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Capítulo II: Os achados do Campo

Anexo 2 Projeto de Pesquisa

Órgão: Departamento de Saúde e Sociedade (MSS) Unidade: Instituto de Saúde da Comunidade (CMS)

Título: Boa Noite, Bom Dia HUAP Avaliação dos Efeitos na Formação dos Estudantes da Área da Saúde”;

Pesquisadores:

Lenita Barreto Lorena Claro – Profª Associada Júlio Wong Un – Prof Adjunto

Célia Sequeiros da Silva – Terapeuta Ocupacional e aluna em probatório do Mestrado em Saúde Coletiva do CMS.

Introdução

O Projeto Boa Noite, Bom Dia HUAP é um projeto de extensão da Universidade Federal Fluminense, em execução desde o início de 2008. A proposta desde projeto é contribuir para a humanização na formação dos estudantes da área de saúde, possibilitando a aquisição de competências comunicacionais, sensibilidade estética, criatividade, capacidade para cuidar e para melhor lidar com a afetividade, além de integrar estudantes de diferentes cursos. Além disso, propõe-se a contribuir para a recuperação da saúde e melhor qualidade do período de hospitalização de clientes do Hospital Universitário Antônio Pedro, através do diálogo entre estudante e cliente e do compartilhamento de atividades lúdicas, criativas e que utilizem as artes como instrumento.

O público-alvo do projeto são os estudantes de cursos de graduação na área de saúde e os pacientes hospitalizados no HUAP. O público atingido indiretamente é formado por acompanhantes, visitantes e/ou familiares dos pacientes, e funcionários do HUAP.

Atualmente, conta-se com cerca de 65 estudantes (ver a coerência entre este número e o que consta no corpo do projeto), do curso de medicina, enfermagem, farmácia, psicologia, nutrição e serviço social da UFF. Contamos, ainda, com um aluno bolsista de extensão.

Os participantes são divididos em grupos (os “G2, G4 e G6”, em referência ao dia de semana da visita) e cada grupo é coordenado por um ou mais profissionais de saúde ou docentes. Cada grupo realiza visitas semanais a enfermarias do HUAP e, a cada mês, os grupos alternam os setores de visita. As visitas são realizadas no período do final do dia, ao anoitecer, momento em que os pacientes tendem a sentir-se mais sós e desassistidos, de um modo geral. Nesse horário, a movimentação inerente a um hospital universitário dá lugar ao silêncio e à solidão. Com as atividades do projeto, os pacientes, sentindo-se cuidados, valorizados, participando de atividades lúdicas e/ou criativas, poderão ter uma noite melhor e uma melhoria em seu estado geral. A uma "boa noite", segue-se um “bom dia”. Os grupos encontram-se às 18h, preparam-se para a visita, reunindo idéias de atividades e sugestões musicais, além de preparar a ornamentação. O grupo dispõe de fantasias e adereços, instrumentos musicais, material para artes plásticas (tinta, pincéis, canetas, papel) e alguns brinquedos, como jogos e fantoches. As visitas às enfermarias estendem-se de 18:30 às 20hs, aproximadamente, podendo durar um pouco mais, dependendo do interesse dos pacientes. Após cada visita, um ou dois alunos encarregam-se de fazer o “diário” ou relato da visita, que é divulgado através de um e-mail de grupo para todos os participantes.

Atualmente, participam, como profissionais, dois professores do Departamento de Saúde e Sociedade, com formação médica e pós-graduação em saúde coletiva, sendo que um deles está realizando formação em arteterapia, uma terapeuta ocupacional, do mesmo departamento, e uma enfermeira do HUAP, com formação em arteterapia.

O Projeto dispõe de website próprio (www.bnbd.uff.br) e de um e-mail de grupo, que permitem maior agilidade na divulgação das atividades e comunicação entre os participantes. Resultados dessa experiência têm sido apresentados em Congressos e Seminários, além da Semana Acadêmica da UFF.

