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5 DESDOBRAMENTOS PRÁTICOS E PRODUTOS ORIUNDOS DA PESQUISA

5.2 O PROJETO – A REALIDADE

O projeto iniciou em novembro de 2011 e tinha prazo previsto de cinco anos, com um investimento previsto de 40 milhões de reais. Ele foi dividido em oito temas sendo que cada um tinha um objetivo. Por conta disso, foi criado um programa dentro do qual havia 8 projetos, denominados como “Linhas de Pesquisa”, e todos eles eram conduzidos por um responsável. A abrangência era muito grande, envolvendo diversos atores, como por exemplo: técnicos e gestores da AMPLA/ENEL, parceiros, universidade, ONG e principalmente a sociedade civil, dentre outros.

Dentro do programa, foi criada uma célula de gestão, dividida em duas linhas: uma tecnológica e outra de gestão. Dentro dessas linhas de pesquisa, havia um gestor da AMPLA/ENEL que trabalhava part-time para estar alinhado com o que estava acontecendo no projeto e avaliar se ele (projeto) estava coerente com o que estava ocorrendo dentro da empresa.

A ideia era de que a rede de Búzios fizesse parte do todo e não uma ilha com tecnologia diferente. Com isso, muitas tecnologias utilizadas na região foram utilizadas em toda a rede da empresa. Para uma melhor gestão do projeto, foram definidos oito blocos de trabalho, cada um possuindo um responsável pelo andamento e execução das atividades.

Os recursos financeiros vieram em parte da AMPLA/ENEL e em parte do programa de P&D da ANEEL, tornando-se um projeto “apolítico” sem a participação dos governos estadual e/ou municipal, mas com parcerias com universidades, ONGs e empresas privadas que poderiam expor/oferecer seus produtos e serviços durante o andamento do projeto em questão, ganhando assim visibilidade.

E aí vem a parte do financiamento do projeto que é com recurso de pesquisa e desenvolvimento da ANEEL e parte de recursos próprios e aí mais ou menos 50/50. [...] eu convido a Nissan, ela veio com os elétricos e aí ele me empresta os carros elétricos durante um período, aí ela fez um investimento, aí assim vai... as lâmpadas públicas, eu fui convidando dentro de uma grande vitrine que é interessante para a ENEL, mas também para os fornecedores de equipamentos também é interessante, o cara colocar o equipamento dele lá na vitrine de Búzios [...] (E1).

Durante o período do andamento do projeto ocorreu eleição municipal e o prefeito que apoiava o projeto não foi reeleito. Isto causou impacto na parceria entre a AMPLA/ENEL e a Prefeitura de Búzios. Segundo o gestor da Prefeitura (E2), o prefeito anterior tinha aceitado o projeto sem exigência de nenhuma contrapartida por parte da distribuidora. Ele apontou que a Prefeitura gostaria de participar do projeto, todavia não com uma situação “perde-ganha”, mas com “ganha-ganha”. E questionou a empresa sobre qual retorno eles teriam, pois o projeto já estava em andamento e a promessa de troca da iluminação da cidade para LED ainda não tinha acontecido. Além disso, a AMPLA/ENEL solicitou à Prefeitura investimento financeiro e mão de obra para atuar no projeto e eles não concordaram.

Então, pera aí, então vocês querem fazer o marketing de vocês, criar a cidade inteligente em Búzios, mas você quer que a Prefeitura pague também? Então quer dizer, tudo que você está falando de trocar a iluminação não é verdade?

Porque desde 2011 até 2016 não foi feito nada de importante[..] (E2)

O gestor da Prefeitura pontuou ainda que a empresa AMPLA/ENEL não envolveu a gestão municipal no projeto e só queria utilizar a cidade por marketing. Colocou que a distribuidora presta um péssimo serviço à cidade e que toma decisões concernentes à cidade sem envolver a prefeitura. Sobre o projeto, ele pontuou que a cidade precisa de infraestrutura básica, como saneamento básico, pavimentação de ruas, assuntos relacionados à coleta seletiva do lixo e que essa questão de energia não era tão importante neste momento.

