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Projeto Sustentabilidade no mundo: consumo consciente

No documento São Paulo (páginas 66-70)

3. A EXPERIÊNCIA DOS PROFESSORES COM O REA EDUKATU

3.1 Detalhamento e análise dos projetos conduzidos pelas entrevistadas

3.1.1 Projeto Sustentabilidade no mundo: consumo consciente

A professora G montou um projeto multidisciplinar que envolveu diversos docentes e

funcionários da escola, atingiu diretamente trezentos alunos do quarto e quinto anos do

Ensino Fundamental e mobilizou a comunidade escolar em uma passeata pela região.

Intitulado “Sustentabilidade no mundo: consumo consciente”, o projeto tinha como objetivo

central formar uma Comunidade Sustentável em que as pessoas cuidam das relações que

estabelecem uns com os outros, com a natureza e com os lugares onde vivem. Em sua

justificativa, a professora G enfatizou que:

Essa comunidade aprende, pensa e age para construir o seu presente e o futuro com

criatividade, liberdade e respeito às diferenças. A escola como uma intuição de

grande influência na vida das crianças é o lugar ideal para se implantar ações de

promoção à saúde, desenvolvimento de uma alimentação saudável, sustentabilidade

e desempenhando papel fundamental na formação de valores, hábitos e estilos de

vida.

Vale apontar que o bairro no qual a escola foi construída é uma rica região de

mananciais, em área pertencente à Mata Atlântica que deveria ser de proteção ambiental. A

realidade local é de um processo de urbanização irregular, diante do qual se torna preciso

amenizar os prejuízos ambientais. A atuação da professora G buscou instrumentalizar alunos e

comunidade na luta de preservação dos recursos naturais, compreendendo também que

precisamos satisfazer nossas necessidades individuais, mas sem deixar de levar em conta os

reflexos sobre o meio ambiente e a sociedade. Identificamos a intenção docente de aportar

para a escola uma atitude reflexiva em torno da problemática ambiental, dentro da

preocupação de estimular uma participação mais ativa da sociedade no debate dos seus

destinos discutida por Pedro Jacobi. A proposta do autor é que a formação de novas

mentalidades, conhecimentos e comportamentos depende de um entendimento sobre a

complexidade do mundo em que vivemos.

Nas etapas iniciais do projeto foi feito levantamento dos conhecimentos prévios dos

alunos, leitura coletiva e individual de textos informativos no acervo da biblioteca da escola e

pesquisa em diferentes fontes sobre sustentabilidade no mundo e consumo consciente. Depois

das rodas de conversa sobre o assunto, os alunos foram apresentados à plataforma Edukatu.

Notamos aqui a estratégia docente de identificar quais eram os conhecimentos prévios dos

alunos antes de introduzir todo o panorama socioambiental, identificando o ponto de

ancoragem para as novas ideias e conceitos, conforme a teoria ausubeliana sobre

aprendizagem significativa. A premissa é que novas ideias podem ser aprendidas à medida

que conceitos inclusivos sejam apresentados de maneira clara, alicerçados em conhecimentos

já presentes na estrutura cognitiva do aprendiz.

As turmas foram organizadas em duplas ou em pequenos grupos e, com o auxilio da

professora, trilharam os passos digitais de acesso de registro de login e comandos de

desenvolvimento de percurso para exploração e navegação no site. Foram percorridas todas as

atividades do circuito Turma que Recicla e algumas atividades dos circuitos Terra e Ar. O uso

da Edukateca (biblioteca online disponível no REA Edukatu) foi intercalado com palestras pra

mediar as questões e realizar as atividades. A fim de aperfeiçoar o olhar crítico e reflexivo em

relação às próprias posturas e às do outro visando à construção de um ambiente mais

saudável, os alunos foram incentivados a observar na escola, em casa e na comunidade a

presença de atitudes como desperdício de papel e de comida, torneiras abertas nos banheiros e

pias, uso desnecessário de energia elétrica e destinação correta de resíduos. Também fez parte

das aulas a análise de vídeos seguidas de discussões. Segundo a docente: “A possibilidade de

aprender se divertindo, utilizando das mídias digitais e com um desafio de cumprir etapas, os

deixaram cada vez mais engajados no projeto.” Fica explícito que o processo de

ensino-aprendizagem coordenado pela professora G em momento algum prescinde de sua atuação,

sendo que há momentos em que ela atua como facilitadora e em outros claramente

protagoniza o mestre socrático resgatado por Pedro Demo, quando esse defende que o papel

de estímulo e provocação dentro de um processo maiêutico de reflexão e aprendizagem é

missão do professor. Entre os vídeos assistidos pela turma figuravam a Carta 2070, Carta da

Terra, O Inquilino, clipe “Earth Song”, A mais bela flor do mundo, Ilhas das flores e A

verdadeira história da ilha das flores. A apostila “O Futuro que queremos: economia verde,

desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza” também foi estudada pelas turmas.

