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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

PRISCILA LENCI BOCCIA

A EXPERIÊNCIA DE PROFESSORES COM UM RECURSO EDUCACIONAL ABERTO SOBRE SUSTENTABILIDADE

São Paulo

2018

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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

PRISCILA LENCI BOCCIA

A EXPERIÊNCIA DE PROFESSORES COM UM RECURSO EDUCACIONAL ABERTO SOBRE SUSTENTABILIDADE

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de mestre em Educação, Arte e História da Cultura.

ORIENTADORA: Profa. Dra. Marili Moreira da Silva Vieira

São Paulo

2018

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Às minhas filhas, Alice e Isabel, que despertaram meu olhar

para a importância de bem educar as gerações futuras e me

inspiram dia após dia a buscar a sustentabilidade do planeta.

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AGRADECIMENTOS

Ao meu companheiro, Denis, por compartilhar sonhos comigo, apoiando e encorajando minhas decisões.

Aos meus pais, Oswaldo e Rute, por tudo que me ensinaram sobre amor, fé e dedicação.

À minha sogra, Celia, por sua atitude compreensiva, me ajudando a cuidar das filhas pequenas para que eu me dedicasse a esta pesquisa.

À minha professora, Marili, por me conduzir nessa trajetória de maneira aprazível, enxergando minhas lacunas com respeito e me apresentando novos conhecimentos com paciência e bondade.

À equipe do Instituto Akatu, especialmente a Denise, pela disposição em levantar todas as informações de que precisei para realizar este trabalho.

Às professoras entrevistadas, que permanecem anônimas na dissertação por questões de metodologia, mas que estão identificadas pessoalmente na minha memória por causa admiração que sinto por cada uma delas.

À minha família, por tanto carinho e incentivo, em especial minha irmã, Camila, por manter-se por perto apesar da distância física.

Às minhas amigas e aos meus amigos queridos, que não estão aqui nomeados um a um, mas sabem o quanto participam da minha vida, em meio a muitos encontros e conversas nessa interessante mistura familiar, profissional e acadêmica que cultivo.

Aos professores, colegas e funcionários do Programa de Pós-Graduação em Educação,

Arte e História da Cultura, pelas incontáveis contribuições para o amadurecimento das minhas

ideias.

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RESUMO

Neste trabalho discutimos um caminho possível entre educação, tecnologias digitais e sustentabilidade no desafio de preparar os jovens para serem cidadãos conscientes e ativos na sociedade complexa em que vivemos. Entendemos que uma educação de qualidade precisa trazer o mundo para a sala de aula, para que a sua complexidade seja discutida à luz das experiências dos estudantes. Nesse sentido, a cibercultura é um aspecto contemporâneo que precisa ser considerado no planejamento do ensino. Esta pesquisa se debruça sobre a contribuição dos recursos educacionais abertos – conhecidos pela sigla REA – no processo de educação ambiental de jovens brasileiros numa perspectiva formadora de cidadania.

Utilizamos, como referencial teórico, autores que discutem o papel da educação, Demo (2009), Moran (2015) e Nóvoa (2017), e também o processo de ensino-aprendizagem, Ausubel (2000), Moreira (2011) e Vigotski (1997). Para refletirmos sobre a cultura, bem como a cibercultura, nos apoiamos em Lemos (2015) e Levy (2003) e, para nos aprofundarmos nas questões da sustentabilidade, mergulhamos em Leff (2015) e Sachs (2009). Para responder nossa questão, a metodologia que utilizamos envolveu ouvirmos os relatos de seis professoras bem-sucedidas na condução de projetos de sustentabilidade que mesclaram atividades presenciais e o uso da plataforma digital Edukatu, um REA desenvolvido no Brasil. Com a finalidade de discutir o uso das tecnologias digitais no processo de ensino-aprendizagem, também analisamos os relatórios pedagógicos nos quais as professoras detalharam o trabalho conduzido com turmas do Ensino Fundamental 1 em escolas públicas da Grande São Paulo e verificamos a intencionalidade pedagógica expressa no planejamento e nos depoimentos das docentes. Os resultados apontam para uma tendência de uso da tecnologia dentro de um plano de ensino voltado para a formação de uma consciência crítica, o que renova as esperanças de que há boas práticas a serem disseminadas para que mais professores possam levar a seus alunos uma educação de qualidade.

Palavras-chave: REA, intencionalidade pedagógica, cibercultura, educação ambiental

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RESUMEN

En este trabajo hemos discutido un posible camino entre educación, tecnologías digitales y sustentabilidad con el desafío de preparar a los jóvenes para que se conviertan en ciudadanos conscientes y activos en la compleja sociedad en que vivimos. Entendemos que una educación de calidad necesita traer el mundo para dentro del aula, para que su complejidad sea discutida a la luz de las experiencias de los estudiantes. En ese sentido, la cibercultura es un aspecto contemporáneo que debe ser considerado en el plan de enseñanza. Esta pesquisa se nutre de la contribución de los recursos educacionales abiertos – conocidos por la sigla REA – en un proceso de educación ambiental de los jóvenes brasileños con una perspectiva formadora de ciudadanía. Utilizamos, como referencial teórico, autores que discuten el papel de la educación, Demo (2009), Moran (2015) y Nóvoa (2017), como también el proceso de enseñanza-aprendizaje, Ausubel (2000), Moreira (2011) y Vigotski (1997). Para que reflexionemos sobre la cultura y también la cibercultura, nos apoyamos en Lemos (2015) e Levy (2003) y, para profundizarnos en las cuestiones de sustentabilidad, buceamos en Leff (2015) y Sachs (2009). Para dar respuesta a nuestra cuestión, hemos utilizado como metodología escuchar los relatos de seis profesoras con éxito al conducir proyectos de sustentabilidad que mezclaron actividades presenciales y el uso de la plataforma digital Edukatu, un REA desarrollado en Brasil. Con la finalidad de discutir el uso de las tecnologías digitales en el proceso de enseñanza-aprendizaje, también hemos evaluado los informes pedagógicos a través de los cuáles las profesoras detallaron el trabajo que condujeron con grupos de alumnos de la Enseñanza Básica en escuelas públicas São Paulo Capital y alrededores, con ello se constató la intencionalidad pedagógica expresa en el plan de enseñanza y en las declaraciones de las docentes. Los resultados indican una tendencia del uso de la tecnología dentro de un plan de enseñanza dedicado a la formación de una consciencia crítica, lo que renueva las esperanzas de que existan buenas prácticas por diseminar para que más profesores puedan llevar a sus alumnos a una educación de calidad.

Palabras-clave: REA, intencionalidad pedagógica, cibercultura, educación ambiental

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ABSTRACT

This study discusses the challenging pathway between Education, new digital technologies, and Sustainability, in order to engage youth as responsible citizens regarding today’s complex society. Our understanding of quality education means bringing the real world to the classroom so students may engage and discuss its complexity as from their own beliefs and experiences. In this sense, the cyberculture is a contemporary resource that needs to be integrated into the curriculum. This research focuses on the contributions provided by the Open Educational Resources (OER) considering an Environmental Education that approaches the Brazilian youth community providing the necessary skills to make them informed and to take responsible action as citizens. As a theoretical referral authors we used Demo (2009), Moran (2015) and Nóvoa (2011) to discuss the role of Education and Ausubel (2000), Moreira (2011) and Vigotski (1997) for the teaching-learning process knowledge. Reflecting about cultural background, as well about cyberculture, we validate in Lemos (2015) and Levy (2003) and, by considering Sustainability, we underline Leff (2015) and Sachs (2009). The methodology was based on listening to recordings of six successful teachers that are managing projects involving Sustainability that blend face-to-face activities and the use of the Edukatu digital platform, an OER developed in Brazil. In order to discuss the use of digital technologies in the teaching-learning process, the pedagogical reports were also analyzed in which the elementary teachers detailed the work planned for the First Grade classrooms in public schools of São Paulo city. The educational intentionality observed in the teacher’s saying, and also in written planning, were both considered. The results point in the direction of using technology with a teaching plan aimed for the development of a critical thinkers, that renew the hopes for the dissemination of good teaching practices so that more educators can provide a quality and meaningful education for their students.