Devido a este cenário, a AMPLA/ENEL ficou responsável pela condução de todo o projeto. Por mais que não participasse diretamente do projeto, a Prefeitura aparecia como parceira em algumas reportagens publicadas em seu portal (Figura 15).

Figura 15 Divulgação passeio aquataxi elétrico

Fonte: PREFEITURA BÚZIOS, 2014

A empresa também não tinha boa aceitação da sociedade local e devido a esse contexto, a iniciativa social foi o principal pilar para o desenvolvimento do projeto Cidade Inteligente Búzios. Usou-se como estratégia a criação de um bloco de Integração e Desenvolvimento Social – “um laboratório vivo”, em que houvesse intensa interação com a população.

[...]mas o que se ouvia lá desses grupos era que a intervenção que acontecia por parte da AMPLA não era vista com bons olhos por esses movimentos e que criar essa rede teria sido um movimento de apaziguar e quase que ressignificar a AMPLA naquele território (E6).

Para conduzir a parte social, a AMPLA/ENEL contratou a ONG CIEDS que tinha como missão a criação do que eles chamaram de Rede de Relacionamento, cujo objetivo era fazer com que a população conhecesse e apoiasse o projeto e que essa rede fosse sustentável, se auto

alimentando sem dependência de um ator externo para funcionar. Nas entrelinhas, essa rede também tinha o intuito de melhorar a relação empresa-consumidor que estava desgastada.

A ONG recebeu uma carta convite e, com bases nas informações fornecidas, elaborou uma proposta técnica que fora aprovado pela empresa. Era um plano robusto que previa a participação de diversos atores estratégicos da sociedade, encontros sistemáticos e uma série de planos de ação que eram tocados por essas pessoas e mediados pelos gestores do CIEDS.

Segundo o gestor (E6), a AMPLA acompanhava de perto as ações realizadas por eles, participando das reuniões de forma colaborativa.

E o papel do CIEDS era facilitar esse processo, a gente não chegou com nada pronto, a AMPLA também não chegou com nada pronto, as demandas partiram do território. Eles construíram esse plano de ação que era tocado por eles também com o nosso apoio... nosso apoio técnico de indicar pessoas que pudessem facilitar ou então as vezes era institucional mesmo (E6).

Eventos foram realizados em escolas, nas praças e até mesmo no mar, e tinham como proposta a disseminação de uma consciência mais sustentável, trazendo mais visibilidade para o projeto. Porém essas ações foram tocadas pela AMPLA/ENEL com envolvimento pontual do CIEDS em alguns deles. A empresa também não passava uma visão completa do projeto para a ONG e ela tinha visão apenas da parte em que atuava.

Porque se a gente estava ali no território com o papel de articular, quanto mais a gente soubesse, mais a gente teria ferramentas para melhorar essa relação entre a sociedade civil e a empresa. Mas a gente não ficava sabendo de tudo que acontecia, então... quanto menos você sabe, menos você consegue contribuir. Então quando chegava para a gente, por demanda da AMPLA, alguma iniciativa que a gente precisava fortalecer a gente fazia, mas a gente não tinha noção do todo (E6).

Para se aproximar da população, a ONG não usou o nome da AMPLA/ENEL, pois verificou que havia grande resistência por parte da sociedade civil. Todas as atividades foram desenvolvidas pelo CIEDS em parceria com os atores sociais, por meio de seminários em que alguns assuntos eram tratados e por meio de técnicas como a de pesquisa-ação. A ONG também contratou estudantes da cidade para aplicação de questionários cujas informações serviram de base para a criação do plano de ação para Búzios. Com isso, eles puderam mapear os reais problemas da cidade e, por meio do amadurecimento desse plano durante o projeto, foi possível verificar as ações que poderiam ser tocadas e as que não dependiam da sociedade civil, pois era de responsabilidade de outros atores como o governo, por exemplo.

Após essa peneira foi possível estabelecer metas a serem alcançados pelos atores sociais.