Entre os problemas da atenção à saúde que a Política Nacional de Humanização, do Ministério da Saúde, propõe-se a enfrentar, destacamos a “fragmentação do processo de trabalho e das relações entre os diferentes profissionais”, a “precária interação nas equipes e despreparo para lidar com a dimensão subjetiva nas práticas de atenção” e um “modelo de atenção centrado na relação queixa-conduta”. Entre os componentes do conceito de humanização expressos por essa política de saúde estão: a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde, enfatizando sua autonomia, co-responsabilidade, o estabelecimento de vínculos solidários e a

participação coletiva nos cuidados em saúde; o incentivo à união e à colaboração interdisciplinar de todos os envolvidos, dos gestores, dos técnicos e dos funcionários, assim como a organização para a participação ativa e militante dos usuários nos processos de prevenção, cura e reabilitação. (Ministério da Saúde, 2004, p.11-13).

Nos debates sobre a formação de profissionais de saúde e nas diretrizes curriculares dos cursos da área de saúde, a humanização e a integralidade da atenção têm sido temas relevantes (Rego et al., 2008; Souza e Moreira, 2008; Koifman, 2001). O trabalho em saúde e a formação de seus profissionais pressupõem aspectos técnicos e relacionais, a busca da “cura” e o “cuidado”, dimensões que ainda são vistas como separadas, dicotômicas, em paralelo à dicotomia entre corpo e mente/alma (Ferreira, 2005). A dimensão da cura, envolvendo conhecimentos e habilidades técnicas, é priorizada nos currículos profissionais, especialmente dos médicos. Superar essa dicotomia e mesclar à técnica, a dimensão relacional, “humana”, é um desafio que se coloca nos currículos de graduação e nas políticas e práticas de saúde (Ayres, 2004, 2005).

As reformas curriculares têm procurado responder a essa questão, incorporando o ensino das ciências sociais e das humanidades. Esse ensino visa o desenvolvimento de habilidades e atitudes tais como a comunicação, a empatia, a solidariedade, o acolhimento, as quais capacitam o estudante a desenvolver uma relação mais próxima, ética e satisfatória, tanto com clientes, quanto com outros profissionais (Turini et al, 2008; Ruiz-Moral, 2007; Sucupira, 2007). A introdução de saberes inovadores no campo da saúde, como as artes, também atende a essa finalidade, entre outras (Tapajós, 2002; Ayres, 2005).

A arte, ao se valer de uma linguagem não-verbal e simbólica, proporciona um diálogo com o universo interior das pessoas, o que facilita processos de reflexão, percepção, organização e auto- conhecimento, além de colaborar com o estabelecimento de vínculos, a comunicação inter-pessoal e a empatia. Nesse sentido, ela pode ser útil, tanto na formação de profissionais de saúde, quanto como forma de terapia (Tapajós, 2002).

Uma questão preocupante na formação desses futuros profissionais é a dificuldade encontrada para integrá-los através de seus currículos, com a finalidade de promover maior convivência, troca de conhecimentos e respeito ao saber alheio e facilitar o aprendizado do trabalho em equipe (Saupe e Budó, 2006; Garcia et al., 2005; Souza e Moreira, 2008).

Os projetos de extensão universitária têm se revelado instrumentos pedagógicos importantes ao propiciarem essa desejada integração muitiprofissional, o desenvolvimento da dimensão relacional e a prestação do “cuidado” na formação dos estudantes da área da saúde, através de atividades práticas (Hennington,2005; Saraiva, 2007).

O Projeto Boa Noite, Bom Dia HUAP, ao propiciar o contato dos estudantes dessa área com diversos materiais e técnicas artísticos e, através destes, promover a convivência precoce de estudantes e pacientes no ambiente do hospital universitário, de formas criativas, que superam os contatos tradicionais, que visam primordialmente o aprendizado técnico, certamente contribui para a formação de profissionais mais humanos, críticos, responsáveis e éticos, em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (PROMED) do Ministério da Saúde Educação, do Projeto Pedagógico Institucional da UFF e do SUS (Ceccim e Feuerwerker, 2004-2; Brasil, 2002; UFF, 2002).

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