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Proletariado e representação: conceitos para esclarecer

1. Documental, um conceito precário

1.5 Proletariado e representação: conceitos para esclarecer

É preciso esclarecer melhor o escopo dessa pesquisa no que diz respeito a algumas escolhas conceituais. O objetivo de nosso levantamento é discutir fotografias em que o proletariado é enfocado, entendendo o termo como o conjunto dos indivíduos que formam a força de trabalho (MARX, 1848), em oposição àqueles que detêm a propriedade dos meios de produção como empresas, fábricas, etc. Mesmo que a teorização marxista estabeleça tais definições para explicitar os embates de uma disputa de classes, esclarecemos que aqui a análise não se fará nessa compreensão. O uso do conceito se faz para demarcar a posição de indivíduos entendidos como sujeitos de uma cadeia de produção, como parte de uma “engrenagem” capitalista, pessoas atuando claramente a serviço de terceiros. Essa escolha indica também que os indivíduos retratados pelos fotógrafos que escolhemos são vistos numa chave marcadamente econômica, onde o marco profissional norteia a identificação, a posição social desses sujeitos, ou até impõe limites a eles.

Assim, indicamos a ideia de trabalhador que permeia a construção das fotografias presentes em nosso corpus. A partir da escolha dos fotógrafos, o objetivo é discutir de que forma os trabalhadores entendidos a partir do conceito marxista, são representados nas imagens de cada um, como são elaboradas diferentes visões sobre tais sujeitos. Até que ponto exploram os ambientes de trabalho, a vestimenta de homens e mulheres que indicam suas

atividades, um gestual/ movimento ligado à interação com o maquinário dentro de um contexto industrial/produtivo, a presença de ferramentas típicas das atividades que exercem para identificar esses trabalhadores. Ou se propõem a trazer para suas imagens um universo diferente, que inclui o aspecto privado de suas rotinas, de suas relações afetivas, e inclusive a circulação em espaços fora do ambiente de trabalho. Pois se a temática é comum em diferentes momentos históricos, a forma de abordagem apresenta contornos que variam, e como ocorre essa variação, que trabalhadores e trabalhadoras elas nos apresentam é a questão posta em discussão aqui.

A representação, termo central em nossa pesquisa, sugere uma imagem que está no lugar de algo. E aí é preciso atentar para o caráter de distorção envolvido (presente já no significado da palavra imagem), a inerente construção guiada pelas escolhas e intenções de quem manuseia o aparato, em nível pessoal ou institucional. No que se refere a esse último âmbito, será bastante útil o estudo de Tagg (Ibidem), sobre a representação fotográfica como construção utilizada em contextos específicos, atendendo a fins definidos. De volta aos trabalhadores, estamos diante de fotos que podem mesclar fins artísticos e políticos. Para o autor “nem a experiência nem a realidade podem separar-se das linguagens, das representações, das estruturas psicológicas e das práticas em que estão articuladas e as quais modificam35” (TAGG, Ibidem, p.10), o que implica necessariamente compreender as imagens fotográficas além do imperativo de rastro, marca do real. A representação cumpriria esse papel, visto que se coloca como imagem elaborada, um discurso sobre algo, tomado segundo códigos não exclusivamente estéticos.

Um aspecto interessante dessa reflexão acerca da representação é: na leitura sobre o que guia a produção das fotografias na medicina, na polícia, discute-se que os sujeitos são fotografados a partir de uma posição de observação, um enquadramento restrito e fechado de tal forma, que os indivíduos ficam incapazes de qualquer controle sobre o significado produzido por seus corpos. As regras da comunicação ficam na mão de quem detém o aparato produtor da imagem, cabendo aos homens e mulheres em frente à câmera, um lugar de objeto. No grupo dos representados, Tagg (Ibidem, p.20) elenca suspeitos, criminosos, e inclui também os trabalhadores como sujeitos marginalizados da produção de sentido; para ele, as

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Tradução de: “ni la experiencia ni la realidad pueden separarse de los lenguajes, las representaciones, las estructuras psicológicas y las prácticas en las que se articulan y las cuales pertuban”

fotografias os colocam numa condição de passividade exatamente para autorizar a existência de um discurso institucional que “fale por eles”. O autor faz uma análise bastante pessimista sobre as práticas de documentação institucional na modernidade, que leva a pensar a representação como uma forma de encurralar o retratado. E considerando seu foco de abordagem a assertiva é bastante coerente.

Porém a representação não é somente isso. Não pode ser tomada de maneira geral negativamente. Zunzunegui (2010) propõe entender a representação como substituição (englobando a ideia de semelhança, mas não se restringindo a ela). Ele aponta que pelo menos desde o Renascimento, semelhança e representação estão associadas. É o potencial de parecer- se com a coisa evocada que baliza a aceitação da representação. Porém o ponto-chave da questão não é a semelhança objeto/imagem, mas sim a função de substituição, onde a criação é anterior à comunicação (GOMBRICH apud ZUNZUNEGUI, 2010, p. 58). Ou seja, exatamente por se tratar de algo elaborado a partir de, é que se abre a criação, a possibilidade de alcançar algo além do referente. E esse elaborar é mutável, varia conforme códigos culturais. A fotografia de maneira geral é basicamente isso já que aquilo colocado diante de nós por ela é (grosso modo) um substituto de algo ou de alguém. Ou seja, a fotografia constitui um outro. Isso nos autoriza a falar de representações diferentes para um determinado grupo de indivíduos e buscar essas especificidades.

Também é marcante no trabalho de Tagg a hierarquia entre quem ocupa os lugares diante da câmera e por trás dela. Uma polarização que se pensarmos no campo do documental é provavelmente necessária. A distância entre fotógrafo e motivo é o que parece suscitar o interesse em registrar culturas, vivências, eventos. A capacidade de entender-se diferente do que se enxerga pela lente constitui uma premissa. Ela mobiliza a produção da imagem. Sontag (2004) afirma que fotografar é não intervir, embora possa representar uma participação (no sentido físico). E no documentarismo a distância perpassa a própria condição de existência do assunto enquanto foto, e é curioso que diversos profissionais compreenderem seu trabalho exatamente como uma intervenção na realidade, quando o que de fato está envolvido é um desejo de que as imagens provoquem (em outros) a intervenção, sirvam para atestar a necessidade de intervir, corrigir, mudar. É por isso que o instrumento capaz de criar sentido - a máquina fotográfica - está na maioria das vezes nas mãos de indivíduos

reconhecidos, legitimados para a produção de significado. Essa questão vem à tona, por exemplo, na divisão entre fotografia “de amadores” e “de profissionais” e nas implicações de valoração do material entendido sob tais rubricas. Por essas questões é que o estudo de Tagg se faz necessário e crucial em nossa análise: ele salienta uma distinção (colocada pelo autor em termos de hierarquia) entre fotógrafo e fotografado que é inerente à própria ideia de representação; essa separação também é basilar ao campo documental, onde reconhecer essa diferença desperta no autor o impulso para o registro.

No caso de nossa pesquisa, é preciso demarcar: é no âmbito da representação realizada por fotógrafos profissionais que a análise será desenvolvida, sendo esse um observador mais distanciado, em nada se confundindo com uma fotografia operária, onde há intenções políticas específicas colocando o próprio trabalhador como responsável pela imagem sobre sua realidade.