas, que abrem possibilidades de ampliação e ressignificação do tempo diário de/na escola.
De acordo com as diretrizes do Programa, esses macrocampos deveriam auxiliar na construção dos projetos político-pedagógico das escolas em parceria com outras instituições da sociedade civil, ressaltando, com isso, a verticalização da política.
Para a efetivação do Programa Mais Educação (PME), em parceria com os entes federados, o Governo Federal publicou o Decreto Nº 7.083, de 27 de janeiro de 2010, cujo art. 4º tratava sobre o regime de colaboração entre os entes federados e com a sociedade civil (BRASIL, 2010b).
De acordo com Ganzeli (2012, p. 02), o regime de colaboração na educação pode ser debatido a partir de duas vertentes: uma que defende a “política de Estado” e outra que privilegia a “política de governo”. Em suas palavras,
Os propositores da “política de estado” buscam a institucionalização de normativas que definam em comum acordo as responsabilidades de cada ente federado para a garantia da educação, enquanto os propositores da
“política de governo” defendem a preponderância da elaboração de agendas governamentais que atendam a área da educação.
No caso do Programa Mais Educação (PME), tendo em vista a “política de governo”, o regime de colaboração se deu no âmbito da transferência de recursos para as unidades. O artigo 6º da Portaria Normativa Interministerial n° 17 de 24 de abril de 2007, que instituiu o referido programa, destaca nas diretrizes a participação das famílias e comunidades nas atividades desenvolvidas, deixando evidente um processo de desresponsabilização do Estado em relação à referida política, transferindo essa responsabilidade para a sociedade, a exemplo dos profissionais que atuariam como voluntários, tendo em vista o valor irrisório a ser pago em formato de bolsa.
O trabalho do voluntariado na educação é pautado pelas políticas gerencialistas que, apelando ao comunitarismo e voluntariado, tem como discurso a promoção de uma educação para todos (OLIVEIRA, 2004).
Após estudos dos documentos legais e pedagógicos do Programa Mais Educação (PME), identificamos os princípios democráticos do programa ao fomentar a Educação em Tempo Integral aos estudantes da Educação Básica como um direito garantido constitucionalmente, bem como as estratégias pedagógicas inovadoras do programa que buscavam a formação do sujeito em todas suas dimensões formativas.
Contudo, percebemos que o PME se apresentou com fortes traços ideológicos neoliberais, principalmente ao tratar sobre o trabalho voluntário, deixando evidente uma concepção gerencialista de educação e a inexistência de uma proposta de formação a esses sujeitos, bem como a toda a comunidade docente da instituição escolar. De acordo com Schimonek (2014, p.13),
Por meio do Programa Mais Educação, o Estado se apoiou no discurso da “descentralização” e “autonomia” das escolas como forma de responsabilizá- las por seus resultados e metas, destinando-lhes em contrapartida recursos financeiros insuficientes. A educação adquiriu um caráter de serviço, e a oferta de ensino em tempo integral foi direcionada pela utilização racional das verbas (atender mais com menos). Com a descentralização de recursos e o incentivo às parcerias público-privadas e/ou ao voluntariado, o poder público se eximiu de sua responsabilidade para com a educação em tempo integral e ao mesmo tempo possibilitou o crescimento do mercado educacional.
A partir de uma pseudoparticipação da sociedade civil, o Estado inviabilizou a atuação democrática da comunidade escolar, sendo esta utilizada apenas como mecanismo
para a transferência de responsabilidades e, nesse sentido, o PME deixou de cumprir seu discurso da oferta de uma educação de qualidade para todos, atuando no âmbito das políticas focalizadas.
No entanto, não podemos desconsiderar que, de acordo com Leclerc; Moll, (2012), o PME fomentou a implantação da Educação em Tempo Integral no sistema educacional de vários estados e municípios brasileiros.