Keywords: Open Educational Resources, intentional teaching, cyberculture, environmental

education.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 Ícones oficiais dos 17 ODS... 29

Figura 2 Resultados da busca por “objetivos do desenvolvimento sustentável” no Pinterest...30

Figura 3 Resultados da busca por “objetivos do desenvolvimento sustentável” no YouTube...31

Figura 4 Página inicial do REA Edukatu...53

Figura 5 Menu dos circuitos do REA Edukatu...54

Figura 6 Logomarca do desafio “Turma que Recicla”...61

Figura 7 Acesso ao circuito “Turma que Recicla” no REA Edukatu...62

Figura 8 Exemplo de postagem da professora G no REA Edukatu...68

Figura 9 Exemplos de comentários sobre a compostagem...69

Figura 10 Exemplo de postagem da professora H no REA Edukatu...71

Figura 11 Exemplo de história em quadrinhos feita por aluno da professora H...72

Figura 12 Exemplo de postagem da professora I no REA Edukatu...74

Figura 13 Exemplo de postagem da professora J no REA Edukatu...76

Figura 14 Exemplos de comentários sobre a horta...77

Figura 15 Exemplo de história em quadrinhos feita por aluno da professora K...79

Figura 16 Exemplo de postagem feita da professora K no REA Edukatu...80

Figura 17 Cartaz com o significado dos 4Rs feito pela professora L com sua turma...81

Figura 18 Produtos criados pela turma da professora L...82

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 Redações oficiais dos 17 ODS em português...28

Tabela 2 Quantidade de usuários do REA Edukatu...54

Tabela 3 Distribuição de escolas por Estado...55

Tabela 4 Análise das temáticas dos ODS abordadas no REA Edukatu...57

Tabela 5 Resultados gerais do desafio “Turma que Recicla”...63

Tabela 6 Depoimentos sobre o planejamento para uso do REA Edukatu...84

Tabela 7 Depoimentos sobre a sequência de atividades pedagógicas...85

Tabela 8 Depoimentos sobre autoria incentivada pelo ambiente digital...86

Tabela 9 Depoimentos sobre educação ambiental formadora de cidadania...87

Tabela 10 Depoimentos sobre a entrada da cibercultura na escola...88

Tabela 11 Depoimentos sobre a formação de professores...89

Tabela 12 Depoimentos sobre as expectativas com a tecnologia...90

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LISTA DE ABREVIATURAS

ARPANET Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos

EA Educação Ambiental

ECO92 Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável realizada em 1992

iNDC Pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas

Educacionais Anísio Teixeira

ODS Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

OER Sigla da expressão em inglês Open Educational Resources ONU Organização das Nações Unidas

OSCIP Organização da Sociedade Civil de Interesse Público REA Recurso Educacional Aberto

RIO+20 Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável realizada em 2012

TIC Tecnologias de Informação e Comunicação

UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

4 Rs Sigla conceito da proposta de repensar, reduzir, reutilizar e reciclar

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...14

1. A SUSTENTABILIDADE COMO DESAFIO DA EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI 1.1 Mentalidade ambiental nos tempos atuais...26

1.2 A educação ambiental no Brasil...33

1.3 A formação do aluno na sociedade contemporânea...38

1.4 Recursos Educacionais Abertos (REA) e aprendizagem...49

2. DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA...53

2.1 Avaliação do conteúdo disponível no REA Edukatu...56

2.3 Projetos de destaque no circuito “Turma que Recicla”...61

3. A EXPERIÊNCIA DOS PROFESSORES COM O REA EDUKATU...65

3.1 Detalhamento e análise dos projetos conduzidos pelas entrevistadas... 66

3.1.1 Projeto Sustentabilidade no mundo: consumo consciente...66

3.1.2 Projeto Preservação das Águas...70

3.1.3 Projeto Nosso lixo de cada dia...73

3.1.4 Projeto Respeito mútuo: ações que fazem bem para todos...75

3.1.5 Projeto Criança se diverte sem gastar e ajuda o meio ambiente...78

3.1.6 Projeto 4 R’s para reciclar o planeta...81

3.2 Análise e discussão dos depoimentos das entrevistadas...83

CONSIDERAÇÕES...92

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...94

ANEXOS...98

(14)

INTRODUÇÃO

A sociedade atual tem vivenciado o início de um novo milênio. As rupturas para com

o modo de vida tradicional são muitas, embora haja permanências presentes, certas vezes de

maneira remodelada. Nesse contexto, vislumbrar como será o futuro é tarefa incerta, na

medida em que o ser humano está diante de novos paradigmas. Quando refletimos sobre o

propósito da escola em pleno século XXI, desenha-se o imenso desafio de preparar os jovens

para serem cidadãos conscientes e ativos na sociedade globalizada e complexa em que

vivemos. Essa nova abordagem visa promover oportunidades de aprendizagem para uma

educação equitativa e de qualidade a crianças, jovens e adultos. Nesse sentido, a Organização

das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) está atuando na

estruturação da agenda de educação pós-2015 com base nos princípios de acesso, equidade e

qualidade na perspectiva de aprendizagem ao longo da vida para todos. O Fórum Mundial de

Educação 2015, realizado em 2015 na Coreia do Sul, estabeleceu uma nova visão para a

educação para os próximos 15 anos. Nesse encontro, mais de 1.600 participantes de 160

países, incluindo ministros, chefes e membros de delegações, líderes de agências e

funcionários de organizações multilaterais e bilaterais, além de representantes da sociedade

civil, da profissão docente, do movimento jovem e do setor privado discutiram o futuro da

educação e adotaram a Declaração de Incheon e Marco de Ação para a Educação 2030, que

visa fortalecer a cooperação internacional entre o mundo da educação, fomentando ações

ousadas, inovadoras e sustentáveis para garantir que a educação efetivamente transforme

vidas em todo o mundo. A fim de apoiar o debate, a UNESCO convidou especialistas para

revisarem dois relatórios que são marcos na educação – o relatório Delors ("Educação: um

tesouro a descobrir", 1996) e o relatório Faure ("Aprender a ser", 1972) –, uma vez que

considera a relevância desses documentos no contexto atual. Dentro desse processo de revisão

dos objetivos estabelecidos para a formação das futuras gerações, em 2010, no Brasil,

aconteceu a Conferência Internacional sobre os Sete Saberes necessários à Educação do

Presente, promovida pela UNESCO para discutir e ratificar o compromisso com os Sete

Saberes propostos no documento “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, escrito

por Edgar Morin na virada do milênio. À época, o pensador ponderou que, como humanidade,

precisamos de um pensamento complexo, ecologizado, capaz de relacionar, contextualizar e

religar diferentes saberes ou dimensões da vida. Para tanto, destacou a urgência de nós, seres

humanos, nos enxergarmos como uma comunidade de destino planetário, na qual a

consciência comum e a solidariedade são essenciais. Ao detalhar os saberes necessários, o