Para a mostra cultural realizada em sábado letivo foram elaborados materiais informativos,

como textos coletivos, painéis e folders referentes à temática para divulgação na comunidade

por meio de panfletagem. Na mescla de atividades propostas pela professora G identificamos

o uso da leitura, do audiovisual e também da colaboração em pares e das apresentações dos

alunos, o que nos remete ao desafio de domesticar as novas tecnologias para que sirvam ao

direito de aprender bem e de produzir conhecimento com devida autonomia e autoria.

Dentro da rede de aprendizagem Edukatu, a professora fez vinte e três postagens,

todas sobre ações do projeto “Sustentabilidade no mundo: Consumo consciente” na escola.

Com um estilo informativo, as publicações reportavam os detalhes dos acontecimentos,

listavam as turmas participantes e apresentavam fotos das pessoas envolvidas e dos resultados

das atividades. A seguir um exemplo de postagem feita pela professora G:

Figura 8 – postagem da professora G no REA Edukatu

Os comentários feitos nos posts revelam que os alunos foram acompanhando as

notícias e alguns tiveram coragem de parabenizar as iniciativas e até mesmo de revelar que

tinha gostado de participar delas. Em média, as publicações tinham de três a cinco

comentários. O grande destaque foi a postagem sobre a oficina de montagem de caixa de

compostagem de materiais orgânicos, que, além de reportar o acontecimento, dava dicas de

como fazer em casa. Houve 550 comentários, que variaram entre felicitações e depoimentos

mais contundentes, como nos exemplos a seguir: “Essa atividade foi muito legal porque

nosso planeta está poluído e precisamos cuidar do nosso planeta”; “Eu gostei muito de

aprender a fazer a caixa de compostagem e aprender a reaproveitar antes de descartar”;

“Eu achei muito legal esse tipo de aprendizado, posso reaproveitar fazer em casa pelo fato

de minha vó ter uma horta do lado de casa”; “Foi muito bom ter feito porque agora eu não

misturo o lixo da minha casa.”

Figura 9 – exemplos de comentários sobre a compostagem

Fonte: Instituto Akatu

Além dessa atividade de construção da composteira, o concurso de história em

quadrinhos, cujo tema estava vinculado ao post sobre como diminuir o consumo de recursos

naturais e a geração de resíduos no seu dia a dia, fez um grande sucesso entre os alunos.

Notamos que durante essas atividades, a professora G investiu na cultura da participação que

vem sendo potencializada pelo ambiente digital, conforme aponta Lemos (2015) ao falar em

ciber-cultura-remix. Esse conceito explicita que a nossa sociedade está mergulhada numa

cultura da interconexão onde cada usuário é estimulado a produzir, distribuir e reciclar

conteúdos digitais.

O encerramento do projeto conduzido pela professora G foi marcado por uma

cerimônia de certificação de agentes sustentáveis, dentro da proposta de formar jovens

capazes de reconhecer o seu papel de cidadão com possibilidade de transformar o espaço e

meio ambiente. O objetivo da docente era que se sentissem aptos a discutir sobre os direitos e

deveres dos moradores da comunidade com relação a coleta de lixo, coleta seletiva de lixo,

saneamento básico e área verde, através da análise da realidade do bairro, principalmente no

que tange à preservação do meio ambiente, a fim de agirem com autonomia e consciência em

favor do planeta. Segundo a docente:

Esse projeto foi espetacular ao meu ponto de vista, através da realização das etapas

do circuito Turma que Recicla, pude perceber como os alunos evoluíram em sua

aprendizagem ainda mais no tocante a sustentabilidade... a cada etapa conquistada,

ficamos mais envolvidos e muitas ideias surgiram que colocamos em prática.

O trabalho desempenhado pela professora G foi exemplar no sentido de que reflete na

prática as propostas pedagógicas sobre as quais teorizamos, sobretudo sobre o efetivo apoio

da tecnologia na formação de uma consciência ambiental que envolva um entendimento da

própria realidade. A docente conduziu o processo de ensino aprendizagem costurando

iniciativas face a face com atividades em ambiente digital que se utilizavam do conhecimento

prévio dos alunos e da interação dentro da própria turma para gerar reflexão. Com essas

estratégias, conseguiu promover a autoria dos alunos e a mobilização da comunidade na qual

a escola está inserida.

No documento São Paulo (páginas 66-70)