Não havia um ambiente que obrigava a participação das pessoas, todos eram voluntários e estavam ali porque queriam contribuir para a melhoria da cidade. Isso fez com que houvesse aproximação entre diversas pessoas das diversas áreas da cadeia econômica e social da cidade.

Também houve o empoderamento dessas pessoas no que tange à reivindicação de seus direitos, seja com o governo, seja com empresas prestadoras de serviço.

Por meio dessa Rede de Relacionamento os atores sociais adquiriam conhecimento sobre diversos assuntos, sendo um deles as “cidades inteligentes e sustentabilidade”. O objetivo era conscientizá-los sobre o uso consciente dos recursos naturas, em especial a energia elétrica.

Dentro da rede de relacionamento, a gente tinha uma amplitude bastante maior do conceito de cidade inteligente. [..] é uma cidade inteligente que estimula o turismo sustentável, uma cidade inteligente é onde os moradores fazem parte ou tem uma atitude diferenciada junto ao poder público, eram essas discussões, que se construíam ao longo de uma cidade que se ajuda, onde tem uma rede de colaboração, [...] aí tinha a amplitude da discussão dentro da rede de relacionamento e há muito além do que a rede de relacionamento. (E1) Ao ouvir as pessoas, foi possível também realizar o resgate da cultura de Búzios. Durante o projeto, o CIEDS visitou uma comunidade quilombola da Rasa e verificou que eles tinham um artesanato de bonecas negras que era próprio deles e que era uma herança de seus antepassados, conforme podemos ver na figura 15. Esse resgate trouxe para a cidade identidade para o artesanato. Em 2017, a deputada Zeidam propôs o tombamento do Quilombo da Rasa como patrimônio histórico e cultural do Estado do Rio de Janeiro, por meio do projeto de lei nº 3281/2017 (ALERJ, 2017).

Além disso, por meio dessas ações foi possível fazer uma ponte entre os artesãos e os hotéis. Essas pessoas passaram a produzir o enxoval e bonecas para alguns hotéis e, como consequência, renda para si. Outro ponto importante se refere ao sentimento de fazer parte; após essas ações, as pessoas se sentiram pertencentes ao território que até então as excluía. Elas passaram a ter voz e exigir do poder público algumas ações para a melhoria de renda e do local em que vivem, figura 16.

Figura 16 Bonecas Negras

Fonte: CIEDS, 2015

Eles têm lá um artesanato muito forte e a gente conseguiu a partir da rede articular com a rede hoteleira. [..] mas até as rendeiras de Búzios começarem a montar os enxovais dos hotéis. Teve um trabalho bacana também de um quilombo urbano que tem lá e a gente fez um resgate das bonecas negras, que eram bonecas de pano[...] oficinas de bonecas negras e essas bonecas passaram a ser vendidas nos hotéis como uma identidade de Búzios (E6).

Figura 17 Ponto de venda - Bonecas Negras

Fonte: PREFEITURA BÚZIOS, 2016

A Rede de Relacionamento buscava atender a todo o território, porém, segundo o gestor do CIEDS, esse alcance compreendeu cerca de sessenta e cinco por cento daquele. Isto porque, como mencionado anteriormente, a participação era voluntária e algumas pessoas saíram durante o processo.

O CIEDS participava pontualmente em outras linhas do programa Cidades Inteligentes Búzios, fazendo a interface entre a AMPLA/ENEL e a população. O gestor da ONG pontou dois momentos em que a participação deles fora solicitada. Uma foi durante o evento do barco elétrico, em que eles fizeram a intermediação com os pescadores, e o outro caso ocorreu quando a distribuidora de energia queria mudar os medidores de energia por medidores mais modernos, que impediam o furto de energia. Para atender essa questão, o CIEDS contratou algumas pessoas da comunidade para fazer a conscientização da população para que a mudança fosse melhor recebida, o que funcionou. Esses foram casos específicos em que a participação da ONG foi solicitada e que estava fora do escopo de sua contratação.