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autor criticou as cegueiras do conhecimento, suas limitações e ilusões e a necessidade de abandonar a fragmentação buscando pertinência em conhecimentos integradores, lançando mão de métodos que permitam identificar relações e influências entre as partes e o todo em um mundo complexo. Nesse sentido, é fundamental ensinar sobre a condição humana e a identidade terrena, apresentar as incertezas do mundo em que vivemos e ensinar a compreensão mútua. A sustentabilidade do planeta e a vida humana dependem de uma educação de jovens que semeie a solidariedade planetária:

A Humanidade deixou de constituir uma noção apenas biológica e deve ser, ao mesmo tempo, plenamente reconhecida em sua inclusão indissociável na biosfera; a Humanidade deixou de constituir uma noção sem raízes: está enraizada em uma

“Pátria”, a Terra, e a Terra é uma Pátria em perigo. A Humanidade deixou de constituir uma noção abstrata: é realidade vital, pois está, doravante, pela primeira vez, ameaçada de morte; a Humanidade deixou de constituir uma noção somente ideal, tornou-se uma comunidade de destino, e somente a consciência desta comunidade pode conduzi-la a uma comunidade de vida; a Humanidade é, daqui em diante, sobretudo, uma noção ética: é o que deve ser realizado por todos e em cada um. (MORIN, 2000, p. 114)

A consciência de que somos uma espécie entre tantas outras e, ao mesmo tempo, indivíduos singulares que convivem em sociedade levaria a um entendimento da nossa cidadania terrena, do qual decorreria responsabilidade com o respeito aos direitos humanos e a preservação da natureza. Morin (2000, p.14) bem definiu em uma frase o tamanho desse desafio para os educadores: “Trata-se de armar cada mente no combate vital rumo à lucidez”.

Apenas diante de saberes mais integradores será possível ao ser humano passar a adquirir uma noção de ética para que a humanidade deixe de ser um conceito abstrato e a solidariedade planetária ganhe contornos de uma questão de vida real.

Diante da complexidade do mundo contemporâneo, entre os educadores há uma grande preocupação com o triângulo da vida expresso a partir das relações indivíduo/sociedade/natureza, reconhecendo que o ser humano, individual e coletivamente, está ligado à natureza e também a importância de se estar aberto à realidade socioambiental da comunidade escolar, bem como de todo o planeta. É preciso ensinar o aluno a cuidar tanto de sua ecologia interior – mente/corpo/espírito –, como também de sua ecologia exterior – em geral, as relações com a natureza e a sociedade. A formação de professores precisa acompanhar a evolução científica e tecnológica pelo qual a sociedade contemporânea está passando:

Por um lado, um professor precisa de ter um conhecimento mais orgânico,

historicizado, contextualizado e compreensivo da disciplina que vai ensinar do que o

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especialista dessa mesma disciplina. Não se trata, pois, de formar um matemático que, depois, se formará como professor. Trata-se, isso sim, deformar um professor que, para ser capaz de ensinar Matemática, precisa de um conhecimento profundo da matéria, mas um conhecimento diferente daquele que necessita um especialista. Por outro lado, a formação de professores não pode deixar de acompanhar a evolução da ciência e das suas modalidades de convergência. Em tempos do digital, a visão enciclopédica das disciplinas vem sendo naturalmente substituída por formas mais exigentes e problematizadoras de aquisição do conhecimento. (NÓVOA, 2017, p.15) Há que se considerar as profundas mudanças que a globalização e o advento da internet vêm provocando nas culturas. A reflexão que propomos é a de que a educação de qualidade precisa trazer o mundo para a sala de aula, a fim de que a sua complexidade seja discutida à luz das experiências dos estudantes, e que, dentro dessa missão, o uso de recursos tecnológicos é desejável, mas não suficiente em si mesmo. A fim de afastar a discussão dos polos extremos, evitando debater a contribuição dos recursos digitais no processo de aprendizagem com ceticismo exacerbado ou esperança profunda, discutimos neste trabalho a efetiva contribuição de um recurso educacional aberto (REA) no processo de educação socioambiental. Para tal, ouvimos docentes do Ensino Fundamental que adotaram o referido REA em sala de aula e ponderaram sobre benefícios e limitações do seu uso para trabalhar uma educação ambiental formadora de cidadania. A relevância da pesquisa conduzida se explicita na urgência da formação da consciência ambiental das atuais gerações, uma vez que somente a compreensão dessa questão associada a medidas de mobilização poderá corrigir a rota atual para um caminho sustentável. Ao mesmo tempo, consideramos que, com a popularização da internet, a sociedade também mudou em termos comunicacionais, pois está cada vez mais conectada, lançando mão de recursos digitais e atuando em rede. A internet possibilita a conexão, gerando interações em tempo real nunca antes imaginadas e com novidades constantes, ao mesmo tempo em que corrompe as barreiras de tempo e espaço:

A mistura de tempos na mídia dentro de um mesmo canal de comunicação, à escolha do espectador/interagente, cria uma colagem temporal em que não apenas se misturam gêneros, mas seus tempos tornam-se síncronos em um horizonte aberto sem começo, nem fim, nem sequência. A intemporalidade do hipertexto de multimídia é uma característica decisiva de nossa cultura, modelando as mentes e memórias das crianças educadas no novo contexto cultural. (CASTELLS, 1999, p.

554)

Mediante tais aspectos de atemporalidade e aterritorialidade da rede, é fato que a

cibercultura se reflete na forma como os jovens interagem com o conhecimento. Esse aspecto

se configura como uma oportunidade para tratar a questão ambiental numa mescla de

atividades em ambientes virtual e presencial, dentro de um plano intencionalmente elaborado

pelo docente.

(17)

Justificativa de pesquisa

A educação socioambiental

1

é tema interdisciplinar de relevância na contemporaneidade. A crise do meio ambiente vem chamando a atenção das pessoas para a questão da natureza e da finitude dos recursos. Muito além de ser uma preocupação focada em questões da natureza, a consciência ambiental é uma mentalidade a ser assimilada pela sociedade contemporânea, que precisa compreender a inviabilidade do sistema em vigor, conforme destaca Capra ao falar de um novo paradigma:

O paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por várias centenas de anos, durante as quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o restante do mundo. Esse paradigma consiste em várias ideias e valores entrincheirados, entre os quais a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares, a visão do corpo humano como uma máquina, a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a crença no progresso material ilimitado, a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico. (CAPRA, 1997, p. 25) A fim de buscarmos a sustentabilidade do planeta é necessária uma profunda mudança de percepção das pessoas a respeito da racionalidade desenvolvimentista. Esse entendimento é relativamente recente, uma vez que as discussões sobre a questão ambiental começaram a se intensificar nos anos 1960 e essas reflexões começaram a se expandir na década seguinte após a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972. No Brasil, elementos do debate ambiental começaram a ser introduzidos em sala de aula na década de 80 e somente em 1999 foi aprovada a Lei n° 9.795, que dispõe sobre a Política Nacional de Educação ambiental. Quando nos voltamos para as diretrizes da educação socioambiental, a Política Nacional de Educação ambiental aponta como linha de ação proporcionar meios interativos e democráticos para que a sociedade possa produzir conteúdos e disseminar conhecimentos, através da comunicação ambiental voltada para a sustentabilidade. A ideia é que a colaboração em rede tem potencial para levar os indivíduos a obterem não somente novos conhecimentos, mas também conseguirem derivar atitudes alinhadas aos princípios da sustentabilidade. A comunicação digital seria uma modalidade complementar do processo educativo que permitiria aos indivíduos construírem e fortalecerem suas ideias em uma coletividade. Sendo assim, teorizamos sobre como a

1

Neste trabalho assumimos que a educação ambiental é intrinsecamente uma educação social e, portanto,

tratamos as expressões educação ambiental e educação socioambiental como equivalentes.

