4 ENTRELAÇANDO COMPREENSÕES DOS ATORES CURRICULARES SOBRE O CURRÍCULO VIGENTE
4.1 PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES, DOCENTES E DIRIGENTES SOBRE O PLANO CURRICULAR VIGENTE.
4.1.1 Propostas de mudanças na perspectiva dos docentes e discentes
Ao apontar os pontos fracos do currículo e do plano curricular, os professores e estudantes foram questionados também sobre quais possíveis mudanças fariam no currículo do curso. A maioria dos professores não fala em retirar ou substituir algum componente curricular, mas falaram na introdução e na reconfiguração de outros componentes; já os estudantes ressaltam componentes que, na percepção deles, são pouco relevantes para o curso de ciências de educação e apontam mais para a maneira como as disciplinas são lecionadas.
É unanimidade entre os docentes e discentes a necessidade de ter outros componentes curriculares como: a língua portuguesa, e línguas estrangeiras (Francês e Inglês). Vejamos algumas declarações:
Acho que deveria ter no nosso curso línguas estrangeiras e também Português, seria necessário que houvesse essas duas cadeiras do nosso curso. (Estudante - E4)
Hoje em dia para o trabalho as pessoas têm de ter línguas como: inglês, Francês; e como nós vamos ser professor eu acho que deveria ser dado português ajudaria muito o nosso curso, em termos de gramática, de tudo, deveria ser dado português para poder complementar as outras disciplinas [...] (Estudante -E7).
Esse curso carece de disciplinas de línguas. Sabendo que nós vamos ser professores e nas aulas muitas pessoas demonstram carências na língua portuguesa e no nosso plano curricular não existe nenhuma disciplina que vai trabalhar diretamente com isso, tanto a língua portuguesa como a inglesa, não existe línguas tanto línguas oficiais como línguas estrangeiras (Estudante - E18).
Eu acho que deveríamos ter algumas disciplinas de reforço, como a língua portuguesa que é a nossa língua oficial, mas não é a nossa língua do dia a dia, e também que eu acho muito importante que é o caso de uma língua estrangeira, como sabes documentos científicos praticamente nunca são escritos numa só língua. No liceu tivemos conhecimento de algumas línguas e não encontramos reforço aqui. (Estudante E25)
Questionados sobre qual/quais componente(s) curricular(es) achavam que deveria(m) sair do PC, os estudantes foram quase unânimes ao apontar a disciplina Estatística, mencionando diversas razões entre as quais: pouca facilidade no domínio do conteúdo, o não gostar da disciplina, porque estava isolada dos conteúdos dos outros componentes curriculares, por não ter nada a ver com ciências da educação, etc. Alguns apontaram a relevância da disciplina, mas assinalaram que, no que concerne ao aspecto didático pedagógico ou a “forma como foi lecionada”, não foi a mais interessante e por isso não tiveram grandes aproveitamentos.
Por exemplo, estatística descritiva, eu acho que nem deveria estar no plano curricular do nosso curso, eu senti pressionada a decorar as coisas para fazer teste e para conseguir safar do exame. Agora se me perguntar alguma coisa nem sei responder. (Estudante E11)
[...] há disciplinas que não têm nada a ver com Ciências da Educação, digo mesmo estatística, a forma como ensinam a estatística para ciências da educação de igual modo como ensinam para os alunos de Ciências e Tecnologia acho que não deveria ser, deveria ser lecionado de forma diferente. (Estudante -E4, grifo meu)
É claro que tem algumas lacunas, por exemplo, Estatística, é uma disciplina pertinente, mas não está muito bem claro, como somos da área humana sentimos certa dificuldade em assimilar o conteúdo de estatística [...] (Estudante E24).
Não é porque eu não acho estatística importante, mas ela só ajuda no aspecto (pesquisa) que a E23 apresentou, mas de outro lado fica isolado dos outros conteúdos que temos aqui no curso. (Estudante E25)
Eu não gosto de estatística é a única disciplina que eu passei com média 11, e que eu devo dar graças a Deus. Discordo, por que, nos como somos formados em ciências de educação podemos ter a necessidade de resolver problemas podemos ter a necessidade de fazer um projeto, uma investigação com algum tema pertinente, daí a importância da estatística na investigação. (Estudante - E21)
Nós temos uma disciplina, estatística e, nós dizemos para quê? Para quê preciso de estatísticas, contas etc. etc. realmente nós precisamos para o nosso conhecimento, às vezes, nós achamos que não precisamos das disciplinas, principalmente eu que não sou lá muito bom em matemática,
mas, isso, de certa forma, acaba por desmotivar as pessoas e, nós temos algumas dificuldades na questão de estatística. Alguns dos nossos colegas estão a ver se conseguem passar na estatística ou não, e isso devido a algumas dificuldades que nós temos, nós não tivemos aulas no primeiro mês, veio um professor, foi substituído, então, isso dificultou e de que maneira os resultados finais, então isso acaba por interferir, ver até que ponto nós precisávamos dessa disciplina em que momento e há o que precisamos e que não tem e há que se ver esses dois lados (Estudante - E17).