Eles fizeram um movimento de trocar para... com o nosso apoio até. Eles pediram na verdade para agente contratar algumas pessoas locais, esse foi o nosso acordo, para que a gente contratasse pessoas locais para que fizessem esse processo todo de conscientização para a troca dos medidores. Pois seriam medidores automáticos, tal que reduziam as chances de gatos e desvio de energia. E o nosso papel era ir nessas casas falar sobre a troca de medidor (E6).

A ONG atuou em Búzios por quatro anos e foi bem aceita pela sociedade e conseguiu fazer com que a resistência a AMPLA/ENEL diminuísse. Porém sua saída não foi bem recebida pela sociedade, mesmo ela sabendo que era um projeto finito.

Durante o projeto algumas escolas participaram de eventos que buscavam conscientizar os alunos e suas famílias sobre o uso da energia de forma sustentável. Um desses projetos foi o

“Energia que Educa”, figura 17, que premiava a escola que melhor se saísse em uma gincana sobre o tema. Participaram dessa disputa oito escolas públicas e privadas. O gestor de uma das escolas coloca que a AMPLA/ENEL esteve lá na escola algumas vezes e que houve eventos que trabalharam a questão da sustentabilidade na escola.

A AMPLA sim, [...] e fez um projeto muito rico com a gente, trabalhou muito a questão do meio ambiente, trabalhou muito a questão de sustentabilidade, mas não mostrando que a nossa escola é sustentável. Eles colocaram que a

nossa escola seria sustentável, mas não permaneceu[...] ganhamos com a

gincana que teve aqui, ganhamos 2 notebooks novos, que a escola ganhou.

Alunos ganharam celulares, porque a escola foi muito movimentada (E3).

Figura 18 Projeto Energia que Educa

Fonte: PREFEITURA BÚZIOS, 2015

Algumas áreas de Búzios foram contempladas com a instalação de placas solares (sistemas fotovoltaicos) e aerogeradores (gerador eólico), como por exemplo, a praça do Portal da Barra, a Escola Municipal Nicomedes (figura 18), a APAE de Búzios, dentre outros. Foram instaladas 150 luminárias LED, em torno da em torno da Lagoa de Búzios, com tecnologia que possibilita que elas sejam controladas a distância. Porém, segundo o professor da UFF (E4), foram equipamentos de pequeno porte que tiveram um impacto muito baixo na rede elétrica.

Para o gestor do projeto pela AMPLA/ENEL, como se tratava de um projeto piloto, nem todas as áreas puderam ser contempladas com essas tecnologias (E1).

Figura 19 – Painel Solar – Escola Municipal Nicomedes - Búzios

Fonte: ENELX, 2016

A integração das pesquisas foi sustentada pelo Centro de Monitoramento da Pesquisa (CMP), figura 19, que possuía 400 metros quadrados, e que proporcionou avaliação integrada de tecnologias, infraestrutura, modelos de negócios, recursos humanos, impactos socioeconômicos, aspectos regulatórios, tarifação, hábitos de consumo e eficiência, além de desenvolvimento de tecnologias visando a um modelo brasileiro para aplicação em larga escala.

Isto com ênfase na formação da Rede de Relacionamento Sustentável em Búzios, que apresentou à população os conceitos de redes inteligentes, interagindo com ela por meio de ações sociais, o que permitiu ao projeto medir os impactos dessas ações.

Como objetivo do projeto, exatamente, a gente ia construir um laboratório vivo, onde a gente vai implantar tecnologias e conseguir medir os resultados técnicos, resultados econômicos, resultados sociais, identificar quais são nossas oportunidades, de novos negócios, de novos serviços e o desenvolvimento de uma nova relação com a sociedade, no consumo de energia (E1).

O CMP tinha uma excelente estrutura e ficava aberto de segunda a sábado, possibilitando às pessoas visitar gratuitamente e ter uma explicação sobre seu funcionamento. Também se incentivavam visitas de estudantes para que conhecessem o projeto. Paralelo a isso, o projeto mobilizou as pessoas da sociedade que tinham influência e poderiam trabalhar como multiplicadoras das informações. Isso foi feito por meio do mapeamento dos atores principais no contexto da cidade. Mesmo assim, o gestor da AMPLA/ENEL informou que a procura era muito baixa por parte da sociedade e que era necessária a realização de cursos e ações para que houvesse movimento.