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tecnologia digital, tão presente na sociedade atual mas que ainda se configura como um desafio para o professor, pode ser empregada em temática como a ambiental, que requer uma proposta pedagógica atrativa e elaborada a fim de gerar reflexão, novas atitudes e práticas.

Diante dessas questões, propomos discutir o uso de um recurso educacional aberto (REA) sobre sustentabilidade dentro da estratégia docente no processo de educação socioambiental. Afinal, os alunos da atualidade são nativos digitais

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que deram seus primeiros passos quando começou a emergir uma nova consciência ambiental. O tema desta pesquisa vai ao encontro do perfil interdisciplinar do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura e se adequa ao seu olhar voltado para questões contemporâneas da educação. A linha de pesquisa em “Formação do Educador para a Interdisciplinaridade”

investiga processos de ensino e aprendizagem a partir de dimensões cognitivas, técnicas, políticas, histórico-culturais e artísticas, tendo como eixo questões apresentadas pela tecnologia e contemporaneidade, aspectos que envolvem também a discussão sobre o uso de recursos educacionais abertos. O problema de pesquisa se debruça sobre a estratégia docente no processo de educação ambiental, especificamente utilizando um REA sobre sustentabilidade em sala de aula. Buscamos identificar se o REA integra uma estratégia docente intencional, se as práticas pedagógicas em educação ambiental visam à formação integral dos alunos e, ainda, como ampliar o uso de ferramentas digitais atrelado a um plano de ensino.

Objeto de pesquisa

Neste trabalho discutimos a estratégia docente no processo de educação ambiental, especificamente utilizando um recurso educacional aberto (REA) em sala de aula. Portanto, nosso foco são os relatos de professores bem-sucedidos na experiência de trabalhar com alunos do Ensino Fundamental 1 usando a plataforma Edukatu, disponível em www.edukatu.org.br, um recurso educacional aberto (REA) destinado ao ensino de conceitos de sustentabilidade. O Edukatu é uma iniciativa brasileira que visa fomentar a educação ambiental no país por meio de uma plataforma digital de livre uso para professores e estudantes. Essa rede de aprendizagem foi concebida após a Conferência RIO+20, realizada no Brasil em 2012, quando a divulgação do documento “O futuro que queremos” reforçou a urgência da educação para a sustentabilidade. Desenvolvida por especialistas em educação,

2

Termo cunhado por Marc Prensky a fim de identificar a fluência em tecnologia conforme a geração.

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sustentabilidade, comunicação e cultura digital, a plataforma está disponível desde 2013 no formato REA. Com a proposta central de incentivar a troca de conhecimentos e práticas sobre consumo consciente entre professores e alunos do Ensino Fundamental, o Edukatu já foi utilizado por mais de 3300 escolas em todo o Brasil. A proposta da plataforma é romper com a perspectiva disciplinar e permitir que o docente planeje suas aulas tendo em mente a aprendizagem dos conteúdos segundo a sua tipologia, isto é, consiga promover atividades que tratem de aspectos conceituais, procedimentais, valorativos e atitudinais. Por meio dos circuitos de aprendizagem e de outras ferramentas interativas, o Edukatu funciona como uma ferramenta complementar para o educador, que é convidado a adaptar a sequência de trilhas de acordo com seu plano de ensino, atuando como um moderador da plataforma no ambiente digital. O aluno, por sua vez, participa dessa navegação guiada. Justamente por não ter foco restrito em uma disciplina, a plataforma tem sido usada por docentes com diferentes propostas e em aulas variadas: não somente professores de biologia, mas também de informática, geografia e até mesmo educação física. Desde 2013, ano do lançamento da plataforma, mais de vinte e oito mil alunos já acessaram o REA Edukatu pelas mãos de mais de sete mil professores. Ao ouvir os relatos dos professores que utilizaram o Edukatu em sala de aula, buscamos identificar se e como foi cumprida a proposta da plataforma de ser um recurso complementar intencionalmente utilizado dentro de um contexto no processo de ensino- aprendizagem dos alunos do Ensino Fundamental 1.

Objetivos de pesquisa

O título desta pesquisa é “A experiência de professores com um recurso educacional aberto sobre sustentabilidade” e seu objetivo foi ouvir a experiência bem-sucedida de docentes com um recurso educacional aberto sobre sustentabilidade, o REA Edukatu. A partir dos relatos das entrevistadas, identificamos que o REA foi utilizado intencionalmente dentro de um contexto no processo de educação ambiental de jovens do Ensino Fundamental 1, desvelando como as professoras planejaram o processo de ensino-aprendizagem com o uso de uma ferramenta digital.

O objetivo central da pesquisa foi avaliar se e como o REA integrava uma estratégia

docente intencional que visava sistematizar conhecimentos no processo de educação

ambiental de alunos do Ensino Fundamental 1. Entre os objetivos secundários, buscamos

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verificar se as práticas pedagógicas em educação ambiental usadas por esses docentes visavam à formação integral dos alunos e identificar oportunidades na formação de professores que venham a ampliar o uso de ferramentas digitais atrelado a um plano de ensino.

Sobre a educação do futuro

A Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI , criada às vésperas da virada do milênio pela UNESCO com a finalidade de refletir sobre os desafios do futuro, afirmou sua convicção no papel essencial da educação para o desenvolvimento contínuo das pessoas e das sociedades e destacou quatro pilares da educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Essa visão mais ampla da educação prevê que ela torne o sujeito capaz de desenvolver a compreensão do outro e a percepção das interdependências no mundo. Nas duas últimas décadas, a educação escolar vem buscando promover essa formação integral dos alunos, inspirada nos quatro pilares de aprendizado.

Nessa direção, a prática didática tem sido alimentada por teorias de planejamento e execução, de maneira a olhar o aluno de forma holística, e não apenas com uma abordagem de ensino fragmentada, baseada em conteúdos divididos em disciplinas isoladas, como geografia e biologia, por exemplo. Assim, o foco tem sido a identificação de fatos e conceitos, habilidades e atitudes que os alunos precisam desenvolver a fim de se constituírem cidadãos.

Destacamos, portanto, o pilar Aprender a conviver por causa da importância de cada indivíduo na sociedade compreender as interdependências do ser humano com a natureza, e também entre seus pares, respeitando a diversidade de culturas.

Em 2015, inspirada por essa visão humanista, a UNESCO estabeleceu o Marco de

Ação da Educação 2030, dentro do entendimento de que um aspecto importante do direito à

educação é garantir que a educação tenha qualidade suficiente para gerar resultados de

aprendizagem relevantes, equitativos e eficientes em todos os níveis e contextos. Baseada em

valores como a dignidade humana, a inclusão social e a diversidade cultural, essa agenda

universal de educação para o período de 2015 a 2030 integra explicitamente os Objetivos do

Desenvolvimento Sustentável (ODS), sendo representada no ODS 4 – Educação de Qualidade

da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável: “Assegurar a educação inclusiva e

equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para

todos”. O marco estabelece que uma educação de qualidade requer, no mínimo, que os alunos

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desenvolvam habilidades básicas em leitura, escrita e matemática como fundamento para a aprendizagem futura, bem como para habilidades mais complexas. Também explicita que essas demandas requerem métodos e conteúdos relevantes de ensino e aprendizagem, que atendam às necessidades de todos os alunos, com professores bem qualificados, treinados, motivados e bem pagos, que usem abordagens pedagógicas adequadas e apoiem-se em tecnologias da informação e comunicação (TIC) apropriadas.