Além de estatística, os estudantes citaram outros componentes curriculares que, na percepção deles, deveriam ser retirados do currículo. Vejamos alguns exemplos que aparecem nas falas de cursistas:
Eu excluiria é a educação de adultos, porque acho que nós estamos sendo formados para trabalhar essencialmente com alunos do ensino secundário, acho que deverão ter disciplinas para reforçar as técnicas para trabalhar com alunos do ensino secundário. (Estudante E18, grifo meu)
Eu tiraria antropologia cultural, não tem nada a ver com o curso. (Estudante E10, grifo meu)
Na disciplina história de educação não aprendemos nada e o professor era muito relaxado demais, acho que ele preocupava com o salário e apresentava o currículo que ele tinha, pode-se tirar essa disciplina porque a introdução a ciências da educação já faz referência a isso. Deveríamos ter estudo de caso, mas não I e II somente I. Não sei o nome das disciplinas que vão colocar, por exemplo, temos a área de DPS, vamos trabalhar com FPS, tivemos uma excelente disciplina no semestre passado que foi Educação, saúde e sexualidade, acho que deveríamos ter mais disciplinas que falam sobre coisas que tem a ver com o percurso (Estudante E12, grifo meu).
Percebo pelas justificativas, desses e de outros estudantes, que se prendem mais na maneira como o professor trabalha a disciplina para afirmar que poderia ser retirada do currículo do curso. Portanto, a relevância da disciplina aparece nas falas deles, atrelada ao como fazer do professor e, poucas vezes, trazem para a argumentação o que são as disciplinas e as suas relevâncias na compreensão do aspecto macro do processo educativo.
O estudante E9, com mais cautela, afirmou que não concorda com E10 e E12. Ele afirma:
Agora no que referi às disciplinas para retirar e para colocar eu não
concordo que deveríamos tirar muitas disciplinas, mas que deveríamos reorientar como vamos dar essas disciplinas, por exemplo, história de educação é muito importante, não me lembro de ter aprendido muitas
coisas, mas alguma coisa eu aprendi [risos] Antropologia cultural traz muitas questões de culturas diferentes e isso é importante para a nossa
formação. Devemos apostar em outras formas de dar essas disciplinas. (Estudante - E9, grifo meu)
Além dos componentes de línguas, os professores, na sua maioria, destacaram também um dos componentes curriculares que deve ser reforçado, que é Paradigma e Práticas da Investigação.
Neste sentido, Paula afirma o seguinte:
Penso que há matérias que são fundamentais, eu reforçaria para já a área
da investigação em termos de metodologia de investigação, penso que os
alunos deveriam ser preparados com maior abrangência não apenas o Estudo de Caso, mas também a Metodologia de Investigação no seu todo e depois iriam especificar na medida em que vão se especializando. A Metodologia da Investigação Científica eu reforçaria e por inerência reforçaria Estatística que é fundamental em qualquer área científica que visa a investigação porque a formação vem da investigação [...] A língua
não apenas a língua portuguesa, sobretudo da língua inglesa. (professora-
Paula, grifo meu)
Tal como Paula, o professor Danielson propõe mudanças no que concerne ao semestre em que os componentes curriculares Paradigmas e Práticas de Investigação e Filosofia da Educação são oferecidos:
A disciplina Paradigma e Práticas de Investigação eu acho que é dada muito cedo, no primeiro ano os alunos não estão preparados, como há disciplina como Filosofia da Educação no primeiro ano, poderia se esperar que os alunos se familiarizassem com alguns conceitos como: paradigmas e tendências, teoria de conhecimento e, depois, deve ser trabalhado em mais de um semestre porque é uma disciplina muito complexa, então você
poderia ficar num semestre com mais prevalência da parte teórica [...]. Se
tivéssemos essa disciplina em mais de um semestre, os alunos fariam as suas pesquisas, o que é parte mais importante, depois analisaríamos as informações coletadas, ali saberiam como analisar informações obtidas por meio de entrevistas, questionários e como fazer uma conclusão, então, fica quase no final quando estiverem a fazer monografia, juntamente com o orientador; então, em ciências da educação seria melhor essa disciplina em dois semestres e no segundo ano do curso e não no primeiro ano. (professor – Danielson, grifo meu)
Essa questão também apareceu como preocupação dos estudantes, visto que apontaram que o componente curricular Paradigma e Práticas de Investigação foi um dos que tiveram lacunas em termos de aprendizagem. Eles atribuem isso ao oferecimento precoce (primeiro semestre) de um componente que é muito complexo, e ao aspecto didático
pedagógico ou à forma como foi trabalhado e relataram que o aprendizado nessa disciplina foi deficitário.
