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Recursos Educacionais Abertos (REA) e aprendizagem

No documento São Paulo (páginas 49-53)

1. A SUSTENTABILIDADE COMO DESAFIO DA EDUCAÇÃO NO SÉCULO

1.4 Recursos Educacionais Abertos (REA) e aprendizagem

Diante das variadas alternativas tecnológicas disponíveis para adaptação e uso com

finalidade pedagógica, optamos por estudar os Recursos Educacionais Abertos (REA).

Trata-se de plataformas digitais com tecnologias participativas que lançam mão de computadores e

de recursos audiovisuais, ao mesmo tempo em que publicam textos e infográficos e estimulam

a reflexão e a discussão. São, portanto, materiais educativos que convergem diversas mídias

em apoio ao plano de ensino do professor. O termo Recursos Educacionais Abertos foi

cunhado em 2002 no Fórum sobre Softwares Didáticos Abertos da UNESCO com a

definição:

Os materiais de ensino, aprendizagem e investigação em quaisquer suportes, digitais

ou outros, que se situem no domínio público ou que tenham sido divulgados sob

licença aberta que permite acesso, uso, adaptação e redistribuição gratuitos por

terceiros, mediante nenhuma restrição ou poucas restrições. O licenciamento aberto

é construído no âmbito da estrutura existente dos direitos de propriedade intelectual,

tais como se encontram definidos por convenções internacionais pertinentes, e

respeita a autoria da obra. (Fórum sobre Softwares Didáticos Abertos, 2002)

Em 2012, dez anos depois da oficialização dessa definição e da importância desses

materiais digitais, foi realizado o Congresso Mundial Sobre Recursos Educacionais Abertos,

durante o qual foi elaborada e publicada a “Declaração REA de Paris” que, entre outras

afirmativas, recomendava aos Estados o reforço da sensibilização e da utilização dos REA e o

incentivo ao desenvolvimento e à adaptação dos REA em diversos idiomas e contextos

culturais. Essas recomendações foram respaldadas na Declaração Universal dos Direitos

Humanos (Artigo 26.1), que estipula que: “Toda pessoa tem direito à instrução”; na

Declaração do Milênio e o Plano de Ação de Dacar de 2000, que assumiu compromissos

globais com vista a fornecer ensino básico de qualidade a todas as crianças, bem como aos

jovens e adultos; na Declaração de Princípios da Cimeira Mundial sobre a Sociedade da

Informação de 2003, que assumiu o compromisso de se empenhar em prol da "construção de

uma Sociedade da Informação inclusiva e voltada para as pessoas e o desenvolvimento, na

qual todos possam criar, aceder, utilizar e compartilhar a informação e o conhecimento"; e na

Recomendação de 2003 da UNESCO relativa à Promoção e ao Uso do Plurilinguismo e do

Acesso Universal ao Ciberespaço. A expectativa expressa nesses documentos é que os

Recursos Educacionais Abertos têm potencial para impulsionar o processo de formação

integral das atuais e futuras gerações. Isso porque, em termos coletivos, têm possibilidade de

democratizar a educação porque são de mais fácil acesso; e, em termos individuais,

funcionam como instrumentos mediadores no processo de aprendizagem. Remetendo à teoria

de Vigotski, os recursos digitais de certa forma agregam as mediações explícitas e implícitas

simultaneamente porque propiciam materialização do pensamento e abstração das ideias:

[...] um mecanismo essencial dos processos reconstrutivos que ocorre durante o

desenvolvimento da criança é a criação e o uso de vários estímulos artificiais. Esses

estímulos desempenham um papel auxiliar que permite aos seres humanos dominar

seu próprio comportamento, primeiro através de meios externos e posteriormente

através de operações internas mais complexas. (Vigotski, 2007, p. 81)

Os recursos educacionais digitais podem ser considerados instrumentos mediadores na

finalidade de levar o aluno ao seu nível de desenvolvimento potencial. Para defender essa

ideia, destacamos o conceito de zona de desenvolvimento proximal:

A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não

amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que

amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções

poderiam ser chamadas de ‘brotos’ ou ‘flores’ do desenvolvimento, em vez de

‘frutos’ do desenvolvimento... a zona de desenvolvimento proximal hoje será o nível

de desenvolvimento real amanhã – ou seja, aquilo que a criança pode fazer com

assistência hoje, ela será capaz de fazer sozinha amanhã. (Vigotski, 2007, p. 98)

Esse conceito descrito por Vigotski respalda a atuação docente de organizar o

conteúdo de sua disciplina levando em conta o que o aluno já sabe e aonde ele precisa chegar.

Trata-se de um instrumento que facilita ao docente o entendimento do processo interno do

desenvolvimento que está em curso no aluno, que vai de desempenhar tarefas com ajuda

externa a alcançar a solução de problemas independentemente. Essa é a dinâmica dos jogos

eletrônicos, que sempre ampliam a complexidade a cada etapa; mesma dinâmica dos recursos

educacionais abertos, que nada mais são do que materiais didáticos interativos. Como

instrumentos facilitadores do processo de ensino, os Recursos Educacionais Abertos podem

ser usados como organizadores prévios de conhecimentos ao mesmo tempo em que permitem

o diálogo entre os pares. Vaughan destaca a importância do engajamento e da atuação do

próprio estudante:

A chave é redesenhar cursos híbridos visando experiências de aprendizado ativas e

colaborativas que habilitem os estudantes a assumirem a responsabilidade por seu

próprio aprendizado e validarem seu entendimento por meio de discurso e debates

com seus pares. (VAUGHAN, 2014, p. 261 – tradução nossa)