Esses aspectos visados na formação integral do aluno dos tempos atuais dialogam com a educação socioambiental formadora de cidadania que almejamos e discutimos neste trabalho. Isso porque o ideal de solidariedade planetária envolve abandonar uma visão extremamente antropocêntrica, buscando inclusive uma convivência harmônica com os demais seres vivos. Em sua interpretação das transformações históricas do final do século XX, Castells destacou a o contexto em que vivemos atualmente:

Entramos em um mundo realmente multicultural e interdependente, que só poderá ser entendido e transformado a partir de uma perspectiva múltipla que reúna identidade cultural, sistemas de redes globais e políticas multidimensionais.

(CASTELLS, 1999, p.62)

A complexidade do mundo em que vivemos e, mais especificamente, da questão ambiental que enfrentamos, demanda uma abordagem interdisciplinar que vise abrir os olhos da juventude para o entendimento sobre a degradação da natureza e a injustiça social intergeracional causadas pelo sistema atual. O desafio é imenso, uma vez que envolve mudança de mentalidade:

O caminho para uma sociedade sustentável se fortalece na medida em que se desenvolvam práticas educativas que, pautadas pelo paradigma da complexidade, aportem para a escola e os ambientes pedagógicos uma atitude reflexiva em torno da problemática ambiental, e os efeitos gerados por uma sociedade cada vez mais pragmática e utilitarista, visando traduzir o conceito de ambiente e o pensamento da complexidade na formação de novas mentalidades, conhecimentos e comportamentos. (JACOBI, 2006, p. 528)

Tendo como alvo as competências necessárias para enfrentar os desafios emergentes,

refletimos sobre a pertinência de buscar conhecimentos integradores, de incentivar os jovens a

identificarem relações e influências entre as partes e o todo, visando ao entendimento da

complexidade do mundo. Diante do desafio que o professor tem na formação integral do

aluno e, especificamente, para ser bem-sucedido numa abordagem de educação ambiental que

leve à reflexão, considerando que, para isso, os alunos precisam ter conhecimentos prévios

para compreender todo o panorama da questão, fica claro que a proposta pedagógica requer

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intencionalidade clara a fim de gerar novas atitudes e práticas. O professor deve estar consciente dos caminhos tomados em seu plano de ensino, uma vez que a estratégia precisa ser genuína e atrativa, isto é, tratar de questões pertinentes para o jovem ao mesmo tempo em que é interessante e inusitada. Tanto as discussões como as táticas precisam considerar a realidade do aluno. Nesse sentido, destacamos que a atual geração

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de alunos do ambiente escolar é de nativos digitais que deram seus primeiros passos quando começou a emergir uma nova consciência ambiental. Portanto, há uma necessidade de ampliação dos espaços e dos saberes; a escola precisa se expandir porque a ubiquidade

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da conexão altera a dinâmica das aprendizagens. A ideia é que, tendo em vista uma cibercultura que modificou as noções de tempo e espaço, inclusive na escola, nos espaços híbridos há novas possibilidades de rotas que convergem para o aprendizado:

O uso de espaços virtuais criados como espaço expandido da escola possibilita a ampliação dos processos educativos tendo como referência o tempo e espaço expandido e flexível. Podemos atribuir à escola sua característica ubíqua e, com isso, trazer novos sentidos e significados para a produção de conhecimentos e aprendizagem por meio do conceito de rede. (HARDAGH, 2017, p. 5)

Ao mesmo tempo em que testemunhamos a crescente inserção da sociedade numa cultura digital e tecnológica, destacamos o desafio de promover a educação ambiental dos jovens da atualidade. Tendo em vista que vivemos em meio a uma crise de civilização cujo principal reflexo é a insustentabilidade do planeta, a humanidade precisa se tornar capaz de refletir sobre o seu próprio futuro. Destacamos o aspecto historiográfico dessa questão educacional apontado por Enrique Leff, sociólogo ambientalista mexicano que enfatiza a necessidade de mudança de mentalidade por meio da educação:

A problemática ambiental, como sintoma da crise de civilização da modernidade, coloca a necessidade de criar uma consciência a respeito de suas causas e suas vias de resolução. Isto passa por um processo educativo que vai desde a formulação de novas cosmovisões e imaginários coletivos, até a formação de novas capacidades técnicas e profissionais; desde a reorientação dos valores que guiam o comportamento dos humanos para a natureza, até a elaboração de novas teorias sobre as relações ambientais de produção e reprodução social, e a construção de novas formas de desenvolvimento. (LEFF, 2015, p. 254)

3

Os alunos do Ensino Fundamental hoje são majoritariamente representantes da Geração Z, também chamada de

iGeneration, pessoas nascidas entre 1995 e 2010, período em que a internet passou a alterar de maneira massiva

as formas de comunicação e os comportamentos em sociedade. Ainda estão se iniciando os estudos sobre o comportamento da Geração Alpha, que compreende os nascidos após 2010, crianças que hoje vivem num mundo ainda mais mergulhado em tecnologias digitais.

4

Ubiquidade é sinônimo de onipresença e, no caso da conexão à internet, define a possibilidade de acesso de

qualquer lugar.

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A transformação da consciência ambiental é um dos grandes desafios da atualidade, uma vez que requer das pessoas não somente a retenção dos conceitos de sustentabilidade e consciência ecológica, mas também o encorajamento para mudança de comportamento. É preciso inculcar conceitos de cidadania na juventude atual e a educação ambiental faz parte desse processo social de formação integral do aluno. Para dar conta desse desafio, é fato que precisamos inovar na abordagem. A discussão sobre o uso das tecnologias digitais em educação ambiental começou a vir à tona na última década, quando se intensificaram os estudos sobre ciência, tecnologia e sociedade envolvendo questões contemporâneas como desenvolvimento sustentável e cibercultura. Numa análise superficial, natureza e tecnologia seriam antagônicas: uma pressupõe o natural; a outra, o artificial; a primeira é concreta; a segunda, virtual. No entanto, essa aparente dicotomia se desfaz quando olhamos para a natureza com o prisma da tecnologia ou, ao contrário, visualizamos a dimensão ambiental da ciência e tecnologia. Ambas são substantivos que mutuamente se impactam, tanto negativa como positivamente. A formação da consciência ecológica requer uma mudança de mentalidade que atravesse gerações, e que se viabilizará por meio de um processo comunicacional com via de duas mãos. Parte relevante desse processo se dará de maneira colaborativa, em rede, numa construção coletiva tão típica da internet. É nesse ponto de convergência que se situa o foco desta pesquisa, pois estamos discutindo que a educação de qualidade precisa trazer o mundo para a sala de aula e, dentro dessa missão, o uso de recursos tecnológicos é profícuo quando atrelado a uma intencionalidade docente.