Um aspecto mencionado pelo colega E9, que é a questão da sequência das
disciplinas. No primeiro ano tinha disciplinas que eram complexas demais para o nível que estávamos, tinham disciplinas que fazia mais sentido se tivesse no segundo ano, ou mesmo agora, foram disciplinas que ficávamos tão espantados com as coisas que estávamos a aprender o que não aprendemos muito. Tínhamos a disciplina Metodologia e Prática da Investigação, eram muitos conteúdos e, a forma foi dada não era nada interessante, eram muitos conteúdos e, coisas complexas, o que pelo menos
temos Estudos de Caso I e II que são repetições. Acho que essa disciplina como tinha muitos conteúdos, porque não deram em dois semestres, pelo menos que não fosse no primeiro ano e eu acho que a maioria não aprendeu nada. Sempre temos dificuldades com os trabalhos do curso, como por exemplo, analisar entrevistas. Foram coisas que tinham de ser dadas e, muitas vezes, eram os alunos que tinham de preparar as aulas e, nós não entendíamos o que estávamos a falar, acho que faltou muito (Estudante - E12, grifo meu).
Tivemos uma disciplina que demos no primeiro semestre e que agora estamos a sentir muita falta que é Paradigmas e Práticas da Investigação, foi dada e nem vou falar da forma que foi dada. Nem a carga horária completa necessária teve e foi dada às pressas. (Estudante - E5, grifo meu) Tem uma disciplina que sou muito fraca que é a Metodologia da
Investigação, e considero ser uma disciplina essencial, mas eu tenho muitas
dificuldades na elaboração de objetivos eu confundo sempre o objetivo específico com o objetivo geral, também porque tivemos essa disciplina “a correr” no primeiro ano e num único semestre (Estudante - E3, grifo meu).
De fato, o componente curricular Paradigma e Práticas de Investigação possui um conteúdo que exige do estudante conhecimentos prévios e relevantes, que lhes possam servir de alicerce conceitual para entender e construir novas ideias, interagir e assimilar bem as novas informações e ter um aprendizado mais significativo. Segundo Ausubel et al, (1980) para que um conceito seja melhor apreendido, alguns elementos fundamentais devem ser introduzidos primeiro para que possa produzir significados a partir desses já existentes na estrutura cognitiva do estudante. Quando ocorre essa conectividade entre as novas informações e as já existentes, acorre a aprendizagem significativa. Ausubel et al (1980, p. viii), no início da obra Psicologia da Aprendizagem, deixa clara a relevância dos conhecimentos prévios dos estudantes ao fazer a seguinte afirmação: “Se eu tivesse que reduzir toda a psicologia educacional a um único princípio, diria isto: o fator isolado mais importante que influencia a aprendizagem é aquilo que o aprendiz já conhece. Descubra o que ele sabe e baseie nisso os seus ensinamentos”.
Na revisão que foi feita, moveram o componente curricular Paradigma e Práticas de Investigação do primeiro semestre e colocaram no segundo, o que não muda nada, visto que no primeiro e no segundo semestre o estudante não tem uma maturidade conceitual, que lhe sirva de base para uma aprendizagem significativa na disciplina, que é recheada de conteúdos complexos; portanto, remanejar o componente de primeiro para o segundo semestre não resolve a questão. Um dos possíveis caminhos seria colocar no primeiro ano do curso um componente que auxilie o estudante no conhecimento de como elaborar um trabalho acadêmico, familiarizá-lo com os principais conceitos e técnicas de iniciação às práticas da pesquisa e este poderá lhe auxiliar na elaboração dos trabalhos de outros componentes curriculares. E só a partir do quarto semestre, quando o estudante, possivelmente, estiver com uma bagagem conceitual melhor e, podendo relacioná-los com os problemas vivenciais, pode- se ofertar o componente curricular em questão; no oitavo semestre, incluir um componente específico de monografia para auxiliar e consolidar conceitos para elaboração do trabalho de conclusão do curso.