A gente organizava visitas lá, guiadas. Uma das visitas que a gente tinha era visita a um barco elétrico que a gente tinha, aí a garotada andava de barco elétrico, agente explicava sobre mobilidade elétrica, os benefícios da mobilidade elétrica. [...] as visitas que agente recebia era que a gente estimulava, né. Em geral quem visitava eram um ou outro turista [...] (E1)

Figura 20 Centro de Monitoramento e Pesquisa (CMP)

Fonte: ENELX, 2016

O gestor do colégio pontuou as ações realizadas pela AMPLA/ENEL para a divulgação do CMP e da casa inteligente, por meio de visitas e palestras sobre sustentabilidade. Porém cita a falta de continuidade do projeto.

[...] porque eles tinham o espaço deles lá mostrando a cidade sustentável, tiveram uma questão de maquetes, então as escolas conheciam, então a comunidade poderia conhecer, tanto que era ali perto da usina... portal da Ferradura era uma casa inteligente, então as escolas poderiam ir lá visitar. Eles fizeram um levantamento muito bom, por isso, estou falando a vocês, se tivesse dando continuidade seria ótimo. (E3)

O programa também contou com a parceria de algumas universidades, uma delas foi a Universidade Federal Fluminense – UFF. Segundo o entrevistado 4 (E4), quando os pesquisadores iniciaram o trabalho no projeto ele já estava em execução e eles não participaram das reuniões iniciais e não puderam assim contribuir no desenho da solução. Porém ele pontua

que inúmeros trabalhos foram realizados pela universidade neste período, usando os dados captados pelo CMP.

Foram produzidos artigos científicos, monografias, dissertações, entre outros documentos, que são disponibilizadas no site do projeto. Além desses trabalhos, o projeto Cidade Inteligente Búzios ganhou inúmeros prêmios nacionais e internacionais, que mostraram a sua relevância. Essa parceria entre a UFF e a AMPLA/ENEL também deu origem a um curso de extensão sobre Redes inteligentes que foi ministrado aos colaboradores da empresa, por pessoas da UFF, com o objetivo de capacitá-los na nova tecnologia.

A gente participou, apoiando a construção dos produtos acadêmicos do projeto, tivemos alunos que fizeram dissertação de mestrado, trabalho de conclusão de curso, iniciação científica. E aí a gente usou algumas informações e dados que foram produzidos pelo projeto para desenvolver essas pesquisas. Então a gente participou lá da construção da memória técnica, então consolidou tudo e a ideia era até lançar um livro, mas infelizmente não teve tempo e possibilidade de fazer isso. A gente tentou... do projeto do ponto de vista técnico e acadêmico e também a gente fez uma pesquisa no final do projeto sobre impacto da medição inteligente lá em Búzios (E4).

Foi perguntado ao gestor da AMPLA/ENEL se ele conhecia o Projeto Minha Cidade Inteligente do Governo Federal, ele informou que esse tipo de projeto é mais voltado às prefeituras e, como o Cidades Inteligentes Búzios se referia a energia, ele acreditava que não se enquadrava neste projeto. Já o gestor da prefeitura disse que conhecia esse programa do governo, porém não tinha interesse para verbas relacionadas a cidade inteligente. Informou que a cidade de Búzios necessita de verbas para mobilidade e para obras de infraestrutura.

Não era o nosso propósito, normalmente os projetos de cidades inteligentes, são muito mais focados para a prefeitura do que para uma distribuidora. A nossa ideia como projeto era mostrar a ótica de uma cidade inteligente pelo lado da energia (E1).

Tenho conhecimento, mas a gente não tem interesse em verba para a cidade inteligente, a gente tem interesse em verba para a mobilidade, para infraestrutura, entendeu. (E2).