Para o autor canadense, a implementação do blended learning é uma espécie de

pontapé para inspirar a inovação no ensino, não somente em termos tecnológicos, mas

também pedagógicos. Nesse sentido, repensar as abordagens de ensino se reflete em envolver

os alunos em seu processo de aprendizagem. Ao interagirem na plataforma digital ao mesmo

tempo em que discutem tarefas a serem desempenhadas no mundo real, os alunos são levados

a enxergar o processo e a entender o que é esperado deles, identificando sentido nas

atividades que estão desempenhando. Para isso, é preciso que os professores planejem

integrar as atividades nos espaços físicos da escola com as ocorridas nos ambientes virtuais:

O que as tecnologias em rede nos permitem é não só trazer o bairro e a cidade, mas

também o mundo inteiro, em tempo real, com suas múltiplas ideias, pessoas e

acontecimentos numa troca intensa, rica e ininterrupta [...] Trabalhar com modelos

flexíveis com desafios, com projetos reais, com jogos e com informação

contextualizada, equilibrando colaboração com a personalização é o caminho mais

significativo hoje, mas pode ser planejado e desenvolvido de várias formas e em

contextos diferentes. (MORAN, 2015, p.25)

É fundamental considerar que o uso da tecnologia requer uma clara intenção

pedagógica do professor a fim de que a aprendizagem seja significativa. Isso porque será o

planejamento de aulas do docente que estruturará o processo de blended learning desdobrado

em uma didática que buscará conhecimentos prévios para contextualizar o aprendizado e

provocar a reflexão. Vale enfatizar que, mesmo que os alunos gostem de novidades

tecnológicas, o uso dos ambientes digitais sem o fomento do professor é insuficiente. Isso

porque o material educativo, por mais adequado, plausível e interessante que seja, precisa ser

trabalhado pelo docente para criar um contexto favorável à retenção dos aprendizados:

Aprendizagem significativa basicamente implica a aquisição de novos significados a

partir do material educativo apresentado. Isso requer tanto um ambiente de

aprendizados significativos quanto a apresentação de um material potencialmente

significativo para o aprendiz […] Aprendizagem significativa não é sinônimo de

aprendizagem com material significativo. Primeiro, o material educativo é somente

potencialmente significativo. Segundo, um ambiente de aprendizados significativos

deve estar presente. (AUSUBEL, 2000, p.1 – tradução nossa)

Materiais educativos atrativos, como um REA ou outro recurso digital podem vir a ser,

são suportes importantes; no entanto, é requerido um contexto significativo para que haja

ancoragem e retenção de novos significados. Dentro dessa premissa, voltamos a destacar que

o responsável pela criação de um ambiente de aprendizado frutífero em sala de aula é o

professor, que irá definir a sequência de atividades, tanto presenciais como virtuais. O fio

condutor do processo de aprendizagem é articulado pelo professor, que poderá se utilizar dos

recursos digitais para ensinar os alunos a pesquisarem, debaterem e aprenderem. Dessa forma,

o plano pedagógico põe a tecnologia a serviço da educação, conforme destaca Antonio

Moreira:

Como já temos vindo a afirmar, as tecnologias digitais, audiovisuais e multimedia

vieram revolucionar a nossa vida. Fugir desta realidade e ignorar o fascínio que os

nossos estudantes sentem pelos ambientes digitais e virtuais é uma atitude a evitar,

por isso é fundamental arranjar estratégias para colocar as tecnologias a serviço da

educação, criando, assim, oportunidades para que o processo pedagógico se torne

mais atrativo e promotor do desenvolvimento das competências enunciadas,

necessárias para enfrentar os desafios emergentes, como o pensamento crítico, a

iniciativa e empreendedorismo, a autonomia, ou a comunicação e a colaboração.

(MOREIRA 2018, p.14)

A tecnologia digital funciona como suporte atrativo para o processo de

ensino-aprendizagem e, por isso, o professor precisa se desafiar a conhecer as novidades e a

incorporá-las como recursos em sala de aula. No entanto, é fundamental frisar que a fluência

digital e a adoção de recursos tecnológicos não são o maior desafio, mas sim o planejamento

pedagógico para integrar os ambientes digitais ao plano de ensino. No entendimento de

blended learning que defendemos, a intencionalidade docente é crucial para que o

aprendizado seja efetivo, principalmente para promover a formação integral dos alunos.

Perante cenário bem mais complexo, seria criterioso não supor nos estudantes

habilidades tecnológicas do outro mundo, também porque fluência tecnológica nem

de longe garante capacidade crítica e autocrítica. Essa cautela não pode obscurecer,

contudo, que os estudantes têm o direito de desfrutar na escola e na universidade de

ambientes virtuais de aprendizagem, em grande parte porque serão os ambientes

futuros de trabalho e convivência. Sabemos hoje que tecnologia não é o grande

desafio, já que funciona, tendencialmente, como suporte. Grande desafio é o que

fazer com ela, sobretudo como domesticar as novas tecnologias para que sirvam ao

direito de aprender bem e de produzir conhecimento com devida autonomia e

autoria. (DEMO, 2011, p. 20)

Essa expressão “direito de aprender bem” é emblemática porque desafia o docente a

buscar relevância para as discussões e as atividades que propõe ao mesmo tempo em que se

preocupa com a atratividade desse percurso a ser trilhado pelos alunos. O professor precisa

criar mecanismos de mediação intencional, atuando como o articulador dessa educação de

qualidade, que traz o mundo para a sala de aula por meio do uso de recursos tecnológicos,

mas é sensível à realidade e às experiências prévias dos estudantes, trabalhando com a

finalidade de ampliar sua capacidade crítica.

No documento São Paulo (páginas 49-53)