Ao abordar o papel das tecnologias da informação na construção das culturas e inteligência dos grupos em seu livro “As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na Era da Informática”, Pierre Levy defende que a inserção de novas técnicas é um dos principais agentes de transformação das sociedades atuais, uma vez que as mudanças tecnológicas alteram a nossa forma de conhecer o mundo:

Os coletivos cosmopolitas compostos de indivíduos, instituições e técnicas não são somente meios ou ambientes para o pensamento, mas sim seus verdadeiros sujeitos.

Dado isto, a história das tecnologias intelectuais condiciona (sem no entanto determiná-la) a do pensamento. (LEVY, 1993, p. 19)

Essa ecologia interativa e complexa tem sido alvo de estudiosos da cibercultura. No

Brasil, ocorreu, em dezembro de 2017, o décimo Simpósio Nacional da Associação Brasileira

de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber), cujo debate circundou as questões de

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Conectividade, Hibridação e Ecologia das Redes Digitais. Uma multiplicidade de eixos temáticos discutiu educação à distância e online, métodos e processos de ensino- aprendizagem em redes, games e processos de aprendizagem em contextos digitais e realidades aumentadas, como exemplo de aspectos vinculados a tendências em educação.

Mais que isso, figuraram também temas bastante atrelados a questões ambientais, como net- ativismo, teoria da ação, conflito e participação em redes. Há muito que se debater sobre avanço tecnológico e desenvolvimento sustentável. Neste trabalho, trilhamos esse caminho possível entre educação, tecnologias digitais e sustentabilidade e, para tal, analisamos, a partir dos relatos dos professores, o uso de um recurso educacional aberto (REA) na educação socioambiental de jovens brasileiros. Nosso objetivo foi compreender se e como os professores aliavam atividades presenciais e virtuais e, diante disso, quais os benefícios e as limitações para o processo de ensino-aprendizagem.

Tendo em vista que o sucesso de iniciativas inovadoras em educação ambiental é fundamental para que as gerações futuras conheçam os princípios de sustentabilidade e os apliquem com a finalidade de preservar o planeta, defendemos a importância da intencionalidade docente no processo de formação da consciência ambiental com o uso dos recursos educacionais abertos. Isto é, o professor precisa ter clareza de seus objetivos ao escolher os caminhos pelos quais enveredará com a turma, inclusive em ambiente digital. A intenção pedagógica se faz necessária porque a sociedade precisa formar cidadãos aptos para os desafios vindouros e, nesse sentido, a educação é ponto fundamental para os desdobramentos históricos da humanidade, conforme pondera Antonio Nóvoa:

Será que pertence à escola um papel primordial na tarefa de pensar o futuro?

Provavelmente, sim. Para os professores o desafio é enorme. Eles constituem não só um dos mais numerosos grupos profissionais, mas também um dos mais qualificados do ponto de vista académico. Grande parte do potencial cultural (e mesmo técnico científico) das sociedades contemporâneas está concentrado nas escolas. Não podemos continuar a desprezá-lo e a menorizar as capacidades de desenvolvimento dos professores. O projeto de uma autonomia profissional, exigente e responsável, pode recriar a profissão professor e preparar um novo ciclo na história das escolas e dos seus atores. (NÓVOA, 1999, p.31)

Entendemos que apenas um docente capacitado poderá conduzir um plano de ensino

robusto em educação ambiental com o uso da tecnologia digital a fim de disseminar os

conceitos de sustentabilidade. Isso porque a compreensão da complexidade da temática

depende de um processo reflexivo sobre a própria realidade e a mobilização requerida pela

consciência ambiental só pode acontecer quando há clareza sobre os conceitos que a

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envolvem. Somente uma pessoa capaz de defender suas ideias poderá mobilizar as pessoas a zelarem pela sua própria sobrevivência e a de seus pares:

Professor é sobretudo quem tem voz própria e faz os alunos caminharem no sentido de construírem a sua própria voz. Para isso, o professor é indispensável, ou seja, para contribuir no processo de construção da autonomia dos alunos. Pode parecer contraditório, mas é disto que se trata: o aluno não constrói sua autonomia sozinho, fora da sociedade, mas em família, na escola, na sociedade, no mercado, na trama do relacionamento social. (DEMO, 2002, p. 87)

Diante do exposto, nos debruçamos sobre a experiência de professores com o uso de um

recurso educacional aberto na educação ambiental, discutindo sua contribuição efetiva no

processo de inculcar os princípios de sustentabilidade nas futuras gerações, para que os

assimilem e apliquem com a finalidade de preservar a natureza e a vida humana.

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1. A SUSTENTABILIDADE COMO DESAFIO DA EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI

1.1 Mentalidade ambiental nos tempos atuais

Os primeiros debates apontando uma preocupação ambiental surgiram na década de 1960 a partir de uma problemática vinculada ao crescimento demográfico e à utilização dos recursos naturais. Essas reflexões sobre o desequilíbrio entre crescimento permanente e preservação da natureza culminaram na realização da primeira Conferência da ONU sobre Meio Ambiente Humano, ocorrida em Estocolmo, na Suécia, em 1972. Foi a partir daí que o meio acadêmico despertou para uma mudança na visão de futuro: os cientistas perceberam que havia limites para o crescimento neste planeta. Nos anos que se seguiram, especialistas debateram a dicotomia entre meio ambiente e crescimento econômico, discutiram o conceito de ecodesenvolvimento e entenderam que a questão era complexa e de ordem global, com relevantes desdobramentos regionais. Somente em 1987 foi publicado o Relatório Brundtland com um conceito político de desenvolvimento sustentável que passou a ser disseminado mundialmente: “O desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Os aspectos centrais e as limitações desse conceito foram bastante abordados em 1992, quando o Rio de Janeiro sediou a ECO92, conferência de grande repercussão mundial na qual participaram representantes de 176 países para discutir desenvolvimento e meio ambiente. Foi um marco para que a questão ambiental ganhasse a cobertura da imprensa e começasse a ser debatida na sociedade. Vale mencionar, no entanto, que o pensamento ecológico nasceu com viés bastante ingênuo, atrelado a uma preocupação com a natureza ainda desvinculada de contexto, como em campanhas específicas para evitar a extinção de espécies ameaçadas, por exemplo. O entendimento da complexidade e da urgência da questão ainda se configura um desafio para a sociedade. Em sua obra “Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade complexidade e poder”, Enrique Leff destaca a criticidade da situação:

A crise ambiental é a crise do nosso tempo. Não é uma catástrofe ecológica, mas o

efeito do pensamento com o qual construímos e destruímos o nosso mundo. Esta

crise de civilização se nos apresenta como um limite na ordem do real, que

ressignifica e reorienta o curso da história; limite do crescimento econômico e

populacional; limite dos desequilíbrios ecológicos, das capacidades de sustentação

da vida e da degradação entrópica do planeta; limite da pobreza e da desigualdade

social. A crise ambiental é a crise do pensamento ocidental (LEFF, 2015, p. 416)

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A crise ambiental vai muito além da extinção de espécies e da escassez de recursos. O desequilíbrio provocado pelo avanço do capitalismo acelerou as mudanças climáticas a ponto de se ampliarem a desigualdades sociais já instaladas nos países. Isso porque diversos povos precisaram abandonar seus meios de vida por causa das alterações no comportamento da natureza; outros perderam suas moradias em fenômenos climáticos como inundações e tufões.