O gestor da AMPLA/ENEL informou que o projeto Cidade Inteligente trouxe inúmeros benefícios para Búzios. Como benefícios tecnológicos ele cita o desenvolvimento de novas ferramentas, novas metodologias de trabalho, novas tecnologias. Também foi possível criar uma projeção de como seriam todas as tecnologias implantadas globalmente que trariam benefícios diretos para a sociedade.

O projeto possibilitou também que a cidade tivesse uma internet bastante rápida, por meio de uma rede de fibra óptica que cobre toda a cidade. Mais de 10.000 medidores inteligentes foram instalados, permitindo que o consumidor acompanhe seu consumo pela internet, além dos benefícios sociais que alcançaram muitas pessoas da cidade.

Hoje Búzios tem uma internet bastante rápida, tem uma rede de fibra óptica que cobre toda a cidade, antes em Búzios você não conseguia contratar um mega de internet, hoje você consegue fácil 100 mega, 200 mega. [...] foram mais de dez mil medidores, onde as pessoas conseguem olhar, acompanhar pela internet seu consumo de energia (E1).

Porém, quando perguntado se o projeto cobriu toda a cidade, E1 cita que algumas tecnologias foram pontuais, pois a cidade era grande e como se tratava de um projeto piloto, não havia como atender toda a cidade.

E algumas tecnologias, elas foram pontuais, por exemplo, eram 150 luminárias LED telecomandadas só que Búzios tem 8600... não tem condições de, como um projeto piloto, trocar toda iluminação da cidade. A gente escolheu regiões da cidade dependendo das tecnologias. Então um exemplo, como eu coloquei, automação da rede, automação cobriu toda a cidade, uma aviação de uma subestação de energia, a rede de fibra óptica, projetos sociais, como comentei, isso cobriu toda a cidade (E1).

Para o professor universitário (E4), os benefícios para a cidade de Búzios foram pequenos e ele acredita que muitos negócios poderiam ter sido fomentados durante a execução do projeto, o que não ocorreu e que vê como uma oportunidade perdida. Segundo ele, o único ganho foi referente à divulgação da cidade.

É triste o que eu vou dizer, mas eu acho que é uma grande oportunidade perdida. Não pela Enel ou pela Ampla, mas pelo setor elétrico brasileiro.

Programa de P&D que é financiado por um percentualzinho da nossa tarifa, né. E aí um projeto que poderia estar até hoje produzindo frutos acadêmicos, por exemplo, poderia ter fomentado uma série de novos negócios em Búzios...

o projeto acabou, sem nada. Ficou lá algumas ações... projeto... hoje em dia eu acredito que tenha tido um retorno somente do ponto de vista de divulgação para Búzios. Não vejo nenhum impacto muito efetivo na cidade não, infelizmente (E4).

Já para o gestor da prefeitura, o projeto não trouxe nenhum ganho para a cidade, apenas para a empresa. Ele acredita que a AMPLA/ENEL se aproveitou do nome da cidade para fazer marketing. Coloca ainda que nunca acreditou que o projeto poderia dar certo.

A gente nunca acreditou nisso. Eu pelo menos nunca acreditei, as pessoas não acreditavam. Uma coisa que começou e tal e aí parou (E2).

O gestor da ONG CIEDS coloca que sobre a perspectiva podem ser elencados como benefícios sociais a articulação entre a rede hoteleira e os artesãos, resgate das bonecas negras e o empoderamento da sociedade civil para reivindicarem seus direitos. Mas o principal para ele é a mudança de mentalidade dessas pessoas, pois o projeto acabou, mas as pessoas continuariam lá e teriam que lutar por seus direitos.

Eu acho que os maiores ganhos tenham sido a articulação com a rede hoteleira e a articulação interna entre eles. Porque o que eu percebia lá nas reuniões era que é uma população que briga muito, mas briga muito sozinha e a partir da rede eles viram ali um espaço onde juntos eles gritavam mais alto [...]. Mais que a articulação com a rede hoteleira, que tem viés só econômico, mas esse viés de cidadania, acho que isso fica. Porque as pessoas estão em Búzios até hoje que vão ter filhos em Búzios, vão ter netos em Búzios. É a mudança de mentalidade, né (E6).