No que concerne à sobreposição dos conteúdos, a professora Helena e a dirigente Joana deixam pistas para possível resolução de problemas. A professora Helena, além de apontar esse aspecto negativo, ressalta ações que já foram feitas para amenizar o problema, mas que não surtiram efeito:
Até porque, há um dos aspectos que nós tentamos desenvolver há alguns anos mas, infelizmente não foi avante, que é a necessidade de reunião e
articulação entre os professores do curso, para poderem antes do inicio das aulas definirem, trabalhando seus programas, evitando que haja repetição de conteúdos nas diversas disciplinas, porque apesar de haver uma
proposta curricular que no meu entender é relativamente clara, por vezes, encontramos os alunos que já falaram de determinados conteúdos numa determinada disciplina, mesmo que seja numa abordagem diferente e, que estão a repetir a mesma coisa. Isso não é tão linear, porque não sei o que o meu colega está a fazer na disciplina dele, acho que esse espaço de partilha
faz parte, porque esse trabalho colaborativo poderia ajudar e muito. Trabalho colaborativo antes se calhar durante cada conclusão acho que articulava melhor as práticas daí uma nova maneira de refletir sobre determinadas questões e efetivamente conseguir organizar os programas numa maneira mais coesa e consistente entre nós antes de passar para a sala de aula. (professora – Helena, grifo meu)
A dirigente Joana partilha do mesmo pensamento da Helena no que diz respeito à articulação entre as disciplinas, especialmente as afins:
O ponto fraco é que são muitas disciplinas, tendo em conta o pouco tempo, são disciplinas pertinentes sim, mas não sei até que ponto poderíamos
integrar uma a outra e, depois, os alunos ficam sobrecarregados com tantos
trabalhos. Deveria ter uma articulação entre disciplinas afins, por exemplo, alguns estudos de casos em vez de serem elaborados por uma disciplina, disciplinas afins poderiam ter articulado fazem esse projeto, mais comunicação entre os professores tendo em conta o fator tempo. (Dirigente Joana, grifo meu)
O engajamento entre os professores é algo necessário para fazer um trabalho entre os diferentes componentes curriculares de forma a extrapolar a questão da fragmentação das disciplinas, sobretudo quando se tem alguns que são afins. Esse processo, de certo modo, poderia evitar o problema de sobreposição de conteúdos e auxiliaria na preparação dos estudantes para enfrentar problemas mais complexos da realidade social e educacional e, especialmente, saber se posicionar perante determinadas situações.
A configuração social da profissionalização docente, dominantemente individualista e com pouca tradição de trabalho em equipe dentro das escolas ou fora delas, é uma dimensão importante a ser levada em conta por qualquer proposição, como a que nos ocupa, já que as possibilidades de participação dos professores, a comunicação das elaborações a respeito, os planejamentos interdisciplinares, etc. ficam favorecidos ou dificultados pelo estilo dominante neste sentido. Realmente, à medida que as escolas tenham, e devem tê-la, uma margem para organizar seu projeto pedagógico, o plano e os esquemas para realizá-lo devem observar essa dimensão coletiva do exercício de uma competência docente que não é só individual. (SACRISTÁN 2000, p. 289-290)
O processo colaborativo entre docentes, além de trazer consequências relevantes para ensino e aprendizagem do estudante, permite troca de experiências e um crescimento profissional dos envolvidos e também cria uma cultura que vai além do entendimento da separação das disciplinas.
Os estudantes e professores questionam certas ações e discursos no âmbito curricular vivido no curso e apontam novos caminhos, portanto negam certas ações curriculares. Isso remete ao conceito da negatricidade de origem francesa, cunhado por Ardoino e que, segundo Macedo (2011, p. 85), esse epistemólogo o conceitua como a
capacidade reconhecida, em todo ser humano, de querer e de poder resistir, partindo de suas próprias fontes ou recursos, por suas próprias contra estratégias. É ativa, intencional, outrossim, pode emergir de uma forma total ou parcialmente inconsciente.
Deste modo, entende-se que tanto o sujeito em formação quanto o professor formador, possuem, inerente a eles, desejos, imaginação e, especialmente, a opção dos caminhos formativos que irão definir a sua inconclusa formação, que é natural do humano.
A negatricidade constitutivas desses sujeitos deve ser cultivada como condição para que as práticas curriculares e formativas possam pleitear a emancipação não outorgada e a liberdade constituída na dialogicidade, que naturalmente contém a reexistência, ou seja, a resistência tomada também como força de criação, como prova cabal de que os atores do currículo e da formação não são “idiotas culturais”, conforme entendera Garfinkel (1976). (MACEDO, 2011, p.86)
Assim, é inegável que o desejo, a imaginação, o querer, a opção etc., estão sempre presentes no currículo e formação, entretanto é interessante notar que esse processo enquanto ato político pode trazer, no seu bojo, a lógica do silenciamento e da negação dos saberes dos envolvidos nesse processo, reduzindo as suas ações a ato de apropriação de conhecimentos ou ideias produzidas por outros.
4.2 INTERDISCIPLINARIDADE E TRABALHO COLABORATIVO NO CONTEXTO DO