O modelo insustentável em vigor ameaça a dignidade humana hoje e a tendência é que essa situação se agrave ainda mais no futuro. A mudança de mentalidade que abandona a racionalidade desenvolvimentista e caminha para um entendimento dos princípios da sustentabilidade vem avançando conforme se sucedem as gerações. O desafio é intergeracional e precisa ser tratado pelas múltiplas ciências:

Necessitamos, portanto, de uma abordagem holística e interdisciplinar, na qual cientistas naturais e sociais trabalhem juntos em favor do alcance de caminhos sábios para o uso e aproveitamento dos recursos da natureza, respeitando a sua diversidade. Conservação e aproveitamento racional da natureza podem e devem andar juntos... O uso produtivo não necessariamente precisa prejudicar o meio ambiente ou destruir a diversidade, se tivermos a consciência de que todas as nossas atividades econômicas estão solidamente fincadas no ambiente natural. (SACHS, 2009, p. 31)

Desde os primórdios da discussão ambiental, o autor defende um ecodesenvolvimento com olhar regional e, inclusive, participou ativamente da ECO 92 fortalecendo essa discussão.

Em seu livro “Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável”, Sachs destaca que a questão ambiental precisa ser reinterpretada com olhar interdisciplinar:

Nosso problema não é retroceder aos modos ancestrais de vida, mas transformar o conhecimento dos povos dos ecossistemas, decodificado e recodificado pelas etnociências, como um ponto de partida para a invenção de uma moderna civilização de biomassa, posicionada em ponto completamente diferente da espiral de conhecimento e do progresso da humanidade. O argumento é que tal civilização conseguirá cancelar a enorme dívida social acumulada com o passar dos anos, ao mesmo tempo que reduzirá a dívida ecológica. (SACHS, 2009, p. 30)

É justamente por se tratar de uma questão intergeracional de solução a médio e longo prazo que a educação dos jovens é de extrema importância. Internalizar os princípios da sustentabilidade nas dimensões econômicas, sociais e ambientais em todas as esferas da sociedade civil, tanto nos acordos globais quanto nas legislações regionais, tanto na iniciativa privada como na atuação dos governos, é essencial para o futuro do planeta.

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a RIO+20,

realizada em 2012 no Rio de Janeiro com a participação de representantes dos 193 Estados-

membros da ONU e também dos mais variados setores da sociedade civil, marcou a

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renovação do compromisso político com o desenvolvimento sustentável, por meio da avaliação do progresso e das lacunas na implementação das decisões adotadas pelas principais cúpulas sobre o assunto e do tratamento de temas novos e emergentes. Foram debatidos os temas economia verde e erradicação da pobreza e a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável. Também foi definida a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas, que foram traduzidas posteriormente em dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em negociações pós RIO+20.

Tabela1 – Redações oficiais dos 17 ODS em português

ODS Descrição

Objetivo 1 Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares Objetivo 2 Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e

promover a agricultura sustentável

Objetivo 3 Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades

Objetivo 4 Assegurar a educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos

Objetivo 5 Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas Objetivo 6 Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e o saneamento

para todos

Objetivo 7 Assegurar a todos o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia

Objetivo 8 Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos

Objetivo 9 Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação

Objetivo 10 Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles

Objetivo 11 Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis

Objetivo 12 Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis

Objetivo 13 Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e os seus impactos

Objetivo 14 Conservar e usar sustentavelmente os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável

Objetivo 15 Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas

terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade Objetivo 16 Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento

sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis

Objetivo 17 Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável

Fonte: Itamaraty

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A redação final dos dezessete ODS foi concluída em agosto de 2015 e, no mês seguinte, os dezessete ODS foram oficialmente adotados na Cúpula das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, mesma ocasião em que os países apresentaram as iNDCs (Pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada) que levariam à assinatura do Acordo de Paris no final de 2015.

Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) visam orientar as políticas nacionais e as atividades de cooperação internacional nos próximos quinze anos, sucedendo e atualizando os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Há um aspecto didático na divulgação mundial dos dezessete ODS, pois sua redação sintética e simplificada visa facilitar a comunicação das prioridades acordadas nas conferências, democratizando o acesso à informação. O detalhamento dos ODS lista 169 metas que envolvem temáticas diversificadas, como erradicação da pobreza, segurança alimentar e agricultura, saúde, educação, igualdade de gênero, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, padrões sustentáveis de produção e de consumo, mudança do clima, cidades sustentáveis, proteção e uso sustentável dos oceanos e dos ecossistemas terrestres, crescimento econômico inclusivo, infraestrutura e industrialização, governança, e meios de implementação. Há grande expectativa sobre a efetividade dessas metas coletivas no planejamento de políticas públicas pelos países que se comprometeram nos acordos promovidos pela ONU.

Figura 1 – Ícones oficiais dos 17 ODS

Fonte: Ministério do Meio Ambiente

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É de enorme importância que a sociedade conheça e valorize os ODS. Essa conscientização dos cidadãos, sobretudo crianças e jovens, é fundamental para a sustentabilidade do planeta, conforme bem resumiu Fritjof Capra em seu livro “Alfabetização Ecológica” ao enfatizar que:

Não é exagero dizer que a sobrevivência da humanidade vai depender da nossa capacidade de aplicar os princípios de sustentabilidade e de criar sistemas de educação por meio dos quais as gerações futuras poderão aprender a planejar sociedades que os respeitem e os aperfeiçoem. (CAPRA, 2006, p. 57)

É nesse ponto que enxergamos que a necessidade de disseminar consciência ambiental se tangencia com a cibercultura, uma vez que a comunicação dos conceitos de sustentabilidade também ocorre em rede. Uma busca simples pela expressão “objetivos do desenvolvimento sustentável” em Português retornou em 2120000 resultados no site de buscas Google no dia 25 de abril de 2018. Na mesma data, a mesma expressão buscada no Facebook, importante rede social da atualidade, encontrou diversas páginas dedicadas ao assunto; e busca idêntica revelou uma quantidade relevante de publicações no Pinterest, rede social conhecida por desenhos esquemáticos que explicam as temáticas mais distintas.

Figura 2 – Resultados da busca por “objetivos do desenvolvimento sustentável” no Pinterest

Fonte: Pinterest

(31)

Na plataforma YouTube, no dia 21 de maio de 2018, foram encontrados mais de onze mil vídeos sobre os objetivos do desenvolvimento sustentável, tanto publicações de páginas oficialmente relacionadas à temática, como o perfil ONU Brasil, como canais de órgãos do governo e de organizações não governamentais vinculadas à causa, prestadoras de serviços em sustentabilidade e até mesmo pessoas físicas interessadas pela questão ambiental.

Figura 3 – Resultados da busca por “objetivos do desenvolvimento sustentável” no YouTube

Fonte: YouTube

Esses resultados de buscas na internet demonstram que o ciberespaço dá lugar não só à disseminação de informações, mas também confere voz aos indivíduos. Nesse sentido, utopicamente, a internet permitiria o emergir de uma ciberdemocracia porque romperia com as barreiras tradicionais e possibilitaria a livre comunicação, ampliando a diversidade de saberes e a múltipla colaboração. Estudiosos com visão idealista sobre o impacto da internet na sociedade apontam que a vida em rede propicia um aprendizado colaborativo, uma inteligência coletiva:

As grandes etapas da evolução cultural correspondem a mutações nos processos de

inteligência coletiva, quase sempre ligados (de uma maneira complexa e como uma

causalidade circular) à mutação na vida da linguagem. De fato, a linguagem é

precisamente o que torna a cultura – isto é, a inteligência coletiva trabalhando

deliberadamente para o seu próprio aperfeiçoamento – possível. Seguindo a linha de

evolução cultural (isto é, da história humana no que ela tem de mais profundo),

descobrimos que algumas das grandes invenções logotécnicas afetaram

profundamente os modos criação, de reprodução e de difusão de formas culturais,

conferindo a cada etapa mais potência à inteligência coletiva. (LEMOS; LEVY,

2010, p. 223)

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A sociedade contemporânea tem construído seu conhecimento em rede, tanto usando a internet como fonte de informação, como se utilizando das conexões que ela estabelece para trocar informações com outras pessoas. A aproximação se dá pelos interesses em comum, mais que pela posição geográfica, o que altera a forma como os grupos se organizam. As pessoas são impelidas a compartilhar os acontecimentos de sua vida e também suas ideias. Os hábitos cultivados na cibercultura vão além da publicação de selfies instantâneas facilitadas pela ubiquidade da conexão, mas também são incentivadas a pesquisa, a autoria, o compartilhamento de conhecimento e as recombinações de conteúdos. Trata-se de uma cooperação em rede na qual as pessoas são ao mesmo tempo emissoras e receptoras de informações, numa explícita desconfiguração das formas tradicionais de comunicação:

A cibercultura tem criado o que se vem chamando de “citizen media”, ou “mídia do cidadão”, onde cada usuário é estimulado a produzir, distribuir e reciclar conteúdos digitais, sejam eles textos literários, protestos políticos, matérias jornalísticas, emissões sonoras, filmes caseiros, fotos ou música. (LEMOS, 2015, p. 7)

O educador Pedro Demo pondera que na contemporaneidade ficou mais evidente que aprender é uma atividade social, pois a sociedade é uma construção tipicamente coletiva e a autoria corrente é cooperativa. Nesse sentido a interação em rede provoca nos indivíduos um processo de elaboração que se desencadeará em autoria própria. Dentro dessa premissa, fato é que os ambientes interativos são campo fértil que podem ser bem usados na educação:

Pesquisa e elaboração evocam autoria, autonomia, capacidade de ter proposta própria, saber descontruir e reconstruir conhecimento, argumentar e contra- argumentar, saber e contraler. Em praticamente todas as atividades facultadas na web 2.0, pesquisar e elaborar são eminentes, naturais. O que mais se busca aí é texto próprio, individual e coletivo. (DEMO, 2009, p. 68)

Pensando na educação ambiental, uma vez que as novas tecnologias alteram os

processos de comunicação e a forma como construímos nossa inteligência coletiva, trazendo

uma nova configuração cultural em que a autoria e o compartilhamento em escala planetária

são possíveis, há espaço para disseminação em rede de uma consciência condizente com os

desafios interdisciplinares que vislumbramos.

(33)

1.2 A educação ambiental no Brasil

A fim de buscarmos a sustentabilidade do planeta é necessária uma profunda mudança de percepção das pessoas a respeito da racionalidade desenvolvimentista. Esse entendimento é relativamente recente, uma vez que as discussões sobre a questão ambiental começaram a se intensificar nos anos 1960 e essas reflexões começaram a se expandir na década seguinte após a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972. A complexidade da questão ambiental demanda uma abordagem interdisciplinar que vá além das ciências biológicas, dialogando com as humanidades e as exatas. Esse entendimento começou a se delinear durante a primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação ambiental, que aconteceu em Tbilisi, na Geórgia, em 1977, cinco anos após a Conferência da ONU em Estocolmo. O conceito definido durante o encontro foi o seguinte:

A educação ambiental é um processo de reconhecimento de valores e clarificações de conceitos, objetivando o desenvolvimento das habilidades e modificando as atitudes em relação ao meio, para entender e apreciar as inter-relações entre os seres humanos, suas culturas e seus meios biofísicos. A educação ambiental também está relacionada com a prática das tomadas de decisões e a ética que conduzem para a melhora da qualidade de vida. (Conferência Intergovernamental de Tbilisi, 1977)

Havia sido dado o pontapé inicial para um processo global orientado para criar as condições para formar uma nova consciência sobre o valor da natureza e para reorientar a produção de conhecimento baseada nos métodos da interdisciplinaridade e nos princípios da complexidade. No Brasil, elementos do debate ambiental começaram a ser introduzidos em sala de aula na década de 80 e, em 1999, foi aprovada a Lei n° 9.795, que dispõe sobre a Política Nacional de Educação ambiental, incluindo-a nos currículos de todas as etapas da Educação Básica e na Educação Superior, tanto em instituições de ensino públicas como privadas, e conceituando-a como educativa integrada, contínua e permanente, não devendo ser constituída disciplina específica no currículo de ensino, exceto nos cursos de pós-graduação.

Sobre a formação inicial de professores, preceitua que “a dimensão ambiental deve constar dos currículos de formação de professores, em todos os níveis e em todas as disciplinas”. O Artigo 1º da Lei nº 9795/1999 explicita o aspecto individual da consciência ambiental em prol do bem coletivo:

Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e

a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e

competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do

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povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. (Política Nacional de Educação ambiental, 1999)

No início dos anos 2000, um grupo de pesquisadores do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) sediada no Rio de Janeiro, comparou os dados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) sobre a oferta da Educação ambiental no nível de Ensino Fundamental nos anos de 2001 e 2004. Infelizmente, ao longo a década seguinte não houve pesquisas do mesmo porte que permitissem uma comparação com a realidade atual mas, no entanto, os dados apresentados na virada do século são relevantes no sentido de que identificam um processo de universalização da Educação ambiental em andamento. Em 2001, o primeiro ano da pesquisa, 61,2% das escolas pesquisadas declararam que trabalhavam a temática no currículo e, em 2004, o percentual saltou para 94%. A ampliação da cobertura nos Estados brasileiros também revelou um processo de universalização da Educação ambiental em andamento: em 2001 a cobertura nos Estados oscilava entre 15,4% (Acre) e 92% (Ceará); três anos depois, em 2004, a cobertura variava de 85,5% (Maranhão) a 99,9% (Ceará). A análise completa desses dados deu origem à publicação “Um retrato da presença da educação ambiental no Ensino Fundamental brasileiro:

o percurso de um processo acelerado de expansão”, que detalhou o cenário educacional à época ao verificar a utilização de três modalidades de aplicação da Educação ambiental:

Projetos, Disciplinas Especiais ou Inserção da Temática Ambiental nas Disciplinas. Em 2001, no Brasil, aproximadamente 94 mil escolas ofereciam Inserção da Temática Ambiental nas Disciplinas, 33,6 mil escolas ofereciam Projetos e apenas 2,9 mil escolas ofereciam Disciplinas Especiais. Em 2004, os números eram 110 mil escolas com Inserção da Temática Ambiental nas Disciplinas, 64,3 mil escolas com Projetos e 5,5 mil escolas com Disciplinas Especiais. O comparativo revelou que a abordagem via Projetos cresceu de 40% em 2001 para 58,4% em 2004, a Inserção da Temática Ambiental nas Disciplinas caiu de 76,7% para 65,8%

no mesmo período e a utilização de Disciplinas Especiais manteve-se baixa (3,2% em 2001 e 4,5% em 2004), embora tenha crescido substancialmente. No entanto, a análise de parâmetros como o saneamento básico na estrutura escolar, a destinação do lixo produzido dentro da escola e a participação em atividades comunitárias revela o tamanho do desafio de aliar discurso e prática em educação ambiental, em especial considerando a realidade brasileira:

quantidade relevante de escolas ainda com esgotamento sanitário precário, alto índice de

escolas que queimando o lixo produzido e baixa atuação comunitária, respectivamente.

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